Notas iniciais
Nota: Voltamos a programação normal com a narração da Nicole.

— Parece que ela está acordando. — Disse uma voz masculina.

Tentei abrir os olhos, mas apenas um abriu e parcialmente. Eu estava em um hospital? Por que eu não conseguia me mexer? Comecei a puxar na memória o que tinha acontecido, mas nada vinha, provavelmente eu estava dopada de remédios.

— Ela não tinha que estar acordada, dêem mais morfina para ela. — Mandou a mesma vez de antes. — Nicole, você está num hospital, acabamos de fazer alguns procedimentos, mas você vai ficar boa logo. Já estão atrás de quem fez isso com você. — Pegou uma seringa e aplicou no cano do soro. — Agora você vai dormir.

Eu deveria ter dormido por alguns dias. Comecei acordar novamente, mas não abri os olhos. Ouvia vozes, sem conseguir reconhecer. Depois de alguns minutos senti alguém encostar em meu cabelo, como se estivesse arrumando, depois uma longa respiração. A claridade do ambiente me impedia de criar coragem de abrir os olhos. Senti minha coluna doer, em seguida a cabeça, braços e pernas, comecei a gemer involuntariamente de dor. Alguém segurou minha mão, tentei segurar de volta, mas dei apenas um leve aperto.

— Vou chamar a enfermeira. — Não sabia de quem era aquela voz, mas parecia com a minha. Logo outras três vozes diferentes invadiram o ambiente. Me deram algo para dor, mas dessa vez eu não dormi. Depois de alguns instantes eu abri os olhos, totalmente. Não sabia quem estava sentada ao meu lado. Tentei mexer o pescoço, mas não consegui, tinha algo o prendendo. A moça estava lendo um livro de pelo menos 400 páginas. Tentei falar, não pude, mas soltei um som qualquer que chamou a atenção dela para me olhar. — Sua namorada não vai ficar muito feliz de você ter acordado comigo aqui ao invés dela que passou todas as noites das últimas duas semanas aqui. Sou Natalie Lauren Haught, sua irmã. — Colocou um documento de identificação na altura dos meus olhos. — O doutor disse que você poderia ter problema de memória por causa do trauma e da cirurgia, mas tirando isso parece que você está indo muito bem.

Queria perguntar qual era o problema comigo. Por que uma parte da minha cabeça estava mais gelada que a outra? Por que minha perna e meu braço esquerdo estavam engessados? Por que eu não conseguia mexer meu pescoço? Onde estava minha mãe?

— Parece que vai ser um monólogo por enquanto, então vou falar algumas coisas, se você se entediar, finge que dormiu. — Ela estava de pé, para que eu pudesse fazer contato visual com ela. — Primeira coisa, quando sua namorada voltar eu não vou falar que você acordou, para ela achar que você acordou com ela aqui, ok? — Fez uma pausa como se tivesse esperando eu responder — Esqueci que você não pode falar. Sua mãe passou a semana aqui, passava o dia e a Waverly ficava a noite. Parece que ela estava com um problema no telefone, na região, mas sua namorada falou com uma amiga sua e ela avisou sua mãe, quando eu cheguei aqui ela já estava. Eu vim porque um amigo seu disse que eu era a única da sua família que ele conseguiu contato. Eu já fui embora e voltei três vezes nessas duas semanas. Eu que nem gosto tanto assim de você fiquei preocupada, imagina elas? — Cruzou os braços — Eu estou brincando, ok? Não tenho mais raiva de você. — Olhou no relógio — Sua namorada vai chegar daqui a pouco. Ah! Sua gata ficou com sua avó e sua mãe volta amanhã. Isso é tudo, eu acho. — Chegou um pouco mais perto de mim — Fico feliz que mesmo toda quebrada você está inteira e esse visual fica ótimo em você. — Apontou meu rosto — Esse cabelo raspado de um lado e o olho roxo. Bem punk. — Sorriu e se sentou de novo. A perdi de vista. — Sabe? Eu tenho um pouco de inveja de você. Você tem amigos incríveis. Espero que você não se importe, mas eu fiquei com o Charles na semana passada. — Fez outra pausa — Essa é a primeira vez que me deixam ficar sozinha com você. — Mais outra pausa — Sua namorada é muito bonita, mas ela não parece muito bem. Às vezes ela hiperventila com a quantidade de informações, esquece de comer, esquece o que está fazendo, fica sempre em alerta e se assusta com qualquer coisa. Espero que ela não seja assim sempre.

— Vim trazer sua janta. — Disse uma enfermeira entrando no quarto com a bandeja.

— Obrigada, Hannah.

— Obrigada nada, você ainda está me devendo uma caixa de chocolate e flores. — Colocou a bandeja na mesa — Estava falando sozinha? — Fechei os olhos. Estava falando com a minha irmã, vai que ela ouve, né? — Respondeu encostando a mão em meu braço. — E ah, eu te devo flores? Ok, mas só porque você cuida muito bem dela.

— Só por causa disso? Lamentável você, Haught, lamentável. — Respirou fundo- Daqui a pouco vão levá-la para fazer outros exames, ok? — E saiu do quarto fazendo barulho com o sapato.

— Essa enfermeira acha que um dia ainda vai conseguir me levar para sair, vê se pode. Você é a cota gay da família. — O cheiro de comida começou a me deixar com fome, mas obviamente eu não ia conseguir comer nada sólido por dias. Como se ficar deitada lá, presa, não fosse castigo o bastante. — Acho que o médico vai acabar falando para Waverly que você acordou. — Ela começou a fazer onomatopeias enquanto comia, acho que ela sabia que aquilo estava me deixando com fome. — Sério, para comida de hospital isso está uma delícia. Se você conseguisse sentar e pudesse tirar esse negócio do seu pescoço, até ia perguntar se você podia comer, mas até lá vai ficar na dieta enteral.

Um médico entrou acompanhado de alguns enfermeiros e me colocaram numa maca, depois para uma sala de fazer os exames.

Eu tinha ficado surpresa de encontrar com minha irmã de novo. Ela tinha mudado tanto, mas sempre fomos um pouco parecidas. Eu era mais alta e ela falava mais. Tinha ficado contente dela ter vindo quando pediram e voltado porque quis. Confesso que não tinha prestado muita atenção no que ela falava, o tempo todo, minha cabeça estava uma bagunça, provavelmente por causa dos remédios para dor.

Deixaram minha cama com o encosto inclinado para que eu me sentasse e tiraram o colar cervical. Dieta líquida hoje, talvez pastosa amanhã.

Acordei no quarto algumas horas depois e consegui mexer o pescoço para os lados. Tentei falar, não consegui de novo, fazendo o mesmo som da outra vez. No sofá tinha alguém dormindo, mas as luzes estavam apagadas, eu não conseguia ver quem era. Fiquei um tempo acordada ouvindo a movimentação das enfermeiras no corredor. Entraram no quarto um pouco depois para aplicarem dose de algum remédio, as luzes se acenderam, fechei os olhos, quem estava no sofá começou a se movimentar e se levantou. Conversaram sobre qual remédio seria aplicado e o que ele faria. Remédios para dor. Agradeci mentalmente e logo voltei a dormir. Acordei pela manhã com o cheiro de café torturando meu estômago. Abri parcialmente os olhos para me acostumar com a claridade e olhei para o lado esquerdo, alguém tomava o café enquanto comia panquecas, muitas panquecas. Apenas as pernas e o prato apoiado nelas estavam em meu campo de visão, logo elas sumiram dele e ouvi entrarem no quarto.

— Achei que você ia demorar mais. As panquecas são minhas, não vou dividir. — Disse Wynonna andando até a irmã para cumprimentá-la.

— Eu peguei no sono, mas ainda não consigo dormir direito. O chá que a Mattie me deu só fez efeito no primeiro dia. — Passou a mão no cabelo o colocando para trás. — O Dolls quer você na delegacia.

— Anotei no papel o que deram para ela e os horários. — Tirou um papel do bolso e entregou.

— Obrigada por ter passado a noite aqui. — A abraçou.

— Sempre que quiser, afinal graças a você agora eu sou uma mulher livre.- Se virou para pegar o copo de café, mas olhou para mim antes.

— Você acordou! — Waverly correu até mim e segurou minha mão que estava sem gesso.

— Eei, babe. — Consegui dizer com muito esforço e respirando com um pouco de dificuldade. Wynonna a empurrou de lá e me deu um abraço meio sem jeito.

— Ela está machucada, não faz isso. — Reclamou Waverly tentando fazer a irmã me soltar.

— Você quase matou a gente de preocupação! Só não te bato porque você já recebeu castigo suficiente. — Disse depois de me soltar. Tentei rir, mas meu rosto não respondia ao estímulo.

— Como você está se sentindo? — Colocou a mão em meu rosto e se sentou na beirada da cama.

— Fe-e-liz que vo-ocê esstá aqui. — Falei e precisei respirar muito entre as sílabas. Eu parecia cansada e tossia nos intervalos das frases. Minha barriga doía quando eu fazia isso.

— Senti tanto sua falta. — Sorriu enquanto deixava cair algumas lágrimas. Não queria que ela chora.

— O Dolls conseguiu pegar os caras que fizeram isso com você. Foi o máximo! Você tinha que ter visto, Haught. Parece que sobrou nada para contar história. — Olhei para Waverly tentando entender, ela olhou para a Wynonna de novo. — A Waverly não viu o que aconteceu, eu não deixei e o Dolls não me deixou ver tudo, então... Só sei o que ele me contou. — Eu não tinha ideia do que elas estavam falando.

— O que...? — Desisti de terminar a frase, fiquei com falta de ar, tentei tossir. A máquina ao meu lado começou a fazer um barulho alto de bip.

— Nicole! — Ouvi Waverly gritar enquanto eu fechava os olhos.

— Aaar... — Respondi antes de apagar.

Quando eu acordei eu não tinha noção se tinha passado horas ou dias. Olhei para os lados, estava claro. Apertei o botão para subir a parte de cima da cama um pouco. Waverly estava usando a mesma calça jeans e top vermelho. Ela dormia com os braços apoiados em minha cama e a cabeça nos braços. Afastei alguns fios de cabelo do seu rosto para poder olhá-la. A enfermeira Hannah entrou em seguida, fiz sinal para ela não fazer barulho.

— Está se sentindo bem? — Perguntou em tom baixo. Balancei a cabeça minimamente para dizer que sim. — Preciso aferir sua pressão. — Waverly estava deitada do mesmo lado ia ficar difícil. — Vou tentar, senão eu volto daqui 20 minutos, mas não pode passar disso, ok? — Quando ela terminou de fazer o que precisava, deu a volta na cama e se abaixou perto do travesseiro — O médico liberou bebida. Você quer vitamina ou um suco?

— Café. — Respondi sem pensar duas vezes.

— Nada quente até próximo mês. Sua garganta ficou muito machucada.

— Você está tentando me matar. — Disse em protesto.

— Com certeza não fui eu que tentei. — Se levantou. — Vou trazer uma vitamina.

Waverly ainda dormia, parecia exausta. Com certeza aquela não era uma boa posição para dormir, não tinha coragem de acordá-la. Quanta sorte eu tinha de tê-la ao meu lado? Eu tinha sido tão idiota de mesmo que por um instante ter pensado que poderia conseguir passar um dia sem ela. A situação não era a melhor, mas eu poderia ter sido menos impulsiva, ela precisava de mim naquela hora. Eu tinha certeza que ela entendeu meu lado, mas ainda sim eu me sentia mal. Ela foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, nunca, nunca mais ia deixar ela em dúvida do quanto ela era importante para mim. Waverly merecia tudo de mim, todas as coisas boas que eu poderia dar. Não precisava ser perfeito, desde que fosse eu e ela. Como eu fui estúpida! Ela era a pessoa mais incrível que eu já tinha conhecido.

Ainda a olhava quando ela acordou e sorriu ao ver que eu também estava acordada.

— Me desculpa? — Perguntei, enquanto ela se arrumava na cadeira.

— Pelo quê?

— Por não estar quando você precisava. — Ainda era difícil de respirar, embora estivesse bem melhor que antes.

— Você sempre esteve quando eu precisava, Nicole. — Segurou minha mão, segurei de volta como pude. — Eu que não deveria ter sido tão dura. Eu devia ter ido atrás de você quando você soube sobre o seu pai, mas eu não fui. Você também merece minhas desculpas.

— Eu nem tinha pensado nisso. — Parei um pouco para respirar e continuei. — Está tudo bem. — Percebi que ela passava um dedo no dorso da minha mão e olhei. — O que você está fazendo?

— A veia da sua mão está um pouco saltada, não era assim.

— Deve ser da medicação, depois volta ao normal.

— Antes de te levarem mais cedo, você estava fazendo algo. Não lembra do que aconteceu? — Perguntou me olhando fixamente.

— Não. Eu lembro de ler sua mensagem dizendo que sente minha falta. — Sorri o quanto pude e ela sorriu de volta.

— Obrigada por ter aguentado. — Respirou fundo para se estivesse tentando não chorar.

— Não tem a menor chance de eu te deixar sozinha de novo.

Capítulo 31 — Xeque-mate

Ia fazer 40 dias que eu estava no hospital. Minha irmã estava tomando café ao meu lado e mexendo no computador. Tinha tirado o gesso do braço e era obrigada a fazer fisioterapia diariamente. A raiz do meu cabelo já tinha crescido consideravelmente na parte que tinham raspado. Eu tinha ficado com pneumonia, além de tudo. Já me sentia bem a maior parte do tempo e quase não precisava de analgésicos. Clarissa me deu um celular novo de presente e eu consegui recuperar minha agenda.

Waverly não me contou o que fez em relação amaldição ou se fez algo. Ela preferia não tocar no assunto e quando eu falavaalgo, ela falava sobre outra coisa. Wynonna parecia acostumada com nossorelacionamento e quando não aguentava mais o Dolls, ela vinha conversar comigono meio da tarde. Ela tinha conseguido matar 72 retornados ....