"De novo!"

Mais e mais vou ao chão. Estou completamente frustrado e Tyr consegue perceber esta frustação. Ele fala para eu usar isso ao meu favor, usar meus sentimentos como pontos de canalização, não me deixar cair nestes sentimentos negativos e perder o foco isso faz com que eu me conecte com a espada. Me concentro de forma que escuto até mesmo meus batimentos cardíacos, seguro com força o cabo da espada e com fluidez faço um movimento horizontal da esquerda para a direita. Afiada a lâmina penetra um pouco a madeira, forçando Tyr a largar o bastão e desviar parcialmente com facilidade e maestria.

— Viu? Como pode ver sua postura foi parcialmente correta e você se concentrou no seu alvo, use mais sua cintura na hora de desferir o ataque, gire seu tronco de maneira sutil com a espada e conseguirá atravessar até mesmo ossos e carne de qualquer inimigo com ela.

— Para que tudo isso? Com os Orcs vindo do Norte, não seria mais prudente seguirmos nosso caminho? — Tanto eu como ele tomamos um pouco de fôlego depois de tanto fazer aquele treinamento.

— Poderá haver momentos em que não estarei do seu lado para te defender, você pode até saber forjar uma espada ou uma armadura, mas sem disciplina, tão pouco treinamento, jamais conseguirá sobreviver por um dia. Estou fazendo isso porque não posso estar acompanhado de um peso morto. Então chegue de choramingar.

Tyr retira minha espada do galho que se parte com a força imposta, Ele olha para cima e observa o céu preocupado. Quanto tempo havia se passado desde aquele, pequeno teste? Uma, talvez duas horas, o sol já está mais a oeste, indicando o meio da tarde. Pego minha espada de sua mão e a guardo na bainha, ele em silêncio arruma seus equipamentos brevemente soltos e sinaliza com a cabeça que devemos partir pouco antes do anoitecer. O caminho começa a ficar estreito conforme nos aproximamos das montanhas, o sol já estava se pondo e o alaranjar do céu já indicava cada vez mais que a escuridão da noite se aproximava, mais a frente consigo observar um ponto em que as rochas já começavam a brevemente separar a floresta das montanhas.

— A noite finalmente está chegando. — Tyr procura próximo dali um lugar íngreme, com uma enorme pedra que claramente poderíamos usar para construir um acampamento improvisado.— Pararemos aqui para esta noite, ao amanhecer estaremos próximos de Themas.

Começamos a montar o acampamento, eu começo a montar uma barraca improvisada com alguns galhos da floresta enquanto ele monta a fogueira, ao dar as costas para Tyr escuto ele falar "Tân" de maneira baixa e ao ouvir isso, ouço o ranger do fogo estalar a madeira que cobria toda a fogueira.

— Como fez isso? — Me viro rapidamente e vejo a fogueira em chamas pequenas, entretanto, sem qualquer esforço dele ou de qualquer material inflamável.

— Treinamento básico da muralha. — Ele me olha e me vê confuso.

Ele me explica sobre o conceito básico da magia, em nosso mundo, tudo que existe possuem um núcleo magico, seja um ser vivo ou não, todos possuem o que é chamado fulcro magico, aqueles que não emanam magia ou não se pode ter acesso magia são chamados de fulcro mágico inativo, já os que conseguem usar magia ou emanar magia, são chamados de fulcro magico ativo. Seres humanos são extremamente difíceis e praticamente raros de manipular o fulcro magico, entretanto, com o ritual certo e o treinamento correto, os rangers das muralhas consegue utilizar magias extremamente fracas e básicas para sobreviver em locais praticamente sem vida. Os ranger das muralhas são batedores que tem como objetivo explorar e obter informações sobre Huginn, assim, mantendo o controle sobre os Orcs. Conforme o tempo passa finalmente terminamos de montar todo o acampamento. Tyr parece apreensivo e logo pega seu arco, dizendo que ia caçar pelas redondezas, me mandando assim ficar no acampamento. Em pouquíssimos segundos, como uma sombra, ele desaparece na escuridão da noite, deixando apenas a luz da fogueira me protegendo dos perigos a fora, contudo, enquanto aguardo seu retorno vejo uma pedra de amolar próxima a mochila de Tyr, aparentemente ele não pretende voltar tão rápido, então de maneira ligeira apanho emprestado para afiar minha espada já que com todo aquele teste anterior, a lâmina pode ter perdido um pouco do seu fio. O tempo passa e o som da noite se torna aterrorizante, consigo ouvir o chirriar das corujas, o estalar das chamas da fogueira, à medida que uso a pedra o som repetitivo da lâmina parece ecoar em minha cabeça em um loop infinito. Inesperadamente escuto um barulho estranho, um som fraco e baixo vindo da minha mochila, como de um sussurro, algo me chamava...não...alguém me chamava, em minha mente sentia como se alguém sussurrasse meu nome em meio a escuridão, em meu coração sentia um desejo quase oculto de uma curiosidade sem fim, em desejo estranhamente incomodo; lentamente estendo minha mão em direção a minha mochila, como se uma enorme distância estivesse dali, entretanto ela estava logo ali, ao meu lado, me chamando.

— Hey ! — Tyr aparece nas sombras como uma sombra, com seu anúncio dou um leve espasmo e aponto minha espada para ele.— Pode guardar aprendiz de ferreiro.

Tyr apresenta uma cobra, um esquilo e duas lebres já sem vida. Se senta de frente para a fogueira que está diante de mim. Enquanto ele começa a quebrar os ossos das lebres e retirar a sua pele, certifico de olhar fixamente para a mochila, que agora não reproduz mais nenhum som. Pergunto a ele se em algum momento ouviu alguém próximo, entretanto, além de mim não havia mais nada que não fosse animais, nenhum viajante, nem mesmo Orcs. Com todo o preparo da carne, o gosto é extremamente suculento, ele parece saber exatamente o que faz e sabe assar suas presas como jamais havia visto, a maciez da carne de lebre, a gordura que se entremeia por entre a carne, mesmo com o fogo tão alto jamais pensei que sentiria algo tão suculento como este. Mesmo que pouco, ele cozinha as outras carnes e estoca elas em sua mochila para os próximos dias. As estrelas no céu iluminam de maneira celestial enquanto a lua se torna o maior farol, deitamos nossas cabeças entre as peles que temos e pego o anel de meu pai; só de segura-lo me sinto um pouco mais confortável e melhor para dormir, Parece que Tyr resolve repousar um pouco, não consigo saber se está de fato dormindo ou apenas com os olhos fechados descansando, mas aos poucos meus olhos ficam pesados, então guardo o anel em meu bolso, sem o soltar, para que aos poucos eu caia finalmente, no sono.

A grama ainda estava congelada devido ao frio da calada da noite, ao inspirar sinto o ar gélido arder do topo da garganta até meus pulmões, expiro com total calma para que não sinta vontade de tossir. Está amanhecendo e posso ver suas orelhas pontudas de uma certa distância, sua respiração é bem calma e não aparenta me ver. Meu arco está pronto de maneira rápida e silenciosa o fio que se estica não surte qualquer ruido como o bater de asas de uma coruja e minha flecha está pronta para sentir sua pele ser perfurada pela lâmina afiada seu sangue quente, em segundos, minha flecha voa em direção a ele, até perfurar sua garganta. Teu corpo se contorce de dor e medo, sua breve respiração afobada vai se decaindo e sua agonia acaba em alguns instantes; a luz de seus olhos agora está fosca e vazia e o silencio tomou o local por alguns segundos.

— Bem, parece que teremos coelho no jantar hoje. — Ela desce da árvore e ao me ver sorri.

— Pois bem minha amada, coelho hehehe. Achei que você ia ficar em casa hoje, ainda mais com esse inverno forte que teve. — Ela retira seu arco branco.

— Fiquei entediada. Acredite, para mim que cresci nas florestas dona de casa nunca foi algo bom entre os elfos.

De uma árvore adiante surge um cervo, o maior e mais saudável que eu já tenha visto, seu chifre reluz de forma magistral e encantadora, seus pelos marrons escuros são brilhantes, eu olho para Helena que com um sorriso excitante e desafiador saca num piscar de olhos duas flechas em seu reluzente arco com maestria, parecendo que não tinha necessidade de mirar ela atira ambas as flechas. O grito do cervo é fatal e seu último.

— Cervo ou coelho? - Ela dá uma leva risada. — Leva o bonitão pra casa, você cozinha.

— Ah então eu cozinho hoje? Eu matei o coelho primeiro.

— É... mais o cervo é maior. E ele não ficou agonizando, então dois pontos para mim.

Helena se aproxima e me beija, seus lábios são macios como se tocasse minha boca por entre as nuvens toda vez que a beijo. logo após isso adentra mais a floresta com seu lindo sorriso, eu seguro firme o cervo e o arrasto de volta para casa, a neve dá ao cervo mais peso, após trinta minutos de caminhada fria e gélida chego nos portões de minha cidade que está à beira das chamas, a fumaça se estende para além das nuvens, ouço as chamas consumirem cada casa, cada carroça, vejo pessoas inocentes jogadas nas ruas em uma verdadeira chacina, a principal estrada da cidade estava agora coberta de sangue inocente como um rio do inferno pronto para afogar todos aqueles que adentram. Por um instante volto a raciocinar e rapidamente só me vem um pensamento.

— HELENA!

Largo o enorme cervo no chão e parto para a floresta em busca de minha amada, com esperança de que ela esteja viva e bem.