Curupiragem
1 O Curumim de Pés Virados
Notas iniciais
https://youtu.be/SngmWaj_xQg
—- Música para a leitura --
Ahhh.
Como a vida é relaxante às vezes, não?
Eu estava atoa na vida, em algum lugar dos arredores da floresta amazônica.
Eu viajava com um rumo vindo de um lugar distante, mas não podia ignorar uma sombra tão pronta para ser alvo de meu descanso.
Este é meu alvo, uma gigante árvore – uma mangueira, pra ser mais exato, que traz em seus princípios um ar relaxante e uma sombra refrescante. Eu descansava os olhos e o corpo enquanto comia de seus frutos nesta bela manhã.
Ahhh.
O que poderia estragar isso?
(...)
Foi quando eu comecei a sentir algo estranho, algo vindo em direção a mim, ou perto de mim.
Especificamente, uma pessoa.
Não, não. Não tem como uma pessoa conseguir me peitar tão fácil assim, afinal...
— G-Gwaaaaaahh!! – eu gritei.
A figura havia aparecido e de alguma forma me surpreendido, eu estava começando a suar e tremer. Quando eu detecto algo ao meu redor, eu automaticamente saio correndo, e não foi diferente. Instantaneamente me levante, e comecei a... ah.
— Ca... caipora... – todos os efeitos do meu corpo mudaram de nervosismo para descaso quando vi o que estava na minha frente.
— Eu mesma. – A besta em formato de mulher sorriu para mim.
É, ela mesma. Grande Caipora. Era aquela pele bronzeada ao laranja extremo que me tocava. Relativamente mais baixa que eu, seus olhos cansados e relaxados rodeados completamente por tinta carmesim me amedrontavam, mas ela não era nenhum tipo de ameaça. Notei também seu sorriso resplandecente característico, enquanto ela mantinha seus braços nas costas e inclinada seu tronco para mim. Era extremamente parecida comigo, coitada, mas havia uma juba maior, vermelha e mais bagunçada; e em vez de ter folhas sobre o corpo, carregava penas coloridas que cobriam seus peitos, cintura, e, por algum motivo, eram apetrechos do seu cabelo. Ela era basicamente uma elfa anã laranja, relativamente mais baixa que eu, pois nós dois assumíamos a forma de pré-adolescentes.
— Interessante, Curupira. Desde a última vez que você veio, não achei que começaria a... – Ela descaradamente botou a mão na boca – reparar tanto no meu corpo.
— Não fique se achando como primeira impressão! – Respondi com ódio.
Ah sim, maldita Caipora. De tempos em tempos eu venho visitado ela – e com de tempos em tempos eu me refiro a mais ou menos cada 50 anos. Acho que ela é uma das únicas que mantenho alguma interação social positiva pelo mundo inteiro, já que não posso fazer contato com nenhum humano, afinal, eles são meus inimigos mortais. Aliás, criar amizade com ele estragaria minha vida, meu objetivo de vida, e estragaria a floresta que quero tanto proteger.
— Ora, ora, ora, para quê mentir? Ou devo dizer... que ainda está confuso? Ora, Curupira, pode ser que você... finalmente atingiu a puberdade? – Caipora falava com um tom bobo.
Eu não lembrava como uma guardiã da floresta conseguia ser tão irritante assim. Caipora já fora em algumas aventuras comigo para se divertir com alguns humanos idiotas por essas diversas matas, apesar de ela não morar exatamente perto de mim. Para ser mais exato, moramos em estados vizinhos.
Encontrei a garota quando a, vejamos, duzentos – trezentos anos atrás? Eu era apenas um garotinho inconsequente pelo mundo. Inocente, não sabia nada. Aliás, não mudou muita coisa, pois até hoje não sei nada. Eu estava perambulando pelo mundo, por ter sentido certa solidão, e curioso com o que tinha pelos outros lugares onde moro. Quando encontrei Caipora, pensei que ela era mais uma humana e institivamente ataquei ela, mas depois de ela contra-atacar, mostrando seus poderes de controle de animais, eu percebi que ela era igual eu e ganhamos contato.
Apesar disso, não posso ficar muito tempo com Caipora, pois minha floresta não pode ficar tanto tempo sem mim, já que preciso cuidar dela. Caçadores não são mortos sozinhos.
— Eu tenho mais de quinhentos anos, jumenta.
— Ora, ora, indiozinho – mais um "ora" e eu a mato – ser uma entidade mística não o impede de ter puberdade tardia.
U-uma puberdade tardia de mais de quinhentos anos!?
Eu não quero contribuir para esse tipo de conversa.
Bufei e revirei os olhos.
— Hihihihi, já está se estressando, querido? De fato, de fato, o momento da puberdade trás as emoções a flor – meu deus, ela não parou com a piada ainda.
O quanto você vai insistir nisso? Bufei novamente e mudei de assunto o mais rápido possível:
— Ok, Caipora, mas o que é que você quer?
— Que tipo de olá é este? Só queria dar um abraço no meu índio preferido. – A besta resmungou.
— Se você considera o abraço como um susto e calafrios no meu cangote, você já o fez, pode ir embora.
— Espera, esse não era literalmente o significado de abraço?
C-como você chegou a esta definição?
(...)
— Enfim, Caipora, tem um motivo de eu estar aqui.
— Sim, sim, você estava desesperado para ver meu rosto porque não consegue parar de pensar em mim.
— Não tire conclusões idiotas!
— Ah, entendi então, sua puberdade simplesmente estava a flor e você precisava de uma imagem sexual para te agradar.
— Podemos parar de falar de puberdade por dois segundos!?
Ela levantou as mãos ao nível do ombro, suspirou, acenou negativamente com a cabeça e debochou:
— Curupira... você sabe que não tem o que fazer se você fica constantemente olhando minhas partes sexuais.
Gritei:
— F-Foi de relance!
Ela deu um sorriso com uma cara de sarcasmo. Botei a mão no rosto
— Enfim, voltando ao assunto... eu... vim aqui pois preciso de sua ajuda – Comecei a ter um tom sério – bom... como eu digo isso? Coisas estão acontecendo de um jeito que não deveriam acontecer.
— Espere, voltando ao assunto? – A monstra indagou – Não pode ser que você de fato quer desviar seu interesse sexual tanto assim.
Calma, ela me ignorou completamente?
— Digo, se você quer tanto meu corpo é só pedir, Curupirinha.
Sim, ela me ignorou completamente.
Dei um tapa no rosto dela.
(...)
— N-não precisa ser tão rude comigo...
Eu a fixava com uma expressão de desprezo e impaciência. Ela retomou:
— Ok, ok, o que você quer? – Ela ainda grunhia um pouco de dor passando a mão no local do tapa.
— É sobre o Saci.
— Ah, Saci.
— É, o Saci. Pererê, especificamente.
— Legal. O que tem?
— Bem... não tem. – Respondi. Ela concentrou os olhos num tom confuso.
— Como? – Caipora indagou, inclinando sua cabeça à direita.
— Aparentemente tribos estão morrendo de pouco em pouco por todos os lugares, eu tenho observado isso faz algum tempo.
— Bom, humanos morrem, não? – Ela argumentou.
— Não dessa maneira.
— Talvez seja uma delas. – Ela retrucou, colocando o dedo em direção ao queixo.
— Bem, talvez. Não normalmente.
— Qual é o ponto?
— Eu acho que todas essas mortes vêm de doenças que tribos não conseguem curar.
— E? Não é normal existirem doenças incuráveis? – Indagou – O que isso tem a ver com o Saci?
— Bem... – Respondi – Você sabe, Saci Pererê é o responsável natural do meio ambiente para zelar pelas ervas da floresta, fabricação de chás e medicamentos feitos com plantas.
— Sim, sim, claro que sei. – Confirmou Caipora, junto com o balanço vertical de sua cabeça.
Ela não sabe, né?
— Como as outras entidades místicas naturais da floresta, ele tem uma função e existem para manter tudo em ordem. A função é cuidar e proteger todas essas ervas, além de ser o mais culto dentre estes conhecimentos medicinais dessas gramas. Se eu não me engano, ele também ajuda índios necessitados com seus aprendizados.
Caipora fazia uma cara boba de atenção e surpresa enquanto caminhava lentamente em voltas. Quando parou, ela perguntou:
— Então... você acha que as mortes dos índios são culpa dele?
Eu mexi a cabeça, botei meu dedo em minha bochecha enquanto pensava e respondi:
— Não exatamente culpa, mas... aparentemente, é como se ele não estivesse atuando na sua função.
— Isso não seria classificado como... assassinato indireto?
— O quê? Ele não está matando ninguém – indaguei.
— Curupira, ter a chance de salvar alguém de ser morto não é a mesma coisa que matá-lo? No final de tudo, em ambas as situações ele podia ter impedido isto.
— Não é bem assim. – Respondi, tirando o dedo da bochecha
— Como é?
— Eu acho que ele está perdido.
— Hein? – Caipora entrou em dúvida.
— Desaparecido, especificamente. – Expliquei, e os olhos curiosos de Caipora dentre aquela tinta vermelha arregalaram.
— Isso... é importante. – A elfa respondeu e voltou a caminhar em círculos.
— Eu sei que é.
— Eu sei que você sabe que é.
— É.
— Resumindo, você acha que o Pererê está desaparecido pois índios estão sem ervas, que são problema dele, e quer saber se eu sei o que está acontecendo? – Falou enquanto olhava para o céu brilhoso.
— É.
A moça parou, sorriu, me olhou, inclinou a cabeça e respondeu:
— Não sei.
— Ah.
— Foi mal.
— Tudo bem.
— Mas, hmm... – ponderou a entidade – veja bem, qual é o sentido disso?
— Do quê?
— Especificamente, do Saci realmente fazer tanta falta para o mundo como você diz. – Falou a garota, retomando sua caminhada
— O quê? eu já falei, você sabe, plantas medicinais.
— Não, não, Curupira – acenou negativamente com a cabeça – Pense bem, Saci não é só um?
— Aparentemente.
— Por que a natureza ia se dar o trabalho de criar algo como o saci para algo em tão baixa escala?
— Não estou entendendo.
— Quer dizer, o Brasil tem várias e várias e várias florestas. Se fosse este o real objetivo do Saci então ele teria que cuidar da floresta amazônica inteira, o que é fisicamente possível.
— Hm... – continuei – está dizendo que não faz sentido o Saci ser responsável especificamente pelas ervas?
— É, talvez seja isso, por que a natureza faria isso?
— Primeiramente não faz sentido a natureza não fazer isto, mas também não tem sentido a natureza apenas fazer isto. – Completei – E se isto acontece aqui, e dá certo, tem que ter alguma maneira de acontecer em outros lugares.
— Essa é minha dúvida.
— De qualquer modo, não tem problemas enquanto a isso, pois a natureza não pode fazer algo sem sentido ou causaria um distúrbio no mundo, então...
— Então?
— Provavelmente existam coisas mais abrangentes do que pensamos – Continuei – Como, mais entidades espalhadas pelo Brasil do que jamais pensaríamos que existiria. De qualquer modo, tem que ter uma explicação.
A moça deu um passo poderoso para frente, levantando um pouco de poeira, manteve-se firme, virou seu pescoço para cima e apontou diretamente na minha cara para soltar:
— Oh, vejo que seu único argumento é que... – Ela me fixou os olhos – a natureza é perfeita?
— Não é meu argumento, é minha tese. – Expliquei, colocando a mão dela para longe de mim. – E aliás, seguindo sua lógica, não faria sentido nós mesmo existirmos, não? Afinal, eu sou um grande responsável pela segurança da floresta e animais.
Depois disso ela voltou à sua posição normal.
— É? Eu pensei que você existisse para ser pedófilo
Eu friamente ignorei isto.
— Além de que você também é uma grande responsável pela segurança da floresta e animais. Eu não sou o único com esse serviço.
— Isso faz sentido. E, bem, se considerarmos que o único lugar que está em crise de saúde é o lugar que você viu, então este é o único lugar que o Saci está.
— Dessa maneira, já sabemos que o Saci não deve estar em outro lugar além das redondezas, não é?
— Ao menos, se estiver, tem algo muito errado.
Caipora sentou-se de pernas cruzadas no chão empoeirado, botou a mão em seus joelhos e perguntou:
— Então, o que faremos?
Eu sentei de pernas cruzadas no chão empoeirado, botei a mão em meus joelhos e respondi:
— Era o que eu queria saber desde o início.
— Ah... – A menina abaixou a cabeça e deu um esboço.
— Ora, ora, ora. Você vai precisar que eu vá com você numa jornada ou algo do tipo?
— Ugh, seus oras me irritam.
— ...Responda à pergunta antes de criticar.
Bufei.
— Se você quiser. não tenho o que fazer mesmo. – Respondi franzindo o cenho, com os braços cruzados e uma expressão facial de deboche – Estou preocupado com minha floresta.
— Não aja como se ela fosse só sua.
— Ela não é de todos?
A cabeluda se levantou e me redirecionou sua mão ao responder:
— Vamos zelar por ela juntos então.
Dei um leve sorriso e agarrei a mão dela para se levantar.
Bufei também.
(...)
Depois disso, a conclusão é que prosseguíamos pela floresta procurando algo para fazer enquanto conversávamos casualmente. Não posso dizer que não gostava da presença da Caipora. Afinal, até agora, ela era minha única companhia na vida toda.
Enquanto caminhávamos, às vezes discutíamos algumas coisas importantes sobre o que faríamos e nossos objetivos para suprir esse grande mistério do saci. Primeiro, a Caipora sugeriu o seguinte:
— Bem, Curupira, se você veio até mim com a intenção de colher informações sobre isto, por que apenas não fazemos o mesmo, mas com outras entidades da floresta?
Não me parecia uma ideia ruim. Na verdade, é exatamente o que precisávamos fazer, afinal, entidades são os que mais sabem sobre outras entidades. Se você pensar bem, humanos não têm nem certeza que entidades existem. Além do mais, se fizermos contato com humanos, eles iriam surtar, fugir, ou nos atacar. Mas como havíamos discutido, se entidades servem para proteger e manter a floresta – e talvez até o mundo – em ordem, então existe uma diversidade maior do que pensamos sobre entidades.
Felizmente, descobrimos, por meio da mesma conversa anterior, que o Saci trabalhava nas redondezas, então, talvez, alguém das redondezas pode saber de algo. Só precisávamos procurar entidades que também trabalham nas redondezas, e nisso, Caipora também ajudou:
— Que tal... Boitatá? Sabe, aquela cobra misteriosa de fogo... não sei muito bem sobre, só sei que ele mora no Rio Araguaia. Podemos adotar isso como objetivo temporário, pelo menos.
...Boitatá. Não sei se isso vai dar certo para algo tão perigoso e temido como o – ou a – Boitatá. O pior é: ninguém sabe direito como ele é. Na verdade, isso é um problema de entidades em geral, sendo todos eles baseados apenas em rumores e lendas e nenhuma pessoa sabe como funciona de verdade. Alguns dizem que Boitatá é uma cobra gigante de fogo, outros dizem até que é um touro que lança fogo. É difícil manter contato entre entidades com conceitos são abstratos assim. De qualquer forma, algo particular que falam sobre Boitatá em todas as versões é que sempre envolve fogo. Isso não pode ser muito seguro.
Mas afinal, somos todos da mesma floresta, não pode ter muito problema.
...Certo?
Por fim, acabou que decidimos trilhar um caminho direto para Rio Araguaia. O sol escandalizava em nosso corpo, mas nada que já não tenha virado costume depois de mais de quinhentos anos seguidos trilhando sobre terras escaldantes e céus ferventes. Nosso objetivo era o Rio Araguaia, que ficava, creio eu, a alguns quilômetros daqui, mas nada demais. Pelo menos, não para mim. Em meio à caminhada, me redirecionei a Caipora e reclamei:
— Sabe, você está sendo um puro estorvo. Se não fosse por você, já teria chegado lá em alguns instantes.
Afinal, consigo correr em velocidades imensuráveis por seres humanos... apesar da pequena deficiência em meus pés virados para trás. Na verdade, pelo menos agora eu consigo correr. E correr muito. Houve uma época em minha vida que eu perdi tudo por causa dos meus pés, mas isso é outra história. Eu nunca pude testar muito meus limites de corrida pois só usei ela para despistar e enganar caçadores, o que não levava muito esforço. Então... não sei bem qual é meu limite, talvez eu até possa correr mais rápido que a luz. Caipora me retrucava:
— Ah, Curupira, como se você não precisasse de ajuda vinte e quatro horas por dia... eu preciso cuidar do meu bebê.
Virei os olhos e corei de raiva e vergonha. Que menina chata. Apesar de que ela não está cem porcento errada. Estou andando por lugares desconhecidos, e, se eu me descuidar, posso ser vítima de algum deslize. Estou no momento indo contra as regras da natureza, já que eu devia estar na minha região. Então, se acontecer algo a mim, a culpa vai ser minha. Minha imortalidade só serve para velhice humana, não tenho nenhum tipo de resistência contra machucados... nem... picadas de cobras... ou... fogo ardente.
Engoli em seco.
(...)
Cinco exaustivas horas se passaram desde que começamos esta caminhada que tinha como objetivo encontrar o Rio Araguaia. Meus pés estavam fervendo e meu cabelo estava pegando fogo de tão quente. Espera. Não. Ele é originalmente assim.
E em meio a tudo, Caipora questionava meus objetivos de novo:
— Ainda não entendi por que planeja fazer isso, Curupira.
Não é óbvio, ora? Eu quero proteger a floresta, proteger o que eu preciso proteger. A floresta é uma das minhas responsabilidades como entidade mística florestal, não posso decepcioná-la tão vagamente assim. Caipora não devia se questionar sobre isso, também. Afinal, ela também não é uma protetora da floresta? Do que ela está falando?
É como se suas convicções fossem falhas... ou são as minhas?
Não, não. É a floresta. Nós dois somos protetores dela. É algo bem óbvio.
A anã continuava seus argumentos, delicadamente bagunçando seus já bagunçados cabelos:
— Você sabe, se está preocupado com as ervas da floresta, não devia. Isso são responsabilidades do Saci.
O que ela está dizendo não faz mais sentido nenhum. Esta primeiramente sempre foi uma missão para procurar o Saci, não? Quer dizer, eu estou preocupado com a falta que o Saci está fazendo na floresta. A falta da óbvia necessidade dele. Isso já foi discutido antes. Claro, Saci cuida da sua parte de ervas medicinais, ele é devoto a isto. Não quer dizer que eu não me preocupe com essa parte, mesmo que eu tenha sido feito para proteger outros atributos da floresta.
Outros atributos da floresta, não é?
Bem... por que então estou cuidando de outros atributos que não são responsabilidade minha mesmo? Eu não deveria apenas manter minha posição?
Não, não. Não é assim que funciona. A falta de Saci está afetando a vida como um todo, afetando os seres humanos, e afetando a própria floresta. É algo que eu preciso me preocupar. Sabe... é o Saci. Caipora dava mais justificativas, com seu pescoço levantado e seu dedo no queixo:
— Está certo que você não se preocupa exatamente com a floresta. Seria sua preocupação então apenas... Saci?
A continuação dessas hipóteses me irrita. Por que ela simplesmente ignora que eu apenas estou protegendo o que eu amo? É a floresta. Isso devia ser senso comum. Por que a insistência? E ela persiste:
— Não, não, não. Seriam... humanos? Essa é sua preocupação? Bem-estar dos humanos?
Bem... sim, talvez!? Por que ignoraríamos coisas tão cruciais como humanos? Por que ignoraríamos vê-los sofrerem de maneira tão injusta mesmo podendo fazer algo contra? Não fazer algo em relação a morte de humanos não é o mesmo que matar humanos? Não é assassinato? Depois disso, eu seria culpado de assassinar humanos... É doentio. Não tem como não se preocupar com uma coisa dessas. Logo eu, alguém designado para proteger servindo para matar? Caipora me surpreende com suas próximas palavras:
— Ora, ora, ora. Talvez, na verdade, a preocupação de Curupira, no fundo, bem no fundo, seja... a si mesmo?
Eu falei, irritado:
— Seus oras me irritam!
— ...Ao menos responda minhas perguntas antes de criticar.
Bufei.
(...)
Que descaso.
Argh.
Qual é a dela?
Ela está me chamando de egoísta?
Ou pior?
Não entendo mais.
Eu não sou egoísta.
Pare com isso. Pare com isso. Pare com isso.
Eu apenas quero salvar o que gosto.
Apenas...
Apenas...
Eu quero apenas ser útil.
Se eu não tenho mais utilidade nenhuma, não seria certo eu proteger o que é precioso para mim?
Afinal, eu finalmente estaria sendo útil em algo...
Não é... papai?
...Não?
(...)
— Ei...
Eu ouvia uma voz conhecida.
— Ei, ei...
Eu ouvia uma voz irritante.
— Ei, Curupira, querido, acorde.
Ah.
Abrir os olhos foi como sofrer um maldito de um devaneio.
Aparentemente eu dormi um pouco no caminho para o Rio Araguaia e Caipora me levara nas costas. Que donzela. Mas veja bem: estamos... aqui.
Consigo sentir uma mistura de cinza, preto e vermelho na atmosfera. É um lago comum, são gramas verdes comuns, o céu escuro está comumente estrelado. Mas tem alguma coisa errada. O lago está limpo e bonito. Lindo, na verdade. Só que está tudo absurdamente desconfortável. Não entendo.
Algo ruim está acontecendo aqui.
Algo ruim habita aqui.
Este lago propriamente dito é algo ruim
— Ora, ora, é aqui que mora Boitatá. – informou Caipora.
Engoli em seco.
Lembrei do nosso objetivo.
Caipora continuou:
— Vamos, Curupira, chega de Curupiragem. Provavelmente precisamos adentrar este lago para conhece-lo.
...Curupiragem? Isso é um novo termo?
— C-claro... – com gotas saindo de meu rosto, respondi.
Em tremedeiras, eu caminhava lentamente em direção ao lago. A noite estrelada só reforçava o meu medo. Eu continuava prosseguindo porque tinha que fazer o que eu tinha que fazer...
Eu apenas prosseguia.
Eu prosseguia.
Eu... entrei no gelado lago e suspirei:
— O-ora... ora...
Bufei.
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