Cygnus - Fallen
16 Lílian, Formatura e Casamento
Notas iniciais
Lílian
Eu ganhei o prêmio de mil galeões e o entreguei a Scorpius, que talvez fosse precisar do dinheiro. Minha mãe parecia que ia ter um treco de tanta emoção.
– Eu não sabia que você duelava assim, garoto! – disse ela impressionada. Meu pai me olhou com orgulho e satisfação.
– Eu disse que não precisava ficar preocupada. – ele sorriu e colocou a mão no meu ombro – Você fez bem, meu filho.
Virgo e Pascal precisaram fingir que não se conheciam e Remo parecia muito inclinado a dedurá-los, mas eu usei legilimens para mandar que ele ficasse calado e ele o fez.
Passei o dia com os meus pais. Mas no final da tarde, quando eles estavam para ir embora, escutei meu pai cochichar algo sobre uma janela para minha mãe e eles foram para o castelo com um sorriso divertido e eu tive certeza de que não iria querer saber o que eles iriam fazer.
Scorpius e Rose se encontraram nervosamente e foram para um canto conversar e Virgo aproveitou a ausência dos meus pais para dar uns beijos em Pascal. Eu não fiquei realmente sozinho. Praticamente o castelo inteiro queria falar comigo e me parabenizar.
Mas a noite, quando eu estava sozinho, só tinha uma pessoa com quem eu queria falar... e ela não veio me parabenizar. Quis me levantar e ir atrás dela. Mas olhei minhas mãos, marcadas de sangue e me convenci que não deveria.
Fiquei deitado na minha cama, simplesmente triste, quando Albus entrou.
– Oi, Cyg. – murmurou ele casualmente. Me sentei de uma vez, esperando que ele falasse que Lily estava lá fora, me esperando, mas ele apenas me olhou franzindo a testa – Estão fazendo a maior festa em sua homenagem... por que não vai lá?
– O que veio fazer aqui? – perguntei desapontado. Albus mexeu no malão e pegou um pacote de plástico.
– Eu vou me dar bem hoje.
– O que é isso?
– Preservativo. Coisa de trouxa... Não vou depender de poções que nem o Scorpius. – disse ele com uma careta – Espero que ele fique bem... – Albus me olhou curioso e então se aproximou – O que você tem? Parece triste.
– Não é nada. – murmurei desviando o olhar do dele.
– É Lily, não é? – perguntou ele com um sorriso gentil – Olha... Se você quiser eu...
– Eu não quero... É melhor não. – murmurei – Na verdade, eu quero, mas... – sacudi os ombros – Ela está melhor assim.
Albus me olhou com os olhos verdes do meu padrinho.
– Eu entendo... Mas... Ela realmente sente sua falta. Você poderia... – ele suspirou – Ir atrás dela, pra variar... é sempre ela quem vai atrás de você. Você sempre vai atrás das mulheres, menos de Lily.
– Lily não é como as outras mulheres. – disse simplesmente, dando de ombros.
– Ela gostaria de ouvir isso... Certamente. – ele suspirou – Você deveria chamá-la para o baile... Ou vai valsar com a Dama Cinzenta de novo?
Cruzei os braços olhando para o nada.
– Eu não sei o que vou fazer.
Albus concordou em silêncio.
– Bem... Você quer conversar a respeito?
– Não... estou bem.
– Ok. Então... eu vou... – ele sacudiu o pacotinho e eu segurei a vontade de perguntar como aquilo funcionava.
Ele saiu me deixando sozinho e eu fiquei pensando a respeito.
Decidi me levantar e sair da festa. Atravessei todo o castelo, indo em direção à torre da Grifinória. Isso levou muito tempo, pois desisti da ideia umas quatro vezes e comecei a fazer o caminho de volta, antes de tomar coragem novamente e voltar a seguir para a torre da Grifinória.
Mas quando cheguei na frente do retrato da mulher gorda, eu entrei em pânico. Não entendia o porquê de estar tão nervoso.
– Senha? – perguntou ela. A olhei e neguei com a cabeça – Mas você é o monitor chefe. Como pode esquecer a senha? – perguntou ela.
– Eu sei a senha! – me defendi – Mas...
– Oh... Está querendo falar com a garota de cabelos vermelhos... Quer que eu a chame?
– NÃO! – disse para depois cobrir a boca com as mãos – Não, obrigado... eu... eu já vou. – murmurei. Preferia enfrentar todos os monstros da terceira tarefa antes de enfrentar Lílian Potter.
Mas então voltei novamente. Tirei minha luva e a transfigurei em um vaso bonito. Depois conjurei alguns lírios e deixei alguns verde escuro e outros prata. Depois saí de lá satisfeito comigo mesmo. Ela entenderia o recado. Ou ao menos eu pensava que sim.
Voltei para o salão comunal com o rosto terrivelmente corado. Algumas pessoas me perguntaram o que eu tinha, mas eu me recusei a responder.
No dia seguinte eu notei que só tinha seis dias para chamar Lílian para o baile... provavelmente menos, já que ela logo seria convidada por alguém... se já não tivesse sido.
Estava enfrentando um dilema interno. Eu queria ir com ela e ao mesmo tempo eu queria distância dela.
As aulas tinham sido suspensas e teríamos o resto da semana de recesso. Mas eu fui assistir a todas as aulas de reforço. Era a última pessoa que precisava delas, mas era melhor do que ficar desocupado.
Todos seguiam querendo me paparicar, mas eu estava de saco cheio da atenção deles e da desatenção de Lílian Potter. Por isso me escondi no único lugar que apenas ela poderia me achar. Mas com o passar dos dias me convenci que ela não viria.
Eu fugia a noite para ir até a Travessa do Tranco e normalmente voltava bêbado para o castelo. Tio Damian normalmente ia beber comigo.
– Amanhã vou te levar num lugar muito bacana. Você vai gostar. – garantiu ele.
Mas eu não estava muito empolgado.
Acabei convidando Yasmin para ser meu par no baile e ela quase enfartou de alegria. Amanda ficou inconsolável... Scorpius ficou feliz por eu finalmente ter arrumado um par, mas Albus olhava para mim de um jeito esquisito. Parecia pena...
O baile foi um saco. Precisei dançar com Yasmin na frente de toda a escola. Eu recebi o troféu e o Ministro apertou a minha mão, me parabenizando. Ele e um membro da corte dos bruxos vieram me oferecer um cargo no Ministério depois que eu me formasse. Madame Turner me perguntou se eu tinha interesse em lecionar um dia, pois ela estava planejando deixar a escola.
Mas eu não queria nada daquilo para o meu futuro.
Eu vislumbrava para mim algo muito mais glorioso.
Procurei Lily com o olhar durante todo o tempo, mas não a encontrei. Me proibi de ficar pensando nela. Eu deveria mantê-la longe. Precisava disso...
Logo cansei daquela festa e avisei Yasmin que eu iria embora.
– Mas por que?
– Não estou me sentindo bem... crise de enxaqueca... Acho que vou na Ala Hospitalar... Mas por favor, curta o baile por nós dois. – pedi como se me importasse com ela. Yasmin me beijou nos lábios e me desejou boa noite.
Me virei e segui para o escritório. Me sentei em minha poltrona e fiquei olhando para o armário onde eu tinha guardado o cajado. Eu tinha inventado algumas travas para que não o abrissem. Não poderia correr o risco de perdê-lo.
Fiquei tanto tempo ali no escritório, sozinho... Revi meus planos de viagem, reavaliei minhas finanças. Tudo parecia em ordem. Estava para me levantar e sair quando ouvi passos. Fiquei de pé e me virei com expectativa.
Quando ela apareceu na entrada do escritório, não consegui não sorrir para ela.
– Olá, Lily.
Ela corou quando eu a olhei. Ela usava roupas trouxas. Um short e uma camiseta. O cabelo estava solto e caía lindamente pelas costas dela.
– Por que não está no baile com Yasmin? – perguntou ela.
Dei de ombros.
– Não gosto muito de festas. – respondi me virando.
– Você transmutou aquela mesa de pedra em ouro? – perguntou ela.
– Sim. – murmurei.
– Mas... nossa! – riu ela se aproximando. Podia sentir o calor do corpo dela se enroscar em mim.
A espiei novamente.
– Você está bonita...
– Aiai... só você pra me achar bonita sem maquiagem.
– Não gosto quando usa maquiagem... Esconde suas sardas. – murmurei – Mas gosto quando passa aquele negócio no olho... o lápis...
– Fica melhor em quem tem olho claro... – resmungou ela se sentando no sofá.
– O que veio fazer aqui? – perguntei curioso.
– Tentar descobrir o que tem de tão especial nesse lugar. Você agora vive entocado aqui...
– Como sabe? Andou me seguindo?
– Mas ou menos. – respondeu ela – Meu irmão tem um mapa, que era do meu pai. Nele mostra todos os estudantes, em qualquer lugar do castelo, menos nesse escritório e a sala precisa. Então sempre suponho que você está aqui.
– Que mapa é esse? – perguntei curioso.
– Nossos avós fizeram, quando estudaram aqui... O pai do meu pai e o pai da sua mãe. O pai do Ted também participou do processo se não me engano. – murmurou ela – Mas então? O que você faz pra se divertir aqui?
– Sei o que nós dois podemos fazer para nos divertir. – brinquei. Lily revirou os olhos.
– Uhum. Ok. Até parece. – resmungou ela – Sério. O que você tanto faz aqui?
Eu soltei um suspiro.
– Treino minha magia e faço planos. – murmurei olhando ao redor – Tento superar meus limites... essas coisas...
– Hum... – ela se deitou no sofá, esticando as pernas. Não consegui não olhar. Adorava as pernas dela. – Só isso?
– Basicamente. – murmurei – Por que não foi para o baile?
Lily me olhou brincando com o próprio umbigo. Ela me olhava nos olhos enquanto passeava os dedos ao redor de seu umbigo delicado. A devorei com os olhos, sentindo-me com calor. Ela ficava tão sexy daquele jeito...
– Não estava com humor para bailes.
– Por que não?
– Porque você não me convidou pra ir com você.
Sorri para ela, arqueando as sobrancelhas.
– Não esqueci da última vez que te convidei para um baile.
– Oh... pare de viver no passado, Malfoy. – resmungou ela tirando os tênis.
– Que bom que está confortável.
Ela me olhou e deu uma risadinha.
– Não totalmente. Mas não pretendo ficar.
A devorei com o olhar de novo.
– O que quer, Lily?
Ela se sentou novamente, me olhando.
– Pra onde pretende ir? – perguntou ela – Quando terminar a escola... Pra que lugares você vai viajar?
Soltei um suspiro.
– Albânia, Rússia, Egito, talvez Brasil.
– A rota das Artes das Trevas... – murmurou ela com censura.
– Bem... É pra isso que eu vou viajar.
– Cyg... não acha que já teve experiências ruins o suficiente com magia negra? – perguntou ela com receio.
– Eu sei que tive. – respondi olhando meu armário. Caminhei até ele e pousei minha mão sobre a porta – Mas eu também tive experiências fantásticas... experiências que nenhum outro bruxo teve em quase mil anos...
– Do que está falando, Cygnus?
– Eu encontrei, Lily... Encontrei algo que eu vinha procurando há anos. Algo que vai me dar poder para mudar o mundo... mudar tudo. – respondi me voltando para ela.
– O que você encontrou?
– O cajado místico de Salazar Slytherin.
– E o que é isso? – ela me perguntou sem se impressionar.
– A última herança de Slytherin para o mundo. A mais poderosa arma já criada. Ele deu a própria vida para fabricá-la. – expliquei – Foi ela quem me curou. Eu a conquistei depois de matar Abraxas Slytherin. – disse me aproximando da ruiva com um sorriso triunfante no rosto.
– Você matou uma pessoa pra conseguir poder?
– Eu matei Abraxas por inúmeros motivos. – respondi – E ponha na sua cabeça. Aquilo não era uma pessoa. – peguei uma mexa dos cabelos dela e a olhei – Para alguém cujo trabalho do pai é matar bruxos das trevas você é bem...
– Meu pai prende bruxos das trevas. Ele nunca os mata!
– Ele matou Voldemort. – retruquei.
– Voldemort se matou. A maldição que ele soltou se voltou contra ele.
Revirei os olhos.
– Ok, Lily... como quiser.
– Por que mais você matou Abraxas. Tente me convencer que não foi um ato apenas digno de repulsa. – pediu ela. Virei minhas costas para ela.
– Ele vinha me controlando e me chantageando há tempos. – expliquei olhando para a minha penseira – Ameaçava estuprar Virgo se eu não fizesse como ele queria. Ele conseguia assumir meu controle totalmente. Entrei em desespero tão profundo que bebi veneno com a intenção de me matar... – suspirei me lembrando daquele dia – Mas me salvaram. Sem falar das coisas que ele me fez fazer no dia da segunda tarefa. – eu me virei para olhá-la – Ele ousou machucar você. Ousou tocar você. Te ameaçou. Pra mim isso era motivo suficiente para matar aquele desgraçado... Mas de qualquer modo... ou eu matava ele ou ele ia pegar o cajado... e isso seria catastrófico.
– Mais do que você pegando o cajado?
– Muito mais. Ele era perverso.
– Você não vive dizendo que é mal, Cyg? – perguntou ela com um sorrisinho.
– Sim... mas hoje eu entendo a verdade. Não existe o bem e o mal, Lily... só existe o poder, e aqueles que são fracos demais para consegui-lo. Eu fui mais forte e mais esperto. Por isso sou o bruxo mais poderoso. – eu me virei olhando o armário – Eu vou usá-lo para fazer o mundo um lugar melhor para os bruxos.
– E isso envolve matar trouxas?
– Não. – respondi sorrindo para ela – Eu não sou Voldemort, Lily. Pelo contrário. Isso envolve viver em harmonia com os trouxas, sem segredos. Não deveríamos viver em segredo deles. Deveríamos crescer juntos. Os trouxas são incríveis à maneira deles. Imagine como o mundo seria um lugar melhor se pudéssemos usar a tecnologia deles e eles pudessem usufruir da nossa magia! Apenas os tolos acreditam que os trouxas são dignos de pena. Há anos estamos estagnados em descobertas e avanços. Os trouxas não. Eles seguem inventando mais e mais. Descobrindo mais e mais. Se trabalhássemos juntos... As possibilidades seriam infinitas.
Lily me olhou com um sorriso no rosto.
– E como o cajado vai te ajudar a fazer isso?
– Eu pretendo reunir um grupo de pessoas, depois de eu concluir meus estudos, é claro, para disseminar minhas ideias. Chamar mais seguidores para a causa. Mas certamente haverão aqueles que serão contra e que tentarão nos esmagar. – olhei novamente para o armário – Mas não vou permitir que machuquem aqueles que me apoiarem...
– E o que vai fazer com aqueles que tentarem? – perguntou ela.
– Vai depender do quão determinados eles estiverem em nos ferir. – Lily me olhou com preocupação e eu tive certeza que ela estava pensando no que fiz a James – Escute, Lily. Eu não vou matar ninguém. Não se preocupe.
– Quando você está controlado, eu acredito... Mas às vezes, Cyg... você surta.
– Eu sei. – murmurei olhando para ela de soslaio – Vou sentir sua falta, Lily.
– Eu também... – murmurou ela se aproximando de mim – Eu não queria que você fosse.
– Eu sei... – suspirei e levantei o queixo dela para olhá-la nos olhos – Você ainda me ama, Lily? Ou eu já caí o suficiente no seu conceito a ponto de você não me querer mais.
– Que diferença isso faz, eu te amar ou não? – perguntou ela.
Sorri para ela.
– Sábia pergunta...
Ela desviou o olhar de mim.
– Tenho tanto medo de você se perder, Cyg... De se tornar um bruxo das trevas... Eu fico com medo de você se transformar em Abraxas Slytherin... nunca vou me esquecer daquele dia... o dia da segunda tarefa.
– Lily... Eu nunca iria virar aquilo. – eu disse. Lily se aproximou de mim e me abraçou.
– Você promete pra mim?
– É claro. – murmurei para ela, a beijando na testa. Senti o abraço dela apertar. – Agora eu acho melhor você ir embora... – murmurei a afagando nos cabelos. Ela me olhou curiosa.
– Por que?
– Porque... – eu a devorei com os olhos – está tarde.
Lily sorriu pra mim.
– Você é muito engraçado... – murmurou ela – Eu nunca sei se você gosta tanto de mim a ponto de não querer nada comigo para me respeitar, ou se simplesmente não se interessa por mim...
– Eu gosto demais de você, Lily. – eu disse a puxando pra mim. A beijei no pescoço e gostei do jeito que ela se arrepiou – Mas você merece algo melhor do que eu.
– Mas eu não quero algo melhor que você, Cyg. Eu quero você. Sempre quis. Desde criança... Eu já tentei esquecer você. Já tentei te odiar. Mas... eu simplesmente não consigo.
Suspirei olhando para ela.
– Eu sei como é... Eu também já tentei te esquecer. Te evitar a ponto de deixar o que eu sinto por você esfriar... Mas simplesmente não acontece...
– Então por que se segura tanto? Eu tento esquecer você, porque você nunca quer nada comigo. Eu mereço mais do que ficar correndo atrás de alguém que não me ama.
– Mas eu te amo, Lily. – respondi sem pensar.
Falar aquilo fez meu estômago revirar-se. Não era mentira. Era a primeira vez que eu falava aquilo na minha vida. Era a primeira vez que me conformava com aquilo. Com a ideia de até mesmo eu era capaz de amar.
Não vi quando Lily me beijou. Não sei se fui eu quem tomou a iniciativa. Só sei que lá estávamos nós, entregues a aquele sentimento confuso e forte, que simplesmente não nos deixava em paz.
Eu sempre me continha com Lily... mas naquela noite eu estava tão sedento dela, tão desesperado por ela, que não aguentei. Queria tocar cada pedaço da pele branca dela. Quis escutá-la chamar meu nome em meio aos gemidos, quis dar a ela novas sensações as quais eu tinha certeza que ela nunca havia experimentado.
Por isso a beijei com tanta paixão. Por isso a deitei no sofá. Por isso parei de tratá-la como um objeto de cristal que poderia quebrar ao menor toque. Lily era uma pessoa de carne e osso como eu e ela me desejava naquele momento com a mesma intensidade que eu a desejava.
Ela estava insegura e com medo, é claro. Ela nunca tinha feito aquilo. Por isso eu fui paciente e educado como nunca antes na vida. Mas eu sabia que por mais que ela tremesse, que ela contivesse minhas mãos e meu corpo, ela queria. Ela realmente queria. Como mais explicar as mãos dela a me tocarem, a língua dela a me provar, e os pedidos de ‘não pare’?
Por um momento me senti culpado, pois estava fazendo justamente aquilo que eu tinha prometido pra mim mesmo e para meu padrinho que não iria fazer. Mas na hora parecia simplesmente certo.
E quando por fim terminamos eu tive certeza que nunca encontraria na Albânia, Rússia, Egito, ou onde quer que seja, o que eu tinha encontrado naquele dia. Desejei nunca sair de perto dela. Desejei tê-la pra sempre ali, ao alcance dos meus lábios. Desejei poder respirar o perfume daqueles cabelos vermelhos por toda minha vida.
Por um momento cogitei até mesmo pedi-la em casamento e desistir de tudo.
E quando ela disse que queria ir embora, eu a puxei pela cintura e pedi que ela ficasse comigo aquela noite. Ela se aninhou em mim e concordou. Foi a noite mais feliz de toda a minha vida. Pelo menos até ali...
Ainda me lembro de cada sarda do corpo dela, de cada palavra que trocamos naquela noite, mas é claro, isso pertence só a mim.
Quando ela dormiu, eu me levantei e fiquei olhando-a descansar. Ela parecia tão serena, tão feliz... Sentei na poltrona que havia ali e fiquei dividido, sem saber o que fazer. Por um lado eu queria aquilo que experimentei aquela noite. Amor. Não tinha sido só sexo. Tinha sido muito mais do que isso. Era amor e eu finalmente sabia o que era. Mas e as minhas ambições, meus sonhos?
Imaginei que era mais ou menos como Scorpius deveria ter se sentido quando precisou escolher entre o legado de nossa família e Rose. Me perguntei se poderia bater no peito e assumir a responsabilidade da família com Lily. Ela era uma Potter, afinal. A mãe dela era uma Weasley de sangue puríssimo e os Potter eram a família mais importante da atualidade.
Me levantei, sentindo-me completamente dividido. Olhei para o armário, sentindo-me tentado a ir embora logo. Mas isso seria cruel e idiota. Eu estava com medo das consequências daquilo. O que ela iria exigir de mim?
Voltei a me deitar ao lado dela e a abracei. Ela se aninhou em mim novamente e ronronou como uma gata.
No dia seguinte ela me acordou acariciando meus cabelos. Sorri para ela feliz.
– Bom dia, ruivinha. – murmurei.
– Bom dia... – respondeu ela – precisamos arrumar nossas coisas... Amanhã é dia de voltar pra casa. – murmurou ela.
– É... receio que sim...
Ela se curvou e me beijou na testa.
– Obrigada pela noite.
– Acredite, eu quem agradeço. – respondi com um sorriso safado. Ela me devolveu o sorriso – Não me olhe assim ou vou querer fazer de novo. – Ela riu ainda mais, me encarando e eu precisei puxá-la pra mim.
Saímos de lá muito tarde e acabamos perdendo o café. Mas Lily sabia ir até as cozinhas e nos empanturramos por lá. Depois fomos para a frente do lago, aproveitar nosso último dia na escola juntos.
– Vai ir me visitar antes de viajar, não vai? – pediu ela para mim enquanto acariciava meus cabelos. Eu a olhei, com a cabeça em seu colo.
– Vou. – prometi.
– Vou cobrar.
– Pode cobrar. Juro que vou ir. – respondi feliz.
– E quando você voltar de viagem, você vai vir me ver?
– Sim... E se você estiver namorando alguém, alguém vai estar encrencado. – avisei a olhando franzindo a testa.
– Já está com ciúmes? – perguntou ela com um sorriso presunçoso.
Me sentei ao lado dela.
– Não tem nem ideia.
Então a puxei para beijá-la.
Passei o dia com ela. Todos nos olhavam surpresos. Almocei na mesa da Grifinória. Scorpius estava lá com Rose e me fez companhia.
Só me separei de Lily a noite, e mesmo assim com muita dificuldade. Eu queria outra noite no escritório, mas ela me explicou que precisava arrumar um pouco de chá de lua. Me voluntariei para fazer, mas ela disse que não.
Suspirei concordando e estava na metade do caminho quando ela apareceu correndo.
– Mudei de ideia! Já tomei o chá... Aquilo é horrível! – adicionou ela.
– Melhor que um parto depois... – retruquei.
– Certamente muito melhor. – sorriu ela.
Mais uma vez passamos a noite no escritório e tudo foi mais fácil e tranquilo do que na última noite. Ela parecia menos tensa e mais receptiva, o que me deixou ainda mais feliz. Dormir foi a última coisa que fizemos aquela noite. Quando o sol nasceu, eu estava ainda mais indisposto de fazer minha viagem.
Aceitar a oferta de emprego que tinha recebido do ministro em pessoa nunca me pareceu tão tentador...
Fui para o salão da Sonserina completamente perdido e confuso.
Quando entrei no salão comunal, Scorpius estava lá sozinho, terminando de fazer as malas às pressas. O olhei constrangido e ele me encarou.
– O que houve? – perguntou ele.
– Eu amo Lílian Potter. – respondi sentindo meu rosto corar de vergonha. Scorpius sorriu presunçoso para mim.
– E ele finalmente notou! Demorou apenas... – ele olhou o próprio relógio – Hum... sete anos!
– Não tem graça, Scorpius! – ralhei me sentando na minha cama – Eu tirei a virgindade dela... Eu deveria assumir alguma responsabilidade quanto a isso...
– Você tirou mais virgindades na sua vida do que Voldemort matou pessoas. Com que está preocupado?
– É diferente. Eu gosto dela. Ela é minha amiga e é filha do meu padrinho... E eu sei que se me envolver com ela, vou ter que desisti de tudo o que planejei pra mim.
– Então desista. O papai nunca iria se importar por você ficar com a Lily. – Scorpius sorriu radiante – Oh. Ele vai morrer de orgulho. Nós dois nos casando com as filhas dos cara que ele mais despreza na terra.
– Ele vai contar aquela história sobre Lance Weasley e Astaton Malfoy pra gente de novo, não vai? – perguntei com um sorrisinho.
– Principalmente pra mim... – Scorpius fez uma careta – Ele vai ficar possesso comigo...
Soltei um suspiro.
– É... ele vai mesmo. Boa sorte com isso.
– Estou tranquilo. Eu vou ter que enfrentar o papai. Você vai ter que enfrentar Harry Potter. O pesadelo dos bruxos das trevas... – Scorpius sorriu maliciosamente para mim – Seus natais vão ser os mais divertidos... Você e seus amigos bruxos das trevas com Harry e a família dele... Por favor, me convide para os seus natais.
– Eu não vou casar com Lily Potter, Scorp... – resmunguei.
– Por que não? Poderíamos casar juntos! Sabe como é... coisa de gêmeos.
– Scorp... Ela só tem dezesseis anos...
– Já tem idade para fo...
– Scorpius!
– Mas é! – riu ele – Você quer um conselho? Esquece essa sua viagem, esquece as Artes das Trevas, aceite o mundo como ele é e case com Lily quando ela terminar a escola. Eu já te vi com muita mulher, mas Lily é a única que faz você agir feito um ser humano de verdade.
Suspirei olhando minhas mãos. O sangue de James ainda as marcando... Por que eu era o único a ver aquilo?
– Eu não a mereço, Scorp... ela é boa demais pra mim... Eu sou podre... Eu sou incompleto. Quebrado...
– Pare de achar que Lílian é perfeita. Ela não é! – resmungou Scorpius – Depois que eu me apaixonei por Rose eu fiquei me perguntando como eu tinha tido a sorte de ter tudo na vida... Rico, bonito, uma família legal, amigos maravilhosos e uma namorada perfeita... Mas então eu fui me dando conta que existem pessoas mais ricas que eu, como o Remo, mais bonitas, apesar de eu ainda não conhecer... – ele piscou pra mim – Minha família tem problemas como qualquer uma. Minha mãe é superprotetora, meu pai é frio e só se preocupa com legados e obrigações, meu irmão é viciado em artes das trevas e minha irmã é uma garotinha metida e mimada. Meus amigos tem defeitos como qualquer pessoa e por fim, a última coisa que Rose é, é perfeita... Mas sabe o que é? Foda-se. Eu sou feliz com isso e é o que importa. Lily já magoou você, ela já pisou na bola com você. Ela é irritante às vezes. Ela não é a garota mais bonita do universo e nem a mais inteligente também. Mas você gosta dela e ela te faz feliz. Então... Por que não correr atrás da felicidade? Você é um Malfoy, maninho. Nós sempre fazemos o que queremos.
– Mas eu quero fazer essa viagem... – resmunguei.
– Então faça e volte quando Lily se formar e corra atrás dela. É egoísmo seu pedir pra ela te esperar, mas... Ela é dois anos mais nova... Não é como se vocês fossem poder se ver, não é? – perguntou ele – Você deveria ao menos tentar com ela.
Suspirei e concordei em silêncio.
– Dois anos... Acho que eu posso fazer tudo em dois anos... – murmurei.
– E é bom que você esteja no meu casamento. – disse Scorpius – Albus vai ser o padrinho da criança, já que você não quer, mas você vai ser meu padrinho de casamento. Não é um pedido. Você VAI!
– Scorpius...
– O casamento vai ser às pressas. Um mês depois que as aulas terminarem. Te peço só um mês... segura essa bunda magra por aqui e viaja depois do casamento. Por favor.
Formatura
Olhei para o espelho embaçado e sorri para Lily. Ela sorriu de volta voltando a me beijar.
– Você me deixa maluco... – murmurei beijando seu ombro nu, ainda ofegante.
– Você quem me ensinou o quanto isso é bom... Tenho que aproveitar enquanto você está aqui para me ajudar... – riu ela passando as pernas compridas ao redor da minha cintura.
– Alguém mais pode querer usar o banheiro... – murmurei no ouvido dela.
– Existem outros banheiros no trem. – riu Lily.
Sorri para ela e voltei a beijá-la no pescoço.
– Vai contar pros seus pais? Sobre nós?
– Não. – respondeu ela – Você vai embora em breve... não acho que a gente deva namorar...
– Só quer se aproveitar de mim, não é, Potter?
– Sabe quanto tempo eu sonhei em beijar algum garoto da capa do Semanário das Bruxas? – brincou ela.
Lily voltou para a cabine primeiro. Eu esperei quase meia hora antes de voltar também. Scorpius, Rose e Pascal trocaram um olhar divertido, pois os dois sabiam que eu e Lily estávamos tendo alguma coisa. Mas Albus, Remo, Hugo, Virgo e James pareciam alheios a isso.
Me sentei ao lado de Lily e passei o braço ao redor dos ombros dela e ela me olhou sorrindo.
– Você não desiste, não é, Malfoy?
– Nop. – respondi com um sorrisinho.
Lily apenas riu e se curvou para pegar alguma coisa na mochila.
– Sabe o que eu estava com vontade de fazer? – perguntou ela tirando uma revista – Ler qual o seu tipo de garota ideal.
Olhei e me vi na quarta edição da revista, com a entrevista extra de quando eu ganhei o campeonato Tribruxo.
– Você comprou as quatro edições em que eu estava na capa? – perguntei franzindo a testa.
– É claro. Nessa aqui tem uma foto que dá pra ver sua tatuagem no abdômen. – riu Lily. Rose pulou até ela.
– Cygnus tem uma tatuagem?
– Rose! – ralhou Scorpius. Pascal riu baixinho, com os braços ao redor dos ombros de Virgo.
– Não. Eu não tenho! – eu disse horrorizado.
– Eles devem ter forjado que você tinha uma serpente tatuada nas suas entradinhas. Olha aqui. – riu Rose – Gente... Você está com uma carinha muito sexy nessa foto.
– ROSE! – ralhou Scorpius – Venha já pra cá!
Chegamos na estação King’s Cross onde nossos pais esperavam. Pascal vinha do meu lado, fingindo que mal conhecia Virgo e Virgo fingia que não o conhecia. Me despedi dos meus colegas e fomos pra casa.
Foi uma semana entediante e eu queria a todo tempo fugir para a casa de Lily. Mas me contive. Scorpius e Rose trocaram cartas todos os dias e decidiram dar a notícia sobre seu noivado/casamento/gravidez na noite de formatura.
No dia do evento nossas notas chegaram. Scorpius conseguiu nove N.I.E.M.s, e um certificado de jogador do ano. Eu consegui doze N.I.E.M.s, mais o prêmio por meu talento em feitiços, mais as melhores recomendações de todos os meus professores – menos da diretora, que desconfiava que eu não era tão maravilhoso assim.
Meus pais não poderiam ficar mais orgulhosos.
– Eu ouvi falar que você recebeu uma boa proposta de emprego, Cyg. – disse meu pai, enquanto tomávamos uma dose de whisky para comemorar nossa formatura.
– Sim. – respondi – Mas ainda não sei se vou aceitar.
– Não seja estúpido. – ralhou meu pai – Sabe quanto tempo a maioria das pessoas trabalha para chegar no cargo que estão te oferecendo?
– Não sei se gostaria de um cargo meramente burocrático. Estaria desperdiçando meu talento... – argumentei.
– Não me diga que quer ser um auror pra sair caçando bruxos das trevas fracassados.
– Não. Pretendo ser um bruxo das trevas de sucesso caçando aurores. – respondi. Scorpius me olhou afetado, mas meu pai riu, achando que eu estava brincando...
Eu fui o orador da turma. Como poderia não ser? Fiz um belo discurso, falando sobre esperança e batalhar por um mundo melhor. Como eu confiava que meus colegas iriam ser responsáveis por grandes feitos e coisas do gênero. Meus colegas me olhavam com fascínio e admiração. Bem... Não todos. Remo, Scorpius, James e Albus estavam mais interessados em fazer qualquer outra coisa que não fosse prestar atenção em mim.
No final, recebi palmas inflamadas e toda a hora alguém vinha me cumprimentar. Meu pai tentou falar comigo, mas sempre éramos interrompidos porque alguém queria vir me parabenizar. Quando finalmente consegui falar um pouco com ele, Scorpius apareceu trazendo Rose pela mão.
– Pai... Precisamos conversar. – Disse Scorpius.
– Nada de bom acontece depois de se ouvir isso. – Ralhou meu pai vendo que Scorpius trazia Rose Weasley com ele.
– Rose! – escutei a voz de tia Mione ao longe – Rose, venha aqui querida.
– Scorpius... – choramingou a ruiva.
– Pai. É muito sério. – Disse ele.
–O que houve?
– É... Bem... Em primeiro lugar, o capitão do Caerphilly Catapults me ofereceu a vaga de apanhador do time. E titular!
– Fala sério? — perguntou meu pai sorrindo. Meu pai adorava quadribol e sempre imaginara que Scorpius levava jeito para uma carreira esportiva – Vai jogar na liga profissional?
– Sim! Ele falou comigo logo depois que conquistei a taça de quadribol para a Sonserina. Você precisava ter visto a cara do James. Ficou furioso. Até tentou me azarar depois, mas o Cygnus viu e acabou com ele. Por isso que...
– Scorpius! – ralhou Rose Weasley. Vi que meu pai a olhou como se não achasse que ela deveria se meter na conversa deles.
– Bem... E eu quero te apresentar minha namorada, Rose. – Disse ele muito depressa. Meu pai a olhou como se estudasse a situação. Calculando onde poderíamos sair ganhando com aquilo.
– Eu conheço a Srta. Weasley, Scorpius. – Disse ele com severidade.
– Bem... ela não é só a minha namorada... Ela é minha noiva. – Adicionou Scorpius. Meu pai piscou surpreso e fechou a cara, coçando a orelha, como se estivesse pensado que não deveria ter escudado direito.
– O que você disse?
– Estamos noivos e ela... – Scorpius foi murchando.
– Ela o que? — perguntou meu pai, impaciente.
Então eu coloquei a mão no ombro de Scorpius e sorri.
– Digamos que a comemoração do título teve mais consequências do que o Scorp aqui imaginou.
– Pelas barbas de Merlin, Scorpius Hyperion Malfoy! – gritou meu pai, enfurecido.
– Foi um acidente! – defendeu-se meu irmão.
– O que foi um acidente? Cair pelado em cima dela repetidas vezes?
– Estranho como essas coisas acontecem, não? – riu Scorpius com a cara deslavada. Não consegui não rir, mas meu pai não achou nada engraçado.
– Por favor, senhor Malfoy. Não fique bravo com o Scorp! Eu tomei a poção, mas... Eu acho que errei ao cozinhar a pele de ararambóia e...
– Essa é a única poção que toda menina deveria saber fazer! – ralhou meu pai, com as bochechas vermelhas de raiva.
– Malfoy! Por que está gritando com a minha filha? – perguntou tio Rony chegando e puxando Rose para perto. Eu coloquei a mão na varinha, discretamente, me perguntando se duelos aconteceriam...
– Papai, espere. – Pediu ela com pânico.
Vi meu pai e o Sr. Weasley se olharem furiosamente.
– Veja pelo lado bom, Scorp. Se você for deserdado, você já tem um salário. – Brinquei.
– Oh, cale a boca, Cygnus! – ralhou Scorpius. Mas ele estava sorrindo.
– O que está acontecendo? – perguntou Hermione chegando com o Hugo. Minha mãe se aproximou com Virgo também.
– Conte. – Mandou meu pai, olhando furioso para Scorpius e Rose. A ruiva escondeu o rosto com as mãos e começou a chorar. Notei que a expressão de meu pai abrandou-se com isso. Fiquei um pouco surpreso. Nunca imaginei que ele iria amolecer só de ver alguém chorar... Mas talvez fosse porque era Rose... Ele gostava bastante dela, apesar de fingir que não.
– Rose, meu bem, o que houve? – perguntou minha mãe, preocupadamente.
– Dindinha! – chorou Rose correndo para abraçá-la. Meu pai respirou fundo e encarou os Weasley que pareciam confusos, apesar de tia Hermione ter adquirido um ar meio sombrio.
– Weasley. Se lembra da história sobre Lance Weasley e Astaton Malfoy?
– Das beterrabas? – perguntei trocando um olhar divertido com Scorpius, que ria também. Sabíamos que ele iria falar daquela história.
– Céus! Não foram beterrabas! – ralhou Weasley e a esposa dele pareceu entender, pois ela tampou a boca com as mãos. Minha mãe abraçou Rose e olhou para Scorpius, chocada.
– Scorpius. – Começou meu pai, contendo a respiração – Eu acho que essa é a hora em que você fala com o pai da moça.
– Ah, sim! – disse Scorpius se virando para o Sr. Weasley, que estava ficando cada vez mais vermelho, como se estivesse para dar uma boa notícia – Então, Sr. Weasley. Eu quero me casar com a sua filha...
– MAS SÓ SOBRE O MEU CORPO MORTO! – gritou o pai de Rose.
E então os Potter chegaram.Olhei para Lily e ela piscou para mim. Sorri para ela a devorando com os olhos, amando o vestido vermelho que ela usava.
– O que foi, Rony? – perguntou meu padrinho e eu desviei o olhar de Lily o mais depressa que consegui.
– ESSE MALFOY IDIOTA QUER SE CASAR COM A MINHA FILINHA!
– E ela está grávida. – Adicionou meu pai.
Todos olharam para ele e depois para Rose, que concordou. O Sr. Weasley deixou de ficar vermelho e ficou púrpura, roxo e depois branco e então caiu duro. Meu padrinho o segurou e olhou para Rose com o olhar chocado.
– E é assim que você conquista seu sogro, Scorp. – eu disse com deboche, dando uns tapinhas nas costas dele.
– Fala sério, ele nem me azarou. Saí foi no lucro.
– Espera só ele acordar. – Disse Rose – Acho melhor você não estar aqui quando acontecer.
– Não seja boba. Eu vou me casar com você. Seu pai não vai me matar. – Disse Scorpius –Afinal eu sou um Malfoy.
– Esse é o problema, seu idiota! – ralhou Rose.
Depois disso fomos para casa e eu lamentei muito. Queria ter dançado a minha valsa, mas não pude fazer isso. No lugar de me divertir, e quem sabe matar a saudade de Lily, fiquei em casa escutando meu pai e meu irmão discutirem um com o outro.
Não serei capaz de narrar tudo o que eles falaram, porque eu não estava realmente prestando atenção.
Mas o ponto alto foi quando Scorpius perdeu de vez a paciência e disse que não precisava do meu pai. Disse que tinha o dinheiro dele, o cofre dele e um emprego e se meu pai continuasse a perturbá-lo, ele colocaria no sobrenome do filho dele de Weasley.
Achei que meu pai iria atacá-lo naquele momento. Eu nunca o vi tão furioso em toda a minha vida. Foi quando Scorpius o mandou pro inferno e aparatou, indo embora.
Achei que as coisas não poderiam piorar, mas meu pai se voltou furioso para mim, quando eu disse que iria procurar meu irmão. Aparentemente ele tinha esquecido que eu estava ali até eu abrir a boca.
– Você! – sibilou meu pai apontando o dedo pra mim – Você sabia disso?
– Claro que sim.
– E como não me contou antes?
O olhei com indiferença.
– Porque Scorpius me pediu pra não contar. Ele é meu irmão.
– E eu sou o seu pai.
– E? – perguntei antes de sair.
Eu nunca tinha enfrentado meu pai antes. Não de verdade. Aquela foi a primeira vez.
Procurei Scorpius e o encontrei no Cabeça de Javali. Ele já estava bêbado quando eu cheguei. Bêbado de um jeito que eu nunca tinha visto. Ele escondia o rosto com as mãos e por um momento eu achei que ele estava chorando.
– Scorp? – perguntei. Ele me olhou com o rosto vermelho e inchado.
– Eu desgracei a nossa família, Cyg... Eu sou um idiota... – chorou ele. O puxei de uma vez e ele me abraçou, chorando de soluçar no meu ombro – Eu devia ter mandado a Rose abortar... eu devia... Mas... Mas eu a amo, Cyg... Eu a amo... – fiquei chocado, olhando as pessoas que nos olhavam de soslaio.
– Vamos, Scorp... vamos sair daqui...
– Como eu vou poder levar a família, Cyg... Como? A mãe dela é nascida trouxa... Nós vamos sair do Diretório Puro Sangue... – lamentou ele – Eu vou ser pra sempre o Malfoy que falhou... o Malfoy que sujou o nosso nome...
Abracei meu irmão com força.
– Você não sabe disso... – murmurei – Se for uma garota... Você vai levar a casa, mas... mas os herdeiros da família serão meus filhos...
– E se for um garoto, Cyg? – pegou Scorpius me afastando, parecendo completamente abalado – Cygnus. Eu sou um tapado! Como eu vou poder criar uma criança? Como?
– Está brincando? Você vai se tornar uma estrela do quadribol. Seus filhos vão ser loucos por você... Agora vamos embora.
– Eu não posso voltar pra lá, Cygnus. Meu pai me odeia. Eu vi nos olhos dele... ele me odeia. Ele me acha um fracasso... – Scorpius voltou a se sentar e secou o rosto com a manga das vestes – Eu não deveria ter nascido primeiro. Deveria ser você... Você...
Soltei um suspiro.
– Aberforth! Traz mais um copo e mais uma garrafa. – eu disse. Depois me virei para Scorpius, enchendo o copo dele com o restinho de bebida – Ao seu casamento, Scorpius.
Ele me olhou desolado e concordou.
Voltamos para casa tarde da noite e eu precisei levar Scorpius para a cama dele. O deitei e o ajudei a tirar as botas, mas ele mal caiu e já estava desmaiado. Encarei meu irmão e senti um peso enorme sobre meus ombros.
Havia um jeito muito simples de resolver aquela situação. Eu só precisava do feitiço certo e Rose perderia o bebê. Mas eu sabia que Scorpius jamais iria me perdoar. Suspirei e dei a volta na cama para sair, quando escutei a voz do meu irmão gêmeo.
– Cygnus...
– O que? – perguntei me virando. Ele me olhou e sorriu.
– Eu te amo, cara... – murmurou ele. Senti-me desconfortável ao ouvir aquilo – Não vire um bruxo das trevas... Por favor...
Suspirei e saí fechando a porta.
Casamento
No dia seguinte, eu e Scorpius fomos na casa do Sr. Weasley. Saímos muito cedo, antes dos nossos pais levantarem. Enrolamos um pouco na rua e então fomos para a casa deles. Scorpius e tio Rony conversaram em um quarto durante uma hora e tanto. Fiquei na sala com Rose, que parecia um caco.
– Não fique assim... – murmurei sem saber o que mais falar. Ela concordou em silêncio e sorriu para mim, tristemente.
– Obrigada por ter vindo, Cyg... Significa muito pra nós... – ela suspirou – E o dinheiro vai ser muito útil também... – murmurou ela, corando de leve.
– Que dinheiro? – perguntou tia Hermione saindo da cozinha. Ela olhou de mim para Rose, com um olhar muito severo, como se eu fosse tão culpado quanto os dois.
– Cygnus nos deu o dinheiro que ele ganhou no torneio Tribruxo. – explicou Rose. Tia Hermione me olhou surpresa e concordou.
– Scorpius vai arcar com a responsabilidade. O que são mil galeões comparados ao que tem no cofre dos Malfoy?
– É possível que Scorpius seja deserdado. – murmurei. Rose me olhou chocada – Minha mãe vai ser contra, é claro... mas meu pai...
Hermione deu uma risadinha.
– Draco jamais faria algo assim. Fique tranquila, Rose. – Hermione tirou um cacho rebelde de seu rosto – E mais uma vez teremos uma Rose Malfoy no mundo... Quem diria...
Quando Scorpius saiu do escritório ele tinha o olho roxo e Rose o olhou assustada.
– O que aconteceu?
– Está tudo bem. Nós vamos nos casar. – riu ele parecendo tranquilo. O Sr. Weasley se sentou ao meu lado, parecendo cansado.
– O mundo gosta de tirar sarro comigo... Os Malfoy gostam mesmo de rosas... – resmungou ele. O olhei sem entender, mas dei de ombros.
O casamento aconteceu um mês depois, bem às pressas. Meu pai pagou por tudo, mas não se engane. Foi uma cerimônia muito simples e reservada, na nossa mansão, como se ele não quisesse que o resto do mundo ficasse sabendo.
Scorpius ficou envergonhado e se recusou a aceitar mais um galeão sequer do meu pai depois disso. Ele procurou nosso avô Sirius e pediu ajuda a ele. Sirius ajudou lhe dando uma casa bacana, perto da casa dele. Meu pai ficou zangado novamente, mas disse que Scorpius fizesse o que achasse melhor, pois ele não iria mais perder tempo se importando.
Meu pai sempre tratara Rose bem, mas pelo o que eu soube, e pelo pouco que eu vi, ele nunca mais a tratou com cortesia. Ele a achava culpada por Scorpius está vivendo em um apartamento emprestado, com uma mestiça, que já estava para ter um bebê. Ele parecia convencido que Rose sempre se interessara apenas em nosso dinheiro.
Ele e minha mãe tiveram muitas brigas nesse um mês que eu fiquei esperando Scorpius se casar. Achei que os dois iriam se matar ou qualquer coisa assim e isso pareceu consumir meu irmão ainda mais.
Todos os dias ele ia praticar quadribol, para se preparar para a temporada. Todos os dias, ele e meu pai agiam secamente um com o outro. Todos os dias as agulhadas e a troca de insultos. Quem olhasse pensaria que meu irmão estava cagando para o que meu pai pensava.
Mas todas as noites ele vinha pro meu quarto, pedindo para que eu passasse um tempo com ele. Scorpius cresceu para ser o grande herdeiro da família. Ele foi criado com um objetivo e agora, todos os dias, jogavam na cara dele que ele tinha falhado. Não só meu pai, mas Virgo também. E os olhares de reprovação no escritório do retrato eram horríveis. Depois de um tempo, sempre que Scorpius entrava lá, os retratos começaram a lhe dar as costas.
– Tem que ser uma menina, Cyg... O que eu vou fazer se for um garoto? Se um dia eu estiver ali naquele escritório, vendo meu filho mestiço sendo destratados pelos nossos antepassados por eu ter sido irresponsável e frouxo?
O único consolo de Scorpius, era minha mãe. Ela estava pulando de alegria por ele. Ela amava Rose de coração. E a ideia de que ela seria sua nora parecia deixá-la imensuravelmente feliz. Ela beijava Scorpius todos os dias, falando que ele deveria estar feliz, que em breve ele seria dono da própria vida e que ninguém mais o julgaria.
– Não ligue para aqueles quadros idiotas, ou para seu pai. – disse ela alisando os cabelos dele – Já passou da hora do Diretório Puro Sangue acabar. Aquilo é simplesmente ridículo!
Foi no casamento do meu irmão que eu vi Lily pela última vez. Mas não foi só ela. Dominique estava ali também. Eu e ela trocamos um longo olhar antes da cerimônia e meu corpo esquentou quando nos aproximamos demais. Eu era solteiro, mas...
Voltei para dentro da mansão respirei fundo. Subi as escadas e fui para meu quarto. Esperei cinco minutos e ela apareceu.
– Olá, Cyg. Quanto tempo. – disse ela fechando a porta. Ela estava linda, como sempre. Os cabelo cor de cobre, compridos, os olhos extremamente azuis, as coxas grossas, os seios fartos. E o vestido dela era muito sensual também, roxo, bem curto na frente e comprido atrás. – Sentiu saudades?
– Oi, Dominique. – murmurei respirando acelerado.
– Está namorando Lily?
– Não.
– Ótimo. – respondeu ela avançando. E eu não perdi tempo.
Tranquei a porta e me deitei com ela. Sim, eu sou um canalha. Você não precisa me lembrar disso. Foi como nos tempo da escola. Aquele sexo violento e louco. Nem lembrava o quanto sentia falta daquilo. Ela sorriu pra mim quando terminamos, ofegantes e risonhos.
– O que tem feito? – perguntei.
– Estou juntando um dinheiro para viajar. – respondeu ela – Quero conhecer o Egito, estudar lá um tempo... Eles tem coisas interessantes por lá... Umas maldições sinistras... Meu pai trabalhou lá um tempo, sabe?
– Eu pretendo viajar para o Egito.
– Quando?
– Hoje ou amanhã. – respondi. Dominique se sentou nos meus quadris.
– Podíamos nos encontrar lá.
– Ou, poderíamos ir juntos. Como amigos.
– Com benefícios?
– Claro. – respondi. Ela sorriu pra mim e passeou o dedo pelo meu peito, desenhando uma linha na minha barriga.
– Você cresceu... Sempre soube que seria um grande bruxo...
– Vamos descer? Sua prima e meu irmão devem se casar em breve.
– Sim. – riu ela saindo de cima de mim.
Nos vestimos e agimos como se nada tivesse acontecido. Ficamos conversando durante muito tempo, até que Lily me viu. Ela veio correndo e me tirou de perto de Dominique, me puxando pela orelha.
– Tá maluca? – perguntei zangado.
– Fique longe dela! – ralhou Lily – Ela é sua ex namorada! Há quanto tempo estão se falando?
– É a primeira vez que vejo ela em séculos! – resmunguei zangado – Eu não sou um objeto seu. Não somos namorados, Lílian!
Ela me olhou zangada.
– Ótimo. Obrigada por me lembrar disso!
Tive um péssimo pressentimento quanto aquilo, mas simplesmente ignorei.
O casamento aconteceu a noite. Eu passei a maior parte do tempo com Pascal e Remo. Remo queria ficar com umas primas trouxas de Rose e Pascal queria se atracar com Virgo em algum canto. Depois da cerimônia, eu acabei sozinho e Dominique veio me fazer companhia.
Ficamos conversando longamente, sem malícia. Ela me contou sobre o emprego dela – ela vendia ervas e fungos mágicos para poções –, mas pretendia viajar para estudar mais sobre herbologia e outras magias.
– Principalmente arte das trevas, mas é segredo. – riu ela – Isso é tabu na minha família.
– Eu pretendo fazer a rota Das Artes das Trevas. Egito, Albânia, Rússia e talvez o Brasil...
– Eu conheci uma garota brasileira um dia desses! – riu ela – Ana Paz. Ela sabia umas azarações esquisitas... De deixar os pés das pessoas virados pra trás, permanentemente... Entre outras coisas...
– Brasil é famoso mais pelos rituais, não é?
– Sim. Mas ela não falou muito sobre isso... É como falar de magia negra em Hogwarts. Todo mundo te olha feio.
– Sim... O que acha de fazermos a viagem inteira juntos? Eu pago todas as suas despesas.
– Fala sério? – perguntou ela, sorridente – Acho que pode ser divertido. Mas você teria que esperar mais uma semana... Preciso fechar a loja e preparar minhas coisas.
– Temos um acordo? – perguntei estendendo a mão.
– Você pagando. – riu ela.
Eu tinha esquecido o quanto gostava de Dominique... Não era apenas o sexo. Ela era muito legal e muito cabeça aberta. Apesar de tudo, ela foi uma das pessoas mais importantes da minha vida... Agora que estou preso aqui, eu me pergunto... Eu teria sido feliz ao lado dela? Acho que sim... realmente acho que sim...
Voltamos para dentro da mansão, conversando amenidades, quando chegamos num corredor qualquer. Ela estava me contando sobre o sobrinho dela, que era metamorfomago como Ted, quando escutamos um gemido.
Nos olhamos sorrindo, cheios de curiosidade.
– Quem será? – perguntou ela bem baixinho. O gemido tinha vindo da sala de chá.
– Talvez Remo... Ele estava de olho nas primas da noiva. – respondi.
– Ou talvez a sua irmã... Com aquele Pascal.
– Eu mato ele. – rosnei.
Nos esgueiramos para perto da sala, loucos para espiar, como duas crianças, quando eu escutei uma voz que me fez gelar.
– Eu já disse que não.
Dominique reconheceu também, pois riu e tampou a boca com as mãos.
– Qualé, Lily. Libera isso ai.
– Me larga, Kevin. Eu disse não.
– Eu sei que você quer. Pare de resistir.
– Não. Eu vou gritar! Me solta!
– Grite. A mansão é enorme. Ninguém vai ouvir.
Eu peguei minha varinha, pronto para matar o desgraçado, mas Dominique entrou primeiro. Ela abriu a porta com violência e fez o tal Kevin voar para o teto. Olhei para Lily com indiferença. Ela subiu o vestido para se esconder. As roupas de Kevin estavam no chão.
– Desculpe atrapalhar. – rosnei zangado.
– Você está bem, prima? – perguntou Dominique – Cygnus, tira Lily daqui. Eu vou dar um jeito nesse cafajeste.
– Você tira Lily daqui e eu dou um jeito nele. – rosnei. Ele me olhou cheio de medo. Ele era do time da Grifinória de quadribol, o que menos apanhou de mim quando cercaram Scorpius.
– Não. Não machuque ele! – disse Lily com desespero.
A olhei furioso.
– Ele ia estuprar você! – disse zangado.
– Mas você não tem limites. Você vai matar ele.
– Vou mesmo. Mas antes vou enfiar uma lança das nossas armaduras no cú dele. – rosnei furioso. O tal Kevin começou a gritar pedindo socorro, mas eu sorri zangado – Pode gritar, ninguém vai te ouvir, Kevin.
– Não! Era brincadeira, Cygnus! Era brincadeira! Lily. Diz pra ele, Lily. Eu nunca machucaria você. Você sabe, não é? – choramingou ele – Não me deixe sozinho com Cygnus... Por favor! Por favor.
– Você é temido, Cygnus. Tem até reputação. – riu Dominique. Ela olhou para o garoto, que tremia olhando para mim. Então o jogou no chão. Depois apontou a varinha novamente e o jogou contra uma parede e depois contra outra.
Comecei a rir, gostando do espetáculo, enquanto o garoto pedia socorro.
– PAREM! – gritou Lily – Chega! Chega!
– O que está acontecendo aqui?
Me virei e sorri.
– Olá, James. – disse amavelmente – Por favor, não se intimide. Só estamos dando uma lição no seu amigo, sobre não estuprar garotinhas.
– É mentira, James! Eu não fiz isso! NÃO FIZ! – chorou Kevin, que tinha quebrado alguns dentes.
James olhou para Lily, que tremia assustada. O corpete do vestido creme ainda aberto.
– Ele tentou? – perguntou James.
– Ouvimos Lily pedir para ele parar, ou ela iria gritar e ele disse que ela podia gritar porque ninguém iria ouvir. – respondeu Dominique – Mas acho que assustamos o pequeno passarinho aqui, porque ela quer que a gente...
– NUNCA MAIS ME CHAME DE PASSARINHO! – gritou Lily.
A olhei assustado e Dominique também.
– Dominique, Cygnus. Tirem Lily daqui. Eu vou resolver isso. – disse James.
Concordei e saí. Dominique cancelou o feitiço e ajudou Lily a fechar o corpete, antes de sair.
Lily ainda tremia e estava corada. Me virei para ela e disse com indiferença.
– O que estava fazendo com ele, sozinha, aqui?
– Estava dando uns beijos. Por que?
– Porque ele quase estuprou você, sua tonta. – ralhou Dominique – Poderia ser mais agradecida. Já pensou se um idiota desses tira a sua virgindade?
– Outro idiota já fez isso, prima. Não se preocupe. – resmungou Lily e então ela nos deu as costas.
Dominique se virou para mim, que a olhava furioso.
– Você sabia disso?
– Não. – respondi.
Depois disso não olhei mais na cara de Lily. Estava completamente furioso. Kevin apareceu completamente machucado e foi pedir desculpas para ela. Notei que James estava com os punhos vermelhos. Ele veio me agradecer e agradecer Dominique e nós ficamos numa boa. Concordamos que era melhor ficar de olho nele, mas não contar pra ninguém.
No final da noite, meu pai me chamou no escritório. Pedi licença para Dominique, que concordou sorrindo.
Fui com ele até o escritório e meu pai se virou para mim.
– Sem mais delongas. O que há entre você e Dominique Weasley? – perguntou meu pai.
– Nós tivemos um relacionamento dois anos atrás... Agora não temos nada. – respondi. Meu pai suspirou – Por que? Não posso?
– Eu não me importaria. – respondeu meu pai. Ele baixou o tom – Ela é puro sangue.
– Você só pensa nisso?
– Alguém tem que pensar. Acha mesmo que vou passar isso tudo para Scorpius depois que ele jogou nosso nome no lixo?
– Qual vai ser o próximo passo, pai? Vai vestir o antigo uniforme e sair matando quem acha que não é digno? – perguntei zangado – Pare de ser idiota. Ninguém mais se importa com a causa puro sangue.
Meu pai avançou até mim e me acertou um tapa no rosto.
– Nunca mais diga isso, Cygnus! – rosnou meu pai – Acha que eu gostava, acha? De ver trouxas e defensores dos trouxas serem mortos na minha mesa de jantar? De ver minha professora de Estudos dos Trouxas olhar para mim pedindo ajuda antes de ser torturada de novo e de novo? Acha que eu gostava de receber pedaços da minha mãe por não estar me empenhando o suficiente para matar Dumbledore e para levar os outros comensais para dentro da escola? Acha que eu quero viver aquilo tudo de novo? Que era isso que eu achava certo? – rosnou ele furioso – Eu odeio Ronald Weasley, desde o colégio, porque ele ficava se esfregando na sua mãe para aparecer. Os dois dormiram juntos várias vezes quando ela já era minha noiva, pois Dumbledore falou que isso faria com que ela sobrevivesse ao verão, longe de mim, já que estávamos enfeitiçados pelo Encantamento de Heros. Sua mãe o usava para me matar de ciúmes. Ele era um merda. Um pobretão, uma desgraça de bruxo! E agora meu filho mais velho se casou com a filha dele e de uma nascida trouxa!
– Scorpius se casou com ela e não com os pais dela!
– É a mesma coisa, Cygnus! – rosnou meu pai, vermelho de raiva, com a pupila tão dilatada que seus olhos pareciam negros – Odeio aquele infeliz, odeio a família dele, odeio as ideias dele. E agora vou ver meu filho mais velho ouvindo conselhos e pedindo ajuda para aquela gente.
– É a escolha do Scorpius. – insisti.
– Mas é minha escolha deserdá-lo.
– Minha mãe nunca perdoaria você.
– Eu já era um Malfoy antes de me apaixonar pela sua mãe. Já deixei meu nome de lado por ela uma vez, não posso fazer de novo. Nossa família tem nossas tradições, Cygnus. Alguém tem que segui-las. Eu tive dois varões. Se Scorpius não esteve a altura, eu espero que você esteja.
– Eu não vou levar a família. – eu respondi – Eu não quero me casar. Muito menos ter filhos. Mande Virgo botar o nome dos filhos dela de Malfoy se está tão desesperado.
Meu pai me olhou tão zangado que eu encolhi um pouco. Não era como se eu estivesse encarando apenas ele. Era como se eu encarasse toda a família Malfoy. Todos aqueles montes de rostos que me incentivaram a não desistir de viver... Vi meu avô, meu bisavô e todos os outros, até chegar no irmão do Barão Sangrento... Todos eles refletidos nos olhos cinzentos do meu pai. Ele avançou me olhando e pegou meu pulso.
– Sanctimonia Vicent Semper. – sibilou ele. Rosnei puxando meu pulso de volta, mas meu pai não me soltou de imediato. Quando ele o fez, o brasão da minha família estava tatuado no meu pulso – Pureza sempre irá conquistar. É isso o que você é. É isso que nós somos. – murmurou ele. Meu pai me rodeou e eu me senti um rato cercado por um gato – Nós somos a família Malfoy. Você recusou a oferta de emprego no Ministério. O que está pensando em fazer?
Não consegui mentir. Ainda podia ver todos meus antepassados ali. Era como se eles tivessem deixados os quadros, como se eles andassem ao meu redor, me medindo, me avaliando... Era assustador.
– Vou viajar. – respondi – Vou fazer a Rota das Artes das Trevas. – expliquei encolhendo. Minha mãe odiava as Artes das Trevas, mas meu pai as achava interessantes.
– Viajar para estudar ainda mais... Bom. – murmurou ele – E depois. O que vai fazer?
– Eu... – me estiquei todo – Eu vou... – Mas eu não sabia. Olhei para minhas mãos, marcadas pelo sangue de James Potter. Eu tinha sangue nas mãos e estava prestes a sujá-las ainda mais – Eu vou viver... – respondi – Eu vou me testar. Quero ver o que eu sou capaz de fazer. Vou ver qual é o meu limite e então... Então decidirei o que vou fazer.
Meu pai parou na minha frente e suspirou parecendo mais brando. Os milhares de Malfoy pararam de pé atrás dele.
– Eu amo você e seus irmãos, Cygnus. Mas eu tenho uma responsabilidade para com a nossa família. Se eu não achar seu irmão apto... Você terá de ser. E se você não for capaz, eu vou tentar ter outro filho e não vou ser tão amável com ele como fui com vocês.
– Eu entendi... – murmurei.
– Quando você pretende viajar?
– Eu ia hoje a noite... Talvez amanhã... Mas acabei tendo um contratempo... vou esperar uma semana.
– E quando planejava nos avisar?
– Quando eu estivesse longe o suficiente para que vocês não me impedissem.
Meu pai sorriu e balançou a cabeça em censura.
– Se estivéssemos em maus lençóis, talvez, Cygnus. Mas pense. Você é a pessoa mais inteligente que eu já conheci. Eu só não fiz a viagem que você vai fazer porque meu pai estava preso e eu precisava cuidar do nome e da reputação da família. Eu precisava ir para o Ministério e começar a reconstruir o nosso nome. Mas você não precisa disso. Você não precisa de um emprego agora. Não precisa se esforçar tanto agora. Você pode investir em si mesmo antes de decidir o que vai querer para o seu futuro. – ele arqueou as sobrancelhas – Eu deveria ter passado mais tempo com você... É muito mais inteligente do que eu, mas seus olhos estão fechados para o mundo, Cygnus. Nesse ponto, seu irmão é muito melhor preparado do que você. – ele desviou o olhar e foi até sua escrivaninha, nos servir um pouco de whisky – Mas não te culpo. Foi culpa minha apostar todas as fichas em Scorpius...
– Ele é o filho mais velho...
– Meu avô Abraxas tinha três irmãos mais velhos. – cortou meu pai – Mas ele quem levou a família. Pois era mais bem preparado. Nascer primeiro não significa necessariamente que será líder da família, Cygnus. Não como um Malfoy. Priorizamos competência a direito de nascença. Pense nisso.
Meu pai me ofereceu o copo de whisky e eu senti o corpo gelar. Ele me ofereceu o copo dele. O copo de quem dirigia a família. Ele não estava me oferecendo uma bebida. Era muito mais do que isso.
– Scorpius... Scorpius sabe disso?
– Sim. – respondeu meu pai – Foi um pedido dele. A única coisa que ele queria como presente de casamento.
– Eu não sei... – murmurei. Meu pai seguia me encarando, me estudando com os olhos. Respirei fundo e aceitei. Me senti muito mais pesado. Tão pesado que meus ombros doeram.
– O peso da nossa família. – disse meu pai – Da nossa responsabilidade. – eu o olhei e os olhos dele faiscaram – Ainda acha que o sangue não significa nada, filho?
Respirei fundo me perguntando como Scorpius aguentou aquilo durante toda a vida. Aquele peso. E não somente isso... Ele sempre fora absurdamente sorridente e feliz.
Levantei o copo para meu pai e nós dois bebemos de uma vez. Então devolvi o copo para ele e ele me entregou o copo normal.
Depois disso ele me liberou.
Caminhei de volta para o jardim e fiquei observando os pavões albinos. Puros. Perfeitamente alvos.
– Achei que o seu pai não iria mais te devolver. – riu Dominique se aproximando de mim.
– Se eu te pedisse pra casar comigo, você se casaria?
– Hoje? Não. Um dia? Quem sabe. – respondeu ela se encostando na cerca – O que aconteceu? O que seu pai queria?
– Queria que eu assumisse a família no lugar do Scorpius. – respondi sentindo mais uma vez aquela sensação de peso.
– Uau... Tudo isso porque Scorp se casou com a Rose?
– Scorpius pediu. – respondi – Porque ele não acha que os filhos dele... É complicado. – resumi jogando as mãos pra cima.
– Relaxa. Eu entendo perfeitamente. – riu Dominique – No mundo de hoje, ser puro sangue é bem difícil, não? – perguntou ela.
– Sim... bem difícil...
– A família da minha mãe é sangue puro, do tipo tradicional mesmo... Ela ficou furiosa quando o irmãos do meu pai se casaram com mulheres sem ser sangue puro. Dizem que lastimam o meu sobrenome. Apenas meu pai se casou com uma puro sangue... E bem... Gina casou com um mestiço, mas ele é Harry Potter... Quem vai criticá-la?
Me virei para Dominique e concordei.
– Tipo isso...
– Qual o seu lance com a Lily? – perguntou Dominique.
– Nenhum. – menti.
– Eu sei que não é. Não minta pra mim. – riu ela.
Soltei um suspiro e passei meus olhos pelo jardim. Lily e Rose conversavam animadas.
– Eu... eu tive uns lances com ela.
– Eu sabia. – riu Dominique – Mesmo quando a gente namorava... Você nunca me olhou como olha pra ela.
– Hum... Ciúmes?
– Na época? Eu tinha vontade de rasgar a cara dela com caco de vidro. – riu Dominique – Mas hoje eu não ligo. Eu sempre soube que você nunca tinha me amado. Talvez me achasse legal. Certamente sentia tesão por mim... Afinal, quem não sentiria, não é? – ela riu e eu a puxei pela cintura.
– Você tem um ponto...
– Quer repetir a dose de hoje mais cedo?
– Quero. – Ela riu marota para mim – Eu já volto.
Caminhei até Scorpius e o parabenizei pelo casamento. Fiz o mesmo com Rose e lhes desejei felicidades. Ignorei Lily completamente no processo.
– Você já está indo viajar? – perguntou Scorpius.
– Não. Estou indo... hum... Fazer umas coisas... – eu disse sorrindo. Scorpius olhou para Dominique e sorriu.
– Recaídas? – perguntou Rose.
Dei de ombros.
– Bem. Não siga o exemplo do seu irmão mais velho. – riu Scorpius.
– Já pensou que chato seria você engravidar a Dominique, não é? Ou talvez seja uma boa. Vocês se merecem. São dois loucos sadistas. – ralhou Lily.
– Por que você não vai se esconder num canto com aquele tal de Kevin? E se ele tentar te estuprar de novo, você tenta convencê-lo a parar na base da conversa, que tal?
– Como é que é?! – perguntou Rose horrorizada – O Kevin fez o que?
– Boa festa pra vocês! – disse com um sorriso – Eu vou festejar a minha maneira.
Pascal e Remo ouviram e começaram a fazer graça movendo os quadris.
– Você não presta, Cygnus. – Riu Scorpius.
Eu fui para junto de Dominique e aparatamos para Hogsmeade. Lá, fomos para o estalagem onde transamos pela primeira vez. Passei a noite com ela e foi ótimo.
Passei a semana trabalhando com ela, na lojinha no Beco Diagonal. Mas era apenas uma desculpa para não ficar em casa. Quando a semana acabou, fechamos a loja dela e partimos para a Central das Chaves.
[n.a. Rose e Scorpius]

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