Cyberpunk

1 Variáveis, o Universo e defenestração


Notas iniciais
Peço desculpas pela escrita meio que informal. Eu to tentando adaptar esses textos para uma narrativa cyberpunk, e Variáveis foi a primeira tentativa. Por isso a grande quantidade de falas e a narrativa se desenvolvendo nelas. Ainda quero aperfeiçoar esse estilo. O capítulo ainda não passou por revisão.

- Acende um cigarro ai, valeu.

A de franja quase abaixo dos olhos acendeu um cigarro e deu uma tragada. Tossiu, como sempre. Nem valia mais a pena tentar, os cigarros por algum motivo obscuro à todos os seres sentientes do Universo não gostavam de Saya.

Ela girou o pequeno vício pelos dedos, como um desocupado qualquer faria com uma caneta ou lápis, e depois jogou para o amigo.

Com uma agilidade incrivel para o nível de embriaguez que alojava-se em seu corpo, Clappie segurou o cigarro e botou na boca.

- De nada — Saya disse depois de um tempo.

- Eu já tinha agradecido, antes de você jogar — retrucou ele.

- Ah, sim. Mas e se eu não jogasse?

- Eu sabia que você ia jogar. E que ia tentar fumar antes. E tossir depois.

- Eu sou tão previsível assim? — Perguntou num tom de voz estranho, mas que denunciava certa curiosidade.

- Não. Você é uma das mais imprevisíveis variáveis do universo. Mas é que eu te conheço, e você sempre faz isso.

- O que você quer dizer com \"uma das mais imprevisíveis variações do universo\"?

- Variáveis — Ele corrigiu.

- É, isso aí.

- Não sei. Sinceramente, não tenho a menor ideia. Mas toda vez que penso nessas duas palavras juntas, ou até mesmo separadas mas em uma mesma frase, eu lembro de você. E tem uma sonoridade legal. É como um motto cool e misterioso.

- Legal. Acho. Eu preferia outras palavras pra me descrever. Não me pergunte quais, mas poderiam ser mais bonitas.

- Bonitas é um conceito muito... normal. Não pense em coisas normais, nem em estéticamente aceitáveis para os padrões da sociedade — Foi cortado subitamente.

- Mas eu sou assim. Tipo, olha pra mim, eu sou a perfeita transgressão das regras estéticas da sociedade reunidas em uma única imagem viva e andante. — Apontava para cabelos e roupas enquanto falava.

- Então como a modesta da transgressão sentiente dos padrões estéticos você deveria entender que a beleza das palavras não está no seu significado comum, ordenamento das vogais e consoantes ou mesmo a sonoridade, está na aglomeração delas, de preferencia sendo elas incomuns e não usuais, em uma sentença una que possa descrever com perfeição um momento, uma pessoa, sensação ou uma parada muito louca.

- O que você usou hoje?

- Hymn 43

- Que droga é essa?

- É uma música do Tull pra falar a verdade. Tô limpo hoje. Na real to um pouco \'assim com essas paradas desde que o Pit teve uma over.

- O Pit? Nem tava sabendo. Era o cara de black power, não?

- Isso. Ele tava num apartamento em New Kobe City, de uns caras que ele conheceu no acampamento de Kombis. Aquele que teve um show de bandas de ritmos cubanos. Ele ficou amigo dos caras e tava trabalhando pra eles em Kobe. Ai sei lá, em uma noite ai ele passou mal e tacaram ele da janela.

- Credo. Também, olha onde ele foi se meter.

- O que tem?

- New Kobe, com uns caras que ele tinha recém-conhecido naquele camping de kombis. Olha o nível.

- Mas eu até entendo ele, o cara nem tinha mais pra onde ir. A mulher botou pra fora de casa.

- Por causa das drogas?

- É, ela precisava de mais lugar pra botar as máquinas. Conseguia tirar mais dinheiro produzindo e vendendo que com o antigo emprego do Pit.

- Só.

- E New Kobe é foda mesmo. Ela tem aquele cadeião de prédios amontoados cheio de drogados, ai quando os caras vão pra lá e acabam em over o pessoal só taca pela janela. A polícia nunca consegue descobrir de onde que foram jogados. Se é que ela se preocupa em procurar.

- Também, nem conheciam o cara. Do contrário sei lá, teriam procurado um hospital. Pelo que sei Kobe é cheia deles.

- É, pode ser. Mas tacaram o dono do apartamento também, e olha que ele nem tava tão mal quanto o Pit.

- Pessoal hospitaleiro. Vou me lembrar de não me envolver com ninguém de New-K.

- O Cid não é de lá?

- Não. New Venice.

- Então a Lee.

- A \'El é de Akihabara. Por isso que a gente chama ela de Akiba.

- Certeza? Eu lembro que um dos seus casos é de New Kope.

- You\'re wrong. Ninguém é de lá.

Saya pegou um cigarro jogado no meio da bolsa jeans rabiscada. Corria ele entre os dedos com velocidade, mesmo com aquele anel com diamante falso pintado de preto atrapalhando o percurso do pequeno objeto.

Aproveitou o silêncio para refletir um pouco. Lhe ocorreu que não tinha certeza de quem era Pit. Conhecia mais de uma pessoa que tinha cabelo black power. Uma delas agora estava morta. Não se importou muito com isso, embora o bom-senso, escondido em algum lugar dentro daquela cabeça cheia de estimulantes e de fios tingidos mandasse hora ou outra um espasmo de informação por entre os neurônios mandando-a sentir pena, ou algum sentimento parecido.

Um relampejo de piedade chegou a passar para dar um abraço e um oi em seus pensamentos, e depois sumiu tão subitamente quanto apareceu. Passou a pensar em Akiba, a croata de olhos puxados filha de um tubo de ensaio francês e uma mãe tailandesa e que tinha o penteado mais estiloso que ela conhecia.

E o nome também. Li Sai-Feng Staussberg. Se um dia Saya mudasse de nome, seria para uma combinação tão exótica quanto a de Lee. Até desconfiava que a própria tinha comprado o nome, por mais que sua mãe também levasse o mesmo sobrenome. Embora não parecesse tão difícil convencer uma mulher que viajou milhares de km para ir numa rave na Croácia e que no dia seguinte decidiu ter uma filha com genes franceses.

Se bem que poderia ter sido ela que sugeriu a mudança de sobrenome para a filha. De qualquer forma não era isso que preocupava Saya.

O cigarro parou de girar e caiu no all-star preto de cano longo. Uma relíquia do final do século XX que forçou 3 meses de trabalho como garçonete em um restaurante de comida brasileira. Saya jurou nunca mais se aproximar de biquinis com plumas o resto de sua vida.

O tenis seria queimado pelo cigarro se esse estivesse aceso. A dona da relíquia ficou pouco menos de um minuto de boca aberta, sem falar uma palavra sequer.

- Cú — Disse.

- O que foi?

- A Lee é de Kobe sim. Não nasceu lá, mas morou quase a vida toda. 16 ou 17 anos, acho. Que merda, vou ter que terminar com ela.

- Cacete, você vai fazer isso mesmo? Cara, não é porque ela passou 15 anos em Kobe que ela vai defenestrar qualquer um que conhece.

- Tá, mas ela passou o período mais importante da vida do ciclo de vida humano no que se refere à formação psico-social e mental na cidade onde se joga junkies pela janela.

- Ela mesma disse que tinha estudado em um colégio interno-convento até os 13 anos. Eu tenho certeza que as freiras não ensinam essas coisas para as minas la dentro.

- Clappie, um convento, em New Kobe? Eu não consigo imaginar um lugar pior... ou melhor, não sei, pra estragar a cabeça de uma pessoa. Porque você acha que ela é lésbica?

- É, acho que você tem um ponto. Mas sei lá, acho que você ta tomando uma atitude muito extrema. A guria é gente fina. Ela consegue umas paradas legais pra gente de vez em quando.

- É, aquele fogão de butano veio bem a calhar no trailer.

- E também tem os sanduiches de trangênicos. O namorado dela trabalha num MC não é?

- Não, ele não é mais namorado, ela deu um tempo pra homens. Mas ela continua roubando os sanduiches de lá. Pelo menos até trocarem a senha.

- Ela deu um tempo pra homens?

- É. Por quê?

- Nada.

Eles ficaram em silêncio por mais algum tempo. Saya jogou o ultimo cigarro que encontrou na bolsa surrada para Clappie e ocupou seus dedos com uma caneta sem tinta. Contou três voltas completas do objeto entre os dedos até resolver quebrar o silêncio.

Clappie estava quase chegando na metade do cigarro. Observou Saya e deu uma baforada, sabendo o que vinha pela frente. Ela ia dizer: \"nada é o *alguma palavra delicada*\".

- Nada é o caralho. Por que o subito interesse na Lee?

- Não é interesse nenhum, eu só peguei o ponto mais relevante do que você disse e fiz uma pergunta, pois me chamou a atenção. Nada demais.

- E porque isso te chamou a atenção?

- Eu não sei, caralho, foi uma resposta automática, já disse.

Saya subiu em cima da mesinha que a separava do amigo. Chutou o e-reader em cima da mesa para o sofá próximo e se aproximou de Clappie.

Os braços cobertos por mangas longas de listras brancas e pretas se cruzaram. Ela se inclinou para a frente e encarou Clappie. Ele respondeu jogando uma baforada de cigarro no rosto dela. Saya apenas tossiu e tirou os óculos.

Os olhos ainda ficavam escondidos pela longa franja. Clappie gostava dos olhos dela. Um era roxo, obviamente uma lente de contato, e o outro verde natural. Mas não queria vê-los agora. Não gostava de olhar para eles quando a garota ficava emputecida com ele.

- Você, por acaso...

- Não!

Sabia o que Saya ia perguntar. Resolveu negar desde o início, sem nem deixar ela terminar a pergunta. Tinha pouca esperança de que funcionaria, mas não custava nada tentar.

- ...pegou ela?

- Não!

- E quando foi isso?

- Não foi.

- Antes ou depois de eu começar a pegar ela?

- Eu nunca peguei ela!

- Você fudeu com ela!

- Não, não foi bem assim!

- Não foi bem assim??? O que aconteceu, caralho? Foi antes ou depois??

- Não vou falar, você vai chutar o meu saco. Você sempre faz isso, sempre chuta o meu saco. Não é legal fazer isso, dói pra porra isso!

- Chutar? EU VOU PULAR EM CIMA E PISOTEAR se você não falar agora quando foi isso!

Era incrivel como ela podia ser persuasiva e convincente, sem usar a violência física. Ainda.

- Foi... enquanto você tava com ela..

Clappie se encolheu o mais rápido que pode. Uma onda violenta de agressões teria início e ele não podia fazer nada. Óbvio que não ia revidar, afinal Saya era uma garota. E sua melhor amiga. E também tinha uma razão perfeitamente plausível para espancá-lo.

O que estranhamente não aconteceu.

- E-eu não consigo.

- Ahn? — Clappie ficou realmente curioso.

- Ta t-tremendo tudo.

As mangas listradas se estenderam buscando equilibrio. Sem sucesso. Em seguida foram as pernas. Ela logo perdeu controle sobre uma e ficou na na ponta do pé em cima da mesa.

Não demorou muito para desabar. Caiu com metade do corpo no sofá e a outra permaneceu na mesa. Conseguiu girar o corpo, com o rosto virado para cima. O teto branco começava a ser ocupado por riscos vermelhos e azuis.

Feixes multicoloridos saiam de qualquer fonte de luz naquele quarto. TV, notebook, player de música e até mesmo a janela. Pelas frestas da cortina vinham as variedades de amarelo e verde.

Sentiu calor. As listras brancas e pretas começavam a ficar molhadas de suor. Não era a roupa com que se preocupava.

A maquiagem ia ficar toda borrada.

- Saya?

- Ta esperando o que pra me ajudar, imbecil?

- Sei lá, achei que tava morta.

- E desde quando mortos respiram?

- Foi mal. Misturou as drogas, não foi?

- Claro que não. Acha que sou burra? Deve ter sido os antidepressivos com o hex que eu tomei antes de vir pra cá...

- Você misturou hex com antis? E ainda pergunta se eu acho que é burra?

- Obrigado pelas palavras de conforto ENQUANTO EU TO TENDO A PORRA DE UMA OVERDOSE AQUI!

- Talvez. Você tomou muito?

- Dois comprimidos e três hex — disse ofegante, depois de pensar um pouco.

- Ah, tranquilo então. Quer dizer, tranquilo não. Você vai suar pra caralho e tremer por uns dez minutos. E ficar vendo umas paradas muito loucas. Pelo menos essa parte é legal.

- Certeza?

- Não. Daqui a dez minutos a gente vai saber.

- Maravilha. Droga. Ta, vamos continuar o assunto de antes — Um arco-iris se formou na sua frente, saindo da janela e indo até a televisão. — Não, melhor não.

- Você que sabe. Vou pegar um copo d\'água.

- Ta. Clappie? — Esperou que o amigo se virasse. Ele fez, na metade do caminho pra cozinha.

- O que?

- Tipo, se acontecer qualquer coisa... da pra não me jogar pela janela? — Ouviu a risada dele.

- Eu jamais faria isso. Nunca fui pra Kobe.

Notas finais
Uma história mais light para um universo cyberpunk, por assim dizer. Os temas devem variar em cada conto que eu colocar aqui. O nome da Saya veio da personagem de Blood+, New Kobe City de Snatcher e parte do nome da Lee de uma atriz chinesa. Hex seria uma droga em comprimido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.