Era tarde da noite e eu estava sozinho em casa. Quando ouvi a capainha tocar achei que alguém tivesse esquecido a chave, uma vez que nunca surgiam visitas. No entanto eu não me arriscaria a aparecer diante de algum desconhecido. Com a porta trancada, perguntei quem era. Silencio. Julgando que talvez fosse Bob com sua dificuldade natural para falar, abri a porta. Então me deparei com uma das figuras mais estranhas que poderia imaginar:

Uma mulher alta, de pele morena e os olhos mais verdes que já vi, usando um longo vestido branco e eu não saberia definir sua idade. Tinha a estranha impressão de que já a conhecia, embora não soubesse de onde. Sorrindo, ela entrou sem esperar que eu a convidasse. Era muito elegante até mesmo quando faltava com a educação. Disse:

- Sabe, não foi fácil te achar, Dimitri. Voce se escondeu muito bem. — Ela observava atentamente cada canto da casa com uma curiosidade fora do normal. — Mas agora, vamos ao que interessa: Como foi que voltou à vida?

- E quem é você para entrar e me fazer essas perguntas? Como é que você até mesmo sabe o meu nome? — Com tudo o que havia acontecido nos últimos dias, eu estava a ponto de explodir com o primeiro que me desse um motivo.

— Ora querido, não me reconhece? Eu sou a Morte.

Embora ela não apresentasse prova nenhuma, eu sabia que falava a verdade. Me lembrei de onde a conhecia. Ela estava ao meu lado no ônibus, estava na padaria e até no banco, no dia em que morri. O seu rosto foi a última coisa que vi antes de acordar no cemitério há alguns dias atrás.

- Agora, se você puder prestar o mínimo de atenção no que digo — disse. — Quero que me conte como fez para voltar à vida. Eu não tenho todo o tempo do mundo, sabe.

— Eu, eu não fiz nada. Nem mesmo sei quem o fez.

- Então a situação é ainda mais complicada. Sabe Dimitri, você não foi o único a voltar a acordar depois da morte. — Por algum motivo aquela informação não era uma surpresa para mim. — Embora você seja o caso mais interessante, é o único que possui memória e consciência. Os outros só fazem babar.

— Mas, se não foi você quem fez isso, então quem foi?

- Ora, se soubesse não estaria aqui! Faz ideia da situação que estou com meus colegas? Todos agora me apontam como a grande irresponsável, que deixa os humanos brincarem de ser Deus. — Seu tom de voz deixou claro que estava ofendida com a minha pergunta.

- Olha, não me leve a mal, mas não sei do que está falando e caso não se lembre eu sou a vítima aqui! — Tudo o que eu queria naquele momento eram respostas. — E eu gostaria muito de poder te ajudar, mas eu não sei se percebeu, eu estou morto!

Enquanto eu gritava, a porta se abriu. Mona chegava com uma expressão de profundo desagrado no rosto, seguida por Bob e um pequeno homenzinho ruivo de óculos de fundo-de-garrafa.

- Olhe meu senhor — Ela se dirigia ao rapaz — Eu não sei quem é você, mas lhe recomendo o Sanatório Mrs. Brown, eu garanto que eles podem te ajudar melhor do que eu. Passar bem! — E bateu a porta na cara do baixinho.

Ao se voltar em nossa direção, sua face ficou ainda mais colerizada, se é que isso era possível:

- Quem foi que abriu a porta pra essa maluca? — apontava na direção da mulher ao meu lado. — Olha aqui eu já to cansada dessa história, vocês estão abusando da minha paciência! Ou a senhora dá o fora daqui ou eu chamo a polícia! E aí eu quero ver se eles acreditam nesse papo de Morte!

- Mona, sem querer cortar o seu barato, ela está dizendo a verdade. Eu sei, porque a vi antes de morrer. — E ela, que antes estava em pé, deixou-se cair na poltrona ao lado, enquanto Bob abria a porta para o homem que continuava lá. Ao entrar ele se dirigiu imediatamente em direção à Morte., que ia logo dizendo:

- Você fez um ótimo trabalho, Karl. Me lembre de te recompensar depois. — E notando nossa expressão intrigada disse: — Karl é meu assitente, sabem, ser a Morte no século XX não é nada fácil, é muita morte pra apenas uma deusa, então eu arranjei alguém que me ajudasse. Ele não tem o mesmo poder que o meu, mas é bem útil para tarefas menores. E agora, peço que vocês se apresentem, porque daqui eu só conheço nosso querido Dimitri.

Feitas as devidas apresentações começamos a debater sobre o que poderia ter acontecido comigo e com os outros pobres coitados que não conseguiram ir para o além. Chegamos a poucas conclusões. A primeira delas era que todas as vítimas encontravam-se nos Estados Unidos e todas tinham entre 20 e 25 anos, a segunda era que não se tratava de algo divino ou espiritual, mas certamente humano.

Então fomos interrompidos pelo telefone. Bob correu atender e logo o passou para a irmã que se afastou do grupo a fim de obter um pouco de privacidade. Ao voltar disse:

-Pessoal, sei que é importante descobrirmos quem está por trás desses casos. — Ela tomou fôlego e prosseguiu: — Mas semana que vem é aniversário do Bob, e meus pais querem vir nos visitar. E eu não sei vocês, mas não sei como esconder deles que há um defunto e dois seres do além hospedados na minha casa. Eles nem sabem da minha paranormalidade.

- Eu não acredito, e porque você não inventou uma desculpa para que eles não viessem, Mona? — Eu era o mais desesperado de todos, pois não tinha pra onde ir.

-Pensa que eu não tentei? Você não os conhece, quando metem algo na cabeça custa tirar! Mas nós vamos dar um jeito Dim, não se preocupe. Acho que o mais importante agora é tentar tornar a sua aparencia a mais humana possível. — Ela mirava meu rosto como quem tentasse achar uma resposta.

- Se me permitem, — O pequeno Karl nos interrompia. — Eu já fui humano sabem, e quando morri afogado, minha família pagou a um ex-sirurgião plástico para me maquiar e disfarçar a minha face cadavérica. E deu certo, sabe? Ficou parecendo que eu estava dormindo e não morto. Mas é um método muito caro.

Mona adiquiria aquele sorriso macabro novamente, seus olhos brilhavam, sinal de que havia tido uma idéia.

Notas finais
Ok, eu não fiz o meu melhor nesse capítulo. Prometo que o próximo será mais divertido!