Crônicas de uma galáxia
4 A primeira conversa
Meu novo professor de Química tagarelava sobre sua vida e outros assuntos que não faziam parte da aula em si, enquanto eu deixava sua voz passar por mim e observava outra turma fazendo Educação Física pela janela da minha sala.
Com certeza aquele era o melhor professor que eu teria na vida, mas a partir do momento em que ele começava a falar das suas teorias sobre alienígenas e conspirações do governo, eu educadamente fingia escutar enquanto pensava em olhos castanhos e camisa xadrez azul.
Depois de um tempo, meus olhos começaram a pesar e mergulhei num torpor profundo nas brumas da minha mente. Quando percebi, achei que seria uma boa ideia jogar uma água no rosto antes do professor de Matemática entrar – coisas exatas pra mim são bastante difíceis de entender, quase desnecessárias.
Desci os lances de escada que havia entre a minha sala e o banheiro sem pensar muito no que fazia. Acho que pensava ainda na nova teoria do meu professor de Deus ser um alienígena mandado de outro planeta, então lavei o rosto, e voltei.
Enquanto subia o primeiro lance de escadas, olhava o chão. Quando dobrei para poder subir o próximo, ergui a cabeça só para checar se não teria que realizar uma manobra evasiva para evitar me chocar com outra constelação, e o encontrei no topo da escada.
Parado, encostado na parede. Braços cruzados. Olhando pra mim.
Senti o ar todo sair dos meus pulmões, e por alguns segundos esqueci como se respirava. Quando lembrei, deixei que o ar voltasse para o meu cérebro, que eu já sentia ter começado a girar. Apertei as mãos dentro do bolso do meu moletom cinza e, pé por pé, subi a escada até o topo.
Estava pronta pra seguir o meu caminho corredor adentro até minha sala, se a voz daquela constelação não tivesse me parado.
— Era de que casa na tua antiga escola?
Demorei tanto tempo para processar que ele estava falando comigo, que quando me toquei, percebi que ele me encarava como se considerasse se eu tinha algum tipo de retardo mental.
— Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa ou Sonserina? – Ele continuou. Não sei ao certo se me incentivando a falar ou me ajudando a encontrar as palavras. Eu sentia meu coração golpeando minhas costelas.
— Lufa- Lufa. Sou Lufana. – Consegui responder. Não sei se minha voz soou normal ou não, mas a resposta pareceu aceitável. Baixei os olhos para o meu moletom, o símbolo de Hogwarts estampado na frente.
— Eu acho que era Sonserina. Tem cara de Sonserina.
Consegui olhar em seus olhos por alguns segundos, e não sabia se era sério ou brincadeira, mas eu ri igual. Ele estava conversando comigo – ou pelo menos, parecia -, não consegui conter a risada. Estava mesmo acontecendo?
— Vou te chamar de Malfoy. – Continuou.
— Pode ficar a vontade. – Sorri, ainda rindo. Acho que eu gostaria de qualquer coisa que ele me chamasse. Não parecia uma provocação, só uma conversa amigável. – Bom, vou pra sala.
Quando dei as costas para ele, meu coração ainda bombeava meu sangue energizado com mais força do que deveria.
— Ei, espera. – Ele chamou.
Minhas estrelas pareciam prontas para explodir em gigantescas e luminosas supernovas.
— Assiste algum anime?
Demorei um pouco pra responder, considerando qual seria a melhor resposta no momento. Lembrei das vezes em que o vi olhar com reprovação para os meninos da minha sala que usavam chapéus e toucas de personagens de animes e cheguei à conclusão que, tempo depois, descobri ser a certa.
— Eu assisti um, uma vez. E não era Naruto.
— Ah, que bom. – Ele descruzou os braços, os apoiando numa mesa cheia de papéis colocada a um canto. Não sabia se havia sorrido ou não – nunca o tinha visto sorrir. – Boa aula, Malfoy.
Pela segunda vez, dei as costas para aquela constelação. Meu coração pulando por dentro, minha cabeça girando e repetindo incessantemente todas as palavras ditas pela voz grave e um sorriso inconsciente se estampando no meu rosto sem a minha permissão.
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