Crônicas de uma galáxia
24 Primeira saída à esquerda
Faltava uma semana.
Não que isso importasse, mas eu ainda contava. Não sei exatamente porquê.
Desabafei com uma amiga minha por telefone. Era difícil demais carregar um peso que parecia infinito nas costas, e eu precisei dividi-lo com alguém.
Falei sobre o quanto eu o amava, e como doía toda aquela situação. Que eu queria poder conversar com os médicos dele, mas não conseguia. Que meus pais só deixavam a situação pior e que eu não aguentava mais. Disse que precisava vê-lo, mas não sabia como. Precisava que Deus fizesse algum milagre, mas às vezes sentia que ele tinha se esquecido de mim.
— Espera. – Ela disse. – Tive uma ideia.
A chamada ficou muda por uns cinco minutos, antes de ela voltar, gloriosa.
— Minha mãe disse que se ele vir para cá, tu pode ficar aqui em casa e vocês podem se ver. E ela não vai contar pra ninguém.
Foi como um raio de sol no meio da escuridão fria e assustadora que era a minha vida. Não levou um minuto para que eu digitasse a mensagem para ele, e que a ideia fosse aceita.
Ele comprou a passagem à tarde. Eu pedi a minha mãe para passar uma semana das férias na casa da Martina – essa amiga que tinha tido a ideia que nos salvaria. Ela deixou sem nem me ouvir direito.
Dias depois, eu riscava os números no calendário – mais uma vez, esperando. Cada dia que passava era como uma injeção de ânimo, e eu até conseguia rir de novo.
Dois dias antes que o avião dele pousasse na mesma terra que a minha, Martina me ligou.
— Minha mãe quer saber quanto que custou a passagem, por que ela quer reembolsar ele. – Disse, um jato de palavras.
— Ela o que? – Perguntei, sem entender.
— Ela disse que não vai mais ajudar. E que não é mais para o Marco vir, se não ela vai contar para sua mãe.
Foi como um soco no coração. E com a mesma facilidade com que tudo tinha ido embora, tudo voltou. O frio, o medo, a dor. A sensação de inutilidade. E agora, também, a raiva.
Muita raiva.
Não levou duas horas pra que eu alterasse completamente o plano. Convidei a Martina para passar uma semana das férias na minha casa, ao invés do contrário. Pedi que o Marco viesse para a minha cidade, e nós daríamos um jeito de nos encontrar sem sermos descobertos.
Eu precisava ver ele, de qualquer jeito. Simplesmente precisava, e agora que ele tinha comprado a passagem, não deixaria que a jogasse fora, independente do quão arriscado seria.
Aqueles dois dias passaram e, no dia 22 de julho, eu acordei sabendo que estávamos muito mais perto um do outro. Também acordei descobrindo que a Martina tinha contado para sua mãe do meu novo plano, e aquilo me deu medo.
Tudo tinha acontecido muito rápido. Depois de ser imersa num oceano escuro e frio de desespero puro, alguém tinha me puxado de volta para o calor do sol, só para me iludir e me assistir afundar mais uma vez. Eu estava cansada. Não sabia o que podia acontecer, e caminhar no escuro, mesmo sabendo que lá no meio estaria o Marco, me assustava. Eu odiava essa situação toda, mas precisava tentar.
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