Cycloudy
15 Procura
Notas iniciais
Minha percepção do mundo havia mudado. Talvez a conexão com Jess, uma vez reanimada e reestabelecida por completo, tenha feito algo em mim se modificar e amadurecer. Eu via o tempo de outra maneira, as relações humanas para mim eram quase sempre vazias, uma vez que a humanidade não dê a real importância e profundidade que todas elas (as relações) deveriam ter. Eu comecei minha caminhada nesta vida de forma torta e difícil, mas sobrevivi, com a ajuda do meu parceiro de alma, eu pude caminhar mais além do que realmente chegaria se estivesse sozinho. Eu entendia agora tantas coisas que antes nem sonhava em entender, muitas delas, não saberia explicar com palavras; espiritualistas chamariam isso de “despertar”, talvez? Seja como for, eu havia me tornado mais sério em minha vida. Terminei o ensino médio com minhas ótimas notas, logo comecei uma faculdade de direito, e em pouco tempo, sim porque realmente passa rápido, eu me formei e comecei a trabalhar. Minha relação com meu irmão estava ótima, ele havia feito outra faculdade, desta vez acredito que tenha acertado, escolhendo Educação Física. Eu o via feliz trabalhando no que gostava, regularmente nos visitávamos, ele tinha agora sua própria casa e eu havia alugado um apartamento. Nunca mais havia visto meus pais, com relação à isso eu havia desistido. Meu pai nunca me procurou por conta própria, e essa relação, assim como com minha mãe, eu havia dado como causa perdida. Mas tudo bem, eu havia estudado para ser um bom advogado e ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade à alcançar seus direitos, trabalhava em uma área que me permitia isso, e mesmo com uma ferida no meu coração, que eu receava que jamais se curaria, eu me realizava em meu trabalho. E com isso, meus dez anos restantes haviam chegado. Eu não sabia bem quando eu partiria, mas sabia que seria em breve. Frequentemente Jess e eu tínhamos e mantínhamos contato. Desde a primeira fusão que havíamos realizado, nossa conexão mudou e se tornou mais forte. Eu podia dizer com propriedade que isso era incrivelmente mágico! Sabia como ele se sentia, sem nem ao menos estar com ele, era como um fio invisível que nos ligava.
Me olhava no espelho naquela manhã, penteando meus longos e negros cabelos. Tufos e tufos saiam no pente, meu rosto estava mais pálido que o normal, e meus olhos estavam sem vida. Aquele corpo estava alcançando seu prazo de validade, eu sabia disso e apesar de aparentemente ser assustador a quem olhasse de fora, não o era para mim. Acontece que eu tinha uma outra visão da vida, eu já havia morrido uma vez, quem não teria uma nova percepção depois disso? Enfim, muitas pessoas no trabalho notavam minhas mudanças que eram muito notáveis. Eu estava ficando doente, e nem mesmo as melhores pílulas de Jess podiam curar aquele corpo que nunca me pertenceu de verdade.
- Você precisa ir ao médico, Cody! – Chad me olhava preocupado.
- Sabe que nenhum médico humano saberia mais que a medicina Cycloudiana, né?
- Mas..
- Chad, isso foi um trato. Eu teria mais dez anos e essa era minha data limite. Não há o que fazer. Meu tempo foi estendido, veja pelo lado bom, era pra você ter perdido seu irmão há dez anos, no entanto tivemos uma segunda chance. Sejamos gratos e vamos aproveitar esse tempinho que nos resta, juntos, ok? – Chad desabara a chorar. Juro que não esperava por isso, aquele homem grande e musculoso, chorando com a cabeça deitada em meu colo, quando mais parecia uma criança.
- Eu não quero perder você!
- Você tem seus pais, eles são sua família, jamais estará sozinho e eu prometo que venho te ver no meu corpo Cycloudiano! – Ele parou de chorar, me olhando com atenção.
- Você jura?
- Sim. – Eu disse, esticando o dedo mindinho, que ele cruzou com seu próprio.
— Promessa é dívida, lembre-se disso!
- Vou me lembrar. – Falei, puxando-o para um abraço forte e caloroso.
Naquele mesmo dia, havia ido para uma audiência no tribunal, estava resolvendo uma causa, quando recebi uma ligação de um número estranho que considerei não atender.
- Atende, pode ser importante. – Sabrina havia me dito, sim ela era advogada e minha colega de trabalho, pode um trem desse?
- Não costumo atender números fora da minha agenda, geralmente ou é golpe de bandido, ou é golpe da operadora querendo me roubar à mão desarmada.
- Ah não! – Sabrira rira, enquanto se apoiava em mim para gargalhar. Ela havia se tornado uma mulher extremamente linda em todos os sentidos, apesar de arrasar corações por onde passava, ela ainda arrastava uma asa pra mim, e todos no trabalho sabiam disso. Me questionavam do porque eu não lhe dava uma chance. Eu respondia que já havíamos tentado na adolescência, mas que não dera certo. Sabrina por vezes saía comigo para beber, as vezes passava do limite e as cantadas e mãos bobas começavam. Eu havia me tornado um homem bonito, nunca havia cortado meu cabelo, que de alguma forma me lembrava da minha verdadeira casa, que não era aqui, neste planeta, e olhar para ele, me reconfortava. Com o corpo alto e mais musculoso, meu ar feminino havia sumido por completo e ninguém saberia minha verdadeira polaridade se apenas se baseassem no meu físico e minha voz grossa.
A ligação insistia, até que se tornou insuportável.
- Alô? – Escutei uma respiração ansiosa do outro lado da linha. – Alô? Com quem quer falar? Alô??? – Ninguém respondera, até desligar.
- Quem será? – Sabrina indagara.
- Não faço ideia. Deve ser trote. – Respondi. Não dei importância e continuei minha vida, indo para casa ao anoitecer.
Olhava pela janela do meu andar, via toda a cidade lá de baixo. Era engraçado que antes, me considerava sozinho, agora já não era assim. Morava no décimo terceiro andar, havia uma bela sacada ali, por onde frequentemente Jess entrava para dormirmos juntos. A mania de adolescente ele jamais havia perdido e ao contrário de mim ele não envelhecia, continuava com a mesma cara de um rapaz de dezessete anos. Já eu tinha a aparência dos meus vinte e seis, ou mais talvez.
Troquei de roupas, havia tomado um banho e estava mais relaxado após um longo dia de trabalho, até que o interfone tocou.
- Sim?
- Senhor Cody, há uma senhora aqui que deseja subir e falar com o senhor. Ela disse ser importante. – Me perguntei se algum cliente havia descoberto meu endereço, e isso era preocupante.
- Qual o nome dela?
- Sra. Jaquelyn. – Ao ouvir a menção daquele nome, pude sentir minha espinha gelar. O que minha mãe viera fazer aqui? Foi o que me perguntei de imediato. Pra ela me procurar, provavelmente não deveria ser algo bom.
- Deixe subir. – Respondi, sabendo que poderia me arrepender. Eu tremia dos pés à cabeça, não era possível que esse fantasma me assombrava tanto até hoje. Eu era um homem adulto e aquilo ainda acontecia.
Ela tocou a campainha e eu a atendi. Estava muito diferente, mais magra e muito mais velha. Parecia estranhamente menor e menos ameaçadora do que na minha infância. Ela me olhou como se não me reconhecesse, eu não havia mudado tanto assim desde o dia em que Chad me fizera um bolo.
- Pois não? Em que posso ajudá-la? – Eu disse, com certa indiferença em minha voz. Minha mãe era a figura que mais me mantivera ali (na Terra) por todos esses anos, e quem eu nunca pude alcançar, e cumprir meu propósito. Mesmo ela ali, diante de mim, não me fizera mais ter esperanças.
- É você mesmo? Cody? – Ela perguntara, me olhava um pouco confusa.
- Sim, sou eu. A senhora quer entrar? – Ela meneara a cabeça em positivo e adentrara minha sala. Eu liguei a luz, e ela olhara absolutamente tudo no cômodo. Minha casa era bonita, móveis novos, bem arrumada e limpa. Possuía um sofá minimalista, tv grande, uma cortina fina na sacada, uma mesa de jantar no ambiente seguinte. – Sente-se. Quer beber alguma coisa? Água, café...?
- Não, obrigada. Eu vim para lhe falar algo importante. Você não tem falado com seu irmão?
- Falei com Chad tem uma semana. Aconteceu alguma coisa? – Ela baixara a face.
- Ele sofreu um acidente há três dias.
- Acidente?! Como assim? Como ele está???
- Ele não está bem. Seu carro foi atingido por um caminhão, seu fígado foi danificado. – Eu não estava acreditando no que ouvia. Como isso foi acontecer? Senti minhas mãos tremerem ainda mais, esfreguei meu rosto com força. – Eu e seu pai... não somos compatíveis. Não podemos doar a ele. – Eu havia entendido. Casos assim poderiam acontecer. Eu não sabia bem o que pensar. A vi largar a bolsa de lado e então, com certa dificuldade, ela se ajoelhara ao chão. – Me perdoe. Eu fui uma péssima mãe para você, eu o rejeitei e agora preciso da sua ajuda. Preciso da sua ajuda para salvar seu irmão. Você é a única alternativa que me resta. Me perdoe por tudo que te fiz. – Ela dizia com a cabeça baixa. Eu era a única alternativa para salvar seu filho amado e querido. Não sabia dizer se seu arrependimento era real. Talvez ela só estivesse me dizendo aquelas palavras porque não tivesse escolha. Seja como fosse, eu não sabia se realmente poderia ser útil.
- Não sei se posso ajudar. – Ela erguera a face, me olhando ferozmente. – Estou doente. Não tenho muito tempo de vida. Não sei se meus órgãos estão bons o suficiente e irão servir para meu irmão. – A vi derramar inúmeras lágrimas de uma só vez.
- O que quer dizer com “não tem muito tempo de vida”?
- Quero dizer isso mesmo que a senhora ouviu.
- O que você tem?
- Uma doença sem cura.
- Como você não nos disse nada?
- Como você espera que eu dissesse isso a vocês? Você me expulsou de casa, me disse que não era mãe de um homem estranho como eu.
- Está mentindo porque não quer fazer a doação para seu irmão! – Eu pressionei minhas têmporas. – Você sempre foi assim! Sempre opositor, desafiando seu irmão e sua família!
- Levante-se. – Ela se levantara, notei que tremia. – Vou falar com meu médico. Ver se sou compatível e se posso fazer a doação. Mas lembre-se, eu não farei isso por você e sim pelo meu irmão. Que isso fique bem claro. Se a senhora acredita em mim ou não, não me importa. Não estou aqui para agradar você ou tentar te convencer. É uma estranha para mim. – A vi arregalar os olhos, talvez não esperasse que eu dissesse o que falei. Ela virou as costas e se foi, sem dizer uma única palavra, apenas deixara o cartão do hospital em que Chad estava, na minha mesa, e saíra, batendo a porta com força. Sentei em meu sofá. Faria de tudo para salvar Chad.
“Jess, preciso da sua ajuda, é urgente.” Eu disse em pensamento. Algumas horas depois, Jess aparecera na sacada.
- O que aconteceu? – Eu o olhei, lágrimas escorriam de meus olhos. Jess viera até mim, me abraçando fortemente, enquanto acariciava minhas costas.
Contei a ele toda a situação, e praticamente implorei sobre salvar meu irmão.
- Você é compatível sim. Já havíamos feito esse teste. Seus órgãos podem perdurar por mais tempo, podemos energizá-lo antes da cirurgia, e isso aumenta a vida útil do órgão em questão. O problema seria você.
- Eu?
- Você pode não resistir à cirurgia. Seu corpo atual, em conjunto e seu coração.
- Tudo bem, isso não me importa.
- Sabia que diria isso. Vou ao hospital ver a situação. Farei o acesso e te aviso quando será a cirurgia. – Me aproximei de Jess, e pousei minha mão em seu ombro.
- Por favor, salve meu irmão. É a única coisa que te peço. – Jess meneara a cabeça em positivo.
- Pode contar conosco. – O puxei para um abraço, beijando seus lábios em seguida. Chad era minha única família terrestre. Ele tinha uma vida inteira pela frente.
O “acesso” a que Jess se referia, era simplesmente pôr memórias falsas na mente de todos os humanos envolvidos, e realizar a cirurgia com os Cycloudianos especialistas. Sua medicina era muito mais avançada, e estava clara a intervenção. Ele entrou em contato comigo no dia seguinte, a cirurgia estava marcada para daqui três dias.
“Se despeça de seus amigos, Cody. Essa passagem é só de ida.”

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