Crônicas de Arkauss

6 Capítulo 6 - Assim que o sol nasce


Notas iniciais
Fala galera, me desculpem a demora, mas aí está mais um capítulo fresquinho, espero que gostem. Abraços!

Assim que o sol nasce, Luna já está de pé, esperando suas lições do dia. Ao contrário de Connor, que parece desmaiado de lado dentro de seu saco de dormir.

A garota se irrita com a demora do parceiro de treinamento adormecido e começa a preparar algo para comer fazendo o máximo de barulho possível. Connor acorda e fica preguiçosamente deitado de bruços imóvel, Luna vê a cena e ri.

— Bom dia – diz Connor saindo de seu saco de dormir.

— Bom dia – ela responde – Achei que não ia mais acordar.

— Percebi pelo barulho que você estava fazendo – responde o rapaz se esticando. A garota sorri novamente.

Luna parecia estar de muito bom humor naquela manhã.

Assim que ambos se alimentam de carne seca e suco de frutas silvestres, começam a treinar novamente. As lições do dia serão simples, então ele a deixa usar o cavalo que pegou emprestado sem montar em seu próprio.

Para o início, Connor pede que Luna tente controlar o animal em um trote ritmado puxando seu arreio, a garota se ilumina a cada vez que consegue fazer a manobra corretamente, abrindo um sorriso imenso e encantador. Connor sorria juntamente com ela, feliz por vê-la finalmente tendo uma vida feliz e encantado por sua beleza.

O tempo passava rápido enquanto ambos se concentravam em suas tarefas. Luna já conseguia controlar o animal de forma magistral. À medida que ela ia aprendendo, as lições mudavam. Ora ela deveria saltar o riacho, ora ela devia tentar girar na cela com cuidado para não cair, em outras ela deveria disparar no campo e voltar no menor tempo possível, dentre outras lições.

Connor estava impressionado com o quão rápido a pequena garota conseguia aprender, ele mal pensava em uma atividade e ela já a aprendia.

Quando a noite chegou acabaram as lições. Luna foi se lavar no riacho enquanto Connor fazia o jantar. No outro dia começaria tudo de novo. As lições ficariam cada vez mais difíceis, mas ele não duvidada que ela conseguisse aprendê-las tão rapidamente quanto as anteriores.

— Precisa de ajuda? – Pergunta a garota se aproximando e jogando suas vestes húmidas próximas a seu saco de dormir.

Connor se vira e se depara com Luna secando seu cabelo com cuidado. Sua pele ainda molhada fazia o tecido de seu vestido simples aderir em algumas partes de seu corpo.

— Que foi? – Luna pergunta vendo que o rapaz a olhava em silêncio.

Connor acorda de seu torpor e cora.

— Não, – responde ele voltando-se para as chamas – o jantar está quase pronto, teremos sopa de legumes, minha especialidade.

— O cheiro está muito bom – diz a garota sentando-se ao lado do rapaz sobre seu saco de dormir.

— Obrigado.

— Connor... – Luna senta próxima à fogueira e abraça seus joelhos. A imagem a fazia parecer mais jovem.

— Hum? – Responde Connor a olhando de soslaio.

— Você acha que eu vou cavalgar tão bem quanto você?

— Acho que vai cavalgar melhor que eu.

— Não seja exagerado – ela ri.

— É verdade! – Responde o rapaz enfaticamente – você aprende realmente rápido, logo saberá tanto quanto eu e então vai melhorar ainda mais.

— Não é verdade – ela empurra seu ombro corada, mas então sua expressão se perde – mas... – ela hesita por um momento – eu queria te agradecer por tudo isso, eu estou muito feliz, obrigada.

Connor a olha e sente uma pontada no coração. Vendo aquela garota de cabelos roxos desbotados e olhos perdidos qualquer um sentiria pena e a acolheria em seus braços como uma pequena criança órfã. Mas o cavaleiro era diferente das outras pessoas. Apesar de sua vontade constante de querer protegê-la, ele via coragem e força por debaixo de sua aparência frágil.

Ele a observava em silêncio quando ela o olha nos olhos por debaixo da franja que seus cabelos faziam. Os olhos castanhos da garota refletiam as chamas da lareira que se juntavam com o fogo de seu olhar, sua pele clara parecia a lua refletindo a luz do sol e a expressão de alegra que recentemente não saía mais de si fazia o coração do rapaz disparar e todo seu sangue quente ir para as bochechas como se fosse queimar seu rosto.

— Eu fico feliz por você se sentir tão bem Luna – reponde por fim – me deixa feliz te ver feliz assim.

A garota sorri timidamente.

Connor serve dois pratos de sopa de legumes e assim que eles acabam, ambos entram em seus sacos de dormir paralelos um ao outro.

— Boa noite Luna – diz o cavaleiro em meio a um bocejo.

— Boa noite Connor – reponde a garota com uma voz meiga enquanto se aninha.

“Meu deus, o quão meiga ela consegue ser?” pensa do rapaz virando a cabeça para a ver pela última vez no dia. Ela estava de lado com as costas viradas para ele, o rapaz podia apenas ver seu cabelo e ele brilhava com a lareira.

O rapaz se vira e apoia sua cabeça em seu braço. Seus pensamentos vagam pela escuridão da noite e ele logo adormece.

***

Bem de manhã, Connor acorda com um tordo cantarolando sobre si, preguiçosamente ele se vira e percebe que Luna já tinha se levantado. Isso lhe parecia estranho, ela nunca tinha se levantado para treinar sozinha até então, e isso faz um calafrio percorrer a espinha do jovem. Ele a chama por algum tempo, mas não obtém resposta alguma além do canto do pássaro.

Temendo o pior ele rapidamente monta em seu cavalo e dispara pelo campo.

Durante algum tempo não via nem sinal da jovem, até que avista um cavalo correndo desgovernado em sua direção de sela e sem cavaleiro. O jovem segura o animal com o braço assim que ele passa por ele e o examina. Era o alazão que a garota montava e sua sela ainda estava quente. Um nó se forma na garganta do jovem e seu estômago revira. Connor solta o animal com ordens de ficar onde estava e ruma na direção em que o cavalo tinha vindo.

Correndo cada vez mais rápido, rezava para que tudo estivesse bem, que nada de mal tivesse acontecido com ela. Corria cada vez mais rápido com seu cavalo bufando e arfando, mas sem sentir ou ouvir nada além de um zumbido vindo de dentro de sua cabeça.

Depois de alguns minutos de trote ele finalmente vê algo que o anima, parecia uma pessoa sentada no chão passando a mão no traseiro, um pouco mais de esperança enche o rapaz. Antes que chegasse lá ele salta do cavalo e é obrigado a correr desengonçadamente para se equilibrar sem cair, forçando seu tronco para trás.

Assim que ele se aproxima, Luna o percebe e se levanta, preparando-se para uma bronca:

— Olha, eu...

Ela tenta falar, mas antes que conseguisse, ele a abraça subitamente e mais forte do que antes, envolvendo-a totalmente em seus braços e colocando o rosto em seu pescoço, isso faz com que ela perca o fôlego e arrepie.

— Connor, o que foi? – Pergunta ela se livrando do abraço.

— Eu pensei que você... quando eu vi o cavalo eu... nunca mais... faça algo assim, okay? – Diz ele passando a mão em seu rosto – Está tudo bem?

— Sim, exceto meu bumbum – responde ela afastando a sua mão delicadamente.

Ele ri nervosamente.

— Bom, agora vamos voltar para o acampamento, trataremos disso lá.

— “Trataremos”? – Pergunta ela.

— Não, eu quis dizer que... eu não vou... sabe... – Connor se enrola todo — enfim, eu devo ter alguma erva por lá.

— Tudo bem então – reponde a garota suprimindo um sorriso.

Os dois então sobem no cavalo de Connor e voltam a meio trote para onde vieram, mas sem trocar nenhuma palavra.

Assim que chegam, Connor recolhe um pouco de água e a divide com Luna, se sentando do lado dela na árvore. Eles se mantêm em silêncio, até que Connor pergunta sem encará-la:

— O que aconteceu, sabe, quando você saiu?

— Eu queria treinar mais um pouco — começa ela – mas não consegui parar o cavalo e ele disparou no campo.

— Que bom que não aconteceu nada de mais grave com você.

— É... – Uma pausa, até que ela continua – Posso te perguntar uma coisa?

— Claro. – Responde ele.

— Por que você me abraçou daquele jeito? Sabe, quando me encontrou.

Connor reflete por um instante e finalmente olha para ela sorrindo, porem Luna percebe seus olhos marejados, ele parecia a ponto de chorar.

— Porque eu pensei que eu tinha lhe perdido, eu não quero perder mais ninguém importante para mim enquanto estiver vivo.

Luna fica surpresa, tanto que se esquece do que ia perguntar em seguida, “eu não quero perder mais ninguém importante para mim” essas palavras ficaram gravadas em sua mente.

O silêncio impera por mais algum tempo, apenas o som do vento movendo a vegetação impede que o clima se torne mais frio. Connor então se levanta. Assim que ele se levanta, ela também se levanta. Depois de quatro dias de passeio, era hora de partir para a cidade.

— Seu treinamento está por hora concluído Luna, meus parabéns – diz ele como se nada tivesse acontecido – agora chegou a hora de voltar.

Ela faz que sim com a cabeça e começam os preparativos para a volta. Ele resgata o cavalo que tinha saído disparado no campo, enquanto ela arruma os pertences dentro das sacolas. Em questão de minutos, tudo estava pronto para partirem.

Durante a viajem de volta, nada mudou: a correria desenfreada, Luna correndo na frente e Connor a sondando um pouco atrás, isso durou até a chegada na cidade onde Connor levou o cavalo de volta ao dono e acompanhou Luna até a pousada. Chegando lá, os dois se lavaram cada qual em seu quarto e cearam no quarto de Luna, com a comida preparada por ela.

O clima estava alegre e festivo, até que o assunto inevitável apareceu, pela boca de Luna:

— Amanhã você irá partir? – Pergunta Luna mesmo sabendo da certeza da resposta.

— Sim – reponde o jovem mudando sua expressão, ficando cada vez mais sério – Mas não se preocupe, assim que acabar meu treinamento eu volto para vê-la, tudo bem?

— Tudo bem – ela sorri – e obrigado por me ajudar hoje, no campo.

— Não foi nada, só me prometa que vai tomar mais cuidado com isso, okay?

— Sim.

O homem sorri.

— Agora eu vou indo, tenho um dia todo de viajem amanhã.

Ele se levanta e caminha até a porta, ao abri-la ele para e mesmo de costas para a garota que estava sentada em sua cama, diz:

— Dessa vez, venho para me despedir – e sai.

Ao se deitar, Luna começa a pensar no que o jovem disse. Em nenhum momento as palavras de Connor se apagaram de sua mente. Se ele disse isso, então ele já perdeu alguém importante, quem será? E por que ela era tão importante para ele? Esses pensamentos embalaram-na até que caiu no sono.

***

Ao amanhecer, Connor se levanta. Como de costume, suas coisas estão arrumadas, ele as coloca no seu cavalo e volta para acertar sua conta no estabelecimento. Quando ia sair, olhou para dentro e viu a porta do quarto da jovem bruxa, não pensou duas vezes e entrou para se despedir.

A jovem ainda dormia, mas ele iria cumprir sua promessa. O jovem se aproxima da cama e se abaixa, apoiando suas mãos na lateral da cama com cuidado para não a acordar. Em seguida, inclina para frente com cuidado, dando-lhe um beijo de despedida na testa em meio aos seus cabelos.

Seu cheiro adocicado ainda era o mesmo de quando saíram às pressas do vilarejo.

No mesmo instante, os olhos da jovem se abrem preguiçosos e confusos o encarando da melhor forma possível em meio a penumbra do quarto. Por um tempo ambos apenas se olharam, a garota com olhos perdidos de sono e o rapaz corado. Se sentindo constrangido por ser pego no ato, o cavaleiro abre um sorriso e se despede como prometera:

— Já estou indo. – Diz ele afastando o rosto do dela.

— Já está na hora? – Pergunta ela se sentando na cama levemente corada sem entender muito bem o que está acontecendo.

— Infelizmente...

— Então boa viajem e até a próxima visita.

Ele concorda com a cabeça e sai cabisbaixo, fechando a porta com o pensamento distante. Ao montar no cavalo, espia por sobre o ombro o lugar e depois parte para o vilarejo perto do castelo. No meio do caminho, começa a pensar se Luna ficaria bem, ele ainda temia pela garota e odiava a deixar para trás, mas ele tinha certeza que lá estaria mais segura e acolhida, além do mais ela tinha uma grande força dentro de si, com certeza ficaria.

— Pare de subestimá-la Connor – diz o jovem para si mesmo em voz alta – ela é mais forte que você.

Ao entardecer, ele chega já chegava ao vilarejo dentro dos muros do castelo. A viajem demorou mais que o normal pois não se apressou no caminho como era de costume, ele sabia o que o esperava no final dela e isso não era melhor do que passar um agradável tempo com a garota ou consigo mesmo, apenas manteve o ritmo com o pensamento muito longe de seu corpo até chegar ao seu destino.

Já dentro da pequena vila, entrou na mesma hospedaria e pediu um quarto, que por acaso também foi o mesmo, o cansaço era tamanho que mal teve tempo de se lavar já caia de sono. Ainda jantou, lutando contra o sono com todas as forças e finalmente se deitou, olhando para o teto e se lembrando das estrelas que tinha visto naquelas três noites de acampamento. Antes que desse por si, adormeceu e sonhou novamente com o arteiro animal, dessa vez este estava deitado em seu colo, Connor acariciava sua pelagem roxa brilhante enquanto ele se aninhava, até que o animal se levanta.

O rapaz observa a cena sem nada falar, o pequeno felino o olha e seus olhos castanhos e grandes começam a se parecer familiares, como se ele já os tivesse visto dezenas de vezes. Nesse momento ele percebe um lampejar no canto de seu campo de visão, ao se virar, ele percebe que outro felino se aproximava gingando graciosamente. Este, por sua vez, era dourado como ouro e tinha olhos azuis como o mar, rapidamente este também se aninhou no colo do rapaz, disputando espaço com o felino roxo que parecia não gostar nada da ideia e se arrepiava todo. O jovem ri da cena e acaricia ambos, tendo os olhos de ambos cravados nos seus. Instintivamente sai de si uma frase que na hora ele não compreende.

O sonho muda e sua consciência afunda no precipício dos sonhos, mas a frase aparece para ele clara como o dia, ele sente seus lábios se moverem como se ele falasse, mas não sabia distinguir se era mesmo um sonho. “Você é um tolo Arkauss”.

Notas finais
Fala galera, gostaram? Espero que sim, até aproxima, abraços!