Crônicas de Overly Fills
2 A Lenda Urbana de Jugular — Parte I
Notas iniciais
22 de Junho de 1872
Neste sábado John e eu vamos pescar alguns peixes no rio depois da floresta Tibaland. John levará seu filho. O garoto está nas suas férias de escola e o John quer mostrar a ele como se pesca. Na verdade, ele faz isso pois sempre diz que o menino deve se tornar um homem viril, másculo, coisa que se falta hoje em dia. Enquanto, eu, vou chamar alguns colegas daqui da cidade que não estão habituados a caçar ou ter um estilo mais frugal de vida, apesar de terem interesse.
Fomos até a casa do John. Quando chegou eu com o Thiago, o Diogo e o Math, estava a Emília, uma graça de esposa, se despedindo do marido e do filho que passou correndo por debaixo das suas pernas. O garoto é bem desajeitado. Deixou seu crânio cair e tirou uma risada dos meus amigos que estavam só observando a peça. John deve ter ficado um pouco irritado por estarmos rindo de seu filho.
23 de Junho de 1872
É domingo e eu não aguentei sair da cama. Ontem ficamos até tarde da noite. Não estávamos pescando, óbvio. Já saciávamos do gosto das espinhas daquelas criaturas, enquanto eu e John contávamos para os senhores da cidade as historietas do campo. Rimos muito, até o pequeno Roger, filho do John, contou-nos uma história. Mas era ficção, obviamente. O garoto era novo, ainda não tinha experimentado muita coisa na vida. Por isso fiquei abismado com a precisão dos detalhes e o alongamento da história. Tinha ele improvisado aquilo ali, naquele instante?
27 de Junho de 1872
Hoje fui à câmara com o prefeito. Só quem trabalha para o governo possui esse tipo de privilégio. Em suma, envio relatórios para o prefeito do que acontece na área rural de Overly Fills. Não poderia ter um trabalho melhor. Mas de algumas semanas pra cá, um companheiro meu, Robson, que fica encarregado dos relatórios da cidade, estava reclamando de como o prefeito o queixava das coisas estranhas que vinha acontecendo na cidade. Pessoas desaparecendo e, sobretudo, estranhos aparecendo em lugares improváveis, no meio do nada.
Sempre o digo mais ou menos isso, “É, infelizmente. Ainda bem que nunca vi casos assim no campo. Quando me aposentar quero construir uma casa na área rural, e você?” O faço na tentativa de convencê-lo de que o campo é melhor, devido às desvantagens da cidade. A cidade é um lugar ótimo para se morar, também. Mas com as suas estranhezas e eventos repentinos, é difícil levar uma vida despreocupada.
29 de Junho de 1872
Nós não fomos pescar neste sábado. Aqueles meus amigos me chamaram pra ir a um planetário, o mais novo entretenimento de fãs de cientificismo. Assim como eles, decido ir pela curiosidade, mas ao chegar lá me sinto um pouco alienado. Não que eu não entenda nada do que vi e ouvi lá, é mais porque realmente não tenho interesse. Se alguém ler isso pode até pensar que sou mais para o lado místico e hermético, mas de fato é um pouquinho por aí.
30 de Junho de 1872
Emília me chama para almoçar na casa deles. Eu pergunto se posso levar uma pessoa, ela encoraja, dizendo que seus parentes também vão, além de chamar alguns vizinhos queridos. Cheguei era por volta de 15:35. Levei a Anne, minha futura namorada, se assim posso dizer... agora que escrevo isso tenho que ter um pouco de cuidado pra ela não descobrir essa parte. Enfim, os parentes de John e Emília eram muito simpáticos. Um deles, o Marcos Miller, filho do irmão mais velho do John, que não vale a ressalva do nome, trabalha num restaurante e havia levado algumas iguarias interessantes para o evento.
Enquanto nós conversávamos do lado de fora as crianças brincavam nas proximidades da entrada da floresta Tibaland. Deviam ser umas 18:20 quando vi o grupo deles sendo liderados por Roger invadindo a boca da floresta. Em razão das árvores altíssimas de Tibaland as pequenas faíscas de luz do sol que já quase se punha não ultrapassavam certa parte da área, o que formava uma pequena umbra na entrada da floresta, deixando a visão mais obscurecida. Eu só consegui os enxergar por causa das suas roupas de cores quentes.
Quase esqueço! No mesmo local, houve uma conversa que catou minha atenção. Era sobre uma criatura rara rondando pela floresta.
“Ficaram sabendo da nova espécie que tem habitado em Tiba?” (Note que, tiba é como os vizinhos chamavam carinhosamente a floresta).
Quando me intrometi já estava no meio da conversa.
“Sexta agora estava caçando um corço, e o maldito mesmo sem o fêmur esquerdo conseguiu fugir de mim! Isso me deu uma raiva! Aí adentrei mais pela floresta atrás dele. Quase que perco minha clavícula num galho. Depois passou um tempo e decidi voltar pra casa, pensei em pegá-lo amanhã, que seria ontem. Mas quando voltava me deparei com uma criatura desforme. Quero dizer, ela era diferente dos demais. Como posso dizer... “
“...Que olhasse eu não conseguia ver nenhum traço de carcaça no seu corpo. Era como eles. Cogitei até em atordoá-la pra dar uma ótima refeição. Mas tinha um detalhe. A boca dela estava com o que parecia ser esse molho que o Marcos trouxe.”
Só pra deixar claro, nos meus 20 anos morando no campo nunca me ocorreu tal coisa. E olha que eu morava nas proximidades de Tibaland.
3 de Julho de 1872
Liguei para a casa do John para marcarmos de caçar algumas feras neste sábado, mas ele disse que não poderia ir. Sexta teria um festival na escola de Roger e ele não podia deixar de comparecer. Disse que no sábado faria outra coisa especial, a só. Perguntei o que era e ele disse que logo saberia. Ainda acrescentou “Você vai gostar”.
8 de Julho de 1872
Robson vem perguntar a mim sobre como foi esses fins de semanas no campo. Eu disse algo entre “Você não vai acreditar, parece que descobriram um animal novo lá em Tibaland!”
E ele me respondeu, “Lá no centro de pesquisa daqui de Overly Fills também parece que estão tendo ótimos avanços nos experimentos.” Falei pra ele investir nisso, relatar mais sobre as pesquisas e descobertas do centro do que no que ocorre na cidade em si, e ele aceitou minha ideia. Quando ele estava quase voltando pra sua sala o chamei pra convidá-lo em ir ver a Tibaland.
Ele disse que só iria pra dá uma olhada nessa espécie nova, falou “Imagine só a matéria que isso daria, digo, vai dá!”. É engraçado como ele não se importa em esconder suas intenções.
9 de Julho de 1872
Tarde da noite alguém liga pra mim. Era o John. Ele conta que no sábado havia saído de casa para ir a Cosmoboro (um bairro um pouco longe de Overly Fills) para comprar uma arma de fogo.
“Domingo agora você vai poder vim?” ele perguntou pela linha. Eu respondi que sim, e que talvez leve um amigo. Diz ele que vai pegar essa espécie nova e dará sua cabeça de presente ao filho.
Fale com o autor