Cuidado com o Lobo Mau
1 Big Bad Wolf... Or not?
Notas iniciais
"Que lindo casamento!"
"Que lindo casamento", diz a dama de honra para um garçom
"Sim, mas que vergonha, que vergonha
a noiva do pobre noivo é uma vadia"
I Write Sings Not Tragedies– Panic! At The Disco
Emmeline Vance fora a primeira a desaparecer. Ou não desaparecer totalmente, visto que seu corpo – o resto que pode ser identificado no meio de lama e sangue – foi encontrado no dia seguinte. Desde então o pânico se alastrou pelo povoado de Godric's Hollow, como se o simples sair na rua fosse o pecado mais ultrajante dentre os sete existentes.
A fera, como foi carinhosamente apelidada por alguns, fez como sua segunda vítima Dorcas Meadowes, alguns dias antes de seu casamento com Remus Lupin. E novamente os restos de Dorcas – que consistiam em metade do rosto de porcelana, a mão esquerda e alguns tufos de cabelo loiro brilhante – foram encontrados na praça do povoado, exatas vinte e duas horas após seu desaparecimento.
O cheiro de morte juntamente com o da carne pútrida enfeitava as ruelas aqui e ali, fazendo com que bons pais não deixassem as crianças brincarem na rua, ou até mesmo fazendo covardes vestirem a pele de “bons homens” com espingardas na mão e fossem a caça.
Até alguns corajosos, como Amus Diggory e Sirius Black, tiraram as armas do fundo do baú, pularam os portões de casa e marcharam floresta adentro. Com Black e Diggory foram também os irmãos Lestrange e o próprio Lupin a tiracolo, com o pretexto idiota de vingar a morte da noiva.
Esses feitos heróicos eram, na opinião de Lílian Evans, uma perfeita perda de tempo. Afinal ela já vira a tal fera de perto, trazia em seu pulso direito uma marca para a comprovação – um fino risco que contornava toda a pele leitosa. Mesmo que com apenas cinco anos na época, ela se lembrava do pelo negro, das garras afiadas, dos dentes pontudos e dos olhos amarelados, completamente ensandecidos.
Os tão corajosos garotos seriam devorados, simples assim.
Sua irmã, Petúnia, dizia que Lily devia parar de ser pessimista e estar agradecida por seu noivo ter ido atrás da fera para protegê-la. Seu noivo era um outro ponto que gerava muito mais dor de cabeça a Lily do que algumas mortes, e no fundo a Evans torcia para que a fera o devorasse primeiro.
Porque ela não queria Amus Diggory como marido, fim.
Na visão da caçula Evans, Diggory era metido demais, se gabava demais e, claro, gostava de ser o centro das atenções. Lily o odiava simplesmente por ser Amus-faz-seu-coração-acelerar-Diggory – como Marlenne o tinha chamado – mas, acima de tudo, a ruiva o odiava por Amus achar que tinha algum controle sobre ela.
A McKinnon era outra que suspirava pelos cantos com o ato de “coragem” dos garotos – um em especial para ser correta – porque Sirius Black podia ter dito a Marlenne que iria caçar o monstro por ela, mas no fundo todos sabiam que Black era indomável e que jamais teria dona. O máximo que Marlenne conseguiria com ele seria perder sua honra ou uns beijos aqui e ali. Mas quem disse que a morena ligava para isso?
Contrariando as ordens de seus pais, Lílian pegou a capa rubra – um presente de sua avó, em comemoração aos seus dezoito anos e consequentemente seu fatídico noivado – e saiu noite afora. Iria resolver por si mesma o problema e aproveitar para checar se o Diggory havia sido “comido”. Claro que ela não iria se opor a fazer uma fogueira e dançar o resto da noite, caso isso tivesse acontecido. Longe disso.
Provavelmente já passava da meia noite e não seria nada bom para uma moça comprometida ser vista tão tarde fora de casa. Pensando no risco que corria com a possibilidade de ser vista por Régulo Black ou até mesmo Severus Snape – os “não corajosos” do ponto de vista de muitos em Godric’s Hollow, mas os sensatos na opinião de Lily – ela se esgueirou pelas ruas iluminadas pela lua.
Sendo acompanhada apenas por seus passos e sua própria respiração, Lily se lembrou do porque de estar fazendo tudo isso. Claro que Petúnia tinha que apostar que ela jamais iria atrás de algo tão perigoso, e claro, Lily como a destemida que era precisava provar que a irmã com cara de cavalo estava errada. Além disso, iria ser épico humilhar Amus, Sirius, Remus, Rodolphus e Rastaban, esfregando na cara dos cinco que ela, uma garota indefesa, como Amus deixara claro antes de lhe roubar um beijo e ir para a floresta – havia se livrado da fera e eles não.
No fundo ela sabia, estava sendo estúpida novamente. Estúpida por aceitar a provocação de Petúnia-cara-de-cavalo-Evans e depois de treze anos estar voltando ao local onde quase perdera sua vida. Mas Lily se lembrava do que era a fera e por isso sabia que ninguém – a não ser ela – podia ir contra aquilo.
Era mais uma noite amena de outono, provavelmente o verão chegaria em alguns dias e as infindáveis tardes no riacho local teriam início novamente. Lily bufou com isso, ela definitivamente odiava estar rodeada de muitas pessoas, especialmente daqueles garotos exibidos, que só sabiam tirar a camisa e espirrar água de um lado para o outro. Como odiava!
Um estalo a trouxe de volta a realidade, uma brisa fria lhe açoitou os cabelos, balançando a capa rubra de um lado para o outro. Logo a floresta caiu em um silêncio sepulcral e ela soube: algo estava por perto.
Rapidamente se lembrou da primeira vez que viu a tal coisa. Era só outra tarde e a pequena Lily Evans estava indo visitar sua avózinha doente. Claro que Lily era uma boa menina, daquelas que seguia as regras e tudo mais, embora naquela tarde ela tivesse passado por cima da maior regra de sua mãe: nunca, jamais falar com estranhos.
Mas, quem poderia dizer que aquele senhor bonito e carismático, escondia algo por debaixo da pele? Ele a elogiara tanto! Desde sua pele branquinha, até seu capuz vermelho novo, ele até lhe apelidará de Chapeuzinho Vermelho e lhe indicara o caminho mais curto a casa da vovó! Ele definitivamente era uma boa pessoa.
Isso, até mostrar as garras, os olhos amarelados e o pelo lustroso. E claro, quase ter ficado com sua mão como uma “lembrancinha” pela visita. Lily ainda se lembrava do cheiro ferroso do sangue, a ardência no pulso e a dor nas pernas por ter corrido tanto. Mas, acima disso ela se lembrava do medo, o medo que foi seu combustível por todos aqueles anos, para que mantesse a boca fechada e nunca ter dito nada a ninguém.
Só que agora, o medo sozinho não bastava. Não quando seu segredo podia cair por terra, por isso ela mesma ia resolver tudo, de uma vez por todas. Novamente o som de folhas de quebrando, retirou a ruiva da entranha de suas lembranças.
Lentamente ele vinha caminhando pela floresta, olhando de um lado para o outro, deixando a espingarda pender de um ombro ao outro. O cabelo estava maior do que ela se lembrava e a pele um pouco mais bronzeada, mas o que chamou sua atenção foram as mãos, banhadas em sangue escarlate.
Ele avistou sua pessoa, diminuiu os passos e sorriu mostrando os dentes extremamente brancos e os caninos pontudos. Esse era um daqueles sorrisos que faziam todo o interior da ruiva se esquentar, suas pernas balançarem e o coração falhar uma batida.
– Ora, ora. Vejam só quem deu o ar de sua graça. – Ironizou, fazendo uma reverência mais do que exagerada a sua pessoa.
– Esse tempo todo, eu sabia que era você. – Lily bufou indignada. – Pelo visto você esqueceu o que significa discrição.
A fera rosnou baixo, em completo desagrado as palavras da Evans.
– O seu tempo acabou, querida. E ser discreto, não faria você vir até mim. – Pontuou lentamente. – Eu sabia que tinha de apelar para sua curiosidade, para te arrastar até aqui.
– Depois de treze anos e você continua impossível.
– Não, Lily. Depois de treze anos você tentou me enganar, eu por acaso tenho cara de idiota? – Ele pegou bruscamente seu braço e a puxou para perto, e então Lily viu, os mesmos olhos amarelados de quando tinha cinco anos.
Quando a ruiva iria responder, um tiro passou zunindo em seu ouvido. Tanto ela como a fera olharam para trás, ao ponto de ver Amus Diggory engatilhando novamente a espingarda e mal se aguentando sobre as duas pernas.
– Lily! Saia de perto disso. — Amus gritou apontando a arma. — Ele… Ele saltou sobre Sirius e rasgou sua garganta. Por favor Lily, venha pra cá.
–Eu não acredito que você não matou Diggory! — A ruiva disse baixinho, mostrando-se insatisfeita com a fera.
– Deixe para você um pouco de diversão. — A dita cuja sussurrou no ouvido da garota. — Não pense que não sei que foi você que matou a com nome de Vance.
Contrariada, a Evans se afastou dele e colocou a máscara de garota em perigo, antes de correr para Amus. Sua capa se esvoaçou, enquanto ela se aproximava do alvo.
– Amus, querido, por que você ainda está vivo? — Lily perguntou assim que o Diggory pegou sua mão.
– Lily? Como assim… Você está se ouvindo?
– Claro, meu noivo. E eu espero não precisar ouvi-ló nunca mais. — Então ela sorriu, mostrando caninos tão brancos e pontudos, juntamente com olhos amarelados, idênticos aqueles que queimavam as suas costas. — Corra.– E aquela foi a última coisa que Amus Diggory fez em vida.
***
– Você nunca me disse seu nome. — Lilian murmurou, após estar devidamente limpa de todo aquele sangue.
Ela se virou para olhar aquele que arrebatará seu coração anos antes, os costumeiros óculos de aros redondos já adornavam o nariz esguio, igual ela se lembrava. Seu coração se aqueceu lembrando daquilo que prometerá da primeira vez que o virá, ele era solitário e parecia triste naquela época, e ela prontamente se ofereceu para ficar sempre ao seu lado.
Ela só não sabia que teria de ser um monstro como ele, para que isso acontecesse. Afinal, Lily nunca se lembrou te der medo do Lobo Mau, como sua mãe lhe precavia. Não, ela sabia que não poderia mais ficar longe dele desde a primeira vez que o viu, porque ela era a Chapeuzinho Vermelho e ele o seu Lobo.
– Pra falar a verdade, você nunca diz nada. — Falou pegando sua capa rubra e a jogando sobre os ombros.
– Eu sou James, James Potter. — E ele sorriu, lhe roubando todo o ar novamente, simples assim.
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