Crônicas de Tasartir
4 Aprendizes de Elliot Petterfield
Notas iniciais
Chego e percebo que a maioria das pessoas não estão mais lá, ao lado da fogueira. Elliot porém continua ali, e me segue com o olhar que retribuo acenando suavemente.
Vejo então Jude entrar em sua casa, mas antes me dando um leve aceno de boa noite. Retribuo e paro perto da fogueira.
O azul vibrante rebola suavemente se envolvendo em vários tons mais claros, chegando no ápice do branco nas partes centrais. O calor que emana do fogo azulado parece ser mais potente que o fogo normal, pois eu já sinto calor imediato.
Consigo imaginar então, há quinze anos minha mãe e meu pai se conhecendo. Quase na idade que tenho hoje, quatorze (elfos) e dezenove (humanos). Imagino que essa contagem diferente é apenas mais uma coisa idiota que foi criada pelo governo para nos confundir e fazer-nos ter duas idades diferentes.
Na época eles deveriam ser muito maduros, e hoje eu mais pareço uma criança sedenta por vingança.
Perco-me então no balançar sensual da fogueira e inconscientemente sinto uma vontade tremenda de me jogar nela e deixar tudo para trás. Deixar a vingança, deixar a dor... Gostaria tanto de encontrar meu pai um dia, no tal nirvana. Peço desculpas a Deusa por ser tão incrédula e carrancuda com a natureza, e prometo (mesmo que sem fundo de verdade) que vou começar a tratá-la com mais cuidado. Suspiro pesadamente e sinto minhas pernas pesarem, meus braços estão doloridos e meus olhos já não suportam a claridade do fogo anil. Dirijo-me silenciosamente até em casa.
Entro com cautela, tranco a porta, e quando chego ao quarto percebo que minha mãe já dorme na cama perto da janela que agora está fechada. Me livro das botas, luvas me deito em baixo dos edredons quentes de lã, tremo por alguns segundos e então o sono me toma por inteira, sem nem ao menos eu perceber.
Desperto com o sol entrando pelas frestas no quarto abafado, já não fazia frio como na noite anterior, e meus cobertores estavam jogados no chão. Eu me sinto totalmente encharcada quando percebo que tive uma noite turbulenta de sonhos que nem posso me recordar.
Me levanto com total disposição, e meus músculos não estão mais doloridos como ontem a noite. Recolho os cobertores no chão e faço a cama silenciosamente, quando percebo que minha mãe ainda dorme, sem sentir calor algum.
Saio com baldes nas mãos para buscar água no rio próximo a vila. O sol é brilha cruelmente no céu de forma torturante me fazendo transpirar como nunca. As roupas quentes que vesti na noite passada estavam encharcadas de suor quando finalmente abasteço nossa reserva de água para banho. Depois de me livrar rapidamente de todo aquele pano, quase que desesperada, tomo um banho gelado que parece que tirou todo o incomodo que venho sentindo desde que acordei.
Me enrolo em um pano, e vou para dentro de casa, e vejo que mamãe já está acordada.
– Vai falar com Elliot hoje? – Ela pergunta sem rodeios, e sinto uma pontada de decepção em sua voz que ela fez questão de esconder como pode, não foi o suficiente, e pude me deixar pensar se ela realmente fez o esforço para me livrar de toda a culpa.
– Sim. – Digo a ela, atravessando a casa e indo até o nosso quarto. Pondero sobre qual roupa vestir, apesar de não ter muitas opções.
Decido que o calor é grande demais para vestir calças de couro, e pego um vestido velho que cabe em mim só pelo fato de eu não ter engordado nos últimos anos, ele é todo feito de couro, mas é um couro diferente, é leve e refrescante pois tem áreas de ventilação com pequenos cortes artísticos dando um ar superior a ele. Visto um short de pano por baixo e me sinto livre o suficiente para correr o dia inteiro e caçar antílopes saltitantes nas colinas mais próximas de Berneo. Me vejo no pequeno espelho quebrado que temos, e me arrependo profundamente.
Eu odeio ser diferente.
Odeio com todas as minhas forças.
Praticamente jogo o espelho sobre a cama — sem medo algum de rachá-lo mais -, e murmuro um tchau para minha mãe enquanto pego o arco e minhas flechas, colocando-os então sobre minhas costas.
Me deparo com a vila fervendo de pessoas correndo de um lado para o outro. As carrocerias entregam mercadorias para o mercado, farmácia e padaria. No centro da praça o único rastro de que a fogueira passou por ali é toda a lenha preta carbonizada que sobrara.
Viro-me em direção a casa de Jude, e ando até lá com certa urgência, e antes mesmo de eu chegar para bater em sua porta ela sai afobada batendo-a atrás dela.
– Bom dia. – Diz ela caminhando o mais rápido que pode. A acompanhei sem problema algum.
– Bom dia, parece nervosa. – Digo a ela que me lança um olhar irônico.
– Não estou nervosa. – Retruca com aborrecimento. Preferi não insistir no assunto.
Andamos até sair da vila, e nos afastamos consideravelmente dela até não ouvirmos mais mugidos de vacas ou galinhas ciscando. Andamos por entre as árvores e Jude foi muito barulhenta pisando nos lugares errados e quebrando galhos sob seus pés. Me irrito facilmente com isso, porém ignoro, não estamos caçando.
Andamos por volta de trinta minutos até então ouvirmos barulhos de luta e cortes com facas na madeira e alternando em panos.
– Vamos, mais rápido. Você parece uma garota! – Ouço a voz de Elliot pressionar e incentivar outra pessoa.
O barulho continuou até então, estarmos na clareira onde Elliot mora. Me deparo com bonecos de pano estraçalhados por todo o gramado. Alvos pintados nos troncos das árvores e armas velhas e novas jogadas ao lado da casa razoavelmente grande, feita à pedra que já se está toda coberta por alguma espécie de mofo verde, e as janelas e portas são todas de madeira maciça e escura. O telhado é feito de telhas extremamente fortes de barro e pude perceber o luxo daquele lugar. Engulo em seco, e observo Ephraim esfolando outro boneco de pano recheado de algodão por dentro. Ele é rápido e furtivo, ataca de todos os lados, e pude ver que mais nas partes sensíveis e vitais. Cabeça, coração, fígado, pulmão... Qualquer golpe daquele tiraria a vida de qualquer ser um, e mesmo se ele fosse impedido de atacar novamente seu alvo morreria por perda de sangue. Quase que imediato.
– Vamos Eph! Você está lento hoje! – Mais uma vez Elliot pressiona e Ephraim solta um grunhido irritado pelas palavras do mentor.
Pondero se deveria ir embora e voltar outra hora, ou talvez desistir da ideia.
Não me convenço por nenhuma das alternativas, e então pigarreio.
Os dois se viram instintivamente para nós e Elliot forma uma expressão curiosa, e logo depois abre um sorriso amigável.
– Ziraya! Jude! – Diz ele abrindo os braços em boas vindas, sorrio de volta, mas me mantenho parada enquanto ele avança.
Elliot para em nossa frente pude perceber o quão alto ele é, porém isso não me intimida.
– Por que devo a honra? – Pergunta e Ephraim se põe ao seu lado, mais atrás, e o cumprimento com uma inclinada de cabeça.
– Queremos ajuda. – Jude arfa ao meu lado, disse de forma desesperada e eu quase rio de sua cara. Me contenho e assinto para Elliot que tem uma expressão divertida no rosto.
– Para o quê, minha cara? – Diz suavemente passando tranquilidade imediata. Desta vez a iniciativa quem toma sou eu.
– Poderia nos treinar? – Digo com confiança que não tenho, Ephraim ri discretamente escondendo sua boca com uma mão, porém eu percebi e o olhei com uma careta furiosa.
– Para quê, duas moças vão querer treinar? – Pergunta com a mesma suavidade que antes.
– Eu quero ir para a fronteira. – Digo de queixo erguido ignorando o riso debochado de Ephraim que fere profundamente meu ego. Então, passo a ignora-lo.
– Tsc, tsc... Tanta gente aos prantos para fugir de lá, e você abrirá mão de uma vida feliz e saudável para ver mortes? – Nos repreende com a expressão séria. Suspiro.
– Não vai me convencer a desistir. – Jude diz firme e eu assinto concordando plenamente com tais palavras.
Elliot pondera por algum momento e Ephraim já voltara a seu treinamento, e os momentos em que o ancião pensa é quase torturante. Ele muda o peso de uma perna para a outra, e coça o topo de sua cabeça em perfeita dúvida.
– Estou velho, não sei se suporto mais dois alunos. – Resmunga e eu imediatamente reajo.
– Não vamos dar trabalho, você só tem de dizer o que devemos fazer e nós faremos, apenas isso. – Suplico esfregando uma mão na outra em impaciência. Se ele não for aceitar, que diga logo.
– Só isso? Acha que é fácil, Ziraya? – Diz ele com aborrecimento, e suspiro logo tentando me concertar.
– Só estou tentando dizer que não terá esforço físico. – Me justifico e ele parece mais ofendido que antes.
– Não falo de esforço físico, falo de esforço mental... Planejar métodos, estratégias, descobrir o forte de cada uma... É muito trabalho. Com Eph foi quase fácil pois ele nasceu em meus braços, mas eu não as conheço tão bem. – Diz ele querendo matar qualquer esperança que podemos ter de que talvez ele nos ajude.
Jude suspira derrotada.
– Faça esse sacrifício... – Peço e ele não se convence. – Ninguém é tão bom quanto você. – Completo e sua expressão se ameniza. Elliot olha o local inteiro, menos para nós, e então eu percebo que ele está realmente considerando. E não perco a oportunidade de suplicar.
– Por favor. – Gemo de forma dramática, e o velho me encara sério.
– Somente se vocês forem boas. – Diz ele agora com menos convicção de que não vá aceitar. Sorrio vitoriosa.
– Nós somos, te garanto. – Afirmo, e Ephraim bufa silencioso do outro lado do gramado quando termina seu último boneco. Vai até a casa, e puxa um copo de água que está na janela, e o bebe em um segundo. Se senta perto da porta e então me olha arrogantemente. Retribuo o olhar e Elliot então me toma a atenção.
– Mostrem-me o que sabem fazer. – Propôs se afastando, e eu o segui tirando o arco e pegando uma flecha.
– Arqueira? São raros. – Ele comenta e Jude se senta para esperar que eu faça minha apresentação.
Elliot se põe atrás de mim.
– Mire naquela árvore. – Indica com o dedo, e eu miro minha primeira flecha bem no centro do alvo, em menos de um segundo a flecha está cravada lá, exatamente onde mirei.
Puxo novamente duas flechas e as encaixo no arco, sinto Jude sorrir e bater palma discretamente e Elliot solta um som de surpresa.
Atiro as duas flechas, e cada uma se crava de cada lado da primeira, na árvore.
– Uh. – Ele deixou escapar.
Mas eu ainda não terminei.
Puxei mais uma vez um punhado de três flechas, e miro em outra árvore perto de Jude, que nem ao menos se move por confiar cegamente em minha mira. Acerto as três no centro.
– Isso é o suficiente. – Ele diz maravilhado. Então eu rio.
– Isso não é o começo. – Digo, enquanto puxo mais uma flecha vermelho sangue, e o velho pareceu não a reconhecer. Faz uma careta de dúvida e me olha incerto. Assinto o assegurando de que sei o que estou fazendo.
Me afasto um pouco dele, e vejo uma árvore que tem outra exatamente atrás dela, quase sorrio em satisfação.
Perfeito.
Encaixo a flecha no arco e puxo o elástico o dobro do quanto puxo em flechas normais. Me concentro e não vejo mais nada além da flecha em minhas mãos e dos meus alvos a frente. Me empenho e semicerro meus olhos colocando empenho demasiado no ato.
Miro perfeitamente, e a flecha se solta fazendo um zunido cortante, como se cortasse até o vento.
A flecha atravessou a primeira árvore causando um estrondo oco, atravessou a segunda fazendo o mesmo barulho e se fincou na terceira enterrando até a metade. O elástico ainda vibra no arco quando Elliot me olha com os olhos arregalados.
– Pode fazer com duas? – Pergunta meio atônito, assinto.
– Posso fazer com três.
– Me mostre, por favor. – Pede de jeito pensativo, ele nem mesmo me olhou nos olhos.
Assim fiz.
Mirei em duas árvores consecutivas relativamente finas e atirei nelas, a primeira se partiu e Jude soltou um grito assustado e correu para perto de nós. Elliot bateu palmas sorridente.
– Seu pai lhe ensinou tudo isso. – Conclui ele com um sorriso bobo. – Ele era o único que podia... Mas você... Você pode. – Quase gargalhou pasmo. Sorrio.
Não sabia que meu pai havia sido tão bom assim.
Sinto-me completamente aliviada por realmente ter impressionado Elliot, tudo me parecia perfeito, e então chega a vez de Jude mostrar suas habilidades.
– E você, pequena Jude, mostre-me o que faz. – Elliot diz, e eu vou em direção à Ephraim com uma expressão arrogante devolvendo-lhe todos os olhares maldosos que ele havia feito questão de fazer com que eu percebesse. Sento-me ao lado dele, e observo Jude trabalhar.
Jude é rápida em seus feitiços, assim como qualquer outro elfo, porém ela é humana, e humanos não tem tanta facilidade como ela. Elliot se afasta por precaução, e Jude mantém seus olhos castanhos presos e concentrados em um boneco de pano que havia sobrado do treino de Ephraim.
Lentamente, ela junta as mãos e uma luz tímida se forma entre seus dedos frágeis, de tanta força e concentração ela começa a forçar um grito em sua garganta e vai soltando-o muito baixo. À medida que a luz vai se intensificando em sua mão, o grito dela vai aumentando e seus olhos faíscam em concentração. Quando ela finalmente acha que a bola de maná está pronta para ser lançada, coloca o pé esquerdo para trás e a força para frente na direção do boneco de pano que está indefeso.
A bola de energia azul vai faiscando e eu posso até ouvir o barulho de trovão dentro dela, rapidamente a esfera se choca contra o boneco, e ele vira cinzas em curtos segundos. Este é seu ataque que exige mais de seu corpo, Jude aprendeu-o muito nova e o trabalhava todas as vezes que tinha oportunidade.
Logo depois, ela começa a jogar pequenos rastros de energia maná contra as árvores e as acertando em pequenos estrondos que chiavam em calor depois que a força se esvaía. Esses ataques claramente são mais rápidos com menos efeito que o primeiro, porém, quatro desses podem se igualar razoavelmente ao outro.
Por fim, Jude já está com a testa brilhando em suor, e eu creio que teria de fazer uma boa refeição depois de ter feito tanto esforço.
E claro, estamos aqui para ganhar resistência.
– Você usa elementos... – Elliot diz depois de um longo tempo em silêncio observando Jude em seu pequeno espetáculo. – Onde aprendeu isso?
Jude hesita por um segundo e desliza a mão por sua testa, tentando secar o suor, funga uma vez e passa a mão na calça.
– Aprendi sozinha. Me disseram que é possível, então, tentei. – Ela diz como se fosse a coisa mais natural do universo.
Até Ephraim ao meu lado se remexe em incomodo, Jude é mais poderosa do que imagina, e na verdade até mais do que eu imagino, mesmo eu a superestimando constantemente.
Ela é inteligente, quase tanto com Elliot, porém pode-se considerar mais, pois tem apenas dezesseis anos, e Elliot tem por volta dos seus cento e vinte. A diferença é gritante, e mesmo nesse curto tempo de vida, ela se iguala ao ancião que tem mais experiência que nós três juntos.
– Impossível. – Elliot murmura mais para si mesmo, mas não vejo duvida em sua voz, ou qualquer sinal de que ele ache que Jude está mentindo. Ele está somente perplexo, assim como eu fiquei quando ela me mostrou.
Um sorriso orgulhoso foge de meus lábios no mesmo momento em que meus olhos se encontram com os de Jude, ela parece incrivelmente aliviada agora, e respira ofegante. Pisco um olho para ela do jeito mais simpático que posso e ela acena com a cabeça.
– Muito bem... – O ancião diz enlaçando Jude pelos ombros e a trazendo para mais próximo da casa onde eu e Ephraim estamos sentados. O homem tem uma expressão ainda confusa, mas parece estar decidido.
– Vocês ficam.
Ele diz com um sorriso franco nos lábios, parecia ainda sim ponderar se iria se arrepender mais tarde, mas não disse nada depois disso. Jude, no entanto não permaneceu na mesma calma que o ancião e logo o abraçou pela cintura de forma terna. O velho que é consideravelmente mais alto que ela lhe dá tapinhas fracos nas costas e sorri desconcertado para Ephraim que rola os olhos com tédio.
Não posso perder a oportunidade de provocar meu colega de treino, agora. Lhe dou uma cotovelada descontraída e Ephraim encontra seus olhos com os meus de jeito relutante.
– Melhor tirar este bico mimado, ou vou pensar que é como dizem. – Digo deixando uma gancho para uma conversa póstuma.
O loiro pondera por alguns segundos e me lança um sorriso amarelo e ofendido. Lembro-me da noite de ontem e de toda sua simpatia que agora caíra por terra, ele realmente não quer dividir Elliot comigo. Talvez Ephraim não seja diferente do que dizem dele: Arrogante e egoísta guerreiro que irá trazer seu irmão mais velho à loucura. Pois bem, se ele é tão relutante com nossa presença, não serei eu que moverei um dedo para tornar isso mais fácil.
– Ah, Eph... Não seja mal educado com as moças, sim? – Diz agora Elliot já com Jude mais calma ao seu lado, porém sua expressão me diz que ela quer gritar de felicidade, não posso segurar o riso dentro de mim, e retribuo a ela. O ancião gesticula para que nós nos levantemos e então nos convida para entrar na casa luxuosa que suponho que seja seu lar.
Suspiro satisfeita, e sigo os outros três com pensamentos positivos e satisfeitos, o primeiro passo fora dado, agora somente paciência e em breve estarei lutando pelo meu povo na fronteira. E aí sim, minha missão estará completa.
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