Cygnus - Fallen

21 Bill, Devaneios e Natal


Notas iniciais
Gente... esse capítulo é muito triste, mas tem momentos tensos e fofos... Acho que daqui pra frente todos os capítulos vão ser assim... O Cygnus tá perdido, então vai ficando cada vez mais sombria... Mas espero que gostem assim mesmo!

Bill – Depoimento

Eu me lembro no dia em que ele apareceu.

Estávamos apenas eu e Fleur em casa, pensando em visitar a minha mãe, quando a campainha tocou. Caminhei tranquilamente até a porta e a abri sem me preocupar em ver quem era primeiro. Há anos isso deixou de ser uma preocupação...

Eu reconheci Cygnus, apesar de ele estar muito diferente. Da última vez que eu o vi, ele era um menino magricelo, com os cabelos curtos e rosto de bunda de bebê. Sempre parecendo estar em outro planeta, como se esse aqui o entediasse.

Mas agora seus cabelos estavam compridos, presos na altura dos ombros, ele tinha um cavanhaque bem feito, estava muito mais alto e forte. Mas a cara dele foi o que me assustou. Ele parecia simplesmente devastado.

– Cygnus?

Ele me mostrou um jarro de metal, com uma expressão deprimida.

– Bill... Eu tenho más notícias... talvez seja melhor você sentar...

– O que aconteceu com Dominique? – perguntei no mesmo momento.

– Ela morreu. – respondeu o rapaz. Perdi a força nos joelhos e quase desabei no chão. Que pai não faria isso?

– O que? Como?

– Por favor... eu posso entrar?

Eu concordei ainda em choque. Cygnus se arrastou até o sofá e se sentou parecendo o ser mais miserável da face da terra. Ele colocou o jarro de metal em cima da mesa e escondeu o rosto com as mãos.

– Bill? O que aconteceu? – perguntou Fleur entrando na sala. Eu já estava chorando, é claro. E ela entendeu que algo horrível tinha acontecido. Assim que entendeu que aquele homem no nosso sofá era Cygnus Malfoy, ela desabou no sofá, tremendo violentamente – Não... O que aconteceu com Dominique? O que aconteceu com a minha filha?

– Ela foi assassinada... – respondeu Cygnus tomando ar – No dia do nosso casamento...

– O que? – perguntamos eu e Fleur, completamente surpresos. Minha filha estava casando? Mas tinha tão pouco tempo que ela avisara que estava namorando com aquele Malfoy.

– Um trouxa... um trouxa matou ela... Usou algum tipo de arma e a acertou pelas costas... E... e ela estava grávida... esperava um filho meu... Eu sinto muito... muito... – disse Cygnus olhando para as próprias mãos, que tremiam com violência.

– Um trouxa? – perguntei sem entender. Por que raios um trouxa mataria a minha filha?

– Eu não entendi... Eu peguei o desgraçado e... – ele engoliu saliva, fazendo cara de nojo – Ele disse que um homem pagou dez moedas de ouro... dez galeões... para que ele matasse Dominique. – respondeu ele fechando o punho – Dez galeões... esse é o preço que os trouxas nos dão? Matar por dinheiro? Eu sempre defendi os trouxas, mas... – ele me olhou com os olhos cheios de água – Aquele matou minha mulher e meu filho por dez galeões, Sr. Weasley...

Fleur começou a chorar, desconsolada. Tudo o que eu consegui fazer foi encarar aquele garoto, que parecia completamente perdido e amargurado.

– Por que queriam matar a minha filha?

– Eu não sei... o trouxa não perguntou... Ele apenas fez o serviço. Não sabia nem o nome do desgraçado...

– Está mentindo! – disse Fleur – Não acredito!

Ele tirou uma filmadora das vestes e colocou em cima da mesa.

– Nossa amiga filmou.

Eu tomei a filmadora dele e Fleur correu até mim. Lá estava minha filhinha... Com a barriga denunciando a gravidez... Cygnus na frente dela, parecendo muito feliz. Escutei uma voz feminina falar “que lindo”. Mas em seguida “o que aquele homem está fazendo?” ela virou um pouco a câmera e então o homem apareceu com uma arma. Dois disparos e o sangue espirrou nas costas de Dominique. Escutei gritos e então a filmagem acabou.

Cygnus olhava com nojo para a filmadora e desviou o olhar.

– Onde vocês estavam? – perguntei. Nem sei o porquê.

– Na Grécia... ela queria se casar lá... – respondeu o garoto – Eu fazia tudo pela sua filha... Eu queria voltar, fazer uma festa gigante aqui... com tudo o que ela merecia, mas ela queria paz e sossego... casar de frente para o mar, ao por do sol... Eu concordei... nunca iria imaginar... um trouxa... – ele se calou como se fosse difícil demais falar. – Eu sinto muito.

Fleur caiu ao meu lado chorando e eu fiquei encarando aquele rapaz. Estava em choque. Simplesmente em choque. No dia eu acreditei, é claro... como não acreditar?

Mas hoje eu me pergunto... Será que a morte da minha filha foi mais do que aquilo? Hoje eu me pergunto... os disparos eram pra ela?

E principalmente... quem pagou o trouxa para atirar?

Devaneios

Eu quis voltar pra casa, é claro. Queria deitar a cabeça no colo da minha mãe e me deixar ser mimado. Eu queria ficar sentado ao lados dos pavões, lembrando de como Dominique gostava deles. Era o patrono dela, um pavão... Queria ter Virgo me paparicando e meu pai para beber um whisky comigo.

Ele não era um homem de muitas palavras, mas só a presença dele era suficiente para me tranquilizar. Mas não me permiti voltar. Eu estava com vergonha. Bill contaria para os Weasley, Gina ficaria sabendo, assim como Rose... Logo meus pais e Lily ficariam sabendo também.

O remorso me corroia, mas o ódio era muito maior. Voltei para a Albânia, onde a história minha e de Dominique já tinha repercutido horrores. A foto do trouxa atirando em Dominique pelas costas em todos os jornais.

Uma onda de ira se apoderava das pessoas... Principalmente na Inglaterra. Meu pai era herói de guerra, eu era o campeão do torneio tribruxo e Dominique era uma Weasley, uma das famílias bruxas mais queridas do país. A revolta era geral.

Os ataques a trouxas começaram em todos os lugares. E eu ainda nem tinha começado a agir. Minha mente ainda estava em transe. Acordava todas as noites escutando o som de tiros. Sonhava com o olhar de medo e o pedido de ajuda dela.

Todos queriam saber o que eu iria fazer. Eu não podia ficar parado. Cygnus Malfoy podia ficar de luto, mas o Sinistro não. O Sinistro nem conhecia Dominique. O Sinistro não perdeu um filho. Ele não era um jovem de vinte anos, ferido pela perda. Ele era um líder, um símbolo e eu precisava seguir com ele.

Mas eu não conseguia.

– Levante e lute, Cygnus! – ralhou Salazar.

– Eu não consigo mais... – murmurei sentindo o corpo doer.

O cajado me consumia. Era cada vez mais pesado e difícil de manusear. Antes eu tinha Dominique para massagear meus braços e ajudar a magia fluir dentro de mim. Eu tinha seus beijos doces, sua voz em meu ouvido. Eu tinha nosso filho a me inspirar a dar sempre o meu melhor. Mas agora eu estava sozinho no meu quarto, vomitando sangue, completamente inútil, tremendo, morrendo de dor.

E no dia seguinte lá estava eu de pé, frio, calculando com cuidado o próximo passo, o próximo ataque. Atacamos Nurmengard novamente e depois Azkaban. Libertei todos os bruxos condenados por matar trouxas (menos os irmãos Lestrange). Meu discurso sobre união e liberdade agora era de guerra e liberdade, independência.

Perdi alguns seguidores, mas vieram muitos outros. E mais uma vez havia um bruxo das trevas violentamente poderoso lutando pela podre causa puro sangue.

Não era o que eu dizia que estava fazendo, mas trocando em miúdos, era o que eu estava efetivamente fazendo.

Eu matava.

Eu torturava.

Eu destruía.

E a noite me desesperava de dor e exaustão.

Eu só queria dormir.

Janeiro.

Fevereiro.

Nurmengard virou meu castelo. Durmstrang minha escola. O Símbolo de Slytherin entalhado nos detalhes de ambos os lugares.

– Eu não aguento mais... eu não aguento mais... – murmurei em desespero.

Então Abraxas começou a aparecer também. Ele tirava sarro de mim. Falava que eu deveria revelar ao mundo quem eu era. Mas eu não queria isso. Então ele começou a pedir para que eu o deixasse entrar. Mas eu neguei prontamente. Salazar também queria meu corpo, mas eu precisava consentir. E eu não estava disposto a isso.

Lutei com Harry mais duas vezes, sem nem mesmo machucá-lo. Mas eu sabia que não poderia protegê-lo pra sempre. Era questão de tempo até que algo ruim acontecesse com ele.

Março veio e foi. Comecei a ver meu avô Lúcio me incentivando a continuar lutando por um mundo melhor. Mas tudo o que eu via era morte e eu não aguentava mais aquilo. Nada mais parecia fazer sentido.

Abril chegava a seu final e eu ia ficando cada vez mais depressivo. Se Dominique estivesse viva, nosso filho estaria para nascer.

Eu estava mais uma vez, sozinho, no banheiro, vomitando sangue, tentando me recuperar. Caí tremendo no chão, me contorcendo. Eu precisava de ajuda... Mas Dominique não estava mais lá pra me ajudar. E eu não confiava em mais ninguém...

Me arrastei de volta para o quarto, sabendo que tudo o que eu precisava era dormir e descansar. Mas assim que abri a porta do quarto, senti meu sangue gelar.

Deitada na minha cama, com um sorriso satisfeito, estava Dominique. Ela balançava um embrulhinho, que fazia uns sons esquisitos.

– Você está morta.

– Estou? – perguntou ela – Vem, Cygnus. Vem conhecer o nosso bebezinho.

Fui andando até ela, sentindo um medo absurdo. Eu estava enlouquecendo. Só podia ser... subi na cama, com medo dela simplesmente desaparecer. Mas ela seguia lá. Olhei para o embrulhinho de cabelos escuros e olhos cinzas, como os meus e sorri feliz.

– Minha nossa...

– Parece você, não é? Podíamos chamá-lo de Leon, o que acha? É uma constelação, como o seu nome, mas combina comigo, já que eu sou Grifinória.

– Parece perfeito. – sussurrei – Dominique, estou tão cansado.

– Durma, Cygnus... – disse ela com um sorriso. Ela nunca foi tão linda, mas havia algo de maligno nela, que eu não consegui entender – Durma, descanse... deixe outros fazerem o trabalho pra você... Fique aqui comigo e com o nosso bebê...

– Está bem. – eu disse sem nem cogitar em negar.

Eu sabia que era uma armadilha. Eu sabia que não era real.

Mas eu sou covarde. Eu só queria fugir da realidade. Eu queria fugir da dor e da culpa. Fugir das memórias de Lily, falando que nada daquilo iria acabar bem.

Eu não fui realmente responsável pelos meus atos. Cygnus Malfoy desapareceu por completo durante um tempo. Eu acordava na cama, com Dominique e nosso bebê e fingia que aquilo era o meu mundo, a minha vida. Era mentira, mas eu não ligava.

Vez ou outra eu acordava em comemorações, em orgias, no chão, nas escadas... Uma vez acordei sentado no lugar onde Abraxas morou com Helena. O cajado em minhas mãos. Mas sempre que eu acordava, eu fechava os olhos e falava para o Cajado: assuma...

E então fugia de lá.

Salazar tinha um jeito mais refinado de matar. Ele nunca usava as próprias mãos e nem era tão cruel. Ele era prático. Mas quando era Abraxas...

Ele era louco. Um cachorro louco. Quando eu acordava, precisava pedir para Cerce curar minhas mãos, pois ele socara tanto a cara de alguém que eu não conseguia fechar os dedos.

Chegou num momento, próximo ao natal, que eu fiquei assustado, pois achava que estávamos no verão. A neve me chocou. Eu nem sequer sabia como andava a guerra.

A única coisa que eu sabia era que estava matando trouxas.

Natal

No natal daquele ano, eu voltei pra casa, duas semanas antes do feriado. Pedi para que Alzar se passasse por mim, pois eu precisava de descanso. Ele concordou e eu passei o manto de Sinistro para ele, para depois voltar para a Inglaterra. Passei na Travessa do Tranco, na loja do Damian e voltei para Hogwarts. Tranquei o Cajado lá com relutância e levei a chave comigo.

Quando cheguei em casa, minha mãe gritou de horror.

– COMO VOCÊ PODE SUMIR DESSE JEITO? NO MEIO DA GUERRA! NENHUMA CORUJA!

Mas eu simplesmente a abracei e desmaiei. Meu corpo não estava mais aguentando tudo aquilo. Acordei gritando de desespero e Scorpius apareceu.

– O que foi?

Olhei ao redor e vi a chave. Me levantei correndo e peguei aquela merda e entreguei para meu irmão.

– Guarda. Não deixa ninguém pegar isso! Nem toque nela se for possível... Só me devolve quando eu melhorar.

– O que isso?

– Por favor.

E então desmaiei de novo.

Acordava grogue, sem saber onde eu estava. Meu corpo doía horrores e eu chorava de dor e desespero, me unhando, pedindo para que alguém me ajudasse.

Minha sorte era que minha mãe era uma excelente curandeira.

– Você andou abusando da magia... está completamente sobrecarregado. – explicou ela me dando poções e fazendo magias de cura.

Uma semana depois eu estava um pouco melhor, apesar da febre não passar de jeito nenhum. Eu sabia que meu corpo queria o cajado de volta. Eu estava viciado nele. Completamente dependente.

Quando o natal finalmente chegou, eu conseguia ficar de pé. Sentia falta de Dominique e do meu filho, apesar de saber que eles não eram reais. Mas eu não conseguia parar de pensar que eu deveria pegar o Cajado de volta para poder vê-los novamente.

Ninguém tocou no assunto Dominique, apesar de que eu sabia que todos eles sabiam. Mas naquele natal, meu pai me chamou num canto.

– Você guardou algo de Dominique? Algo de vocês? Ou do bebê? – perguntou meu pai.

– Nossas alianças. – respondi.

Ele me deu uma caixa e me levou ao jardim. Lá ele me mostrou uma lápide que ele tinha feito.

– Sua mãe perdeu dois filhos antes de você e Scorpius nascerem. – explicou ele – Um foi no meio da guerra. Nós não éramos casados... ele ficou na floresta onde ela estava escondida. O outro eu enterrei aqui. – explicou ele.

Fiz um buraco na terra com as próprias mãos e então coloquei as alianças na caixa e a enterrei ali. Depois escrevi na lápide o nome Dominique Malfoy e Leon Malfoy. Nós não chegamos a terminar o rito, mas eu me considerava viúvo.

Meu pai me deu uns tapinhas nas costas e me deixou sozinho ali. Ler o nome dela naquela lápide foi demais pra mim. Então caí de joelhos e chorei. Aquele choro lamurioso que as minhas vítimas choravam quando pediam clemência. Me perguntei se eu estava fazendo o mesmo. Se alguém notaria que eu estava desesperadamente pedindo ajuda. Mas ninguém pareceu notar... Todos achavam que eu estava apenas de luto.

Mas quando a noite chegou e os convidados também, eu tive certeza que não poderia encará-los. Me escondi de Harry, pois não sabia como poderia olhar para ele sem minha máscara. Fiquei sentado num corredor apertando o punho, pois minha mão estava sempre tremendo. Tirei um chocolate do bolso e não consegui abri-lo. O joguei no chão, furioso e Pascal apareceu. Ele olhou para mim e para o chocolate e então o abriu.

Ele foi me dando pedaço por pedaço e ficamos ali sem trocar uma palavra.

Mas depois de quase meia hora, ele começou a falar.

– Você é Cygnus Malfoy. Tem vinte anos. Tem dois irmãos. É filho de Draco Malfoy e Rose Malfoy... Você não matou Harry Potter, você não estuprou sua irmã, você não estuprou Lílian Potter... Você não é Abraxas Slytherin... – Eu o olhei assustado. Ele não me olhou de volta – Repita. Você é Cygnus Malfoy. Tem vinte anos. Tem dois irmãos. É filho de Draco Malfoy e Rose Malfoy... Você não matou Harry Potter, você não estuprou sua irmã, você não estuprou Lílian Potter... Você não é Abraxas Slytherin...

– Sou Cygnus Malfoy. Tenho vinte anos. Tenho dois irmãos. Sou filho de Draco Malfoy e Rose Malfoy... Eu não matei Harry Potter, eu não estuprei minha irmã, eu não estuprei Lílian Potter... Eu não sou Abraxas Slytherin... – repeti.

Eu e Pascal ficamos naquilo um tempo e ele segurou minha mão, enquanto eu repetia aquilo para mim mesmo. Eu não sabia que ele tinha decorado aquilo e que ainda se lembrava.

– Você é meu irmão, Cygnus... o irmão que eu nunca tive... – disse Pascal com sua voz de tenor – Por que sumiu desse jeito? Cheguei a achar que tinha morrido. Ficava escapando para o escritório dos retratos para ver se o seu já tinha aparecido...

– Me desculpe, Pascal. – murmurei apertando a mão dele.

Ele concordou com a cabeça.

– Desculpo... mas não faça de novo... – disse ele soltando a minha mão.

Ficamos sentados ali um tempo, até que ele tirou um cigarro e me ofereceu. Fumamos um pouco e ele falou que ia pedir minha irmã em casamento.

– Eu amo a sua irmã... mas ela vai me deixar maluco.

– Por que?

– Porque ela quer casar virgem. Sabe quanto tempo eu não sei o que é uma boce...

– Ainda bem. – ralhei e então começamos a rir um para o outro.

Minutos depois Remo apareceu com Scorpius e Albus. Eles se sentaram ali também e começamos a conversar fiado, beber hidromel e a fumar.

– Eu vou ser pai de novo. – disse Scorpius.

– Mas você não sabe encapar esse piru! – ralhou Albus.

– Eu tentei usar aquilo uma vez. É um método de tortura trouxa! Quem em sã consciência usaria aquilo?

– Não é nada de demais... É só acostumar.

– Se você tem o pau pequeno, é problema seu! – riu Scorpius e logo estávamos gargalhando.

– Ok, ok... Eu vou me casar logo depois de Pascal! – disse Remo – Quero todos vocês na minha despedida de solteiro e eu já aviso logo que vamos ir num estabelecimento nada convencional e bem trouxa, ouviram?

– Eu não. – resmunguei. Não queria nada trouxa pelo resto da minha vida.

– Tem mulheres seminuas dançando em postes. Você vai sim, sobrinho. – riu Remo puxando um baseado ali mesmo.

Então, de repente, eu me senti muito longe da guerra, do sangue, das batalhas. Me perguntei se eu poderia ficar pra sempre na mansão, com aquele meu antigo grupo de amigos.

Mas eu sabia a resposta para aquilo.

Scorpius estava tragando o baseado dele, quando ouvimos passos e ele escondeu o cigarro na boca, arrancando gargalhadas de todo mundo.

Mas quando ele viu que era Lily, ele cuspiu o cigarro abanando a própria língua, fazendo todo mundo gargalhar ainda mais.

– Porra, Lílian. Achei que era a minha mãe... ou pior, a minha mulher!

– Por que estão se escondendo aqui? – perguntou ela se sentando ao meu lado.

Notei que Pascal e Scorpius trocaram um olhar esquisito. Pascal se levantou e me chutou para o lado. Eu saí do lado de Lily e ele se sentou entre eu e ela. Lílian corou envergonhada e eu tive certeza de que Albus iria reclamar com Pascal.

– Lily, você poderia se retirar. Seres portadores de vaginas não podem entrar aqui. – disse Albus e Remo o olhou boquiaberto.

– Como assim sua irmã tem uma vagina?

– Remo... corta o baseado. – riu Pascal.

– Oh, mas ela tem, não é Cygnus? – perguntou Scorpius.

– Kevin achava que tinha. – respondi – Como vai o amável Kevin, falando nisso?

– Morto. – respondeu Lily com a voz seca.

– Que bom. – respondi.

– Morto por um Algoz, enquanto ele lutava. Sabe, ele era um auror.

– Palmas para os Algozes. – retruquei.

– Como vai sua namorada? – perguntou Lily. Meu estômago revirou – O que vocês andaram fazendo para um trouxa meter duas balas nela pelas cos...

Mas ela não terminou. Eu a joguei no chão e estava para socá-la, quando Pascal e Scorpius me seguraram.

– Não ouse, Potter! – rosnei furioso.

Ela se sentou e Albus a puxou pelo cotovelo.

– Você come merda, Lílian? – perguntou ele – Como me fala uma coisa dessas?

Remo a olhou furioso também.

– Sem tato nenhum, Potter. Cai fora daqui. Ninguém te quer por aqui! Já não acha que brincou com o Cygnus o suficiente?

– Parem. – pedi.

Eles me olharam confusos.

– Ela não devia ter falado isso! – insistiu Remo – Eu vou contar pro seu pai, Lílian.

– Quantos anos acha que eu tenho, pateta? Oito? – perguntou ela

– Pela sua atitude, por ai. – respondeu Remo.

Mas eu sabia o motivo dela ter dito aquilo. Ela sabia que eu tinha sido responsável por muitas mortes, provavelmente pela de Dominique também... Eu tinha sido ingênuo ao mostrar meu rosto no ataque ao Ministério...

– Está tudo bem, gente. De verdade... – murmurei voltando a me sentar – Me desculpe, Lily. Perdi o controle. – murmurei triste sem olhar para ela.

– Você não tem que pedir desculpas pra Lily, Cygnus! – disse Albus.

Ouvi passos e olhei para o lado. Ela tinha ido embora.

Fiquei mais um pouco com eles e lhes desejei um feliz natal antes de voltar para meu quarto. Abracei o travesseiro e quis sonhar com Dominique e Leon, mas assim que fechei os olhos escutei uma voz levemente familiar.

– Ouvi dizer que todos os Black são loucos... Você é meio Black... deve ser meio louco...

Me sentei e olhei. Um homem alto, de cabelos negros, olhos azul piscina e ar aristocrático estava ali, parado, de braços cruzados. A semelhança comigo era gritante.

– Você é Régulus... – murmurei confuso. Ele concordou com a cabeça – Por que estou te vendo? O Cajado está preso numa caixa anti-magia...

– E quem disse que eu sou seu cajado? – perguntou ele sorrindo.

Abri os olhos e notei que estava simplesmente sonhando. Voltei a me sentar e notei que não estava sozinho no quarto.

– Lummus. – a luz se acendeu e eu vi Lily ali. Ela me olhava inexpressiva, sentada numa cadeira. – Lily, o que faz aqui?

– Você amava Dominique? – perguntou ela. Desviei o olhar – Me responde.

– Não... Mas ela ia me dar um filho...

Lily se levantou e se sentou ao meu lado na cama. Então me abraçou. Me deixei abraçar. Fui me enroscando nela como uma cobra se enrosca num rato antes de engoli-lo. Lily não pareceu ligar. Mas logo apenas estar abraçado com ela não era suficiente.

Pela primeira vez em meses eu desejei uma companhia feminina... e não qualquer uma. Eu queria a dela.

Mas me pareceu errado. Me soltei dela e me virei na cama. Dominique podia estar morta, mas não conseguia parar de pensar que, quando voltasse a ter o cajado, e ela voltasse a aparecer pra mim, eu não poderia encará-la.

– Cygnus? O que foi? – perguntou ela.

– Não posso. – respondi.

– Não pode o que? Me abraçar?

– Não quero só te abraçar. – murmurei e quando notei que Lily ia voltar a falar, me encolhi – Vai embora, Lily. Eu quero ficar sozinho.

Por um momento eu achei que ela sairia, pisando forte, zangada. Mas ela simplesmente me abraçou.

– Não vou te deixar sozinho, Cygnus... Nós somos amigos. Apesar de tudo o que eu fiz e o que você fez... nós somos amigos.

Voltei a me virar para encará-la. Coloquei a minha mão no rosto dela, mas notei o quanto minha mão estava suja de sangue. Parecia que eu a tinha mergulhado num balde de tinta... soltei-me dela novamente. Lily não merecia nem mesmo que eu a tocasse.

– Suas mãos estão mais sujas do que nunca. – murmurou ela segurando minha mão.

– Você... você vê?

– Sempre vi. – respondeu ela se sentando. Ela segurou minhas mãos e as olhou com pesar – Pare de lutar, Cygnus... não volte. Deixe seu impostor no comando e fique aqui com a gente...

– Não posso... – murmurei.

– No início eu entendia, Cygnus... você lutava por um ideal bacana, por mais que eu não concordasse... era bonito o que você falava... mas de um tempo pra cá... você está pior que Voldemort. Você está exterminando trouxas...

– Estou. – concordei cerrando o punho – Os trouxas mataram meu filho.

– Um trouxa matou Dominique e seu filho, Cygnus... UM. Duvido que ele esteja vivo.

– Está. – respondi – Eu não o matei. Mas agora ele é um mendigo demente.

Lily me olhou horrorizada e eu desviei o olhar, com um aperto no peito.

– No que você está se transformando, Cygnus? Não seja mais o Sinistro, por favor...

– Eu não sou o Sinistro há meses. – murmurei olhando para ela.

– E quem era?

– Às vezes era Salazar Slytherin... outras vezes era Abraxas...

– Não! Eles te controlaram de novo?

– Sim... – murmurei deprimido, sem conseguir encará-la – Eu me deixava controlar... porque eles me deixavam num torpor... num sonho... – respondi – Eu sonhava que Dominique e Leon não estavam mortos... Eu não sentia dor e não estava manchado de sangue... Eles me levam a um lugar tranquilo, sem culpa ou pesar... e eu cedo meu corpo para eles.

– Cygnus! Você ao menos sabe o que eles estão fazendo com você enquanto você fica alucinando no seu mundo perfeito? – ralhou Lily. Eu a olhei, enfim, nos olhos.

– Eu não ligo mais.

– Não liga mais? – ela levantou a mão para me bater e eu não reagi, mas ela não me bateu. Seus olhos se encheram de água – Meu deus, Cygnus... o que eles fizeram com você... o que você fez a si mesmo? – eu abaixei meus olhos, sentindo-me triste – Cygnus... Fale pro meu pai, sobre o cajado. A gente pode te ajudar... por favor, Cygnus. Por mim. Por mim.

Eu me levantei e fui até a parede, ficando de costas pra ela.

– Vá embora, Lily.

– Cygnus.

– Dominique não vai gostar de saber que você está na minha cama.

– Ela está morta, Cygnus...

– Não me importa se ela está morta. – respondi – Assim que meu corpo estiver regenerado, eu vou voltar pra ela e pro meu filho.

– Cygnus... por favor. – pediu Lily se levantando. Senti as mãos dela pelas minhas costas – Por favor... não faça isso... Eles estão mortos, Cygnus... deixe-os descansar.

– Não... Eu... – eu estava tão perdido... Lily me fez virar e encará-la.

– Olhe pra mim, Cyg. Olhe pra mim. – pediu ela. Obedeci, infeliz – Eu estou aqui pra você, Cyg... eu sempre estive... – ela soltou um suspiro e uma lágrima escorreu pelo rosto dela – Então... então volte pra mim, por favor.

– Eu te avisei, Lily. – murmurei – Que não voltaria mais.

– Por favor, Cygnus... – pediu ela chorando – Chega disso... você está se destruindo... Logo não vai sobrar nada de você... logo você vai desaparecer...

– Espero que não demore muito mais.

– NÃO! – disse ela me empurrando contra a parede. Meu corpo inteiro doeu e eu fiz uma careta de dor, caindo no chão. – O que houve, Cygnus? O que foi?

– Será que você não se cansa de me machucar, Potter? – perguntei deitando-me fraco no chão.

– Me perdoe. – pediu ela – Eu não sabia que estava fraco assim. – murmurou ela me olhando assustada, se ajoelhando ao meu lado. – Parece até que você... desistiu de viver, Cygnus... – não respondi, olhando para o lado, fugindo do olhar dela. Lily soltou um suspiro e se curvou sobre mim – Não desista de viver, Cygnus... eu ainda estou torcendo por você... eu ainda estou aqui pra você, ok? – perguntou ela colocando as mãos no meu rosto.

Então senti os lábios dela contra os meus. A princípio fiquei tenso, me perguntando o que Dominique iria pensar...

Mas a verdade era que Dominique não era real. Lily sim. Então a beijei de volta.

– Lily...

– Shh...

Voltei a beijá-la.

– O chão... está muito frio

– Eu esquento você...

– Você é maluca.

– Eu sei...



[n.a — o Sinistro]

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentem