O recém esquadrão estava viajando direto para a França, com o objetivo de adquirir o diário do General Schmidt e ter conhecimento de algum plano que os Nazistas tenham. Mas, para isso, essa missão deverá ser feita o mais discreto possível. Como o Secretário de Defesa informou para os integrantes do esquadrão, esse grupo não existe no papel. E ser der alguma falha, não terão como pedir ajuda. Para isso, um plano precisa ser feito com muito raciocínio, para que nada pudesse dar errado. Felizmente, eles têm todo o tempo do mundo, pois, dessa vez, a viagem está sendo marítima, a contragosto de John e felicidade de Thierry, que praticamente implorou – mesmo ele discordando – que a viagem não tivesse sido feita pelo ar. Mesmo assim, a Inteligência Britânica conseguiu passagem para os quatro soldados, assim como identidades falsas para John e Erik, além de armas solicitadas pelos próprios espiões, que esconderam com bastante delicadeza durante a viagem.

— Finalmente uma bebida! – disse Erik, enquanto um garçom servia bebida para os quatro passageiros – Minha sede já estava aumentando.

— Do que você está falando? – Perguntou Thierry – Você acabou de esvaziar um copo de Uísque.

— Isso mesmo. Minha sede é de uma bela vodka russa. Como o restaurante do navio não tem a bebida, tenho que tomar três ou cinco uísques para matar essa sede.

— Vamos voltar ao que interessa? – Resmungou John – Quero logo chegar ao quarto e tirar essa barba ridícula! – Pelo fato do rosto de John Smith já ser conhecido em Paris por ter se passado por um guarda nazista e algumas testemunhas terem visto seu rosto durante o ataque contra o soldado Klein, precauções foram feitas. Como, por exemplo, usar uma barba falsa e ter outra identidade para não ter nenhum problema.

— Também acho – Respondeu Thierry –iremos chegar à noite em Le Havre e, se Deus quiser, acabar logo com isso.

— Olhe meu amigo – comentou Dante – Eu entendo que seu país esteja passando por uma situação bem angustiante, mas achei que você ia se sentir mais satisfeito em voltar a sua casa.

Thierry tentou esconder o seu incômodo pelo assunto que Dante tocou. A verdade é que Thierry nunca se sentiu em casa na França, mesmo antes da guerra começar. Para ser mais específico, ele não se sentia à vontade até mesmo no seu próprio lar. Seu pai sempre tentava controlá-lo de todas as maneiras. Desde os seus hábitos, até em seu futuro.

—Enfim, como estive falando – continuou Thierry – a França está sofrendo um controle absurdo pelo Nazismo. Vocês não podem perder a identidade de vocês. Como o Dante tem origem italiana, ele é o que vai ter menos trabalho para se disfarçar. Mas vocês dois precisam ser o mais discretos possível.

— Está olhando a discrição em pessoa – Diz Erik enquanto dá o último gole do uísque – Garçom! Mais uma!

— Percebi a sua discrição – responde Dante, com ironia.

— Não se preocupe. Na hora da missão, sou bastante profissional.

— É sério, Erik – alertou Thierry – se você perder sua identidade ou for descoberto, já era. A gente vai abandonar você. Em relação ao nosso alojamento, iremos ficar na min... Na casa do meu pai.

— Ué! Não é sua casa também? – Perguntou John.

— É complicado.

***

A relação de Thierry com seu pai, Dr. Oliver Petit, nunca foi fácil. Sua mãe sempre foi o porto seguro dos dois. Apesar das constantes brigas dos dois, Lohane Petit contornava a situação. Ela dava o carinho que Thierry precisava e conseguia domar a personalidade forte de Oliver. Eles não eram uma família plenamente feliz, mas aparentavam ser perante a sociedade, e isso significava muito para o nome da família. No entanto,a vida de Thierry sofreria um enorme baque, assim como outras famílias sofreram durante o final da década de 10. Já era catastrófico o mundo passar por uma guerra que fazia a população tremer de medo, e aí chega uma pandemia que pregava o último prego no caixão de muitas famílias. A gripe espanhola pegou todos de surpresa, até mesmo a esposa de um renomado médico da França.

Se o clima dentro da mansão da família Petit já era pesado com a presença de Lohane, sem ela, a relação entre Dr. Petit e Thierry ficou insuportável. O médico especializado em Cardiologia já tinha uma grande reputação, e exigia que seu filho seguisse o mesmo caminho. Na verdade, ele nunca perguntou o que Thierry queria. As poucas horas que pai e filho ficavam juntos era quando Oliver o forçava a estudar, mais e mais. Mesmo quando o seu filho tirava um 9,5 nas provas, um castigo era aplicado, pois Oliver nunca aceitava uma nota abaixo de 10. Isso fez com que Thierry passasse por uma fase rebelde na sua adolescência, para chamar a atenção de seu pai. Mas, quando seu pai era chamado, já que seu filho tinha feito alguma travessura ou se arranjava em alguma briga que ele mesmo começara, nunca foi dada uma punição para Thierry. Seu pai apenas continuava forçando a estudar. Ele apenas dizia:

— Não adianta escapar. O seu destino já está traçado.

Essa frase era algo que Thierry odiava escutar. Essas poucas palavras pareciam uma série de socos em seu rosto, seu estômago e, principalmente em seu coração. O sentimento de impotência o sufocava. Ele apenas queria ter o poder do livre-arbítrio, de fazer o que quiser o que sempre sonhou em fazer. Mas, até mesmo falar do seu sonho era algo que ele não conseguiria fazer. Ninguém entenderia e isso fez com que ele duvidasse dos seus próprios desejos. Não poderia fazer mais nada a não ser aceitar o destino que seu pai impôs para ele.

Como seu pai sempre quis, ele se formou com excelência em medicina, especializado em cardiologia. Tudo iria bem para a família Petit, aos olhos de Oliver, porém, França foi invadida pela força nazista. Muitos lutaram e muitos se sacrificaram, até mesmo Oliver Petit. Mas seu sacrifício foi feito de outra maneira. Adolf Hitler sabia da reputação de Dr. Petit e o convocou para cuidar de seu povo nazista. Para salvar tanto sua vida quanto de seu filho, o cardiologista teve que aceitar. Mas, antes de aceitar, mandou seu único filho para suíça, evitando a humilhação maior da família Petit.

Mesmo sendo forçado a se tornar um profissional da medicina, Thierry acabou sendo um ótimo médico. Seguiu sua vida na suíça, apesar dos horrores que a segunda Grande Guerra trouxera à Europa. Mesmo assim, seu pai continuava o controlando, enviando cartas para saber a sua situação e mandando alguns de seus empregados para saber se ele não desviou o caminho da medicina. Thierry nunca se sentiu livre e queria acabar com isso de uma vez por todas. Então, quando soube da sua convocação para se juntar ao um projeto do Império Inglês, uma sensação dentro de si apareceu a qual ele não sentia há muito tempo: Esperança. Não sabia ainda do que se tratava, mas a esperança o guiou para o que parecia ser a luz no fim do túnel.

***

Passaram algumas horas, Thierry e John ainda estavam na mesa do restaurante, Erik tinha ido ao bar esvaziar o resto da bebida que tinha e Dante estava conversando com uma bela mulher. John tentava esconder o riso enquanto Thierry olhava os dois com desaprovação.

— Já acho muito a gente não morrer nessa primeira missão – disse Thierry.

— Se acalme. São poucas vezes que a gente tem esse luxo de relaxar um pouco. Eles estão fazendo algo que gostam. E você? – Pergunta John.

— Eu o que?

— O que você gosta de fazer?

— Bem... – Thierry pensou bastante antes de completar a resposta – sinceramente faz muito tempo que não faço algo que eu goste.

— Entendo. Essa guerra mexe com nosso psicológico.

— Claro. Só que eu não faço algo que eu gosto bem antes da guerra.

— Como assim?

Poderia ser a bebida falando ou então o companheirismo que John mostrava para Thierry, mas o francês não teve problema em contar sua história e seus problemas para o inglês.

— Uau! – disse John, depois de Thierry contar tudo o que houve, desde a morte de sua mãe, até a ajuda que seu pai deu para os nazistas. – Mas, pensando bem, acho que seu pai não tinha escolha.

— Tinha sim. Ele poderia ter ido comigo para suíça. Mas preferiu ficar e tentar limpar o nome da família. Sempre o nome da família.

— Sinto muito. – disse John, repousando a mão no ombro de Thierry – Mas você ainda não respondeu minha pergunta.

— Qual?

— O que você gosta de fazer?

— Já te disse soneca. Faz muito tempo que não sei o que eu gosto.

— Ok! Vou mudar a pergunta. O que você queria ter feito se seu pai não tivesse o forçado a estudar medicina?

Thierry ficou um pouco calado e, por um momento, John achou que ele não falaria mais nada.

— Quando minha mãe ainda estava viva e eu tinha uns seis anos – começou Thierry – ela me levou para passear, depois que meu pai gritou comigo por vários minutos. Sinceramente, nem sei o porquê de ele gritar comigo. Mas lembro que chorei bastante. Minha mãe tentava me consolar, mas eu não conseguia para de chorar. Então, ela me arrumou, dizendo que iríamos para um lugar mágico. Mesmo saindo de casa, eu ainda chorava em silêncio, apesar dos esforços de minha mãe enquanto íamos a esse tal lugar. Quando paramos, eu olhei e vi que ela tinha me levado ao circo, mas naquela época eu não sabia o que era o circo. Mas lembro que instantaneamente fiquei de boca aberta. As luzes, os risos, os palhaços...

Thierry riu de leve e John sorriu junto.

— Eu nunca tinha ido ao circo e me apaixonei por aquele mundo. Por um breve momento, eu me esqueci de todas as tristezas e raivas. E minha mãe percebeu que eu me apaixonei pelo circo. Então fomos várias vezes enquanto o circo estava na cidade. Eu ficava triste quando iam embora. Mas as lembranças que ficaram na minha cabeça, me alegravam. E toda vez que o circo voltava para a cidade, minha mãe fazia questão de me levar.

Thierry sorria enquanto relatava, mas sua expressão ficou séria de novo.

— Quando minha mãe morreu, eu parei de ir ao circo. Você não deve se surpreender se eu dissesse que meu pai achava uma besteira e falava que deveria estudar. As poucas vezes que eu conseguia ir ao circo, meu pai descobria. Ele sempre descobria. Então, parei de ir.

Por um momento, os dois ficaram em silêncio.

— Então – disse John, finalmente – quer dizer que você queria trabalhar no circo.

— Você deve me achar um idiota, não é mesmo?

— Para falar a verdade, não é algo que se ouve todo dia. Mas eu te entendo. Eu entendo seu sonho. E quando acabar a guerra, o que te impede de tentar?

Pela primeira vez Thierry contou de seu sonho para alguém, e ele se sentiu leve. Até mesmo sorriu. Um sorriso leve. Algo que ele não fazia há muito tempo.

— Se você fosse pro circo, qual seria sua especialidade?

— Eu gostaria de ser atirador de facas.

— Nossa! Nunca pensaria nisso. Um médico atirador de facas. Desculpa falar, mas não imagino você como alguém atirando facas.

Thierry deu um último gole de sua bebida e riu discretamente.

— Está vendo aquele cara na beira do navio, onde ele deixou seu copo em cima da cerca e, do lado do copo, tem um pássaro?

— Estou vendo.

Thierry pegou o talher da faca e jogou com uma precisão e uma força, que fez com que a faca fosse reta até o copo do homem que ele falou. A faca golpeou o copo e assustou o pássaro e o homem, que achou que o próprio pássaro derrubou seu copo no mar.

— Caralho! – Se espantou John, ao mesmo tempo rindo e aplaudindo.

— Ainda acha que eu não tenho o perfil? – Disse Thierry, se levantando – Deixa-me ir para os meus aposentos. Ah! E mais uma coisa. Se você contar pra alguém, eu vou ter que matar você.

John riu, mas Thierry continuou sério.

— Você está brincando, né?

Thierry pegou outro talher de faca e cravou na mesa. John olhou com espanto para a faca e viu que o médico francês já estava se retirando.

***

Os quatro soldados chegaram à França ao anoitecer e, após pegar o trem em direção a Paris, chegaram na capital sem nenhum problema. John era o que mais tinha mais cautela em seu disfarce, pois, assim que chegou em Paris, viu o retrato falado de seu rosto. Embora, não tenham feito com total fidelidade o desenho de seu rosto, não queria correr o risco e prejudicar o grupo e a missão. Também, não houve problema em andar pelas ruas de Paris, afinal, todos conheciam o filho de Dr. Oliver Petit, e seu trabalho era reconhecido lá. Apesar de alguns parisienses não gostarem da parceria do renomado médico com o Nazismo, não importava. Os nazistas iriam proteger qualquer membro da família Petit e seus colaboradores.

— Olá! Alguém em casa? – Disse Thierry ao chegar na mansão.

— Boa noite, Dr. Thierry – disse o mordomo ao ouvir que chegaram – Infelizmente, Dr. Oliver não pôde estar aqui para recepciona-lo.

— Tudo Bem. Prefiro assim. Pessoal, podem deixar suas coisas com o mordomo. Ele vai deixar no quarto de vocês.

O mordomo começou a pegar a bagagem dos companheiros de Thierry e, no momento que ele foi pegar o estojo de um instrumento musical, Erik prontamente o interceptou.

— Tudo bem, velhote. Isso aqui eu mesmo me encarrego – disse Erik, enquanto o mordomo o olhava com certa confusão – esse violão é o meu bebê.

O que o mordomo não sabia era que dentro do estojo, estava algumas armas que o esquadrão poderia usar em uma de suas missões. Esperavam não usar, mas era melhor prevenir do que remediar. Não foi fácil esconder durante a viagem, com os guardas nazistas na cola de todos os passageiros do navio e do trem. Mas Thierry usou a influência de seu pai para que tivessem uma viagem tranquila. Odiava usar essa carta, mas, infelizmente, a missão vem antes do orgulho.

— Tudo bem, Pierre. – Disse Thierry, para o mordomo, que se retirou – Vamos lá, pessoal, para a primeira parte do plano. Quanto antes fizermos isso, mas rápido sairemos daqui.

Erik e John saíram primeiro, em direção ao Bordel da Madame Louise. Seu objetivo era fazer um reconhecimento, tanto na parte de fora, quanto na parte de dentro. E, para isso, precisavam convencer a todos que eram alemães legítimos, que se mudaram para Paris, como o governo alemão recomendava. Meia hora depois, Thierry e Dante foram em direção ao Bordel, com outro objetivo.

Erik, junto com John, já percebeu de longe que havia dois nazistas de guarda, na frente do bordel, um em cada lateral.

— Que estranho – disse John – Nunca percebi que o bordel era vigiado por alguns guardas nazistas.

— Sabe com são os nazis – respondeu Erik – não gostam de repartir o brinquedo deles. Mesmo que esse brinquedo seja de outra pessoa, no começo.

Os dois se aproximaram de um dos guardas, que prontamente já pediu a identidade deles. Assim que deram as identidades, o guarda olhou para John como se estivesse querendo reconhecer.

— Você tem fogo aí? – Perguntou Erik, tentando distrair o guarda – Esqueci meu isqueiro.

— Tudo bem. – Disse o guarda, pegando o isqueiro.

— Não tem problema a gente dar uma visitada no bordel, não é mesmo? Acabamos de nos mudar, e queríamos dar uma relaxada.

— Fiquem à vontade.

Assim que acendeu o cigarro, a dupla se distanciou do guarda, para poder entrar no estabelecimento.

— Pela lateral do bordel, tem um beco que dá passagem para a rua de trás. Então, temos dois caminhos para um plano de fuga, se tiver uma porta dos fundos. – disse Erik para John.

Ao entrar no Bordel, Erik e John se surpreenderam com o aspecto do lugar que, em outros tempos, deveria ser chique, segundo os relatos de Thierry. Porém, o clima parecia pesado. As prostitutas pareciam abatidas e só conseguiam ver guardas nazistas se divertindo. Fora Erik e John, não havia nenhum civil. Pode ser pelo fato que o nazismo se apossou até do divertimento de franceses solteiros. A estrutura do bordel também parecia precária. Apesar do espaço enorme, com uma grande escadaria no meio do salão, as paredes tinham algumas rachaduras, os móveis apresentavam poeira e algumas tábuas soltam eram evidentes no chão.

— Esse é o famoso bordel que o Thierry falou? – disse Erik.

— Vamos logo, para gente não dar mais suspeitas.

— Ok! Você olha lá para cima e eu olho no bar.

John olhou com cara séria para Erik.

— Estou brincando. Eu vou olhar aqui embaixo.

Enquanto a dupla se separava, alguns poucos minutos depois, Thierry e Dante chegam ao bordel. Logo que chegam, Thierry foi em direção a uma das mulheres, saber o paradeiro da Madame Louise.

— Desculpe senhor. Ela está ocupada. Mas eu posso satisfazê-lo, se quiser.

— Acho difícil. Tenho uma proposta para a Madame. – Disse Thierry.

— Mas você pode me satisfazer – disse Dante, com um ar de excitação.

— Agora não. Esqueceu dos nossos negócios? – Perguntou Thierry, com um olhar de reprovação.

— Como lhe falei, ela está ocupada. – Repetiu a prostituta.

— Diga apenas que Thierry Petit está aqui, e veremos se ela está ocupada.

— Ok. Como quiser – E assim a prostituta foi em direção ao que parecia ser o escritório da Madame Louise.

— Pelo visto, você tem um nome forte por aqui, hein? – Disse Dante.

— Meu pai tem um nome forte por toda França. Eu apenas embarco nessa reputação, embora eu não goste disso.

A prostituta que atendeu a dupla chegou com bastante pressa.

— A madame Louise está esperando vocês. Me desculpem, eu não sabia quem o senhor realmente era.

— Tudo bem. – Disse Dante – Depois você pode nos dar um agrado.

— Vamos logo! – Disse Thierry puxando a manga do terno de Dante.

Assim que chegou ao escritório, viu o que antes era uma mulher bastante bonita e elegante. Porém, na atual situação, parecia cansada e triste, com uma fisionomia que faz parecer ser mais velha do que realmente era. O escritório ainda parecia bastante elegante. Seria um cômodo perfeito para ela, se não tivesse mais dois guardas nazistas servindo como sentinela para a dona do Bordel. Os nazistas argumentavam que era para a sua precaução, mas ela sabia que era uma prisioneira. Ao chegar, Thierry se espantou com o semblante da cafetina, chegando a quase não reconhecer.

— Madame Louise? – Perguntou Thierry, tentando reconhece-la.

— Olá, Loirinho – respondeu Louise – quanto tempo! Tempo até demais. Quase não o reconheci. O tempo foi bastante generoso para você. Quem diria que aquele garoto franzino iria se transformar nesse loiro alto e forte. Infelizmente, o tempo fez o contrário comigo.

— Não diga isso. Você continua sendo uma mulher charmosa.

Thierry não mentiu. Quando estava no começo da sua vida adulta, o francês frequentava o que antes era um dos melhores bordéis de Paris. E Madame Louise, apesar de ser a cafetina, fazia algumas exceções com alguns clientes. E Thierry era um deles. No começo, era apenas para satisfazer o filho de Dr. Petit, mas com o tempo, ela gostava de se divertir com ele. Apesar da diferença de idade, Louise dava um banho em muitas garotas novas do Bordel. Infelizmente, com a invasão nazista, seu bordel também foi invadido pelas piores pessoas que alguém pudesse presenciar. E isso afetou-a tanto fisicamente quanto psicologicamente.

— O que devo a honra de seu retorno, Loirinho? – Pergunto Louise.

— Bom, eu retornei a Paris para ficar. E queria fazer uma festa de boas-vindas para mim mesmo. E estava conversando com o meu colega, Dr. Dante, sobre um dos melhores bordéis de Paris.

— Fico lisonjeada, mas não sei se você percebeu, mas essa casa já viu dias melhores.

— Aposto que ela ainda mantém o seu brilho.

— Então, você quer fazer essa festa aqui.

— Exatamente! E já falo na frente dos dois senhores que estão aqui – Disse Thierry, olhando para os dois guardas – Faço questão que a elite do exército nazista esteja aqui.

Madame Louise engoliu a seco.

— Você tem certeza que quer convidar eles? – Perguntou Louise, com apreensão.

— Eu não vejo problema – disse um dos guardas.

— Olha aí! Eles gostaram da ideia.

— Vou ver o que posso fazer por você, Loirinho. – Disse Louise – Infelizmente, tenho que perguntar para algumas pessoas. Em breve, lhe darei a resposta.

— Ok. Você sabe como me contatar. Por enquanto, estou na casa do meu pai.

De repente, todos que estavam no escritório da Madame Louise se assustaram com gritos e barulhos de tiro.

— Mas o que é isso?! – Perguntou Madame Louise, que se dirigiu ao local do barulho, junto com os guardas.

— Estava demorando para dar alguma merda – disse Thierry para Dante.

***

Enquanto Erik estava avaliando o andar de baixo do bordel, ou enchendo a cara no bar, John subiu as escadas para ver se ele poderia ter uma pista de qual seria a instalação que o General Schmidt mais usava, para assim bolar a segunda parte do plano. O andar de cima não era diferente do de baixo, a estrutura também era bem frágil.A diferença é que aquele era um corredor com vários quartos, onde o “trabalho” era feito.

Ao passar por várias portas fechadas com muitos barulhos intensos, John se aproximou de uma porta a qual parecia vazia. Abriu a porta e viu um quarto impecável. Nem parecia que pertencia ao Bordel onde estava. Entrou e foi verificar alguma pista que pudesse comprovar que aquele quarto era o que o General usava, mas nada parecia dar a resposta que ele queria.

— Você não pode ficar aqui.

John se virou espantado e viu um homem, um pouco desarrumado, mas que dava pra deduzir ser da guarda nazista.

— Por que não? Achei que era uma linda garota que viria me fazer companhia. E não um dos soldados nazistas – disse John, em alemão.

— Muito engraçado. Este quarto é reservado apenas ao General Schmidt.

Bingo! Era tudo que John precisava. Agora ele só deveria reportar aos seus companheiros, o mais rápido possível.

— Me desculpa. Se eu soubesse, não teria nem ousado entrar. Vou me retirar agora.

— Espere um momento – disse o guarda, segurando o braço de John – Eu acho que conheço você.

John não tinha se dado conta, mas o guarda que veio lhe repreender do quarto, é o mesmo guarda que estava na blitz, enquanto sequestrava o soldado Klein. Ao perceber, tentou disfarçar o máximo o seu rosto. Ainda estava com a barba falsa, mas sabia que isso não garantiria nada em seu disfarce.

— Não sei do que o senhor está falando! Agora se me der licença...

O nazista pegou o outro braço de John e o jogou na parede, deixando-o de frente para poder avaliar seu rosto melhor.

— É você!

Como não dava mais para disfarçar, John teve que partir para a brutalidade. Agarrou o colarinho do nazista e deu uma cabeçada entre os olhos e o nariz de seu oponente, fazendo com que John se libertasse. Mas isso não fez com que o nazista desistisse tão fácil. Mesmo sangrando, o guarda conseguiu dar um soco em John em seu rosto, deixando o inglês meio zonzo. Em seguida, um soco no estômago tirou todo o ar de John, mas ele ainda estava de pé, para bloquear o terceiro soco que viria novamente em seu rosto. Ao bloquear, foi a vez de John dar um soco no estômago do nazista, só que dessa vez o inglês agarrou o quadril do nazista e foi correndo, até a janela.

O plano seria jogar o nazista pela janela. O problema foi que o nazista segurou John e não deixou que ele escapasse e isso fez com que os dois fossem de encontro a janela, partindo o vidro em vários cacos. A sorte é que embaixo da janela, havia uma caçamba de lixo. Isso não fez que doesse menos. Mas, evitou que alguém quebrasse algum osso.

Com o barulho, os guardas que estavam de sentinela na frente do bordel, foram ver o que estava acontecendo e viu os dois ensanguentados jogados em frente a caçamba, onde caíram que nem pedregulhos.

— O que está acontecendo?! – Perguntou um dos guardas, já armados.

— Matem ele!! – Exclamou o nazista machucado – É o traidor! É o tr...

De repente o nazista parou de falar e caiu no chão, já sem vida. John percebeu a parede do estabelecimento ao lado sujo de sangue. E no meio da sujeira, um buraco, que parecia ser de bala.

Os dois nazistas ficaram uns breves segundos sem saber o que fazer. Até que os dois apontaram as armas para John.

— O que você fez?! Como matou ele?!

Antes que John pudesse responder algo, já que nem ele entendeu o que aconteceu, um ser pulou a janela do andar de baixo, na mesma direção em que o nazista morto estava, e disparou uma sucessão de tiros nos outros dois nazistas que estavam de sentinela. John percebeu que o corpo que surgiu da janela de baixo era Erik.

— Você está bem? – Perguntou Erik.

— Estou! Mas como...

— Alguém descobriu a sua identidade?

— Só o nazista que você matou primeiro.

— Ótimo! – Disse Erik, dando a pistola para John – Dá um tiro de raspão no meu braço e fuja na direção da rua dos fundos. Depois dá o seu jeito de ir pra casa do Thierry sem ser notado.

— Mas...

— Vai Logo!! Antes que os próximos guardas cheguem!!

John deu um tiro no braço de Erik, torcendo para que conseguisse ser de raspão. Em seguida, fugiu do local, ainda confuso com tudo o que aconteceu. Alguns segundos depois, os dois guardas, junto com a Madame Louise apareceram.

— O que aconteceu aqui?

— Aquele cara do cartaz! – Disse Erik – Eu reconheci, ele apareceu aqui perto do bordel e começou a matar os guardas daqui. Fui ver o que aconteceu e por sorte ele só acertou meu braço.

— Ok! Fique aqui que elas vão cuidar de você. Vamos! – disse um dos guardas que acreditou em Erik e saíram em disparada.

— Venha – disse Madame Louise que deu a volta para poder encontrar com Erik – Você precisa de cuidados médicos.

— Não se preocupe, senhora. Eu só preciso de uma bebida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.