Crônicas de um herói sem nome
1 Capítulo 1-1: O corvo e a andorinha
Pela manhã, assim que me levantei notei algo de diferente, as janelas estavam fechadas, normalmente sempre as deixo abertas antes de dormir, talvez seja um tanto perigoso isso, mas não me importo, gosto de deixar a casa sempre muito arejada durante a noite, talvez seja porque odeie o calor, talvez porque goste de sentir o vento noturno em meu rosto durante a noite ou simplesmente por preguiça de trancá-las, não precisei pensar muito para tomar uma decisão, olhei o relógio pelo meu celular, ele marcava oito e quatro da manhã, o que significa que acordei meia hora mais cedo do que deveria ( vinte e seis minutos pra ser mais exato) , levantei-me e arrumei-me de forma lenta e cautelosa, olhei meu corpo pelo espelho do guarda roupas, eu vi um homem adulto, vinte e dois anos, estudante de história, grande, um metro e setenta e oito de altura, ombros não muito largos, atlético, pouco musculoso, olhos castanhos como o solo fresco da mais bela floresta das melhores histórias de fantasia já contadas, cabelos curtos e negros como a semblante da lua nova sob uma noite pouco estrelada e com muitas nuvens. Assim que me troquei parti calmamente até a faculdade, vestindo uma calça jeans comum, uma camiseta não muito chamativa e uma bolsa masculina tão chamativa quanto a camiseta, ambas sem estampas, com um par de tênis pretos com traços azuis, a cada segundo que passei me olhando, perguntava a mim mesmo " Senhor Arthur Waindragon, o que você esta fazendo com sua vida?", morava perto da faculdade, portanto apenas alguns poucos minutos de caminhada em um ritmo calmo me fariam chegar sem muito esforço até lá.
Durante meu caminho, observei calmamente a paisagem como sempre, um olhar caído sob meu rosto, via as mesmas coisas todos os dias, nada mudava, as nuvens sempre cobrindo o céu de uma forma que ofuscava seu brilho pela manhã, o escondendo sempre, como se estivessem tentando abdicar de seu direito perante os céus, as pessoas caminhando com pressa, as vezes até mesmo correndo, esbarrando umas nas outras de forma grosseira e as vezes proposital, desculpando-se apenas por serem condicionadas a fazerem isso, sem realmente se sentirem incomodadas por machucar outro indivíduo, em seus rostos sempre as mesmas expressões, rostos que demonstram pressa, ganância, preocupação com seu salário, notas do semestre, coisas banais e sem importância, que não deveria tomar a expressão bela de seus rostos, que sempre jaziam preocupados ou emburrados, as vezes, com expressões de raiva, fúria e tristeza. O caminho até lá era agitado, passava por uma rodovia e um parque bem movimentado e freqüentado por muitos casais apaixonados, porem, hoje era um dia diferente, as coisas estavam calmas, apesar da correria das pessoas, me sentia leve, decidi parar neste parque para descansar um pouco, tirei o celular do bolso e vi que ainda eram oito e vinte, deveria estar apenas as nove e meia na faculdade, ainda deveria percorrer alguns dez minutos de caminhada, porem, decidi parar para descansar um pouco, deitei-me em um gramado natural perto de um pequeno lago ao centro do parque, não percebi na hora, alias, só fui perceber isso muitas horas depois, mas a área ao redor do lago estava deserta, aonde normalmente se concentra a população jovem da cidade, olhei para as nuvens novamente, senti algo estranho dessa vez, abri bem os olhos para observar, as nuvens estavam abrindo espaço para o sol ostentar seu brilho novamente, de repente, ouvi o chiar de pássaros ao meu redor, o que deveria ser normal considerando que estava em um parque, mas, havia algo de diferente, estava alto de mais o som, assim que me deparei já era tarde, algum filhote de pássaro havia caído do ninho e se arrastado pelo parque, não estava machucado, porém, ainda não sabia voar, ele piava de forma fraca, suplicando pela vida, pedindo ajuda a qualquer um que estivesse disposto a ajudá-lo, de alguma forma me senti na obrigação de ajudá-lo, levantei-me e o coloquei sobre meu colo, encarei seus olhos por alguns segundos, pareciam olhos de quem lutava fortemente por sua vida, olhos negros como a mais escura das noites de inverno, suas pequenas asas formada por poucas penas, seu corpo negro, porem tremulo em meio a meu corpo, eu o segurei com cautela e observei a direção que ele vinha, lá, uma cobra estava em seu ninho, ao que parece ele foi derrubado em meio ao bote da feroz predadora, ele, por algum motivo voou por alguns segundos e parou sob minha cabeça, bagunçou totalmente meu cabelo, mas, me deixou confortável aquela sensação, como se eu fosse a única pessoa que tivesse visto tudo isto, como se eu fosse um parente dessa pequena ave, como um pai que encontra com seu filho pela primeira vez, eu não soube direito o que fazer, mas me senti responsável pela pequena ave, me levantei aos poucos e com muita cautela, assim, segui de volta para minha casa, simplesmente não vi mais motivos para ir a aula, pensei em primeiro arrumar um canto para esse pequeno filhote e depois seguir para a faculdade, afinal, não tem ninguém me esperando naquele lugar...
Durante meu caminho de volta, notei que aquele filhote era um corvo, me senti um pouco estranho no começo andando com um filhote de corvo em cima de minha cabeça, mas, com o passar dos minutos comecei a me acostumar com a cena, era realmente como se fossemos ligados por um laço formado por anos e anos de amizade. Ao chegar em casa, separei alguns pedaços de frutas e os cortei em pequenos pedaços, pequenos o bastante para um pequeno filhote de corvo os ingerir facilmente, coloquei-o sobre minha cama e parti para a faculdade novamente, porem, a passos largos desta vez. Cheguei facilmente após alguns minutos de corrida, porem, estava muito suado e ofegante para entrar direto na aula, olhei meu celular e notei que já eram nove e vinte, teria apenas alguns poucos minutos para me secar e recuperar meu fôlego antes de ir para a aula, e assim o fiz.
Assim que caminhava a passos curtos para a sala de aula, notei um olhar estranho vindo das pessoas, por algum motivo, se dirigindo a mim, a princípio não entendi direito, olhei aos arredores para ver se havia deixado algo cair ou se estava com a camisa molhado de suor, mas nada disso se provou real, assim que olhou para traz em busca de algum objeto caído entendi o motivo dos olhares, havia uma garota perto de mim, mas, ela não era como uma garota qualquer, cabelos longos e claros, não loiros, apenas um castanho claro muito chamativo, porem, notava-se que era natural pela forma como a cor era vívida junto ao seu belo rosto tão chamativo quanto seus lindos cabelos, olhos num tom verde, claros como a grama ao redor de um lago recém formado, uma boca pequena, orelhas e nariz um tanto quanto normais, até porque seria estranho descrever com tanta precisão um nariz e um par de orelhas, teria que ser um especialista para diferenciar as pessoas por suas orelhas ou narizes, enfim, vestia roupas normais, calças longas não muito apertadas, camiseta xadrez branca e preta e por baixa dela uma pequena blusa branca não muito chamativa com uma estampa de um coração, era uma visão adorável, quase perfeita eu diria, parei por alguns segundos e a encarei com todas as intenções que um homem adulto de vinte e dois anos pode possuir, porem, sendo a de admiração a mais demonstrada, afinal, não queria ser conhecido na faculdade como um tarado ou algo assim, mas claro, ela parou assim que comecei a olhar os arredores, e percebeu que eu a estava observando calmamente, ela corou na mesma hora, e foi nesse instante que pensei seriamente se o amor a primeira vista era real, porque o que eu vi foi a garota mais fofa do mundo corando na minha frente, meu coração foi a toda velocidade, nessa hora, meu maior medo foi dela perceber meus batimentos cardíacos e correr para longe de mim. Ela segurava algo em suas mãos, percebi logo após ela corar, apesar de tudo o que se passava na minha mente e coração me mantive calmo e disse com todo meu jeito natural de ser ( que normalmente se assemelha muito a um perseguidor falando com sua vítima ) :
—Então, você esta bem? Eu te machuquei ou algo assim?
—N...Não... Não se preocupe.... eu só.... queria lhe perguntar uma coisa... Disse a jovem com toda sua fofura e vergonha exposta.
—A, sim, então... pode perguntar se quiser, sou todo ouvidos. Disse com leves risos e um tom bem leve.
A jovem olhou para os lados e levantou as mãos, não tinha percebido antes, mas um pequeno piar ecoava por suas mãos, ao levantar os braços e abrir as mãos eu percebi que ela estava com algum tipo de pássaro em suas mãos, era diferente do meu corvo, era uma ave mais longa, mesmo sendo um filhote, era perceptível a diferença, com pequenas penas brancas por baixo e negras por cima de seu corpo, eu reconheci aquilo como sendo uma andorinha, afinal, eu quando criança morava em uma casa que era constante mente atormentada por um ninho de andorinhas ( de acordo com minhas lembranças):
—Você... por acaso encontrou essa andorinha no Parque das Águas? Perguntei um tanto receoso quanto a ouvir a resposta.
—S..sim... por que você saberia disso? Disse a jovem com um tom um pouco mais sério.
—Olha... eu também encontrei um pássaro por lá hoje, parece que uma cobra atacou seu ninho e ele foi o único sobrevivente, então, eu o salvei e o levei pra casa, um tanto incomum encontrar pássaros que querem ser levado por humanos hoje em dia não? Perguntei com uma certa expressão de certeza.
—Sim... mas, poderia me deixar ficar na sua casa por hoje? Apenas para cuidar dela, é uma fêmea, se chama Sinca, lindo nome não? Disse a jovem com um sorriso jovial e lindo em seu rosto quase perfeito.
—Bom... eu não me importo mas... por que logo eu? Existem tantas pessoas mais legais na faculdade, como você soube de mim? Perguntei com um certo medo dela mudar de opção, mas, pelo meu bem era melhor saber dessa resposta.
—Você é o Arthur do curso de história não é mesmo? Eu te vi hoje de manhã no parque, parecia que você não enxergava ninguém, estava com um sorriso estranho olhando pro céu, eu meio que acreditei que poderia confiar em você por isso... Disse a jovem com um certo olhar de alegria.
—Aiai... certo, conte comigo então... Desculpa mas, qual o seu nome? Diz o jovem eu com toda vergonha que não demonstrei no momento.
—A, é verdade, me chamo Alice, Alice Marques, é um prazer finalmente falar com você Arthur Waindragon. Disse a jovem com as bochechas, não muito salientes, bem rosadas e com um ar de alegria sincera.
—Ce...certo Alice, me encontre então no portão depois do quinto período, te vejo lá. Disse com um sorriso de felicidade, talvez um pouco mais feliz do que queria, ou deveria demonstrar.
Ela fez um sorriso, afirmou com a cabeça e se dirigiu para a direção oposta, e assim, com o coração preenchido com a energia fofa que emanava da existência divina de Alice Marques finalmente fui para a aula. Durante os três primeiros períodos, fiquei tentando me concentrar nas aulas, mas, ficava pensando nas palavras da Alice, finalmente falar comigo... que tipo de pessoa ela pensou que eu era? Será que ela pensou que eu fosse alguém arrogante? Alias, como ela me conhecia? Como ela sabia meu sobrenome me vendo apenas no parque? AAAAAAAAHHHHHHHH, as coisas que ela disse não fazem o menor sentido, desisto de tentar entender, e assim, o jovem Arthur passou o resto dos três períodos de cabeça baixa pensando em como a vida não faz sentido.
Durante o horário de almoço, percebi como era alvo dos olhares das pessoas, sempre almoço em baixo de uma arvore que se localiza no centro do campus da faculdade, porem, é um local meio aberto, por isso as pessoas não costumam almoçar por lá, preferem comer em locais fechados e com coisas mais gostosas na cantina ou em alguma lanchonete por perto, eu normalmente cozinho de noite e preparo uma marmita para o almoço, então não vejo problema em almoçar sozinho no campus, na verdade me sinto um pouco melhor assim, sinto como se me livra-se dos olhares agressivos das pessoas ao meu redor e ficasse em outro mundo, olhando o céu com suas belas nuvens de entardecer, talvez, em algum desses momentos ela deva ter começado a me observar, e se interessar por mim, bom, na época, eu ainda não sabia o motivo.
O resto do dia passou rápido, mal percebi o tempo passando por mim, quando me dei conta já estava na ultima aula do dia, terminei as tarefas um pouco mais rápido e me retirei da aula. Lá fora, percebi o céu durante o entardecer, o sol em seu tom alaranjado tingindo o belo céu como se estivesse ditando a ele uma bela poesia, e o céu como belo ouvinte absorvendo cada palavra dessa poesia para si, completando sua existência com toda a poesia, sendo ainda tingido pelas nuvens como belas e complexas rimas em meio a essa poesia, formando nesse céu uma grande musica, e ao mesmo tempo bela como as mais completas melodias compostas pelo homem. Assim, com um sorriso admirando essa paisagem, vi uma jovem ansiosa em frente o portão com um filhote de andorinha bagunçando o topo de seus lisos cabelos:
—Eai, parece que é comum os filhotes de pássaros usarem nossas cabeças como ninhos. Disse com um tom de riso leve e um sorriso sincero.
—Então aquele corvinho realmente gostou de você né Thur? Me respondeu a garota aos risos.
—Thur? Disse com uma leve incerteza.
—Sim, Thur, achei que combinava mais com você, sem contar que é mais fofo de se falar. Disse Alice com um sorriso grande em seu rosto já corado.
—Aiai... Gostei, você tem jeito para nomes Alice, então, vamos pra casa? Perguntei meio com vergonha de ouvir a já esperada resposta.
—S...sim... vamos Thur... Respondeu a jovem donzela que nessa momento tomava meu coração como um saqueador brutal roubando de um pobre velho cansado pelos longos anos de trabalho.
Durante o caminho para a minha casa, fui conduzindo-a com passos curtos, tentam conversar sobre qualquer coisa banal, porem, em algum ponto, passei a notar que Alice estava de salto, e que mesmo de salto ela ainda era menor que eu, cheguei a me perguntar qual era a altura dela, mas achei desnecessário perguntar a uma garota dessa idade isso, não queria parecer que me importava para com isso, o que de fato era verdade, pois assuntos banais como esses não me eram nem um pouco interessantes. Aos poucos ela foi me falando dela, e de como me conheceu, Alice tinha vinte e um anos, morava nessa cidade já fazia alguns anos, se mudou para cá quanto tinha quatorze anos e ainda morava com a mãe, gostava de pássaros e felinos, sempre foi muito tímida pra falar com estranhos, mas se mostrava muito falante para com pessoas que se aproximassem dela, gostava muito de falar sobre o céu e a natureza, observava com atenção cada detalhe do cenário e nunca esquecia nada, não importa o quão pequeno era o detalhe, porem, era um pouco atrapalhada e esquecida quando se trata de si mesma, de alguma forma, éramos bem parecidos, o que me fez sorrir e falar sobre mim mesmo também, de alguma forma senti que isso a animou mais. Assim que chegamos na rua de minha casa, passei a ir cada vez mais devagar, um percurso que andando normalmente demoraria apenas alguns poucos quinze minutos, se tornou facilmente uma caminhada de quarenta minutos, e por mais que eu adiasse, uma hora ou outra chegaríamos na metade de rua, em frente ao portão de minha casa:
—Alice... bom, bem-vinda a minha casa, não tenho muito o que mostrar mas... bom, espero que goste da estadia. Disse com um leve sorriso e com um rosto levemente corado.
—Não se preocupe Thur, com certeza irei gostar, afinal, é você quem mora aqui certo. Disse com um sorriso convicto.
Abri a porta com muita cautela e calma, ela observou ao redor, uma casa pequena, três cômodos, quarto, cozinha e banheiro, porém, bem aconchegante aos que experimentarem uma estadia, poucas janelas, mas, localizadas da melhor forma possível para se ver o céu, seja de manhã, tarde ou noite, poucos móveis, um computador em uma mesa ao lado da cama, uma pequena mesa com duas cadeiras posta na cozinha entre a pia e o fogão, um banheiro não muito grande, mas também não muito pequeno, bem limpo e organizado, com certeza deve ter passado boas impressões a jovem Alice:
—Então, agora que já chegamos, podemos conversar mais sobre isso, o que te levou a querer passar a noite aqui? Perguntei retirando a bolsa e sentando com calma sobre a cama.
—Então você percebeu não é Thur? Retrucou Alice.
—Qualquer um que ouvisse o que você disse veria como tem coisas que não fazem sentido ou que se contradizem nas suas palavras. Afirmei estas palavras com um certo receio.
—Thur... eu só falarei a verdade a partir de agora, mas, tudo o que conversamos até agora de fato foi verdade, eu realmente não queria explicar tudo pra você agora mas... pelo visto não tenho escolha. Eu sempre observei você durante esse ultimo semestre, você sempre se manteve calmo, observando tudo e agindo sempre da forma correta, as vezes isso significa não ser gentil, mas isso era o que mais te fazia especial aos meus olhos, sua bondade.
Não soube se aquilo era verdade ou não, mas optei por acreditar nisso, afinal, de fato estava apaixonado por essa garota que conhecia fazia apenas algumas poucas horas.
—Alice... eu vou acreditar em você, se tudo o que você me disse até agora foi verdade, então você é a pessoa bondosa aqui, eu sou apenas um estudante que trabalho aos finais de semana para pagar as contas e sobreviver nesse mundo, pelo menos nesse mundo, ainda não posso me orgulhar de ser bondoso, afinal, hoje eu encontrei um carinha muito animado e ainda não sei o que fazer com ele, alguma idéia? Perguntei com um sorriso no rosto, mas muitas dúvidas no coração.
—Thur, cuide dele, acredite em mim, você realmente vai precisar dele, e... eu preciso perguntar uma coisa, Thur... você é feliz nesse mundo? Acha que saberia lidar com coisas perigosas? Acha que... poderia confiar minha vida a você? Perguntou Alice, com a mais séria e verdadeira das expressões.
—Alice... eu, realmente não sei te responder todas essas coisas, afinal, não posso responder o que não sei, mas, te prometo uma coisa se você acredita nas minhas palavras pelas minhas ações, pode confiar em mim, afinal, eu daria minha vida por alguém que eu quisesse proteger. Com determinação e seriedade, eu respondi a pergunta que mudaria totalmente minha vida.
—Thur... eu... obrigada... muito obrigada por isso... Alice respondeu com lágrimas em seus olhos, suas pernas não aguentaram e ela acabou caindo ao chão.
Eu ainda estava completamente confuso, não sabia o que estava acontecendo, quando percebi, tanto a Sinca quanto o meu corvinho estavam juntos sob a cama, como se estivessem em uma conversa muito séria sobre algo, mas esse foi o ultimo pensamento na minha mente, afinal, era uma andorinha e um corvo filhotes. Eu entreguei uma muda de roupas minhas, uma bermuda meio larga, camisa branca com uma pequena estampa de pássaros e uma cueca um tanto normal, de cor preta, assim, ela poderia se sentir mais tranquila, lhe mostrei o banheiro e passei uns bons minutos na cozinha, pensando no que faria para o jantar enquanto fatiava alguns pedaços de frutas para Sinca e o corvinho, que por sinal estavam fazendo da minha cama seus ninhos. Pensar no que você irá fazer para o jantar sempre é uma coisa chata e sem importância, a menos que você tenha como convidada a pessoa que você acabou de jurar arriscar a vida para proteger, foram os minutos mais complicados da minha vida até então, mas depois de pensar muito optei por fazer minha especialidade, macarrão com sopa de carne, realmente parece um prato de solteiro, mas quando você se acostuma a cozinhar para si mesmo não existe muitas outras coisas que sejam gostosas e pouco complexas não é mesmo.
Minutos se passaram, algo em torno de vinte e cinco, o macarrão e a sopa estavam no fogo, em panelas separadas, diga-se de passagem cheirando muito bem, eu vi saindo de meu banheiro uma mulher em torno de vinte e um anos de idade, com roupas masculinas, cabelos molhados, e com uma altura de aproximadamente um metro e sessenta, seus cabelos molhados a deixavam ainda mais bela do que normalmente, ao menos naquele momento, talvez por alguns minutos eu deva ter sentido a sensação de estar casado, cozinhando para duas pessoas, tendo conversas casuais após um banho, rindo sentado na cozinha sobre coisas banais, histórias de infância, de fato, foram os momentos mais felizes que tive nesse mundo. Eu percebi nessa hora o quão solitária Alice era, teve poucos amigos em sua vida, talvez por ser uma linda garota tímida, provavelmente era facilmente odiada pelas outras garotas, e pelo seu corpo, que para alguém com um metro e sessenta era muito voluptuoso, deveria ser distante de amizades masculinas, afinal, que homem não sente medo de se aproximar de uma linda garota?
Após terminar de cozinhar, servi o jantar, a princípio eu estava relutante e com medo, porem, ela estava fazendo uma cara de quem estava amando o cheiro, enfim, ela adorou a mistura da sopa de carne com macarrão, acho que foi a primeira vez que ela comeu na casa de um amigo, eu realmente fiquei feliz, ri como não fazia a anos, nem mesmo durante a escola eu tive risadas tão sinceras e honestas como estas, senti por alguns momentos que queria passar o resto da vida tendo momentos felizes assim, e realmente acreditei nisso por muito tempo...
Sentamos na cama ao lado um do outro assim que terminamos de lavar as louças do jantar, coloquei Sinca e o corvinho em cima da mesa da cozinha e claro, cobri a mesa com algumas cobertas, formando um pequeno, mas aconchegante ninho, eu e Alice continuamos a conversar sobre nós mesmo durante algum tempo, passando algumas horas, ela deitou-se sobre meu colo, passei a fazer leves carinhos em sua cabeça antes mesmo de me dar conta da situação, tudo foi lindo, realmente me apaixonava cada vez mais por essa garota, e por algum motivo ela continuava a se abrir mais e mais a mim, se ela confiava tanto assim em mim, é porque de alguma forma já nos conhecemos antes, mas... não me lembro dela, e ela aparentemente sabe disso, como se quisesse esconder de mim alguma coisa importante. Em algum ponto, eu percebi que ela estava derrubando leves lágrimas, provavelmente de felicidade, Alice nunca me explicou o porque dessas lágrimas, mas simplesmente acreditei que eram por se sentir segura, por poder confiar em alguém e por saber que alguém estava cuidando dela:
—Thur... assim que você dormir, talvez estejamos em outro lugar, outro mundo, outra realidade, eu não sei dizer, mas... posso confiar em você para cuidar de mim? Perguntou Alice com lágrimas leves sob o belo e pálido rosto.
—Alice, ja disse, se quiser me chame até de guardião ou cavaleiro, enquanto puder ficar do seu lado assim, quem sabe o que farei não é? Afirmei com um sorriso no rosto, com o mais honesto e sincero dos meus sentimentos, talvez, tivesse acabado de aprender o que significa amar alguém e não sabia como representar isso, mas, dei o meu melhor para passar a confiança que possuía em meu coração para essa jovem donzela.
—Sim... Thur... novamente, obrigada por acreditar em mim, mesmo que parece estranho isso, mesmo que não exista palavras para me desculpar com você por te envolver nos meus próprios problemas, por envolver você, uma pessoa tão maravilhosa com uma pessoa tão fraca como eu... só tenho a lhe agradecer por tudo, por isso, me deixe ao menos fazer o que puder pra te agradecer por enquanto. Enquanto falava, ela se aproximava cada vez mais, senti sua respiração pesada, ela realmente estava falando a verdade, por mais que os lábios possam mentir para uma pessoa, os sentimentos não, você pode enganar a si mesmo com mentiras, mas não pode enganar alguém que observa você agindo, suas expressões e que até mesmo é capaz de ouvir sua respiração de tão perto. Nessa hora, me aproximei ainda mais, nossos olhos se encontraram, seu pálido rosto estava vermelho, ela estava totalmente corada, seus olhos verdes estavam confusos, como se ela estivesse finalmente realizando um antigo e profundo desejo, como se sua própria alma dependesse disso, como se estivesse se agarrando a esse fio de esperança durante anos, como se essa troca de olhares tivesse feito valer a pena todos esses anos de vida, nós nos beijamos, durante muito tempo, um beijo quente, caloroso, me passou a sensação seus verdadeiros sentimentos por mim, eu compreendi o quão importante aquilo foi pra ela, eu fechei meus olhos durante alguns segundos, e logo após abri-los novamente, eu vi aquela doce e bela mulher derramar lágrimas de felicidade. Assim que ambos perceberam os sentimentos um do outro, sorriram, e então Alice começou a falar sobre algo que na hora não pareceu muito importante, mas, depois de muito tempo eu finalmente entendi o significado daquela frase:
— Thur, eu sei o motivo de você ter vindo morar aqui sozinho, eu te entendo, não faria diferente, afinal, mesmo naquela época você sempre se preocupou muito com as outras pessoas. Disse Alice com um enorme sorriso em sua face.
Durante o resto da noite, conversamos sobre a vida, Alice me falou mais sobre ela, me contou sobre o motivo de ter me beijado, me disse que já me observava fazia muito tempo, que passou a realmente ter algum sentimento especial por mim após ver minhas ações, e sabia mais que ninguém sobre o tipo de pessoa que eu era, ela disse coisas que eu sempre esperei ouvir, de fato, qualquer homem se sentiria apaixonado por uma mulher dessas, mas, eu achei um pouco estranho o fato dela saber tanto sobre mim, apenas pude julgar que ela me conhecia desde de criança, mas, se me lembro bem, ela morava em uma cidade aos arredores daqui antes de se mudar para cá, eu sempre morei nessa cidade, desde meu nascimento, sempre quis explorar esse mundo imenso, mas uma coisa sempre me impedia, e parece que Alice sabia disso, nunca perguntei a ela sobre isso, mas ela sempre mostrou preocupação por mim, o que só me fazia pensar cada vez mais do lugar aonde eu conheci essa mulher pela qual me apaixonei. Em meio a essas várias conversas, começamos a falar sobre os pássaros:
—Alice, que nome você acha que eu deveria dar para esse corvinho? E como você encontrou a Sinca no parque?
—Então, eu encontrei ela enquanto procurava alguma inspiração pra desenhar as árvores no parque, elas estava sozinha no ninho, subi na árvore para ver o que estava acontecendo, parece que a mãe dela morreu engasgada com algum pedaço de metal deixado no chão do parque, então, decidi que ia cuidar dela eu mesma. Agora, por que você não escolhe um nome que combine com ele? Sinca por algum motivo me lembra de andorinhas, então acho que você vai encontrar algum nome para esse corvinho. Respondeu Alice com um longo sorriso em seu rosto.
—Vejamos... um nome... um... -Nessa hora, olhei para o corvinho novamente, e pensei em um nome, o primeiro que veio a minha mente- Kurow...
—Kurow? Que fofo, combina mesmo com ele. Respondeu-me Alice.
—Certo, Kurow e Arthur, a partir de hoje seremos uma dupla meu amigo, espero contar com você meu pequeno Kurow. Disse em voz alta com um sorriso melancólico.
Pelo resto da noite, deitamos e conversamos bastante, até o momento de maior exaustão de nossas mentes, Alice estava abraçada em meu tronco, eu estava acariciando seus cabelos e sua cabeça durante horas e horas, ela adormeceu com um sorriso no rosto, alguns minutos após ela adormecer eu também acabei por pegar no sono. Eu tive um sonho estranho, sonhei com uma lembrança antiga, estava junto a um antigo amigo de infância, acho que ele se chamava Claude, não me lembro do sobrenome dele, estávamos brincando na escola, quando vimos algumas garotas sendo atormentadas por uns caras mais velhos, logo, vendemos brigas para eles e eles compraram, devíamos ter em torno de cinco ou seis anos, esses garotos eram 4 anos mais velhos que nós, apanhamos como nunca, mas espantamos eles, ao final, estávamos rindo de tudo, como se fossemos heróis ou algo parecido, me recordo de uma das garotas agradecendo o Claude, eram três ao todo, uma delas havia corrido para chamar um dos funcionários da escola e a ultima estava em prantos ao chão, eu me aproximei dela, me apresentei e disse que aquele garoto, apontando para Claude, havia salvado ela e suas amigas, ela foi correndo agradecer ele, e nisso, Claude nunca mais falou comigo, estava sempre ocupado brigando com outros alunos mais velhos, como se tivesse esquecido de mim, ele passou a ser reconhecido pelas garotas, e aderiu ao grupo dos alunos mais populares.
Sentia um leve aroma doce, como o cheiro das melhores flores da primavera, uma flor que não se destaca pela aparência, mas sim por sua fragrância especial, algo macio em meus braços, em minhas mãos senti um toque suave, abri lentamente meus olhos, quando me dei conta, estava deitado em uma cama diferente, em um quarto diferente, porem, felizmente Alice ainda estava comigo, observei com calma durante alguns segundos, apesar de tudo, o quarto aparentava ser totalmente escuro, poucas luzes iluminavam o local, se notava que era um quarto pequeno, bom, menor ainda que o meu anterior, a decoração era quase nenhuma, apenas algum tecido tampando as janelas, havia uma pequena mesa no meio do quarto, algumas roupas estavam jogadas no chão do quarto, sem me levantar da cama, notei que havia ainda um pequeno ninho formado de cobertores em cima dessa mesa, e lá estavam Sinca e Kurow dormindo como se nada tivesse acontecido. Me levantei de forma lenta, acordei Alice com meus movimentos, ela levantou sem notar nenhuma mudança, até o momento em que saiu da cama, ela acordou, me deu um pequeno beijo no bochecha de bom dia, um sorriso leve, assim, levantou e tropeçou por não perceber o quão menor era a distancia entre a cama e o chão, estávamos quase encostados no chão, de algum jeito isso a fez perceber que já não estava na minha antiga casa.
Eu tentava entender o que estava acontecendo, mas é como se eu ja estivesse naquele lugar antes, como se fosse um mundo diferente, porem, familiar, de alguma forma, eu me sentia em casa, Alice não pareceu se assustar muito, mas, é como se ela não estivesse surpresa, como se ela mesma esperasse que isso acontecesse, ela, acima de tudo, estava sorrindo:
—Thur, novamente, me desculpe por te trazer aqui novamente, mas... dessa vez, preciso que me ajude, se eu consegui transmitir todos os meus sentimentos a você, então agora é a hora de me mostrar se você realmente possui uma determinação capaz de abalar novamente as estruturas desse mundo, um mundo que você não se lembra, mas que já esteve muitas vezes antes, agora, por favor, me siga, vou lhe mostrar uma coisa que pode te ajudar a se lembrar do que você há muito esqueceu...
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