Dékes

3 Preparações para o Confronto


EU VOU FICAR BEM. FOGE! NÃO PARA, SÓ CORRE!” Aquela voz era familiar, por que eu não lembro? A mesma de antes? Não... É diferente, mais reconhecível, mas a resposta não vinha, como quando uma palavra está na ponta da sua língua.

Eu abri meus olhos, obviamente para a escuridão habitual. Olhando ao redor, conseguia sentir apenas traços fracos de almas na distância e de vida, como plantas. Era minha vida, familiar, confuso, mas normal para mim. Uma sensação quente escorrendo pelo meu rosto.

“Por que... Eu tô chorando?” Eu sussurro para mim mesmo. Sequer poderia chamar de lágrimas? Não fazia ideia, tudo que sabia era que elas queimavam minha pele, marcando, antes de serem curadas rapidamente. “Minha cura parece mais forte que antes...”

“Provavelmente coisa do Kronos. Seja lá o que for, seu poder deve estar sendo ampliado pelo poder temporal dele. Nada muito grande, algo mais passivo eu suponho.” Era Sigma, em pé na porta, a mesma expressão de sempre, olhos fechados, sorriso no rosto, calmo e gentil. Seguro. Sim.

“Entendi... Onde eu tô? Não é a enfermaria.”

Era um quarto, até que relativamente espaçoso, paredes brancas, com o chão coberto por um tapete vermelho, uma janela larga com cortinas blackout. Tinha a cama de casal onde eu estava sentado, uma TV larga na parede, uma estante, guarda-roupas, algumas plantas, decoração bem simples. Uma porta ao lado devia levar para o inferno – ou seja, banheiro. Não vou entrar ali nem ferrando. Sigma riu, mãos nos bolsos, parado na porta que levava para um corredor.

“Hunter explicou ontem. É o prédio com os nossos dormitórios. Aconchegante, vazio, mas você pode decorar com o tempo, isso é decisão sua. O que não falta é espaço.” Ele lembra, gesticulando para o lugar. Realmente, era provavelmente do tamanho de um apartamento pequeno, eles realmente não pouparam esforços para nos acomodar pelo que parece. “Já é de manhã, tá com fome? Bom, se você sequer precisa disso. Deuses não precisam de coisas assim, vocês mortais sim, mas você definitivamente é um caso à parte. Que tal aquele pudim? Espero que você sinta gosto ainda.”

“É, acho que sim...” Eu concordo com a cabeça, levantando e o seguindo para o corredor.

“Aliás, as portas são abertas com digitais. A gente já pegou as suas, é só pôr a mão no leitor pra entrar e sair do seu quarto. Coisa da Zero, seguro e tudo mais.” Sigma explica, apontando para o leitor de digitais. “Não se preocupa, os únicos com acesso são o dono do quarto e pessoal com níveis altos de acesso, então é difícil alguém te incomodar.” Ele adiciona, me guiando pelo corredor.

O que havia notado no dia anterior era verdade, o prédio realmente era mais tecnológico, similar com a parte mais profunda do domo. Paredes metálicas, com energia fluindo por tubos próximos ao teto, provavelmente a fonte de energia do local, seja lá qual seja.

Nós descemos escadas para uma área central larga e circular, com sofás rodeando uma mesa que parecia metálica, mas possuía uma superfície de vidro. Também possuía decoração simples, alguns quadros e plantas. O que realmente dava vida ao local era um aquário enorme em uma parede, com peixes que nunca havia visto antes. Senti um arrepio, definitivamente não iria chegar perto.

“Coisa do Oceano. Ele adora cuidar de peixes diferenciados. Insistiu pra caramba até a Zero aceitar pôr o aquário aqui.” Sigma explica. “Essa é só a Área Comum daqui, pra relaxar, conversar, ter reuniões, coisa básica.” Ele acena para que eu o siga, até as portas largas de entrada do edifício. Eram de aço com vidro reforçado. “Isso aqui é exceção do leitor. Tem só duas formas de você abrir essa porta pra entrar. Ou ter uma identidade com permissão, ou ter seu Poder Divino no banco de dados.” Ele aponta para uma espécie de câmera circular acima da porta, ou ao menos era similar a uma câmera. Sigma faz sua Yinmas Blue aparecer sobre sua palma, aquela câmera pareceu analisá-la antes de abrir a porta. “Identidades podem ser roubadas, seu poder nem tanto. Isso é mais difícil de pôr no banco de dados, é a forma de se entrar em certas áreas mais protegidas... Você pode fazer isso depois, agora vamos comer logo.”

Olhei para minha mão, uma corrente se formando, rastejando pelo meu braço, antes de desaparecer. Esse lugar era feito para isso, proteger? Conter? Nem eu sei ainda. Simplesmente segui Sigma pelo caminho ao redor da D.E.L.T.A.

“Eu tô usando roupas diferentes.” Digo. Eram uma calça e uma camisa de manga longa pretas.

“Você literalmente queimou de novo depois de desmaiar, não esperava ficar naquelas coisas queimadas né?”

“Você-”

“Sim, banho de novo. Eu até sugeri acender uma fogueira e te jogar dentro, mas a Zero recusou, acredita? Pelo menos eu tava mais preparado dessa vez, continua menos pior que era com meu filho.” Sigma explica, eu não sei se me sinto comovido ou confuso. Provavelmente preferiria a fogueira. Nostalgia e dor. De novo? É por causa desse filho... O que será...? “Se for ficar fugindo da água desse jeito, é bom não desmaiar de novo, ou da próxima vez te taco dentro de uma piscina.” Mesmo com minha Visão de Alma, eu não conseguia saber se ele estava sendo sério ou não, o que é mais assustador do que a ideia em si.

Nós chegamos na área de alimentação. O lugar realmente era largo, parecia mesmo um centro comum de praça de alimentação, talvez faça sentido considerando como todos viviam aqui. Fazer o lugar ser o mais normal possível para todos. Sigma me guia pelo lugar, algumas pessoas olhando para mim de canto, apreensão, curiosidade, medo. Não é surpreendente. Sigo olhando para o chão, deixando meu cabelo cobrir meus olhos. Reflexo, por algum motivo.

“Liga não. Fofoca se espalha fácil, suas correntes chamaram atenção.” Sigma põe uma mão no meu ombro como apoio. “Eles vão se acostumar.”

Sigma me guia mais fundo, passando pela praça de alimentação para um prédio, esse sim mais parecido com uma cafeteria onde alguns funcionários comiam. De longe consegui ver, a alma do Hunter, estranha, mais antiga do que deveria, nem um pouco normal. Porém tinha alguém mais com ele, uma alma nova, brilhante, forte, e... Ferida. Linda, mas cheia de marcas.

“E aí! Acordou rápido dessa vez, já tava esperando que você ia ficar dormindo um tempão de novo como antes. Bom, acho que seu corpo deve tá adaptando em ser um Vetor. Ainda bem.” Hunter acena, sorrindo. Ele aponta para a pessoa do lado dele. “Aliás, essa é a Angie. Minha priminha, semideusa como você.”

“Já falei pra não me chamar assim!” Angelyne reclama, bufando e cruzando os braços, entretanto isso mudou rapidamente. Ela sorriu, acenando pra mim. “Angelyne Whirl! Pode me chamar de Angie.”

Hunter olha para ela, indignado, antes de só sacudir a cabeça, focando novamente em seu próprio café da manhã. Não parecia tão ofendido, parecia se divertir com a reação dela.

“Eu sou Dékes. Oi.” Digo, nervoso. Por que raios eu tô nervoso agora?

Sigma ri levemente, antes de me puxar para me sentar do lado dela, com ele se sentando do outro lado, entre Hunter e Angelyne.

“Que legal, você é o cara novo! Eu vi a gravação da sua luta com o Max, foi tão incrível. Aquelas correntes, como elas funcionam? E você ter levado aquele golpe e ter sobrevivido? Eu queria tanto ter visto eu mesma, mas eu tava em missão, que falta de sorte.” Angelyne diz, animada, chegando mais perto.

Angelyne não devia ter muita diferença de idade de mim, estando no máximo no começo da casa dos vinte. Ela era branca, ruiva, com os cabelos vermelhos longos e lisos caindo sobre os ombros, olhos verdes e sardas no rosto. Ela vestia roupas pesadas de inverno, um casaco — que escondia seu porte físico — e calças, ambos na cor vermelha, além de botas pretas. Eu não era o melhor com temperatura, considerando que meu corpo literalmente queimava eternamente por dentro, mas aquilo parecia exagero.

“Max?”

“Nome falso que uso por aí quando me misturo com humanos e tudo mais.” Sigma responde rapidamente. Sua mão é coberta por sua chama, que ele usa para dobrar o espaço, igual na luta, mas dessa vez mais simples. Três tigelas de pudim de caramelo aparecendo sobre a mesa, para mim, Angelyne e si mesmo. “Aproveita! É a melhor coisa daqui, acredite.” Ele diz, apontando sua colher para mim antes de começar a comer o próprio. Não parece que ele se enjoa disso.

Angelyne não hesita, começando a devorar seu próprio pudim com vontade, sorrindo. “É verdade. Acho que ainda prefiro o mousse de morango, mas tá perto.”

Sigma finge ofensa de forma exagerada, boca aberta. “Sacrilégio! Você precisa revisar seus gostos, Angie, obviamente tem algo errado aí.” Ele brinca, balançando sua colher na direção dela.

“Talvez seu gosto esteja ruim, velhote. O mousse obviamente é a escolha superior aqui.” Ela rebate, com falsa arrogância.

Não consigo evitar uma risada leve. Essa situação ainda era confusa, mas... Talvez não fosse tão ruim assim.

“Ei, vai lá, experimenta!” Angelyne apoia, se virando para mim novamente. “Aqui, tenta.” Ela pega uma colherada, me oferecendo. “Vê se não derrete a colher, duvido que o gosto do metal seja bom.”

Eu coro um pouco, mas aceito, meus olhos se arregalando, mãos tremendo levemente. Uma sensação de nostalgia tão profunda, mas coberta por confusão me percorrendo. O calor fervente de uma lágrima escorrendo pela minha bochecha. Por quê? Por que eu não consigo lembrar?

“Tá tudo bem? Foi tão ruim assim? A gente pode tentar outra coisa.” Angelyne sugere, preocupada.

“N-não! Eu... É bom, muito bom.” Interrompo, pegando minha própria colher e comendo outra colherada. Tão familiar, mas errado, não é o certo.

Hunter me olha, inclinando a cabeça, girando um de seus anéis — um anel saturno — de forma inconsciente. Ele come um pedaço do pudim de Sigma, que não parece se importar.

“Então, Dékes... Eu sei que tá tudo indo bem rápido e tudo mais, mas a gente tem algo importante pra lidar. Amanhã de preferência se você não piorar ou algo assim.” Ele finalmente diz, mais sério do que normalmente. “Recentemente, contato com a cidade de Daisy foi perdida completamente. Não só isso, mas de alguma forma, a maioria de sua população foi evacuada para as cidades vizinhas um pouco depois do contato ser perdido.”

Daisy... Esse nome é familiar, muito familiar. Sigma e Hunter se entreolham, antes de Sigma puxar uma pasta de... Algum lugar — é o deus do espaço, provavelmente alguma dimensão de bolso ou algo similar — e colocar sob a mesa na minha frente. “Seu aparecimento, e ataques contra você, foram em datas próximas as do ataque ocorrido, mas você é definitivamente um caso especial... A cidade de Dahlia, onde você estava, é relativamente distante de Daisy, e mesmo assim você não só fugiu até lá, mas foi caçado até lá.”

Meus olhos se arregalam, mãos trêmulas, antes de finalmente pegar a pasta e abri-la. A foto definitivamente era minha, mas um pouco mais novo. Nome: Dékes Cayden. Nascimento: 30/11/2000, 19 anos. Nacionalidade: Florian, nascido em Daisy, New Kingdom. Obviamente eu não deveria conseguir ver aquilo tudo, mas a voz na minha mente continuava a mostrar mais sobre o mundo ao meu redor como sempre. Eu sabia o que estava ali, mesmo se não pudesse ver diretamente. Exceto... A informação sobre meus pais, por que eu não consigo entender o que está ali, não importa o quanto eu tente? Como se algo não quisesse que eu... Eu continuo tentando entender o que pudesse, até... Familiares: Lira Cayden, irmã mais velha, sem informações sobre localização atual. FUJA. A voz queima na minha mente, memórias tentando voltar.

“Desculpa, eu não consigo entender tudo direito, sabe...” Eu gesticulo para meus olhos. “Pode ler pra mim, por favor?” Peço, oferecendo a pasta, entretanto, antes que Hunter pudesse pegar, minhas correntes reagiram, queimando a pasta até as cinzas em segundos. “O que... Eu... Desculpa, eu... Acho que eu não tô tão bem assim ainda. Elas não reagem bem as minhas emoções.” Digo, porém nem eu acreditava nisso. Elas realmente reagiam as minhas emoções, mas isso foi... Muito específico.

“Hm... Tá tudo bem. Eu pego outra cópia depois e leio pra você, tá tudo nos nossos bancos de dados de qualquer forma.” Hunter diz, sorrindo amigavelmente. Eu conseguia ver que ele parecia saber de algo, afinal, almas não mentem, porém não disse nada, apenas concordando com a cabeça. “Bom, eu vou ver a Zero agora. Ver se aquela cabeça dura já comeu. Ela pode ser um gênio, mas fica tão focada nas invenções dela que vive ignorando coisas básicas. É de família eu suponho.” Ele ri levemente, antes de se levantar e sair.

“Caramba. Suas correntes são tão diferentes, parecem até ter vida própria!” Angelyne diz, otimista, sorrindo. Preocupada. Óbvio. Ótima primeira impressão.

“Bom, talvez elas tenham...” Sigma comenta, seu sorriso ainda presente, para ser sincero, ele parecia maior. “Ei, Angie, por que você não vai dar uma caminhada com o Dékes? Ele ainda precisa se familiarizar com o lugar, e acho que vocês dois definitivamente vão se dar bem juntos. Bom pra acalmar os nervos e tudo mais.”

“Sim! Vem, Dékes, eu vou te mostrar meu lugar favorito daqui.” Angelyne se levanta com um pulo, me puxando com ela. Ela era alta, pelo menos 1,85, comigo tendo 1,80, não era muita diferença, mas ela riu levemente. “Espero que isso não te intimide muito.” Ela diz, acariciando minha cabeça condescendente.

Coro novamente, mas não consigo evitar fingir ofensa.

“Só porque você é um poste não quer dizer nada!”

Ela ri novamente.

“Bom, ainda bem. Vem comigo.” Ela segurou meu braço, me puxando com ela com força surpreendente — não que faça muita diferença quando meu corpo é bem leve pela falta de basicamente tudo por dentro. Não à toa quebra tão fácil quando minha pele e uma camada leve dos músculos é a única coisa sobrando.

Angelyne me puxou pela praça de alimentação, sorrindo e acenando para algumas pessoas, nos levando de volta para o caminho principal da cidade. Talvez chamar de cidade fosse exagero, mas facilmente tem o tamanho de uma cidade pequena, e se as almas que vejo contarem para algo, deveriam ter mais de mil pessoas pelas instalações da Delta, no mínimo. Mais. Mais? Não é como se eu fosse contar, principalmente quando meu alcance é limitado.

Ao invés de seguir o caminho, Angelyne me puxa para a área de parques ao redor do domo principal, a grama realmente era bem cuidada e bem verde, as árvores davam sombra para pessoas relaxando por aí. Algo bom quando eles pareciam ter bastante peso sobre seus ombros com o trabalho feito ali.

“Vê se não queima nada, em? A última vez que um cara foi descuidado e queimou a grama enquanto fumava, o Oceano ofereceu ele pra aqueles jogos de acertar bola no alvo. Sabe, que a pessoa cai na água e tudo mais se alguém acerta?” Ela ri. “Aquele festival foi divertido. As crianças adoraram, o cara nem tanto, nunca mais fumou depois do esporro que ele tomou.”

Apesar do arrepio que senti com a possibilidade de passar pelo mesmo, não consegui evitar um sorriso leve. “Bom, pelo menos ganhou alguns anos de vida depois dessa. Todos saíram ganhando.” Levanto minha cabeça levemente, olhando para o local, a energia vital do lugar era profunda, bem cuidada. Nas profundezas abaixo da terra, conseguia ver borrões fracos de energia, provavelmente o sistema de transporte que Sigma havia falado sobre. “Que festival é esse exatamente?” Questiono finalmente, curioso. Festival das Flores.

“Quê? Você não é daqui de New Kingdom? Como você não sabe?” Ela pergunta, surpresa. E culpa, projeção.

“Você não sabe também?” Pergunto, a alma dela definitivamente mostrava que ela não tinha tanto conhecimento sobre também.

“Bem... Eu sei, tá?! Tá que eu meio que aprendi faz poucos anos, mas ainda assim! Tenho motivos pra isso.” Ela cruza os braços, levemente envergonhada, e... Dor.

“Desculpa, tá tudo bem. Eu também, sabe, memória toda ferrada por algum motivo... Não tenho um cérebro muito funcional.” Brinco, batendo de leve na minha cabeça.

“Ei, ouvi falarem que seu corpo é todo feito de fogo por dentro, você realmente não tem órgãos e tudo mais? Como você fala? E pensa? E come?” Ela fica curiosa, se inclinando e encostando a cabeça no meu peito. Uma sensação de fragilidade e vergonha me percorrendo.

“O q-”

“Realmente, eu consigo ouvir seu coração batendo!” Angelyne diz, dando um passo para trás. “A Zero falou como seu coração era a única coisa funcionando ainda, de alguma forma.”

Coloco uma mão sobre meu peito, realmente, se respirasse profundamente, eu conseguia sentir meus batimentos lá dentro. Por quê? E por que isso me dava tanto medo?

“Seu corpo é estranho, né? Bom, o do Max também. Se você visse embaixo daquela franja dele... Independente! O lugar que eu queria mostrar, vem. Ah, e sobre o festival!” Ela segura minha mão e me puxa para mais fundo nos parques, para uma área com maior densidade de árvores. “O Festival das Flores aparentemente é pra celebrar a origem de New Kingdom, aparentemente milênios atrás o país todo era dominado por uns babacas, mas as pessoas lutaram contra eles e venceram! Desde então tem uma semana inteira de festa pra celebrar. Tanto pela liberdade, quanto pelas pessoas que morreram na guerra. É bem divertido. Até aqui, a Zero deixa todos fazerem essa festa pra celebrar todo ano. Tem um monte de coisa, todos os tipos de flores pra todo lado, jogos, dança, e outras coisas que não entendo muito bem ainda. As aulas da Zero são difíceis de acompanhar, sinceramente, então ainda fico perdida com umas tradições... Prefiro mais aproveitar a comida e os jogos, é mais divertido.”

Festival das Flores... Minha cabeça dói. Memórias. Memórias. Eu vou ficar louco se não recuperar elas de uma vez. “Quando esse festival acontece?”

“Final de outubro e começo de novembro. Hoje em dia até tem festas que misturam o festival com halloween, sabia? É divertido, até fizeram uma casa assombrada ano passado. O mais legal foi a competição de fantasias, eu até queria participar, mas não sabia o que usar.” Ela dá de ombros, realmente animada. “Só um mês e meio até o festival, vai ser tão divertido! A gente pode ir junto e te mostro meus jogos favoritos.”

Rio levemente, concordando com a cabeça. “Parece divertido mesmo. Uma boa ideia.” Apesar de não lembrar, a sensação de nostalgia sobre esse festival estava queimando dentro de mim – piada não proposital.

Finalmente passando completamente por entre as árvores, nós chegamos em uma larga clareira, que era cercada perfeitamente por elas. O lugar realmente era escondido. Perto do centro havia uma larga árvore de folhas prateadas, a luz do sol batendo nelas, o que causava uma ilusão como se estivessem queimando. Mais à esquerda, alguns metros afastado da árvore, havia um lago pequeno, com alguns peixes estranhos nadando dentro. Não reconhecia nenhum, apesar de não ser tão surpreendente, coisas marinhas estão bem longe de meu assunto favorito.

“Esse é meu lugar favorito! Gosto de treinar aqui, ou só relaxar mesmo, a brisa é boa até, e ninguém vem aqui de qualquer forma. Até onde sei é coisa do Oceano, diz que aqueles peixes precisam de mais espaço do que um aquário e tudo mais. Só não incomoda eles e tá tudo bem.” Ela explica, sorrindo, me puxando para me sentar com ela sob a sombra da árvore.

“Oceano... O nome já deixa tudo óbvio eu suponho, mas vale perguntar.” Digo, ela ri e concorda, afirmando minhas suspeitas.

“Deus dos mares. Sabia que a Zero é o Vetor dele atualmente? Engraçado né? Tecnologia e água juntos, mas até que parece dar certo. Ela diz que é uma forma de adaptar as invenções dela, mesmo que ter que refazer algo pela terceira vez porque ele ficou brincando de fazer bolhas pela oficina dela e fritou alguma coisa não é a coisa mais divertida do mundo.” Angelyne estica seu corpo, se deitando na grama, o casaco dela a cobrindo completamente. Como ela não sente calor? “O Oceano é divertido. Você vai gostar dele... Talvez. Bom, com o tempo deve dar tudo certo.”

Decido fazer o mesmo que ela, me deitando sobre a grama, a sombra e brisa realmente eram relaxantes. Fazia sentido ela gostar dali.

“Ei, Dékes... Por que você tá aqui? Tá, tipo, foi trazido pelo Hunter e tal, mas assim. Tem algum motivo pra ficar? Sabe, depois que der tudo certo, você vai querer ficar aqui ainda ou ir embora?” Angelyne pergunta. Curiosidade, ansiedade. “Tenho motivos e tudo mais pra ser trazida aqui, mas agora que tô aqui faz alguns anos, tudo que mais quero é ajudar, sabe? Os Filhos do Abismo vivem machucando pessoas, de todas as formas, tudo pra conseguir sei lá o que aqueles desgraçados querem... Eu só... Quero impedir que mais gente se machuque.” Ela confessa, voz trêmula, seus dedos segurando seu casaco firmemente. Dor, tanto dor. O que aconteceu com você? “Bom, independente do que você escolher, só vamos dar o nosso melhor nessa. Você vai melhorar, eu sei.” Angelyne sorri para mim, limpando as lágrimas que ameaçaram cair.

“Impedir que mais alguém se machuque... Sim, acho que sim. É um bom motivo pra lutar.” Eu sorrio de volta, respirando profundamente. Sequer preciso, eu sei, mas me acalma da mesma forma.

Uma voz gentil, fraca, tão fundo na minha mente. Mantenha sua chama queimando. Não consigo lembrar, mas... Sim. Eu vou. Eu prometo.

CIDADE DE DAISY – NEW KINGDOM

Daisy era uma cidade não muito grande, de tamanho pequeno para médio, ainda assim, era conhecida o suficiente, especialmente em um país como New Kingdom, famoso por suas cidades com nomes de flores. Daisy era um local belo, no interior, cercada por uma floresta e o campo de margaridas que cresciam ao redor.

Porém, agora Daisy havia se tornado um campo de guerra. Edifícios destruídos, casas queimando, centenas de corpos pelas ruas, algo que só não havia sido ainda pior pela maioria da população ter escapado de forma misteriosa.

Perto do centro da cidade, havia o edifício da prefeitura, antes um símbolo de segurança e democracia, agora com sua fachada destruída, e corpos empilhados de pessoas que provavelmente haviam buscado por abrigo no local, seu último erro fatal. Sobre o telhado da prefeitura, parado na borda, havia uma figura, parada, encarando o massacre cobrindo as ruas.

Era um homem alto, de pele completamente branca como a mais pura neve, seus cabelos penteados para o lado, de uma cor azul forte com múltiplas mechas vermelhas, seus olhos possuíam escleras negras, com suas írises prateadas. Uma marca de coração tatuada logo abaixo de seu olho direito. Seus chifres eram brancos, nascendo perto de sua testa e rodeando sua cabeça apontando para trás. Sua cauda simples, fina, com a ponta em forma de coração e nada mais. O demônio estava vestido em um terno bem cortado roxo escuro com detalhes em preto, sapatos pretos, luvas brancas – uma com o naipe de Espadas nas costas da luva, a outra com o naipe de Paus. No topo de sua cabeça, perfeitamente colocada por entre seus chifres, uma cartola roxa escuro, com uma carta de Sete de Ouros presa a ela. Por fim, em suas costas, uma capa de mágico roxa escura no exterior e azul no interior, com estampa dos naipes do baralho. Sua expressão era séria, encarando as pilhas de corpos abaixo, seus punhos cerrados fortemente.

Aos pés do mágico, de pé, havia uma pequena figura, um coelho de pelúcia. Ele era baixo, com pelos brancos, olhos grandes e multicoloridos entre roxo e azul, com um sorriso largo – ou que deveria ser um sorriso, que no momento estava ausente, com uma expressão de tristeza e desconforto ao invés disso em seu rosto. O coelho usava nada além de uma pequena capa de mágico com exterior preto e interior vermelho, e uma pequena cartola entre suas longas orelhas.

“Isso é crueldade... Isso não era necessário... Era?” O pequeno coelho pergunta, preocupado, olhando para o homem acima.

Antes que o demônio pudesse responder, uma figura se aproxima, parando alguns metros apenas de ambos.

“E isso importa? Eles estavam no caminho e foram eliminados. Se seu mestre não tivesse falhado em manter aquele moleque aqui as coisas seriam mais fáceis.” A nova figura diz, rindo maliciosamente.

Ele poderia facilmente se passar por um adolescente, estando no fim da adolescência no mínimo, no máximo no começo da casa dos vinte. 1,70 de altura, branco com a pele pálida, os cabelos negros e completamente bagunçados, cobrindo levemente seus olhos, seus olhos por si só eram de um amarelo alaranjado, pupilas dilatadas carregando absoluta insanidade. O mais enervante eram suas roupas, estava descalço, usando calças largas brancas, e principalmente, vestia uma camisa de força que obviamente havia sido rasgada a força para libertar seus braços. Toda sua roupa estava completamente manchada de sangue. Em sua mão direita uma faca de combate pingando sangue e um estranho líquido completamente negro.

“C-Cala a boca! Meu mestre não tem nada a ver com isso! Você que devia ter pego ele e falhou, meu mestre fez tudo que a Rainha ordenou e pronto!” O coelho rebate, mesmo que assustado, proteger a honra de seu mestre era mais importante para ele.

O jovem sorri, um sorriso mais largo do que deveria. “Ah, é? Engraçado. Eu ordenei seu mestre pra fechar a cidade completamente e não deixar ninguém sair, e mesmo assim... A maior parte das pessoas simplesmente foi evacuada em um piscar de olhos.” Ele levanta sua faca, a apontando para o coelho. “Me diz, e se nós víssemos o que você tem aí dentro? É só estofamento, ou algo mais? Me diz, pelúcia, você sente dor? Porque eu tô bem curioso pra saber.”

O coelho se esconde atrás das pernas do demônio, assustado e nervoso.

O mágico suspira, olhando para trás por cima do ombro, sério. “As suas ordens não importam para mim, Septem. A Rainha Lúcifer ordenou que eu viesse nessa missão e desse suporte fechando a cidade completamente do mundo exterior para que você capturasse o garoto. Nada mais, nada menos. Se você falhou não só em capturá-lo, mas também em matá-lo, é algo que cai completamente sobre suas mãos.” O demônio se abaixa, gentilmente pegando a pelúcia em seus braços. “Está tudo bem, Joker, ele não tem a coragem para tocá-lo comigo aqui. E se for insano o bastante para tentar, eu não vou hesitar em eliminá-lo.” Ele sorri, acariciando a pelúcia que sorri, mais calmo.

Septem gargalha, estalando o pescoço. “Sorte sua eu precisar de você ainda, mágico de circo. Ele pode ter sobrevivido, mas vai voltar. E trazer mais com ele. No fim, é ainda melhor pra mim. Eles não vão abandonar uma cidade inteira desse jeito, principalmente com a possibilidade de mais pessoas em perigo aqui.” Ele suspira, limpando a faca na própria manga. “Seria bem melhor se todos continuassem aqui como reféns, mas suponho que vamos ter que trabalhar com o que temos. Não tente nenhum dos seus truques novamente, mágico, ou da próxima vez que puxar um coelho da cartola, vai achar só o pé dele sobrando.” Assim, o jovem pula do topo do prédio sem cerimônias, deixando o mágico e Joker sozinhos novamente.

“Os experimentos com o Abismo realmente causam resultados aterrorizantes...” O mágico sussurra.

“A-aquele adolescente emo não tem chance contra você, Mestre! Da próxima vez eu vou dar uma lição nele!” Joker promete, mesmo que estivesse tremendo nos braços do homem.

Ele ri levemente. “Está tudo bem, meu amigo. Vai ficar tudo bem. De uma forma ou de outra... Um mágico sempre tem algum truque na manga esperando, afinal de contas.” Assim o demônio se vira, deixando a visão infernal de Daisy para trás momentaneamente.

Em breve, o verdadeiro confronto se iniciaria. Por agora, ambos os lados se preparavam para o que viria a seguir.