Notas iniciais
>> O rascunho do Capítulo 2 ficou muito mais curto do que deveria, então eu o integrei ao Capítulo 1. Se você leu esta fic antes do dia 20/02/2015, por favor, releia este capítulo. >> Este capítulo passou por uma revisão no dia 23/02/2015. Se você leu este capítulo antes desta data, por favor releia-o.

Capítulo 1

Três dias antes do acidente.

“Será que já não somos Ciborgues de fato? Diga-me, senhorita Coleman, quanto do seu tempo é dedicado à internet? Quando foi que você postou seu último tweet? Quantas selfies você possue em seu celular? As crianças de hoje preferem brincar na rua ou jogar video-game? Quantas delas já possuem um tablet? As seguradoras hoje possuem planos especiais dedicados exclusivamente à aparelhos eletrônicos. Percebe, senhorita Coleman? Estamos cada dia mais reféns da tecnologia, algumas vezes valorizamos ela mais do que nossas relações interpessoais. Os vírus de computador não afetam somente às máquinas. Nós, usuários, também somos atingidos. Confiamos nossos dados à sistemas que sequer conhecemos a origem. A única diferença entre nós e os Ciborgues é que, até agora, a tecnologia ainda está fisicamente separada de nossos corpos, porque nós já carregamos ela conosco aonde quer que vamos.”

Hector acabava de lavar a louça do café da manhã quando Bruce roubara o controle da TV e a desligava. Agradeceu mentalmente a seu filho; já não aguentava mais ouvir o filósofo e escritor Philip Pond falar sobre seu livro Tecnologia: Solução ou Problema?, onde aparentemente dizia que o ser humano havia se tornado dependente e inútil sem a tecnologia, sendo que o próprio não teria sequer metade da audiência que possui se não fossem as redes sociais que propagavam suas ideias conservadoras.

– Bruce, meu filho, não se desliga a TV assim quando tem gente assistindo! — Reclamou Verônica, tomando o controle da mão do garoto.

– Mas tava muito chato, mamãe. — Contestou o garoto.

– Estava mesmo, eu não aguentava mais. — Concordou Hector, enxugando as mãos na toalha da cozinha. — Bom garoto!

Verônica fez uma careta para ele, enquanto Bruce caía na risada.

– Eu não gosto do Pond, mas tenho que concordar com ele dessa vez. A análise dele foi bastante coerente. — Explicou Verônica.

– A análise dele foi bastante rasa — Retrucou Hector. — Culpar a tecnologia é muito mais fácil do que fazer uma reflexão sobre o panorama geral da sociedade moderna. O avanço tecnológico não surgiu sozinho.

– É verdade, mas seria ingenuidade demais esperar que ele fizesse essa análise sendo que ele lucra justamente com esse modelo social, não acha?

Hector deu de ombros.

– Tanto faz. Vamos, Bruce, hoje quem te leva à escola sou eu.

Hector trabalhava no jornal The MadNews, que ficava no centro da cidade. Escrevia na sessão de tecnologia, que era uma das mais comentadas, uma vez que Madtown era famosa por desenvolver pesquisas científicas. A escola de Bruce ficava distante do seu local de trabalho, mas não se importava de levá-lo até lá. Ele sempre tivera o sonho de ser pai. Uma vez que o realizara, queria passar o maior tempo possível com seu filho.

Quando estavam na metade do caminho, notou que Bruce encarava em seu colo a capa de uma revista em quadrinhos da Marvel. O garoto parecia pensativo. Depois de um tempo, resolveu descobrir o que passava pela mente do menino.

– Algo errado, filho?

Bruce desviou o olhar da revista antes de perguntar:

– Pai, por que não existem super heróis negros nos quadrinhos?

Hector deu um sorriso triste. Ele, Verônica e seu filho eram um dos poucos negros que residiam em Madtown. Por conta disso, toda a mídia local era voltada para o público branco, incluindo as revistas de super herói que Bruce gostava tanto de ler.

– Eles existem sim, filho, só não são tão populares quanto os demais.

O garoto guardou as HQs na mochila sem falar nada, mas Hector resolveu fazer algo a respeito.

– Você sabia que certa vez a Marvel criou um Spiderman negro?

– Sério? — Os olhos de Bruce brilhavam com a notícia.

– Sério. O nome dele é Miles. Quando você voltar da escola vamos procurar uma revista dele, que tal?

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Verônica estava bastante aflita. Recebera um telefonema àquela manhã da sua supervisora pedindo que ela comparecesse ao seu laboratório o mais rápido possível, mas não recebera detalhes do que poderia ter acontecido por lá. Ajeitou seu cabelo cacheado com as mãos, vestiu o jaleco às pressas e correu para a garagem.

Ela era bióloga e pesquisadora, com especialização em Anatomia e Fisiologia Humana. Há alguns meses, o governo começou a investir num projeto que visava construir próteses eletro-mecânicas que pudessem substituir membros perdidos ou auxiliar os deficientes com maior eficiência, e Madtown havia sido escolhida como a cidade-sede da iniciativa devido à sua rica reserva de minérios localizada naquela região. E há meses Verônica tentava fazer parte daquela projeto. Havia desenvolvido junto com Hector, que era ex-engenheiro, dois modelos de próteses para os membros superiores e inferiores e enviado para o setor de criação da divisão de pesquisa, comandada pelo Doutor Smith. Ele era seu ídolo. Tinha esperança de que a ligação que recebera estivesse relacionada com aquilo.

O laboratório onde trabalhava ficava no extremo leste da cidade. Quando avistou da estrada o teto deste, forrado com painéis solares, notou no estacionamento em frente uma Land Rover preta, que Verônica não reconheceu. Uma coisa era certa: eles tinham visita. Parou seu modesto Corsa Hatch branco logo ao lado.

Passou pelas portas de vidro automáticas como um raio e se dirigiu para o recepcionista:

– Onde está a Thalia?

– A supervisora Thalia te aguarda no subsolo, senhora Volt. — Respondeu o rapaz. — A propósito, seu jaleco está do avesso.

Verônica xingou baixinho enquanto recolocava seu enorme jaleco branco e ia em direção ao elevador. O acesso ao subsolo era restrito aos pesquisadores de alto nível. Se ela fora chamada ali, algo realmente sério estava acontecendo. Estava tremendo de nervosismo.

O portão de chumbo abriu após a verificação de retina, e dentro da sala estavam sua supervisora Thalia, uma mulher branca e alta com cabelos negros, na altura do ombro, e um outro homem de cabelos grisalhos, que parecia tão concentrado lendo seus arquivos que não notou a presença da recém-chegada.

– Com licença — pigarreou Thalia — Doutor Smith, esta é a Verônica Volt.

– Sente-se, Volt. — Disse Smith, sem tirar os olhos do arquivo.

Verônica estava frente-a-frente com seu ídolo. E ele estava lhe dando ordens em seu próprio laboratório.

– Prefiro ficar de pé, obrigado. — Respondeu ela sem pensar.

O cientista finalmente levantou o olhar. Verônica encarou seus olhos azuis sem piscar. Deu um sorriso sem graça.

– Poderia me explicar como pretende fazer suas próteses funcionarem? — Ele se dirigiu a ela sem rodeios.

Thalia e Verônica se entreolharam.

– Claro. Bem, o senhor deve estar familiarizado com o processo de formação de sinapses… — começou ela, até ser interrompida por um gesto de mão impaciente do senhor à sua frente.

– Sim sim, vá direto ao que interessa.

– Então… as próteses atuais utilizam sensores apenas na superfície de contato entre a pele e o membro perdido, fazendo com que o movimento mecânico seja mais lento e impreciso do que o movimento natural do membro biológico seria, porque a prótese só é capaz de decodificar os movimentos após a chegada do impulso elétrico. O que eu proponho é que os sensores detectem os impulsos na origem, acelerando assim o processo de decodificação. Mas para isso…

– Vocês precisariam detectar de onde saem os impulsos e como eles se comportam em cada tipo de movimento — completou o Doutor Smith. — A doutora Thalia é realmente uma neurocientista bem competente. A ideia de vocês é excelente. Quem fez o design das próteses?

– Eu e meu marido — Respondeu.

– E ele está disposto a se dedicar a este projeto também?

– Bem… não. Ele trocou a engenharia pela escrita há bastante tempo. Mas temos todos os esquemas em mãos.

– Ótimo. Não se preocupem, vocês terão à sua disposição uma equipe de engenheiros e técnicos para colocar isso em prática.

Ela e Thalia ficaram boquiabertas.

– Então estamos dentro? — Perguntou a supervisora.

– É óbvio que estão — Respondeu Smith, se levantando. — Só existem duas condições. Vocês devem se dedicar ao máximo à esse projeto, e devem fazer tudo no mais absoluto sigilo.

Verônica franziu a testa.

Qual o motivo do sigilo? O governo anunciou aos quatro ventos que estavam trabalhando nisso.

– Nosso carregamento de materiais vindos da reserva de minerais foi saqueado no mês passado. — Explicou Doutor Smith, com um olhar preocupado. — Alguns dos nossos arquivos também sumiram dos nossos servidores. Não descobrimos quem está por trás disso; pode ser algum grupo da oposição ao governo ou algo ainda mais sério, mas até encontrarmos o culpado precisamos manter segredo para evitar que isso aconteça novamente. Entendido?

– Entendido. — Responderam em uníssono as pesquisadoras.

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Hector e Bruce caminhavam em direção à banca de revistas mais próxima da escola. O garoto já estava com o dinheiro em mãos, ansioso. A professora dissera à Hector que o menino passara o intervalo inteiro pesquisando sobre o Miles e outros heróis negros da história dos quadrinhos.

– Hey, moço, tem alguma revista do Spiderman com o Miles aí à venda? — Perguntou Bruce, vasculhando a banca.

– Sinto muito, jovenzinho, mas não recebemos revistas do Miles há um bom tempo. Mas podemos fazer um pedido pra você. Chegará em uma semana. — Respondeu o vendedor.

– Faça o pedido sim, por favor. — Pediu Hector. — Não gostaria de levar outra revista então, filho?

– Hm… — o garoto continuou vasculhando até achar uma revista que lhe chamasse a atenção. — Eu quero esse aqui!

– Cyborg! Excelente escolha, rapaz. Essa é uma história solo dele muito boa. Vou embrulhar para você. — Disse o vendedor.

– Não precisa, vou começar a ler agora mesmo. — Recusou o menino, olhando para a capa. — Hey pai, não acha que ele parece um pouco com você?

– Hector olhou bem para a capa da revista antes de responder:

– Ele usa o mesmo corte militar que eu mantenho desde que saí da Marinha… mas acho que sou ligeiramente mais forte e bonito.

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– Adivinha quem eu vou entrevistar?

Hector, Bruce e Verônica estavam na mesa de jantar. O garoto devorava em silêncio as páginas da revista recém-comprada, enquanto seus pais finalizavam o jantar e conversavam.

– Não faço ideia, Hector.

– Seu grande ídolo. — Disse Hector, colocando uma batata na boca.

– O Doutor Smith?! — Falou Verônica, mais alto do que pretendia.

– Não, o Philip Pond. Minha chefe achou que seria interessante para o jornal que eu o entrevistasse às vésperas do lançamento do seu livro. Agora vou ter que vasculhar um pouco da vida dele. Quem é Doutor Smith?

– Ninguém. — Ela tentou disfarçar.

Hector a encarou desconfiado.

– É um dos seus amores da adolescência?

– É sim. — Concordou Verônica rapidamente. — Espera, você vai vasculhar a vida dele também?

– Talvez. — Hector deu um sorriso malicioso. Ao ver que Verônica ainda parecia nervosa, acrescentou: — Estou brincando. Seus romances adolescentes não me interessam.

“Ainda bem”, pensou Verônica. Por pouco não quebrara o sigilo solicitado pelo Doutor Smith. Apesar de ela confiar inteiramente em Hector, não podia arriscar sua participação no projeto. Ter seu marido vasculhando a vida do seu novo orientador poderia estragar tudo.

– E então, do que se tratava aquela ligação que te deixou tão aflita pela manhã?

– Ah, era a Thalia. Começamos uma nova pesquisa e ela pediu para eu fazer umas horas extras, porque é algo bastante urgente.

Hector a encarou desconfiado novamente.

– Sei. Horas extras com o Doutor Smith?

– Hector, achei que meus romances adolescentes não te interessavam. — Respondeu Verônica, deixando a mesa de jantar.

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Verônica fora dormir cedo àquela noite, argumentando que precisava acordar mais cedo à partir daquela data, pois Thalia requisitava sua presença no laboratório uma hora antes do habitual. Hector, então, ficara responsável por colocar Bruce para dormir antes de começar suas pesquisas sobre o Philip Pond. Não estava muito animado com sua tarefa. Sua antipatia pelo filósofo era bastante conhecida.

"Quem sabe não acho alguma coisa comprometedora?", pensou ele enquanto colocava seu notebook na mesa da sala de estar. Começou pesquisando sobre sua carreira, mas não descobriu muito: Pond trabalhara em 5 jornais do país, tendo sido demitido de 4 deles e pedido demissão do último. Depois disso, ganhava a vida dando aulas de filosofia e escrevendo. Tinha dois livros publicados até então; ambos faziam uma análise contemporânea sobre obras de antigos filósofos: René Descartes, com o tratado As Paixões da Alma, e Johann Friedrich Herbart, com o Compêndio de Psicologia. Não encontrara mais nada além disso em seu histórico trabalhista.

Hector resolveu pesquisar agora sobre a carreira acadêmica do seu futuro entrevistado. Se formou em Filosofia em Harvard, mas antes havia cursado 4 semestres de Psicologia e 4 semestres de Medicina. Tinha uma tese sobre o debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky acerca da natureza humana, em parceria com John Smith. Neste ponto da busca, Hector parou um pouco. "John Smith... esse nome me parece familiar". Depois de alguns minutos, havia conseguido vários resultados de pesquisa que incluíam ambos os nomes. Ele abriu em seu notebook o artigo que parecia mais completo e começou a ler:

"O Projeto Sigma, desenvolvido pelos estudantes Philip Pond (medicina) e John Smith(mecatrônica), na Universidade de Harvard, propunha uma integração entre a mente humana e a tecnologia que, em tese, seria capaz de solucionar a maioria os distúrbios psicológicos catalogados até o momento. A ideia era projetar um microcontrolador responsável pela medição de impulsos elétricos e concentração hormonal no cérebro, e a partir destes dados manipular o comportamento neural através da aplicação de substâncias capazes de atenuar os sintomas dos distúrbios. Infelizmente, o Projeto Sigma foi abandonado antes de ser finalizado após divergências entre seus criadores, e todos os seus registros foram apagados."

Não havia mais nenhuma informação a respeito do Projeto Sigma, nem sobre o que poderia ter ocasionado o rompimento da aliança entre Pond e Smith. Intrigado, Hector desligou o notebook e se pôs ao lado de Verônica na cama. Talvez aquela entrevista fosse mais interessante do que ele previra.