Minhas pernas reclamam enquanto movimento-as, por um instante esqueci-me de que estava correndo a toda velocidade, com pulmões queimando e arma a tiracolo. Olho para minha frente e tudo que consigo ver é um emaranhado confuso de fumaça monocromática que morria em um solo devastado e enlameado, meus pés se enterram nessa lama fétida até quase o tornozelo enquanto eu rumo sem destino para minha frente. De vez em quando cruzo por alguma árvore enegrecida pelo fogo enquanto corro, atrás de mim escuto o soar estridente de um apito de capitão se misturar com o som de disparos, explosões e o mais aterrador dos sons: o som da morte.

Por todos os lados pessoas gritam em agonia e desespero enquanto disparos de metralhadora ceifam a vida de muitos sem que estes tenham tempo de sequer dizer algo. Por vários metros corro sem rumo cego pela fumaça que agora me engole, tropeço em armas, cadáveres, membros arrancados ferozmente de meus companheiros por explosões, capacetes prussianos, com suas pontas imponentes, perfurados por disparos e retorcidos pelo calor das chamas.

Meu peito arde, meus olhos doem, não consigo pensar em mais nada além de minha respiração pesada jogando para dentro de mim o gás mostarda jogado na terra de ninguém, minha máscara a muito ficou para trás, onde me chamaram de sortudo quanto um projétil levou apenas ela e não a minha vida. Minhas pernas são dilaceradas pelo arame farpado colocado estrategicamente para parar qualquer avanço, minha carne é perfurada por pistolas, rifles, estilhaços, tudo nesse lugar é hostil, tudo que se move e o que não se move está pronto para te matar.

— Corra – diz uma voz fraca e quase inaudível, sufocada pelo cansaço e pelo gás que agora se tornava esverdeado. — corra – ela repete.

Uma explosão ao meu lado faz meu ouvido chiar e então estou no completo silêncio do mundo das vibrações. A visão? Apenas vultos. A audição? Apenas ruídos surdos. Minha boca agora está com um gosto ferroso, sinto a vibração dos meus passos percorrer todo meu corpo cansado implorando por um descanso. Não vejo nada, não escuto nada, não sinto nada, a não ser aquela palavra que irradia de dentro do meu peito – corra – dizia uma voz fraca dentro de mim.

Finalmente atravesso toda a terra de ninguém, pulo em uma trincheira com sangue nos olhos, o coração pulsando de adrenalina, todas as dores de meu corpo ferido somadas, o hiperfoco de uma situação de luta ou fuga elevado à enésima potência, corro por toda a trincheira atento a qualquer ruído.

— Mate – sussurra agora a voz homicida dentro de mim.

Viro uma esquina, duas, três, o silêncio me rasgando por dentro, o coração pulsando no ouvido, a respiração mais ofegante ainda, olhos vidrados, a abstinência de puxar o gatilho dilacerando cada molécula do meu ser, vejo um vulto a minha direita.

Bang!

A onda de choque percorre todo meu corpo, o som entra pelos meus tímpanos feridos e libera uma estranha dopamina em meu cérebro, a sensação de prazer invade meu corpo, antes mesmo de ver meu alvo.

Lá estava ele, uniforme bege amarrotado, sujo, rasgado, desgastado pelos meses na lama, arma pendendo nas mãos de um jeito bobo, a boca arqueada em um “o” de surpresa, os cabelos loiros saindo desajeitadamente do capacete raso torto na cabeça, a barba feita, o nariz sangrando, o rosto recortado de pequenos ferimentos, os olhos azuis profundos bem abertos e um buraco suntuoso entre as têmporas, no meio de sua testa, um tiro perfeito como o treinado outrora.

Mas ele não tombava, Permanecia ali, me fitando, com a mesma expressão de horror. Ensaio outro tiro e ele me imita como um mímico, sem pensar duas vezes atiro novamente e vejo o clarão de minha arma e a dele se encontrarem, por um segundo sinto a dor em meu peito e fecho os olhos, mas nada me recebe, nem dor, nem calor do sangue, nem falta de fôlego, nada, apenas o som abafado da batalha que ocorria atrás de mim me fazia companhia na escuridão. Olho para frente e o meu inimigo agora me fita com dois orifícios na altura de sua cabeça, porém ele continua se recusando a cair.

Ensaio um passo em sua direção e nesse momento percebo um lampejo sob sua superfície. Ao redor de meu inimigo havia uma curiosa moldura em madeira, inchada pelo tempo mas muito robusta. Sob seus pés, dois suportes de metal. Abro mais ainda meus olhos em surpresa e meu reflexo me imita, obediente. Nesse instante o espelho se quebra e se desfaz em um som agudo e quebrado, fecho os olhos.

Acordo.

Agora eu vejo o céu, uma sensação calma toma conta de mim enquanto eu vejo aquela imensidão azul imponente me cobrindo como um manto, sinto meu peito quente e meus braços leves, também sinto uma estranha leveza em minhas pernas, sentia como se pudesse voar e tocar o céu.

Levanto o braço em uma tentativa tão inútil quando a de Ícaro para tocar o sol e assim como ele viu suas asas ao voar alto demais, vi meu braço derretido. Não pelo calor do sol, mas pela ferocidade da batalha do Some, apenas um pedaço de meu osso acenava de volta para mim, não me desespero, apenas olho para o resto de meu corpo e vejo que nenhum de meus membros estava ali, meu sangue se misturava com a lama espessa em um líquido escuro e viscoso, vejo o que resta de minha perna deitada a dois metros de mim, mas não tento alcançá-la com o que sobrou do meu corpo. Observo tudo com certa curiosidade mórbida até que a fraqueza me deita, naquele momento entendi o que a frase platônica “apenas os mortos verão o fim da guerra” queria dizer. Reclino meu tronco perfurado e fito o céu mais uma vez, vendo-o ficar escuro sobre minhas pálpebras que se fecharam, dou um último longo suspiro, calmamente, sentindo meu corpo pesar, por fim, solto todo o ar e uma última palavra escapa de meus lábios. Nesse último instante de consciência escuto novamente a voz misteriosa e percebo que ela era a minha, dando seu último recado:

— Morra.

E obediente o fiz.