Cuidado com olhos negros.

1 Não os deixe entrar.


Lendas antigas contam histórias de pessoas que simplesmente desapareceram, depois de encontrar os olhos negros.

Elizabeth nunca acreditou em tais lendas, afinal, elas contavam que quando se vê alguém com toda a órbita ocular negra, é sinal de que a morte nos espreita. Teria, algo mais absurdo? Ela achava que não.

Era apenas uma noite comum, Elizabeth Lawrence, famosa psicóloga, trabalhava em mais um caso, era costume dela ficar horas e horas no pequeno escritório estudando seus pacientes.

“Como poderia entender e conhecer meus pacientes, se não dedicasse meu tempo integral a eles? ”. Era o que Elizabeth repetia toda vez que alguém lhe perguntava o porquê de tanta dedicação ao trabalho.

Elizabeth gostava do que fazia, desde pequena fora completamente fascinada pela mente humana, seu sonho era se tornar a mais respeitava psicóloga do mundo, sonho esse, que não se concretizou.

Enquanto trabalhava no último caso daquele dia, Elizabeth, involuntariamente, olhou o relógio, que marcava 23:30 min, passou a mão para tirar a franja dos olhos e suspirou:

“Tudo bem, já trabalhei demais hoje. ” Falou consigo mesma. “Preciso descansar. ” Finalizou fechando o fichário em sua mão e o colocando em cima de uma mesa a frente.

Levantou-se e caminhou até uma mesinha onde uma garrafa de vinho estava, colocou um pouco em uma taça e bebeu em um gole só.

Depois, devolveu o copo a mesa e caminhou até uma outra mesa, pegou sua bolsa em mãos e guardou dentro alguns papeis, celular e chaves.

Estava se preparando para sair, quando, a tela de seu notebook, acendeu.

Assustada, acendeu as luzes, que até então estavam fechadas pelo simples fato de que Elizabeth dizia pensar melhor no escuro, e caminhou até o notebook, iria fechar a tela, porém, algo lhe chamou a atenção, a tela acenderá e uma notícia estampava a tela.

Adolescente desaparecida, namorado alega sequestro.

“Falei com ela segundos antes do ocorrido, ela dizia estar sendo seguida, quando perguntei pelo o quê ou por quem, ela não respondeu, não conseguia, estava desesperada, a última coisa que ouvi, foi ela dizendo, que estava com medo dos olhos negros. ”

O namorado continuo alegando que sua namorada foi sequestrada por alguém. A polícia não deu esclarecimentos, está tudo correndo sigilo. Esperamos que encontrem logo esse assassino e/ou sequestrador.

Elizabeth leu a notícia e ao fim sorrio.

“Mídia e suas fantasias. ” Dizia ela. “Mais um desaparecimento envolvendo esses míticos olhos negros. Quando as pessoas gostam de uma lenda elas a usam sem parar. Infantis, deveriam ao menos criar histórias mais convincentes. ” A psicóloga falava, e ao fim fechou o notebook e caminhou em direção a porta, fechou as luzes e a porta e caminhou em direção ao elevador.

Enquanto o elevador descia, Elizabeth passava as mãos pelos braços, nunca sentirá tanto frio como naquela noite.

De repente as luzes do elevador começaram a piscar descontroladamente até se fecharem, confusa, Elizabeth mexeu na bolsa de onde tirou o celular, assustada Elizabeth tentava achar a lanterna.

“Ah, achei. ” Falou ligando a lanterna, levantou o punho e passou a lanterna por toda a extensão do elevador, que por algum motivo não havia parado. Quando se virou e passou a pouca luz pelo o espelho assustou-se, tinha visto dois grandes e inconfundíveis olhos negros a fitando.

Com o susto derrubou o celular no chão, o pegou rapidamente e logo o apontou de volta ao espelho, onde não virá mais nada.

Logo as luzes voltaram e se acalmou.

Durante o pouco percurso que faltava, Elizabeth não parou de pensar nos olhos que tivera visto.

“É sono ou estresse. ” Falou para si mesma, afinal, era uma psicóloga, sabia muito bem como o cérebro podia pregar peças.

Cansada saiu do elevador, esperava encontrar Senhor Felipe, o porteiro, porém ele não se encontrava lá.

“Estranho, ele sempre está aqui. Deve ter acontecido algo. ” Deu de ombros.

Caminhou até o portão, porém, antes de abrir verificou se tivera trazido a chave do carro.

“Que droga. ” Murmurou ao perceber que tivera deixado em cima da mesa, no seu escritório, lá em cima.

“Tenho que voltar. ” Falou consigo mesma. Girou os calcanhares, e quando estava prestes a entrar no elevador, ouviu algo bater no portão.

Virou-se e pode ver a silhueta de alguém pequeno, uma criança talvez.

“Sim? ” Elizabeth murmurou a sombra.

“Moça, poderia me deixar entrar? ” A pessoa perguntou. A voz, realmente parecia de uma criança.

“Ah, por quê? ” Elizabeth questionou a criança.

Afinal, poderia ser muito bem uma trombadinha querendo bancar um de inocente.

“Estou com fome e minha barriguinha dói. Quero meus pais. ” A criança falou com a voz chorosa.

“Está perdida? ” Elizabeth perguntou caminhando em direção ao portão.

“Me deixa entrar? ” A criança perguntou novamente, ignorando a pergunta de Elizabeth.

“Você está perdida? ” Elizabeth perguntou de novo.

“Vai me deixar ou não? ” A criança perguntou, sua voz saiu um pouco mais grave.

“Me responda, e poderei pensar. ” Elizabeth falou.

A criança se aproximou mais do portão,

“Não vai me deixar entrar, não é? ” Àquela altura, a voz da criança tivera se modificado quase que completamente, de doce e suave, foi para grave e forte.

Elizabeth assustou-se, porém o que a assustou de verdade, não foi a rápida mudando de tonalidade vocal, e sim o virá quando a criança levantou a cabeça e Elizabeth pôde ver seus olhos, duas grandes e inconfundíveis bolas negras.

“Meu Deus. ” Elizabeth gritou afastando-se. “Seus olhos. ” Ela disse.

“O que tem eles? Não são lindos? ” A voz grossa continuou.

“O que é você? ” Elizabeth questionou pondo a mão do outro lado da pancada, onde Felipe ficava, procurando por um telefone.

“Sou uma criança. ” A voz respondeu e riu.

Elizabeth ainda procurava um telefone, quando sentiu algo, parecia uma mão, rapidamente tirou a sua mão de lá e olhou o que era.

Era Felipe, e ele estava morto.

“Meu Deus, o que aconteceu? ” Elizabeth gritou apavorada.

“Gostou? Fui eu que fiz. ” A criança do lado de fora falou.

Elizabeth olhou horrorizada para a criança.

“Como você pôde ter feito isso? ” Ela indagou.

“Ele não me deixou entrar. ” A criança respondeu. “Tive que me vingar. ”

“Que tipo de monstro você é? ” Elizabeth questionou, agora sentindo lágrimas rolarem por sua face.

“Não sou um monstro. ” A criatura gritou alto. “Vai me deixar entrar? ” A criança perguntou com a voz doce de novo.

“Mas é claro que não. ” Elizabeth gritou de volta.

“Ainda bem que não preciso de sua permissão, afinal o portão está aberto. ” A criatura riu ao terminar, mexendo suas mãos até o ferrolho.

Desesperada, Elizabeth correu até o elevador, onde entrou e rezou para as portas fecharem logo.

Quando a criatura entrou, correu em sua direção, porém as portas fecharam-se antes da mesma a atacar.

Ainda assustada e chorando, Elizabeth pegou o celular, porém ele não tinha sinal.

Ela tentou manter a calma, tinha certa de uns dez minutou até a criatura chegar ao seu andar pelas escadas, isso se ela andasse como um humano. Elizabeth não tinha por onde sair, ela estava encurralada e com medo de morrer.

Quando o elevador parou, Elizabeth correu até a sua porta, entrou e trancou. Pôs todas as mesas que podia atrás da porta, para evitar a entrada da coisa, apagou as luzes e se escondeu dentro do banheiro.

Com medo e tentando controlar o choro, Elizabeth lembrou-se das manchetes sobre pessoas com orbitas oculares negras.

“Não isso é loucura. ” Ela sussurrou, não queria acreditar.

Do lado de fora, a criatura riu ao ver a frágil barricada feita por Elizabeth, barricada essa que foi facilmente destruída com um só toque da coisa.

Dentro do banheiro, Elizabeth gritava de pavor.

“Sei que está aí. ” A criatura falava.

“Vai embora. ” Elizabeth gritou de volta. “Por que quer me matar? ” A mesma gritou.

“Por que eu preciso. É divertido. ” A criatura respondeu.

“Não é divertido. ”

“Sabe que posso entrar no momento que eu quiser, certo. ” A coisa falou.

Elizabeth se desesperava cada vez mais.

“Você, tem algo haver, com....com as mor...mortes e desaparecimentos? ” Elizabeth perguntou.

“Mais ou menos. ” A coisa respondeu.

“Vai me matar? ” Elizabeth perguntou.

“Mais ou menos. ” A criatura respondeu.

Antes que Elizabeth pudesse ao menos processar a resposta, a porta foi arrebentada e a criatura sorria ao fitar a mulher desesperada perto da pia.

“Oi. Você me deixa entrar? ” A criatura riu.

“NÃOOOOOO. ” Foi a última coisa que Elizabeth pronunciou, pois, a criatura pulou em cima dela.

A última imagem que Elizabeth viu, foi seu próprio reflexo no espelho do banheiro, seus olhos já não eram verdes, eles estavam ficando negros.

Enquanto a criatura ria descontroladamente observando o corpo de Elizabeth no chão, o relógio marcava 00:00 min.

Cuidado, escrevo este relato pois passei por essa situação a alguns dias, se por alguma infeliz razão do destino você encontrar alguém, principalmente crianças, de orbitas negras, e ela pedir para entrar em casa ou no carro, NÃO DEIXE, pois, se deixar, você irá morrer.

No outro dia, o desaparecimento de Elizabeth estampava os jornais da cidade.

Naquele mesmo dia, uma senhora cuidava de sua casa e via o noticiário.

“Coitada dessa moça. ” A senhora murmurava vendo a tv.

Ao longe, uma criança fitava a casa com interesse no olhar.

Quando observado seus olhos, duas grandes bolas negras se encontravam no lugar.

Sorrindo a criatura sussurrou para si mesma.

“Será que ela me deixa entrar? ”.

Notas finais
Se você tiver a infeliz sorte de algum deles o encontrar,
NÃO OS DEIXE ENTRAR.

-Vick
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!