Cultura indígena de Santa Catarina
6 O povo Xokleng, ou, Laklanós
Notas iniciais
A Reserva Indígena Ibirama está situada ao longo dos rios Hercílio (antigo Itajaí do Norte) e Plate, que formam um dos vales da bacia do rio Itajaí-açu. Localizada em três municípios catarinenses, cerca de 70% da área está dentro dos municípios de José Boiteux e Doutor Pedrinho. O outro município é Vitor Meirelles, que abriga algumas aldeias.
Inicialmente denominada de “Posto Indígena Duque de Caxias”, foi criada pelo chefe do governo catarinense, Adolfo Konder, em 1926, que destinou aos Xokleng uma área de 20.000 hectares. Em 1965, foi oficialmente demarcada e, em 1975, recebeu o nome de “Terra Indígena Ibirama”.
O nome Xokleng nunca agradou ao povo indígena, pois eles se autodenominam como “Laklanós, o povo que caminha em direção do Sol”.
Inicialmente denominada de “Posto Indígena Duque de Caxias”, foi criada pelo chefe do governo catarinense, Adolfo Konder, em 1926, que destinou aos Xokleng uma área de 20.000 hectares. Em 1965, foi oficialmente demarcada e, em 1975, recebeu o nome de “Terra Indígena Ibirama”.
O nome Xokleng nunca agradou ao povo indígena, pois eles se autodenominam como “Laklanós, o povo que caminha em direção do Sol”.
História
Os antigos Xokleng não eram uma sociedade organizada, eles eram caçadores que perambulavam pela mata sem rumo, em busca do sustento para a família, cujos grupos eram formados entre parentes consanguíneos.
Os casais mais estáveis, com uma vida em comum, não passavam de 20%. Quer dizer, os laços entre a tribo se estabeleciam mais pelo sangue, do que através do casamento. Por esse motivo, havia afinidades inconstantes entre eles, o que lhes dava certa insegurança, pois sempre olhavam para outros grupos familiares mais como diferentes, do que como membros de uma mesma tribo. Não havia a cooperação em torno de um trabalho coordenado, como tampouco a tribo se esforçava em alguma empreitada em comum, pois somente a cooperação entre parentes próximos acontecia sem reproches, nem brigas, nem desacordos. E esse costume hostil e de desconfiança entre as linhagens provocou o afastamento uns dos outros por longo tempo.
As famílias eram compostas de cinquenta a trezentas pessoas, as quais eram descendentes de irmãos que casaram com esposas que pertenciam à mesma estirpe, primos talvez, e de seus filhos que se casaram com seus parentes de sangue. Dessa maneira, eles sabiam os nomes de seus ancestrais, até os mais antigos, como avôs, bisavôs, tataravôs etc. Também sabiam os nomes dos que já morreram, dos filhos deles e o lugar de todos na linha genealógica.
Esses homens ancestrais são personalidades tão reais e gravadas na memória coletiva, que seus dados vão até onde a lembrança consegue chegar. Houve alguns casamentos com outras famílias, mas a quantidade de casamentos dentro da mesma estirpe supera toda expectativa. Ao se relacionarem através do sangue, o conceito de serem um povo grande e, por esse motivo, eles viveram isolados uns dos outros no meio da floresta, arriscando-se, inclusive, a enfrentarem brigas com outras tribos de outras etnias.
Aqueles que mudaram de uma família para outra, por casamento ou por captura quando crianças, eram vistos como parentes consanguíneos, e, por isso, inimigos dos seus antigos familiares, não sendo raro acontecer um ataque ou uma briga por parte da estirpe a qual pertenciam. No meio dos grupos consanguíneos existia poligamia, monogamia, casamento grupal, e ainda, os clãs, ou classe matrimonial.
Os Xokleng, durante alguns séculos, perambularam pelas florestas que cobriam as encostas das montanhas, os vales litorâneos e as bordas do planalto sul do Brasil, onde se encontravam os bosques de araucária que necessitavam para o seu sustento, além do mel, das raízes silvestres, da caça e da pesca. A colheita do pinhão era feita pelos casais. O índio subia no pinheiro para a derrubada dos frutos, e a mulher os recolhia no chão. Depois, juntos, quebravam os frutos para a retirada da semente.
Mas, essa vida despreocupada e livre terminou, quando os europeus chegaram a ocupar suas terras.
A escritora Maria Luiza Renaux Hering (1987), em seus livros de doutorado disse o seguinte:
“A colonização alemã acabou se concentrando nas províncias meridionais (Santa Catarina e Rio Grande do Sul) devido a pressão dos grandes proprietários de café, quanto a concessão de terras a estrangeiros, visto que o interesse do governo brasileiro era justamente estabelecer no país colonos que fossem pequenos proprietários livres, que cultivassem as terras da mata com o auxílio das respectivas famílias que não estivessem interessadas nem no trabalho escravo nem na criação de gado. No território catarinense o povoamento deveria ocupar os espaços vazios entre o planalto onde já se encontrava Lajes, e as três vilas do litoral”.
Em 1851 foi fundada a Colônia de Dona Francisca, na atual Joinville. Blumenau e Brusque nascem nos anos 1850 e 1860, e as 3 colônias se tornaram exemplo de colonização bem sucedida em Santa Catarina.
Mas a ocupação da região do Vale do Itajaí por imigrantes europeus foi uma ação conflituosa desde o início. Os colonos que por ali chegaram não sabiam que havia um povo morando nela. E os aborígenes, depois que iniciaram os assaltos às lavouras, foram enfrentados com fogo e fúria, pois todo o processo de colonização sentiu-se ameaçado. Surgiram então duas facções entre o poder político governamental: os bugreiros, que desejavam exterminar totalmente os Xokleng; e um grupo humanitário criado por frades e capuchinos, que tentava a catequização e a pacificação dos índios.
Os bugreiros geralmente atacavam os Xokleng com tocaias durante a noite, e era assim que matavam todos os adultos, poupando mulheres e crianças, as quais eram disseminadas posteriormente entre os colonos de Blumenau, Florianópolis e outras localidades. Mas, pouco a pouco, cresceu entre os colonos a intenção de não matá-los, embora os índios continuassem a ser vistos como obstáculo para o progresso.
Em 1907, cria-se a Liga Patriótica para a Catequese dos silvícolas e, em 1910, o SPI – Serviço de Proteção aos Índios –, que começa a estruturar os postos para fazer o aldeamento e colocar fim às matanças. Nessa altura, o povo possuía pouco mais de duzentas pessoas que sobreviveram aos massacres. Pode-se disser que os Xokleng quase foram totalmente exterminados.
Cultura do povo Xokleng:
Como o povo Xokleng era nômade, os artefatos que ele carregava eram poucos, apenas aquilo que a família conseguia levar. Suas moradias eram, portanto, provisórias: apenas uns paus com folhas, para passar a noite ou algumas semanas. Depois, eles continuavam o caminho à procura da caça e dos alimentos para recolher.
A manta de urtiga era carregada pelas mulheres. Era destinada para aquecer o corpo, principalmente nas épocas de amamentação das crianças. A urtiga era antigamente cultivada na beira do rio Hercílio. Ela era recolhida, fervida até ficar macia, e depois tecida em cima das pernas. Infelizmente, com a construção da Barragem Norte, as águas subiram até inundar toda a área onde ela crescia. Hoje ela só é encontrada nos museus.
Nos museus, podem ser achados também objetos que hoje não existem nem são mais utilizados, como são os artefatos de pedras. Encontram-se pedras grandes para moer grãos, como também pedras menores para socar os grãos
Os Xokleng foram ceramistas, igual aos Guaranis e Kaingangs. A característica principal dessas peças é a mistura do barro com o carvão, que dá uma cor acinzentada ao artefato. Dentre as peças havia panelas, pratos, cumbucas acinzentadas, sem decoração aparente. A queima dessa cerâmica era um ato sagrado e cheio de mistério, pois só era realizada por uma pessoa no meio do mato, sem a presença de mais ninguém.
Outros artefatos que eram feitos pelos ancestrais eram os cestos, alguns impermeabilizados com cera para carregarem líquidos. Esse tipo de cestos também não apresenta decoração de cores.
Contudo, o que eles mais aperfeiçoaram foram os armamentos. Os arcos e flechas eram de grande porte, o que dá a impressão de que os antigos Xokleng eram muito fortes, pois a resistência do arco para lançar a flecha é grande. Outra arma é a marreta, pontuda, pesada, para abater o inimigo. A lança, também de grande porte, era mais usada para abaterem porcos. As pontas dessas lanças eram queimadas para dar mais resistência. Porém, depois do contato com a cultura branca, a lança passou a ser feita de metal.
Cabe abrir um parêntese neste ponto, pois quando os imigrantes chegaram ao Vale do Itajaí e começaram a cultivar a terra, eles deixavam suas ferramentas abandonadas com a certeza de que ninguém iria roubá-las. Quando essas ferramentas agrícolas começaram a desaparecer, descobriram finalmente que estavam em terra de selvagens.
O aldeamento:
Em 22 de setembro de 1914, foi realizado o primeiro contato pacífico com os Xokleng, na foz do Rio Platé, por Eduardo de Lima e Silva Hoerhan, funcionário do Serviço de Proteção ao índio (SPI). Foi o começo do processo civilizatório.
A partir dessa data, o povo Xokleng tem convivido com inúmeras mudanças para se adaptar a uma vida diferente daquela que tinham. Aprenderam sobre agricultura, mudaram seu regime alimentar, trabalharam coletivamente e tiveram bastante incentivo por parte de Eduardo, que lhes assessorava.
Mas o aldeamento teve problemas de convivência com os fazendeiros desde o início. Tropeiros que deambulavam nas estradas vizinhas a eles, e que passavam uma vez ou outra para dar o ar de sua graça, tinham medo dos ataques dos índios. Além disso, alguns colonos chegaram a abandonar suas propriedades, pois contava-se coisas terríveis sobre os Xokleng, como se esses fossem desumanos, animais sem a menor piedade, fato que aumentava o medo de um ataque desprevenido.
Pedestres armados passaram a ser então uma força do governo, e eles circulavam perto das fazendas vizinhas para defender os colonos de ataques. Mas, em 1837, o governo se liberou de fornecer esses homens para o amparo dos colonos, e estes, então, passaram a usar armas de fogo quando achavam necessário.
Os Xokleng, por sua vez, tinham uma larga experiência em lutas, e as brigas e desavenças se alastraram através do tempo, chegando aos tempos atuais, em que se briga frente aos organismos federais por aumento de terras, demarcações, enfim.
Vida moderna:
Por um longo período, um número elevado de Xoklengues teve problemas visuais, pois não havia energia elétrica nas aldeias, o que os levou a forçar os olhos bem mais do que poderiam, principalmente as crianças na escola. Cabe assinalar que todas as aldeias dentro da reserva ficam muito longe umas das outras, e o caminho entre elas se dá geralmente a pé. Poucos possuem uma moto, ou uma bicicleta, ou um carro.
Por meio de inúmeros contatos culturais com a FURB, os artesãos Xokleng ministraram, dentro da reserva, o ensino de seu artesanato para alunos de Artes da FURB, entre eles dois jovens vindos da Alemanha. Ensinaram-lhes a fazer arcos e flechas, cerâmica, tecelagem e confecção de colares.
Alguns líderes Xokleng sonham com um futuro melhor para o seu povo, de mais desenvolvimento, em todos os sentidos. Assim como o povo Kaingang, os artesãos são organizados, viajam para outras cidades com seus produtos, e já fizeram festas dentro da reserva com comidas típicas e cerimônias dos ancestrais, como o batismo, que se faziam no meio do mato.
A necessidade de formação superior da juventude, com profissionais que lutem pela melhoria de vida de todo o povo dentro da Área Indígena, é um fato consumado. A necessidade de médicos, dentistas, advogados, engenheiros, arquitetos, enfim, profissionais que trabalhem dentro da terra, ensinando aos outros índios a solucionar o grave problema de autossustentação, tem levado muitos jovens a estudar na FURB, na UNIVALI, na UFSC, e outras.
Hoje, os “Laklanós, o povo que caminha em direção do Sol” nada têm que lembre os arredios índios que percorriam o mato, pois é um povo que em nada se diferencia dos fazendeiros brancos que o circundam. Afinal, crianças indígenas e brancas estudam na mesma escola de ensino médio, há muitos casamentos entre etnias, e a religião indígena não existe mais. A grande maioria dos Xokleng é da “Assembleia de Deus”, contribui com o dízimo para as igrejas, e as músicas gospel são entoadas nos dois idiomas, Português e Xokleng.
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