Notas iniciais
Este prólogo passou por uma revisão no dia 23/02/2015. Se você o leu antes disso, por favor, releia-o.

Prólogo

Estava no terceiro copo de conhaque. Aparentemente, depois do acidente, era incapaz de ficar bêbado. Perdera um dos maiores prazeres da vida. Depois de constatar isso, Hector pagou a conta e saiu do bar que outrora resolvia a maior parte dos seus problemas. Mas não dessa vez.

Quando deixou o laboratório do Doutor Smith, há dois anos, recebera a notícia de que o acidente havia afetado, de algum modo, o seu sistema limbíco: a parte do cérebro responsável pelas suas emoções. Ele agora era sociopata metade do tempo. Ter perdido quase cinquenta por cento do corpo e sobrevivido não era nem de longe tão estranho quanto aquilo.

Andar pelas ruas escuras de Madtown deixou de ser um incômodo para Hector. Seu olho biônico era capaz de enxergar perfeitamente nos locais sem iluminação. Ainda estava suscetível à assaltos, é claro, mas seu sistema límbico parecia mais preguiçoso no período noturno, e a ausência do medo era suficiente para fazê-lo voltar para casa andando tranquilamente.

Ainda não havia descoberto o paradeiro de sua mulher Verônica e de seu filho Bruce. A Polícia Federal não tinha conseguido pistas sobre eles, e sequer sabiam o que poderia ter causado a explosão de seu carro no meio da estrada. O Jornal em que trabalhava havia fechado, deixando-o desempregado, e todos os seus amigos de trabalho haviam se mudado. Estava basicamente sozinho.

Hector tinha o braço, peito e ombro direito e perna esquerda de titânico com um mecanismo eletromecânico capaz de substituir com eficácia os membros perdidos. A lateral da cabeça, assim como o olho direito, também foram perdidos, sendo substituídos por um olho biônico e um microcomputador. Infelizmente, a ciência ainda não era capaz de reproduzir com precisão as emoções humanas. Sendo assim, Hector perdia ocasionalmente a sua capacidade de sentir. Se em um instante a saudade de sua família lhe apertava o peito, no outro ela lhe parecia praticamente irrelevante. Se perguntava por quanto tempo seria capaz de conviver com aquilo.

Estava a duas quadras de casa quando fora abordado por um homem encapuzado. À alguns metros em sua frente, segurava uma .38, apontando para ele. Hector não esboçou nenhuma reação de surpresa ou desespero, e calculou que isso implicaria numa ação mais violenta do bandido à sua frente.

– Meio imprudente andar sozinho à essa hora, não acha? — Perguntou o homem.

Hector usava uma jaqueta de couro preta, óculos escuros e chapéu-coco. Àquela distância, e com a baixa iluminação, o ladrão não podia ver que parte do seu corpo era feito de metal. Considerou usar aquilo à seu favor.

– Então o que você está fazendo aqui? — Respondeu Hector, sorrindo.

O homem levantou a arma na altura do ombro.

– Você não tem medo de morrer não?

– Não me leve a mal, mas medo é uma coisa que eu só sinto de vez em quando atualmente.

Ouviu-se então o primeiro disparo da .38, que atingiu em cheio o ombro direito de Hector, perfurando sua jaqueta de couro.

– Você é bem ruim de mira, hein? — Disse Hector, fingindo irritação. — Era uma das minhas favoritas.

A mão do bandido tremeu antes do segundo disparo. Dessa vez, o projétil acertou de raspão o lado direito do seu rosto, e o som do metal ressoando tomou conta do local. Então o homem começou a recuar, assustado, sem tirar os olhos de onde as balas haviam acertado o rapaz à sua frente.

– Diga-me... – Hector, indo em direção ao ladrão, que ainda recuava — O que você faria se pudesse se livrar de sua humanidade por algum tempo?

Quando o homem encapuzado fez menção de disparar outro tiro, sua mão foi envolvida por um aperto metálico, e ele viu seu pulso partir no instante seguinte com um “craque” ruidoso, fazendo-o ajoelhar no chão urrando de dor.

– O que diabos você é?! — Gritou o rapaz.

Hector retirou seu óculos e seu chapéu-coco, bem como sua jaqueta, deixando à mostra seus membros de titânio e seu olho biônico.

– Eu sou só um jornalista que estava de passagem.