Crônicas de Arkauss
2 Capítulo 2 - A Dama do Gelo
Notas iniciais
Assim que amanheceu, Connor já estava de pé preparando suas coisas para a viagem ate o castelo. Seria cansativo e por isso alimentou seu cavalo e a si mesmo antes mesmo de os primeiros raios de sol despontarem do horizonte.
Partindo da pousada muito agradecido à velha e gentil senhora que o acolhera naquela noite, foi em direção ao próximo vilarejo. Seria o caminho mais rápido ate o castelo e todo tempo deveria ser muito bem aproveitado, pois seria aquele seu ultimo dia de paz devido à convocação que recebera.
***
Com a aproximação do entardecer, Connor avista um pequeno amontoado de casas à sua frente, não havia dúvidas de que aquele era o vilarejo que ficava a meio caminho dos arredores do castelo de Lihlium. Assim que se aproxima, Connor percebe que algo estava estranho: a atmosfera do lugar era densa e triste, o tempo estava se fechando em nuvens lentamente e quase tudo estava vazio. Poderia ate mesmo criar a hipótese de ter sido abandonada se não fossem os longos e baixos gritos vindos da praça central. Muito curioso, Connor decide verificar o que estava acontecendo, amarra seu cavalo em um pequeno toco que ali estava e caminha ate a multidão.
A praça parecia antiga, as árvores que ali estavam eram velhas e pareciam mortas, estavam todas tortas e negras, mas ao mesmo tempo pareciam ter gelo aos seus pés.
— Como isso é possível? – Diz Connor para si mesmo enquanto continua explorando o vilarejo.
Ao se aproximar do final da praça, onde duas ruas formavam um “v” que morria em uma robusta casa, ele pôde observar uma enorme confusão. Os gritos agora estavam altos e estridentes, palavras sem sentido e más eram gritadas a esmo por cidadãos daquele lugar, Connor estava horrorizado com o que ouvia e aturdido por não perceber o motivo.
Em um breve momento, quase que de relance, Connor consegue ver uma pequena garota encolhida no meio da multidão, quase que encostada na parede da casa. Com toda certeza aquelas apalavras eram direcionadas a ela, pois era nítida sua expressão de medo mesmo ao longe.
O cavaleiro, que nunca tinha visto algo assim, ficava cada vez mais confuso à medida que se aproximava, então decide por perguntar a alguém o que estava acontecendo:
— Com licença? – Ele puxa alguém da multidão pelo ombro – O que está havendo?
— Aquela maldita! Ela é uma bruxa! Deve ser morta! – Responde aos berros um velho de olhos arregalados e expressão assustada.
O barulho da confusão era tão alto que ninguém percebeu o senhor gritando com o forasteiro.
— Que crueldade! O que essa moça possa ter feito de tão ruim? — Responde o garoto entre ofendido e indignado.
— Esse monstro matou várias pessoas, ela matou minha filha inclusive! Foi bem feito a morte da família dela, aqueles loucos, trazer ao mundo algo tão horrendo. Mas a minha pobre e inocente filhinha? Essa bruxa não pode viver!
As palavras do velho atravessavam o jovem de uma maneira que o incomodava profundamente e feriam seu senso de humanidade.
— Sua família morreu e agora a quer morta?! – Grita Connor se esforçando para ser ouvido no meio do turbilhão de vozes.
— Você é apenas um forasteiro, — retruca o velho segurando mais firme a foice que carregava entre ele e o rapaz — não se intrometa em assuntos internos!
Connor, enfurecido após ouvir tamanha crueldade com a pobre moça, avança sobre a multidão golpeando quem quer que estivesse em seu caminho com o punho em riste. Uma ideia louca passava por sua cabeça: levar a moça para as montanhas, lá ela poderia sobreviver.
Pelo menos teria mais chances do que se fosse deixada ali.
— Venha comigo – diz ele puxando a jovem pelo braço enquanto abria espaço entre socos e pontapés – é melhor confiar em mim se quiser sobreviver, vou te levar para as montanhas, é seguro.
Um punho acerta o rosto de Connor, mas a confusão era tamanha que era impossível discernir de onde ele veio. Por sorte o garoto estava protegido por sua armadura ele, ao contrário da garota que vestia apenas frangalhos de um vestido.
— Você está me machucando – responde a menina de uma forma tímida e educada, porém sem mostrar resistência – Mas eu agradeço por me salvar.
Connor estava aterrorizado com o barulho de dezenas de pés correndo atrás deles e a ideia de ter uma garota em seu encalço também o deixava desconfortável. Tinha agido por impulso, mas pelo menos estava em paz com sua consciência. O que não os livraria de um possível linchamento na mesma praça de antes.
Tentando parecer calmo para não desesperar mais ainda a pobre mulher que o seguia, Connor tenta conversar em meio à corrida:
— O que você fez? – Pergunta ele assim que se distanciaram do grupo dobrando uma esquina e se escondendo atrás de uma casa.
— Em uma noite, me acordaram para dizer que meus pais estavam mortos. – Explica ela ainda ofegante — Não havia muito que eu poderia fazer para isso, então apenas decidi dormir para ter um tempo comigo, mas acordei com gritos e gemidos por todo o lugar.
Ela faz uma pequena pausa para respirar e continua
— Uma onda de gelo se espalhava e me seguia por onde quer que eu fosse. Assim que ela parou, corri para o ancião da vila e ele disse que eu era a pessoa que a atraia... – ela faz uma nova pausa como se soluçasse — Eu não sabia o que estava acontecendo, não possuía noção do que eu era capaz de fazer. Todos me chamaram de bruxa assim que souberam, me amaldiçoaram e me aprisionaram na minha casa. Acho que finalmente decidiram que já era hora de se livrarem de mim. – Sua voz era fraca e triste, mas possuía uma pequena frieza que intrigava o rapaz.
— Por que te deixaram viva por todo esse tempo então? – Pergunta Connor curioso e temeroso, enquanto puxava com cuidado a garota por entre as casas baixas e tortas da vila.
— Eu não sei – ela parecia tão confusa quando o rapaz – talvez porque eu fosse capaz de curar as pessoas. De algum modo, eu tocava as pessoas quando sentia minhas mãos frias e isso fazia elas melhorarem, talvez por isso me mantivessem viva.
Ao se inclinar em um canto da última casa da vila, Connor via a multidão se separar, mas não queria demonstrar isso para a garota que se escondia logo atrás dele, então age como se não tivesse visto nada.
— E por que te matar só agora?
— Eu não consigo mais. Curar as pessoas gasta toda minha energia e ultimamente eu acabo desmaiando...
Connor tapa sua boca e a pressiona de leve contra a porta da casa com seu peito. O primeiro instinto da garota é gritar, mas ela percebe que ele estava a protegendo de algo que se aproximava e assim eles poderiam ficar menos visíveis graças ao imponente portal de madeira. Connor sente o cheiro doce do cabelo da garota, o sentimento de paz que ele o trazia fazia contraste com o desespero que a imagem de um homem alto e forte com um machado procurando por eles o trazia.
Por sorte o homem não os viu e continuou a busca, desaparecendo dentro de uma casa próxima. Connor solta o ar em alívio e diminui a pressão de seu corpo contra o da garota.
— Você está bem? — Ele pergunta.
— Só... constrangida – responde ela ajeitando seu vestido simples.
O rapaz cora instantaneamente ao pensar no que fez, não sabia nem como se desculpar com a garota. Ela, em contrapartida, sorri de uma forma meiga e gentil, mas com o mesmo ar melancólico.
Passado o susto, eles correm como loucos através do vilarejo, pulam no cavalo (ela com certa dificuldade), e saem em um galope rápido. Em pouco tempo passam por uma vegetação alta como uma plantação que cercava o vilarejo e rumam para a montanha que não era muito longe dali.
No trajeto, locais tentavam os alcançar a cavalo, mas a maestria de Connor nas rédeas deixava não apenas o perseguidor frustrado, como também espantava a garota que vez ou outra precisava se agarrar a sua armadura para não cair. Em questão de pouco tempo se distanciaram da vila e começaram a subir a montanha, o cavalo reclamava de cansaço e o cavaleiro também não se sentia muito melhor que o companheiro. O que pensar então da moça que raptara às pressas e teve sua vida virada de cabeça para baixo?
A montanha mudava de cor lentamente sob seus olhos.
— Acho melhor pararmos aqui, já está longe o suficiente – ele fala fazendo menção de parar.
— Não – diz a garota — continue a subir, por favor.
— Mas o frio vai aumentar a partir daqui e você não está vestida corretamente para...
— Continue, por favor – ela insiste.
Ele a olha por cima do ombro e encontra uma expressão perdida. Ele decide continuar.
A medida que subiam, o frio tomava conta da atmosfera e fumaça saia da boca do cavaleiro e de seu cavalo. Connor não falou mais nada por um bom tempo. Ao chegar ao início do manto branco de neve, eles desceram do animal.
Assim que ele a ajudou a descer, pegou um casaco e colocou em seus ombros, isso deu brecha para que ambos se encarassem em um silencio agoniante. Ele pôde então observá-la com mais atenção: a jovem possuía curtos cabelos ondulados em um tom de roxo familiar, mas ao mesmo tempo único; seus olhos eram de um castanho profundo e frio, mas que em um instante parecia possuir um universo em seu interior. Ela usava uma roupa desgastada azul que tinha o emblema da sua família. “O símbolo da vergonha lhe caia bem”, pensa Connor consigo.
— Você está me encarando? – Pergunta ela com uma expressão divertida.
— Tem lindos cabelos – ele diz em um impulso – E deve estar com frio!
— Meus cabelos... – a feição alegre se distanciou e deu espaço para uma triste – Eles eram longos, macios e sedosos, mas como uma bruxa condenada, deveriam ser cortados. Melhor assim, não é mesmo? – E de novo ela esboça um sorriso – e a respeito do frio, eu estou bem, sou uma bruxa do gelo, eu não sinto frio.
— Eu sinto muito pelo que disse, posso imaginar o quão lindo ele era.
Connor se sentia culpado por falar demais.
— Você vai me deixar? – Ela cochicha abaixando a cabeça e pegando na alça do casaco que o jovem acabava de a vestir.
— O que disse? – Ele pergunta confuso pela repentina mudança de humor da garota.
— Vai me deixar aqui na montanha, sozinha? Eu nunca tive amigos, com oito anos eu já estava trancada naquela maldita torre, cresci sem uma amizade sequer... Não estou pedindo que fique, eu entendo que ficar com uma bruxa amaldiçoada não é o sonho de ninguém, mas... – ela se cala e solta a roupa do rapaz, ela parecia desesperada e a ponto de desmoronar.
— Não se preocupe, eu ainda tenho um dia e meio para chegar ao meu destino, eu posso ficar mais algum tempo se você não se incomodar. Também precisamos achar um lugar para que você fique, eu não posso te deixar sozinha. — Diz ele com um sorriso de complacência que deixava aparentes seus dentes em meio à fumaça que saia de sua boca.
— Há uma caverna um pouco mais acima de nós, com sorte chegamos ate o anoitecer. – Sua expressão muda de novo, era como se ela não tivesse dito nada sobre seu passado, ou baixado tanto a guarda repentinamente há instantes atrás – Espero que você esqueça o que eu disse, pena é algo que nunca testemunhei ate agora, e pretendo poder ficar mais um tempo assim.
— Não pense que sinto pena de você, eu consigo sentir sua força, fui treinado para isso. Agora, por onde iremos? – Responde o rapaz ainda perdido em pensamentos, “para uma bruxa do gelo, seu interior é muito instável”.
Os dois então iniciam a caminhada em silêncio a caminho da caverna. Internamente, Connor estava feliz por encontrar alguém para passar seus últimos dias de paz e tranquilidade até sua chegada ao castelo.
A ideia de ser um soldado ainda o amedrontava.
Afastando seus pensamentos ruins ele olha para cima, na direção da Lua nascente que deveria aparecer tímida logo acima do horizonte substituindo o Sol, mas densas nuvens preenchiam quase todo o céu neste momento. As mudanças de clima repentinas eram recorrentes nesta parte do reino, suas flores cresciam fortes e mais bonitas que em outros justamente por esse fato, mas uma mudança dessa maneira era novidade para o rapaz. Nuvens densas como aquelas só significavam uma coisa: viria uma nevasca forte, tinham que chegar logo ao seu destino.
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