Crônicas de uma Primavera

1 Crônicas de uma Primavera


Notas iniciais
Tanto as pessoas quanto os fatos nessa história são reais. De duas tardes de meditação e muita observação no parque nasce essa pequena crônica. Claramente lhe agreguei um tom de subjetividade, principalmente aos personagens e suas histórias de vida.

Era um dia quente de primavera. A brisa cálida aquecia o seu corpo. Ela e seu marido desfrutavam dos raios de sol, deitados sobre uma manta no gramado, à beira do lago. Ela usava biquini e tentava pegar um pouco de bronze. Deitada de bruços, ela sentia as mãos dele deslizando por suas costas enquanto ele passava protetor solar em sua pele.

Em silêncio, os dois contemplavam umas escrituras no tronco de uma árvore bem ao lado deles. Um coração atravessado por uma flecha e as iniciais "C y R" escritas dentro dele. "Bélen y Luis" com uma data "23/08". Ela fantaseava, tentando imaginar as histórias de amor por trás daqueles rabiscos.

O café da manhã estava amontoado num canto — apesar de que já era hora do almoço. — Ela dava mordidas bem generosas em sua maçã verde enquanto lia um romance policial da Agatha Christie. Seu marido petiscava umas frutas secas e comia uma banana. Os dois compartilhavam mates ("bebida cultural" dos argentinos).

Ao longe, ela escutava o ruído do trem azul passando do outro lado do lago, por detrás das árvores. Isso a fez lembrar de "A garota no trem", um livro que tinha lido no ano passado. A diferença de que ali não era Londres e o tempo cálido não se comparava ao frio congelante da capital britânica.

Ela apreciava a beleza da criação de Deus, desfrutava do canto dos pássaros, da brisa reconfortante em seu rosto, do farfalhar das folhas nas copas das árvores e da calmaria das águas verdes do lago.

Ela era grata por tudo que tinha vivido até agora. Ela podia enxergar os cuidados de Deus em cada detalhe de sua vida. Ele a tem ensinado a ser menos exigente consigo mesma, a desfrutar do mais simples que a vida tinha a oferecer. O primeiro passo ela já tinha dado: tirar um pequeno descanso naquela quinta-feira de manhã, aproveitando que ela e seu marido tinham ganhado uma folga do trabalho. Era bom não ter que se preocupar com o que tinha para fazer durante o dia, pelo menos por alguns instantes.

Atrás deles, ela reparou que havia um casal de idosos sentados em cadeiras de praia, tomando banho de sol. O senhor em suas bermudas e boné azul, lendo o jornal do dia. A senhora com sua calça legging estampada, como se tivesse acabado de sair da academia, o que era bem pouco provável. Eram o típico casal americano de idosos que se costumava ver nos filmes.

Ela desviou os olhos para outro lado e viu um homem se aproximar. Ele pediu licença e se apresentou. Era cristão evangélico e estava vendendo pastilhas Freegells. Pedia uma contribuição para um abrigo de ex-dependentes. Ela abriu a carteira e tirou $70 pesos. Levou três pacotes em troca. Não era muito chegada em balas. Sempre achou que isso era coisa de criança. Os pacotinhos podiam ficar meses em sua mochila e ela não se lembraria. Mas tinha-os comprado por uma boa causa. Se sentia feliz em poder ajudar.

Havia muito mais pombos naquele lugar do que ela gostaria. Às vezes eles batiam as asas e se afastavam com seu bando, e ela era grata por isso. Pessoas iam e vinham a todo tempo. Ela avistou um pai com seu filho, não muito longe dali. O menino brincava com seu cachorro. O mascote corria atrás dos patos, que fugiam lançando-se nas águas, assustados.

Uma senhora com suas duas netas se sentaram à beira do lago com uma boneca de pano. Ficaram alguns instantes alimentando os patos e em seguida se foram.

Famílias passavam e tiravam fotos dos patos, que eram as mais celebres atrações turísticas no momento. As aves posavam elegantes, com suas penas tão alvas, sempre eretos, sem nunca perder a pose.

Ela escutou o som de um pedalinho no lago. Uma família passeando nas águas, crianças rindo. Havia um homem pescando. Ele vestia uma camisa com a seguinte frase escrita nas costas: "Shut up and fish". Aquilo era tão condizente com o contexto que a fez rir. Chegava a ser cômico.

Ela escutou, vindo de algum lugar, a canção "I'm yours" do Jason Mraz. Era quase como um sussurro distante. Na sua opinião, era a canção perfeita para aquela ocasião, uma melodia tão pacífica, combinava tão bem com aquele cenário.

Aquela moça de biquini e seu marido pareciam ser, dentre todas aquelas pessoas, os únicos elementos estáticos daquela paisagem. Ela não se cansava de contemplar aquela natureza tão perfeita. Os reflexos ondulantes das águas nos galhos das árvores a faziam sentir calma de alguma forma. O sol salpicava as folhas com um dourado reluzente. Os flocos de nuvens no céu mudavam de forma constantemente. Naquele pequeno refúgio na terra, o tempo parecia não existir.

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