Crônicas Saxônicas Dois
4 PRIMAVERA DE 895 DC - ET LUNDENE
LUNDENE ERA UMA CIDADE SUJA, era uma cidade de mortos, uma cidade de fantasmas, mas também era vida e diversão. Nela se encontrava todo e qualquer tipo de pessoa, todo e qualquer tipo de ocupação, todo e qualquer tipo de divertimento. No entanto, havia uma batalha em andamento, uma batalha de gigantes, dois senhores nórdicos haviam passado dos limites e enfrentavam-se em praça pública. Haesten era um deles, um homem alto e loiro, forte, norueguês, que sabia lidar com a espada e o machado. O outro era Kaet, o Cantador, alto, magro, parecia ter alguma doença, mas não tinha cor de doente. Quando ele lutava, as bochechas ficavam vermelhas, isso quando podíamos ver seu rosto, quando a parte frontal do elmo estava erguida. Era um homem ameaçador, apesar da magreza, e seus olhos eram o foco principal da intimidação porque eram como duas rochas quando encaravam outro homem. E homens tremiam ao serem enfrentados por ele, porque Kaet tinha olhos grandes e redondos, negros como o breu. Era um homem cheio de confiança, arrogante e zombador, um homem nascido guerreiro.
— Eu desafio você, Kaet — urrou Haesten. — O seu melhor contra o meu melhor! Então veremos se o que eu digo é verdade ou não! — E deu um passo à frente, indicando que era o melhor entre seus homens. Kaet bateu a espada no escudo e apontou-a, em seguida, para Haesten, que meneou a cabeça, numa reverência, consentindo.
A rixa entre os dois começara logo quando chegamos a Lundene e os homens de Haesten cumprimentaram Kaert com euforia e respeito. Eu não fazia idéia do quão conhecido ele era, mas entre os noruegueses, pelo que ouvi dizer depois, a família Hárfagriser era feita dos melhores guerreiros e senhores. Para os nórdicos, um bom senhor era aquele que se doava e doava parte dos tesouros que possuía quando seus homens iam bem em batalha, e os Hárfagriser eram ricos e generosos, por tal, muitos homens de Haesten ficaram tentados a seguir Kaet. Mas Haesten era um homem esperto e ardiloso, alardeou o que muitos já sabiam: que o irmão de Kaet, Haakon, tinha se juntado aos saxões, tinha se juntado a Aelthesan, tinha se convertido cristão. Os homens não se abalaram muito, mas Haesten fazia graça e pilheriava sobre Haakon, e Kaet não gostou nada daquilo.
Alfredo estava encolhido atrás de mim, assim como um punhado de seus padres vestidos como homens de guerra, as cruzes escondidas dentro das cotas de malha. Mas muitos dos saxões se aglomeravam ao redor de Haesten e Kaet, que estavam frente a frente, distanciados por seis ou sete passos. Haveria um luta, aquele que sobrevivesse honraria a palavra. E pelo que eu ouvia os dinamarqueses falando, Kaet venceria com excelência. Alfredo teria impedido se pudesse, ele não gostava de confrontos entre companheiros de batalha, mas não podia fazer nada, tinha as mãos atadas.
Kaet bateu novamente com a espada no escudo, chamando Haesten, e sorriu da hesitação do outro. Mas então Haesten deu um passo para o lado e gritou um nome, Urg, e eu estremeci. A multidão dinamarquesa voltou a cabeça a Haesten e depois começou a dar espaço, abrindo-se como o mar se abriu para os judeus numa das histórias do padre Beocca. De lá surgiu o gigante Urg, o esmagador, como era conhecido. O escudo e a espada de Kaet baixaram involuntariamente e ele deu um passo para trás, estremecendo por um momento. Fez-se silêncio enquanto Urg caminhava até o centro da arena improvisada pela barreira de homens.
— Este é o meu melhor — bradou Haesten e sorriu para Urg.
O comandante de Kaet tentou entrar na arena, mas homens o impediram, ele não poderia intervir na luta, e eu o fitei, e seus olhos eram puro terror. O terror na hora da batalha não presta para nada. O comandante, depois de responder ao meu olhar, virou-se de costas e procurou alguém na multidão de homens. Provavelmente pensava como Kaet, em chamar um dos seus, havia alguns bem altos, não tão altos quanto Urg, mas que com certeza poderiam enfrentá-lo de igual para igual. No entanto, Kaet já tinha andado até o centro da arena, o que o apontava como o melhor lutador. Acreditou que lutaria com Haesten, por isso caminhou. Mas agora viu o fim negro que teria, não encontraria o irmão, não o levaria para casa para lutar contra os usurpadores. Iria encontrá-lo no Valhala se conseguisse segurar sua espada nas mãos na hora da morte.
Então Urg deu um berro e isso trouxe Kaet de volta à arena. Kaet ergueu o escudo, preparando-se para receber o oponente, enquanto girava o punho da espada com os dedos. Estava nervoso. Não era para menos, tinha que olhar para cima para poder encarar Urg. Acredito que naquele momento O norueguês deva ter se sentido um inútil, uma bosta de vaca diante do homenzarrão. De repente ele olhou em nossa direção, olhava para seu comandante, que balançou a cabeça em negação. Os olhos de Kaet desceram para o gramado a nossa frente, ele respirou fundo e tornou a olhar para Urg.
Quando o gigante deu o primeiro passo em direção a Kaet o chão pareceu tremer. Um homem soltou uma exclamação e eu vi Haesten e um de seus homens apostando, certamente na morte do rival. Urg ergueu os braços e berrou, depois seu berro se transformou num uivo e em seguida agitou a espada e desceu-a contra Kaet, que desviou do golpe num giro e estocou o lado esquerdo de Urg, mas a espada não conseguiu furar a cota de malha. Urg urrou ainda mais alto e bateu seu escudo no do oponente, empurrando-o alguns passos para trás, e logo estocou com a espada na cabeça de Kaet, que impediu o golpe com o escudo. Urg não era ágil, mas a força em seus golpes retardava o oponente e o fazia recuar tamanho o choque. Kaet desviou de outro golpe girando e sua espada tirou um pouco de sangue da perna de Urg, que uivou como um lobo e atirou o escudo contra o outro, fazendo-o tropeçar ao tentar desviar do objeto pesado que girava em sua direção. O escudo de Urg atingiu o de Kaet, resvalando e indo parar bem diante dos meus pés. Agora Urg estava sem escudo, mas tinha pegado a espada com as duas mãos e partiu com tal fúria para cima de Kaet que este não teve opções senão manter o escudo erguido. Ele poderia ter corrido, ter fugido, mas que honra haveria nisso? E sua palavra, de que valeria? O escudo de Kaet estava se partindo e quando isso acontecesse, o fim chegaria. Então ele empurrou o golpe de Urg no intento de afastar o homenzarrão para longe, mas mal o moveu, batendo em seu peito enorme. A espada de Urg veio de lado, um homem atrás de mim chiou, e eu soube que Kaet estava morto. A espada de Urg zuniu na horizontal, o corpo de Kaet caiu, sendo tampado pelo escudo, e sua cabeça rolou para o lado.
O comandante ao meu lado soltou uma exclamação de terror e caiu de joelhos. Um homem saxão gritou que havia uma mulher ali, outro apontou para o capacete, e Urg gritou também, com os braços erguidos, vencedor, sorrindo para Haesten.
Mas então, o escudo caiu de lado, Kaet rolou por entre as pernas de Urg, parando apoiado num dos joelhos atrás do grandalhão e meteu a espada entre as pernas de Urg que ainda não havia entendido o que acontecera. E conforme levantava para se por de pé, Kaet subiu a espada de ponta por entre as pernas de Urg, rasgando-o de baixo para cima, até a cintura. O gigante abriu o peito num grito e eu vi o golpe de guerreiro: Kaet jogou a espada para cima e a agarrou no ar como se ela fosse uma lança, em seguida, cravou-a fundo nas costas de Urg. Por um instante foi só silêncio. Kaet tirou os longos cabelos do rosto, que estavam colados pelo suor, e ergueu a perna chutando as costas do oponente com fúria. O gigante caiu de joelhos e depois seu corpo guinou e tombou de costas sobre a espada de Kaet.
Naquele ponto todos estavam urrando, agitados com a vitória, mas os poucos que não conheciam Kaet — nós os saxões, para se mais exato -, estavam estupefatos. Kaet não era um homem e, sim, uma mulher. O comandante abriu um largo sorriso, levantou com rapidez e correu até ela, que tentava a muito custo virar o corpo de Urg. Mas foi preciso quatro homens para erguê-lo, e quando o fizeram, ela pisou sobre suas costelas e arrancou a espada, limpando-a nas roupas do morto. Um homem trouxe o elmo que rolou para longe na luta e ela o colocou sobre a cabeça, ajeitando-o com um tapinha. Os noruegueses a cercaram e davam altas gargalhadas, mas ela abriu caminho entre eles para chegar a Haesten, e quando já em frente a ele, o chamou de covarde. Haesten empunhou sua espada e os dois se golpearam, mas uma terceira espada os bloqueou. Era o earl Ragnar.
— Por hoje chega — ele disse, ainda surpreso com o que vira.
O comandante de Kaet, Kári Sinasson, levou seu senhor, sua senhora para a tenda e pouco depois Alfredo entrou lá, parando diante da mulher, agora sem elmo, os cabelos sobre os ombros davam a ela a aparência de um homem, mas era definitivamente uma mulher.
— Você me enganou — disse Alfredo. Na sala estavam Kári, a mulher e Alfredo, mas Asser e Beocca o seguiram, por isso entrei também.
— Você seguiria uma mulher? — ela quis saber.
— Jamais! — respondeu Alfredo quando eu traduzi.
Então ela falou em inglês:
— Você é um idiota! — e todos nos surpreendemos, Ragnar em especial. — Vive de seu deus, come da boca de seus padres, dorme com a alma limpa... — ela riu zombeteando. — Dorme mesmo com a alma limpa, Alfredo?
Ninguém ousou falar, nem mesmo Alfredo.
— Eu conduzi você até aqui, passaremos pelos dinamarqueses em dois dias e estaremos na Mércia em mais dois... e ainda diz que eu o enganei?
— Você é uma mulher?
— E que mulher entende de guerra? — ela se fez de rogada, com a voz fina e fazendo finta com os lábios e olhos. — Você não sabe de nada! — ela urrou em seguida e chutou a mesinha onde estava a comida. Um cachorro veio todo contente recolher o que havia se esparramando pelo chão. — Quer avisar seu povo que está bem? Que precisa de aliados? De homens? Vá então! Passe por seus inimigos por conta própria! — E deu as costas a ele.
Alfredo parecia ultrajado, mas não disse nada. Foi Asser quem falou, com fúria, como se fosse o rei, dando um passo à frente com o dedo em riste.
— Não te colocarás no lugar de um homem...
— Enfie esse dedo no seu rabo, seu desgraçado filho de uma porca! — ela urrou, eu soltei uma gargalhada, ninguém se moveu. — E não fale na minha presença. Ou melhor! Saia da minha frente antes que eu o mate!
— É melhor baixar o tom de voz, senhora — disse eu, não queria intervir, estava adorando ver Alfredo e seus padres serem rebaixados. — Está falando em inglês...
Ela me fitou como se fosse me rasgar em dois. E poderia, ela rasgou Urg.
— Você vai ou não a Mércia comigo? — perguntou ainda em inglês, mas num tom de voz bem mais baixo.
Alfredo me fitou, esperando que eu lhe dessa a resposta, mas não falei nada. Quem falou foi ela.
— Não vou poder entrar na fortaleza sem você, sabe disso — ela falou a Alfredo de modo que pareceu jamais ter se zangado instantes atrás, depois, fitou Ragnar por um instante -, apesar de ter muitos guerreiros corajosos por aqui.
Ragnar sorriu confiante e assoberbado, depois me olhou e parou de rir. Pensei em Brida, a mulher que andava com Ragnar.
— Afinal de contas, quem é você? — quis saber Alfredo e Asser o apoiou, recebendo um olhar cortante da mulher.
— Kaetilla Hárfagriser, filha de Haraldr Hárfagriser, senhor da Noruega. E você, Alfredo de Wessex, é homem suficiente que irá ajudar a encontrar meu irmão?
Todos se calaram novamente.
— Eu sei que você tem um mércio como aliado, e que ele está neste acampamento — ela disse sem rodeios. — Ele pode nos colocar dentro do castelo? Ou é inimigo de Athelstan? Bem, se for inimigo poderá da qualquer forma me colocar dentro do castelo, não é? — e piscou para Ragnar, a quem reconhecera como igual.
— Ele pode — murmurou Alfredo.
— Pois bem. Então estamos conversados. Você não precisa me pagar. Não quero seu dinheiro. Quero apenas meu irmão!
Mais tarde naquela noite, depois de nos retirarmos das tendas dos senhores ricos e importantes, Ragnar, Pyrlig e eu nos aconchegamos em um velho estábulo, por onde passava muito vento, mas pelo menos não chovia em nossas cabeças.
— É uma beleza, hein? — Pyrlig ergueu as sobrancelhas e virou o último gole de cerveja azeda na goela. — E luta como um urso.
Ragnar sorriu e concordou. Eu permaneci quieto e os dois me fitaram.
— Eu sou casado — expliquei. Depois me virei e fui dormir.
Na manhã seguinte, o episódio parecia não ter muita importância, a não ser para Alfredo e seus homens. Muitos de nós já havíamos visto mulheres lutar ao lado de seus homens, defendendo-os e defendendo sua prole e riquezas. Mas ninguém jamais vira uma mulher lutar como Kaetilla. Ela dava lições a muitos homens, especialmente aos homens saxões. Contrariando seus padres, Alfredo seguiu ao lado dos noruegueses de Kaetilla em direção a Tamworth, onde ficava a fortaleza de Athelstan, mas como antes, deixava-os seguirem adiante, não querendo se misturar aos pagãos.
Ela continuada vestida como homem, o que horrorizava os padres e monges, Beocca era um deles, e Asser o apoiava cegamente. Pyrlig, no entanto, cavalgava ao redor da senhora norueguesa, falando-lhe sobre os mandamentos de Cristo, porque ela tinha curiosidade em entendê-los. Mas Pyrlig se perdia nas explicações porque se pegava observando as partes do corpo dela, apesar de nada expostas porque ela vestia grossa couraça e cota de malha, e sobre a cabeça o elmo prateado, maravilhosamente polido.
Vez ou outra Kaetilla disfarçava e voltava o olhar para nós, ou talvez Pyrlig lhe desse exemplo de maus cristãos, indicando-me com a cabeça. A principio acreditei ser isso mesmo. Contudo, os olhos de Ragnar não me negavam nada, ele estava atraído pela norueguesa. Então pensei de novo em Brida, minha amiga.
Entramos em território cristão, os padres deram graças por poderem voltar aos longos trajes e às enormes cruzes dependuradas no pescoço, e rezaram e louvaram durante uma tarde inteira, o que retardou a viagem e fez Kaetilla estremecer de raiva. Mas ela e seus homens cavalgaram para as colinas, e com eles foi Ragnar e alguns de seus homens. Ele tinha me convidado, mas preferi não ir, Alfredo me espreitava e eu não queria criar desconfianças.
— Mulheres não deveriam participar de conversas importantes. Não deveriam participar de lutas...
— Eu sei, Asser, eu sei — Alfredo dizia enquanto caminhávamos, já seguindo caminho, depois de um belo e forte jantar, as caças que Kaetilla nos tinha trazido.
Notas finais
NOTA 2: Kaetilla é uma personagem criada para contrapor a história e mostrar que as mulheres também lutavam, apesar de não terem grande valor como esta, já que na época, aprender a arte da guerra era uma habilidade permitida somente aos homens.
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