Crônicas dos infortúnios
2 Anjos não vão para o inferno
Notas iniciais
Porque você é minha amiga Docinho? Foi o que te perguntei na noite do baile a pergunta que nunca te ouvirei responder...
Naquela noite que você me tirou das mãos daqueles monstros.
Lembro que corremos para minha casa e você disse para minha mãe que eu apanhei para te proteger de um canalha que não sabia ouvir não, quando sabemos que foi o contrário que aconteceu. Para minha mãe, um raio de esperança de que eu não fosse essa bicha que sou.
Você cuidou de mim a noite inteira Docinho, sabendo que eu nunca poderia retribuir o seu carinho.
Lembro-me do dia que te conheci, a doce vizinha gentil da casa da frente, apostamos corrida de bike e eu nem perguntei seu nome, te chamei de Docinho desde o primeiro dia, no começo era chacota, mas com o tempo se tornou sincero.
Você me chamava de James Dean, dizia que eu tinha um ar rebelde que faria qualquer garota pirar, foi quando eu te disse que eu não gostava de garotas. Vi o seu mundo cair, você estava apaixonada por mim, mas não devia.
Os abutres da escola sempre me espancavam, humilhavam e até incluíam você nas ofensas, mas você sempre me pedia para ignorar... Dizia que um dia iríamos fugir para longe de tudo aquilo, mas docinho... Você não precisava fugir, eu era a porra do problema, você sempre foi a personificação da perfeição.
Longos cabelos loiros, grandes olhos verdes, feições angelicais e um lindo coração, esta sempre foi você, Docinho. Sempre vendo beleza onde só havia lixo.
Nunca entendeu que eu só era James Dean em seus sonhos... Nos sonhos de uma garota apaixonada.
Eu queria amar você do jeito que você me ama, mas não consigo lutar contra a mim mesmo, nós tentamos você se lembra? Foi um completo desastre.
E então no dia do baile aqueles caras que diziam ter nojo de bicha, me pegaram enquanto você estava longe, com suas barras de ferro... Você achou que chegou a tempo docinho, mas você só viu o espancamento de uma carne que já havia sido usada. Você pensou ter me salvo das mãos deles, mas você só impediu que eles me matassem, porque o pior eles já tinham feito.
Naquela noite, na minha casa você disse que iria à polícia e que aquilo iria parar. Você fez parecer tão simples, tão inocente... Mas eu sempre soube que eles nunca iriam parar e foi por causa disso que eu fiz questão de servir seu suco, mesmo com o meu corpo todo doendo, sim... Eu coloquei algo lá exatamente como você percebeu antes de adormecer na minha cama... Um dos calmantes da minha mãe, não queria você lá quando eu os fizesse parar.
Deixei você dormindo na minha cama e fui até o porão do meu pai, sabia que elas estariam lá, as duas espingardas de caça dele, e muita munição, antes de ir à escola, voltei ao meu quarto e olhei você dormir mais um pouco... Senti que essa seria a última vez que te veria nesta vida e na outra. Afinal, anjos não vão para o inferno.
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