A enfermaria do Instituto de São Paulo estava superlotada. Se é que o Mosteiro de São Bento continuaria a ser o Instituto da cidade, pois boatos corriam entre os caçadores que Augusto Blackthorn havia marcado reuniões com o Cônsul e o Conselho para haver uma mudança de local – talvez a Catedral da Sé –, depois das muitas reclamações dos monges beneditinos sobre o incidente com os parabatai fugitivos e as inúmeras cartinhas de caçadoras locais e visitantes que estavam se rebelando contra o fato de terem de se disfarçar como homens parar entrar no Mosteiro. Ademais, a convivência com monges mundanos e turistas no local já estava causando certo desconforto nos Nephilins.

– Tudo culpa de vocês, Pedro e Matheus! Veja isto e isto! – Augusto havia entrado impaciente na enfermaria, conduzindo sua cadeira de rodas, e parou em frente aos leitos dos rapazes, lançando sobre eles a correspondência dos últimos dias. – Se não fosse a loucura de vocês, eu não estaria recebendo cartinhas de descontentamento com minha gestão e tampouco estaria sendo chamado para explicações diante da Clave!

Acho que você percebeu que isto é uma enfermaria, não é mesmo Augusto? – A voz do irmão do silêncio responsável pelo turno se fez ouvir clara e aterrorizante nas mentes de todos, que imediatamente voltaram seus olhares para o diretor do Instituto. Seu nome era Jacob.

– Preciso desses dois na reunião com o Submundo, no Santuário. Os líderes presentes solicitaram a presença deles e também há uma correspondência da Clave com recomendação para ser lida abertamente.

Apenas por 30 minutos, Augusto. Agora vamos saindo e me deixe trabalhar. Tenho um licantrope em coma há três dias, uma mundana e quatro caçadores para extrair o restante de sangue de fada do seu corpo, além dos 20 caçadores feridos que você quase conduziu para a morte, fora um que está em uma cadeira de rodas, sem ter recuperado completamente o movimento das pernas e que não sabe ainda em quanto tempo vai conseguir, como você mesmo pode ver.

Augusto cogitou responder alguma coisa ao Irmão, mas desistiu após os olhares de reprovação dos demais e deixou a enfermaria resmungando, com Pedro e Matheus já levantando dos leitos para ir com ele. Os parabatai olharam um para o outro e depois para trás, rindo em seguida, não sem a repreensão do Irmão Jacob, que tremulava a voz na mente dos rapazes, como se também estivesse segurando para não rir, o que era impossível de conceber vindo de um irmão do silêncio com aparência de uma caveira, seus olhos com um “x” marcado em cada um deles e sua boca com outras marcas igualmente estranhas, como uma linha costurando-a de uma ponta a outra.

Ele tem uma reunião agora. Não incomodaria tê-lo expulsado, de qualquer jeito. – Jacob parecia se justificar; sua voz ecoando na mente de todos, mórbida e sarcástica ao mesmo tempo. Então ele fechou as portas da enfermaria e as trancou assim que os caçadores deixaram o recinto.

Pedro e Matheus gostavam do Irmão Jacob, apesar do jeito ranzinza. Foi ele quem presidiu a cerimônia de cremação de Julia e Ivo Blackshadow, um dia depois de sua morte. A dor do filho deixado pareceu se estender ainda mais, quando os Irmãos o impediram de deixar a enfermaria para o ritual de adeus. Ele ainda estava debilitado da luta contra o demônio e fortes emoções como uma despedida eterna certamente prejudicaria mais sua saúde.

Irmão Jacob não era insensível a isso. Ele regressou à enfermaria tão logo a cerimônia se encerrou e comunicou seus pêsames ao caçador, não sem fazê-lo compreender que as cinzas dos pais seriam sua proteção para sempre. Entregou, então, a urna funerária da família em suas mãos para que se despedisse, antes de transportá-la para a Cidade do Silêncio. Ave atque vale – o jovem sussurrou as palavras da eternidade diante da urna – saudações e adeus. Era tempo de seguir.

No salão do Santuário, Augusto pediu a palavra para começar a reunião, mas teve que dar umas batidas na mesa para ter a atenção dos demais. Havia um burburinho entre três representantes da Praetor – Malthus, Louis e Lino –, que olhavam para a Alta Feiticeira de São Paulo, Mag Lyn, e para a garota-fada, Maíra – única representante de seu povo. Sobre a primeira comentavam a respeito das mechas autocolorantes dos cabelos; já sobre a segunda, o cochicho era a respeito da sua real natureza, já que parecia muito mais humana do que fada. Maíra piscava e sorria para eles, claramente debochando do que nunca poderiam ter, enquanto Mag Lyn divertia-se soltando faíscas rosas no indicador direito, fazendo um a um os licantropes pularem assustados com pequenos choques nas nádegas.

– Muito bem, se me permitem, gostaria de dar início ao nosso encontro com a leitura de uma carta enviada de Alicante pelo Conselho – ele iniciou com voz solene, apesar de desconfiado com o conteúdo de uma carta da Clave que deveria ser lida abertamente. O episódio de cooperação entre o Submundo e os Nephilins, no caso do demônio Incubus, incitou uma recomendação de transparência aos Institutos brasileiros, ainda que contida, perante líderes ou representantes locais do Submundo.

O Conselho e o Cônsul parabenizam o Instituto de São Paulo, a Praetor e ao povo das fadas pela aliança conjunta contra a ascensão demoníaca enfrentada. De maneira especial, em relação aos nossos, recomendamos que: 1) Matheus Heartway mantenha a posse e proteção oficial do Arco do Cupido, não sendo mais necessários os cuidados do Instituto de São Paulo sobre a arma. – Mas o que... – Augusto limpou a garganta para disfarçar sua perplexidade com a notícia e continuou. – 2) a mundana Joyce Mariano seja readmitida entre os Nephilim, sob o antigo sobrenome da família Castairs, uma vez que já se encontra viúva e, principalmente, devido aos serviços prestados em honra dos filhos do Anjo e a sua missão.

– Pelo Anjo! Você ouviu isso, Pedro? Ela poderá ser novamente uma de nós! – Matheus segurou forte o ombro do parabatai, que sorriu em retribuição. Augusto, por sua vez, suava frio a cada linha da carta e já se arrependia de ter começado a lê-la em frente aos líderes do Submundo ali presentes.

3) sejam transmitidos os nossos mais profundos pêsames a Pedro Blackshadow pela morte de seus pais. Reconhecemos sua bravura e determinação em buscar a verdade e por barrar uma perigosa incursão demoníaca. Portanto, a despeito de seu comportamento no passado, poderá ser readmitido de imediato ao Instituto de São Paulo e usá-lo como moradia, se assim o desejar.

– Eu não o desejo. – Pedro falou com ar de deboche para o diretor, ao mesmo tempo em que a garota-fada e a feiticeira riram discretamente, cada uma colocando a mão sobre a boca para não parecerem deselegantes.

Augusto olhou com cara de desprezo para Pedro e aparentava certo desconforto pelo constrangimento que o assunto lhe trouxera na frente de representantes do Submundo. – Por fim – ele continuou a leitura do que pareceu mais lhe agradar até então –, requisitamos que o Livro das Sombras em sua posse seja retido como item mágico de estudo dos Nephilins e encaminhado a Alicante para sua análise e guarda.

– Uma ova que o livro da minha família vai ficar em Idris! – Pedro bateu na mesa e ficou de pé. – Mag Lyn, por sua vez, colocou a mão direita no queixo e o cotovelo sobre a mesa, aparentemente interessada na questão. Ela sabia o que o Livro das Sombras representava em termos de conhecimento cultural mundano, nephilim e mágico, já que há séculos a parceria entre feiticeiros e a família Blackshadow era conhecida e comentada em vários cantos do Submundo do país, apesar de ninguém ter sabido ao certo – nem mesmo a Clave – em qual momento ou quais feiticeiros foram amigos ou contratados da família para unir seus conhecimentos ancestrais à magia. A Alta Feiticeira de São Paulo aparentemente sabia.

Pedro olhou para a feiticeira, curioso e admirado. Ficou intrigado com o jeito que ela o olhava em retribuição, afinal não era todo dia que encontrava mulheres lindas, de ascendência oriental, cabelos grandes, lisos e pretos, com mechas nas pontas que mudavam de cor aleatoriamente. Por um instante ele pôde jurar que estava hipnotizado ao olhar para ela ou que, talvez, o tempo tivesse parado; e de fato, tinha.

– Mas como... – Pedro olhou ao redor e todos estavam paralisados como estátuas, cada um com os gestos que faziam, exceto por uma chama dourada no dedo indicador de Maíra, que permanecia em movimento, apesar de todo o seu corpo estar inerte.

– Fadas... – Mag Lyn olhava a chama dourada no dedo da garota e balançava a cabeça com ar de reprovação – sempre querendo saber o que não lhes é da sua conta.

– Meio-fada, na verdade. Maíra Aspenfair também é Nephilim. – Pedro sentiu-se na obrigação de esclarecer.

– Ora, quem liga para a natureza dela, quando se é a Alta Feiticeira de São Paulo? – Mag foi até o dedo erguido da garota e concentrou uma bola de energia cor-de-rosa em volta da chama dourada, que ficou estática dentro do campo de energia criado pela feiticeira. – Isso deve bastar... Sintonizei com a rádio mais próxima de Heavy Metal, achei Metallica uma boa escolha para os ouvidos dela. – A feiticeira sorriu e as mechas de seus cabelos ficaram rosa choque, depois prateadas e, por fim, verdes, o que fez Pedro recuar um pouco surpreso. – Ah! Não ligue para minhas mechas, marca de nascença, sabe... Muda com meu humor. Pois bem, acho que precisamos conversar sobre esse seu livro.

– Antes você precisa me dizer como parou o tempo e não me fez virar estátua também!

– Pequenos truques que a gente aprende quando se tem mais de um milênio.

– Mais de um milênio? – O caçador arregalou os olhos, admirado. – Então não tenho muito para te contar sobre o livro da minha família; você já deve ter ouvido bastantes histórias dele por aí. Falando nisso, qual seu interesse nele? Não sei nem mesmo por que você está aqui nessa reunião hoje!

– Na verdade, eu ajudei Akin e Omala com algumas incursões mágicas no Livro das Sombras; combinei conhecimentos ancestrais mundanos da natureza com magia da minha raça e criei algumas fórmulas e recitações bastante poderosas que estão contidas nele. Ah! Sobre eu estar aqui hoje, você deveria saber que feiticeiros não são tão desunidos assim. Estava em Idris quando toda essa bagunça entre vocês e o feiticeiro de Santo André aconteceu. Assim que a Clave recebeu as informações do seu Instituto, pedi que pudesse acompanhar o caso de perto e apurasse as atitudes de Lucas, aproveitando a política de transparência que a Clave diz ser boa para o Brasil, já que muita coisa acontece aqui e eles não ficam sabendo.

– Certo... – Pedro considerou a fala da feiticeira. De fato, não imaginava que feiticeiros procurassem cuidar um dos outros, ou talvez existisse algo a mais na relação dos dois, mas achou melhor não especular sobre isso. Interessado mesmo estava no fato de Mag ter conhecido seus ancestrais e ajudado com o livro da família. – Então, foi você quem ajudou meus bisavós na batalha contra os mundanos e os caçadores zumbis, descrita no livro? Você que transportou descendentes das famílias Blackshadow e Heartway para São Paulo, mais de cem anos atrás?

– Exato! Eu morava em Roma na época, conhecia bem os Heartway italianos. Já havia centenas de anos que saíra do Japão, minha terra natal, após aprisionar meu pai – aquele demônio desgraçado – em um jarro sagrado de orações, para que ficasse ali para sempre... Aquele imundo matou minha mãe na cama de seu quarto, assim que ela me deu à luz, pois resistiu me entregar a ele. Minha tia, a parteira, fugiu comigo nos braços para um templo budista e fui criada pelos monges desde então. Aprendi com eles a controlar minha magia e, quando finalmente me senti preparada, invoquei o bastardo e o prendi no jarro de orações dos monges, selando-o em seguida. Quando fui contatada por Cecília Heartway para comparecer ao Brasil e constatei que seus problemas envolviam o demônio Incubus, percebi que o jarro sagrado havia caído em mãos erradas. – Mag fez uma pausa ao ver o rosto de surpresa do caçador, mas logo esclareceu sua dúvida. – Sim, ele é meu pai.

– Então Lucas... Lucas Draco é seu irmão?

– Ah! Os novos problemas criados por Incubus... Lucas foi um dos feiticeiros controlados por meu pai; o único que sobreviveu após a incursão na fazenda dos Heartway e, sim, ironicamente é meu irmão. Não tivemos muito contato nos últimos dois séculos; talvez a primeira vez tenha sido nessa ocasião nada feliz para encontros familiares, quando Incubus revelou que ele e os demais feiticeiros presentes sob seu controle eram meus irmãos, em uma tentativa de me persuadir à causa infame dele. O fato é que eu nunca me deixei submeter àquele demônio maldito; os monges me protegeram bem com selos em meu corpo e me ensinaram mantras que mantinham minha mente forte a influências demoníacas.

– Mas como foi possível você e Lucas terem sobrevivido ao ataque de vários feiticeiros?

– Naquele fatídico dia, seus bisavós já haviam me colocado a par de tudo o que Incubus vinha fazendo pela região e foi quando tive contato a primeira vez com Livro das Sombras, que já vinha sendo trabalhado por outros feiticeiros africanos há gerações antes deles. Extraí algumas mágicas de lá para proteger a mim e a linhagem dos Blackshadow contra qualquer tido de magia negra conjurada sobre nós, especialmente a magia das fadas, que vinha sendo modificada por aqueles feiticeiros, por meio do uso do sangue delas. Então, quando fechei círculo de invocação e mandei o demônio de volta para o Vazio, a batalha começou e os únicos feiticeiros ainda vivos dentre os demais fomos eu e o Lucas, que estava praticamente morto, mas ainda com alguma chance de vida. Eu tive alguma esperança naquele rapaz, então abri um portal e nos transportei para Roma. Cuidei dele por alguns meses, ensinei feitiços e mantras de autoproteção contra influência demoníaca, mas ele nunca foi bom em usar magia em si mesmo. Na verdade, Lucas nunca quis nada além de algum tipo de reconhecimento familiar. Como a mãe o abandonara quando bebê, sua única e ingênua alternativa foi acreditar que o pai, um demônio, teria algum sentimento por ele que não fosse o de usá-lo aos seus propósitos infernais.

– Eu não imaginava que sentimentos nobres pudessem existir em um feiticeiro como Lucas, depois de tudo o que ele fez. Espero que você consiga de Augusto uma chance para ele se redimir, se ainda for possível. Também agradeço por me ajudar a desvendar lacunas na história da minha família. De qualquer forma, Mag, qual o real propósito de você ter me contato tudo isso, assim, sem que ninguém pudesse ouvir?

– Veja, Pedro, apesar da minha idade, ainda tenho muito a trabalhar e a aprender... Posso dizer que o Livro das Sombras tem um potencial de segredos mágicos que me ajudariam bastante a crescer como feiticeira e, finalmente, aprisionar por toda a eternidade Incubus e destruir seu plano de fazer Asmodeus e sua laia ascenderem. Em contrapartida, você poderia morar comigo e ter meu auxílio para aprender também o que quer que seja que sua família tenha deixado para você descobrir nesse livro, nas aventuras em que se meter e, além disso, tem desde já minha palavra de que vou proteger seu parabatai enquanto ele viver. Os Heartway sempre me foram muito queridos! O que você me diz?

Pedro não demorou muito a responder.

– Uau! Acho que temos um trato. Não vou deixar jamais o livro da minha família virar artefato de estudo da Clave em Idris...

– acertaremos os detalhes no fim da reunião, se você achar que pode driblar Augusto e a Clave. – Mag fez um movimento de dedos com as duas mãos, fechando-os ao centro de cada mão, com inúmeras faíscas cor-de-rosa retornando para cada uma delas. Então, eles estavam de volta ao tempo normal da reunião.

– Ai! Meus ouvidos! – Maíra gritara alto na mesa e todos subitamente viraram para ela, assustados.

– Algum problema de sintonia, fada, digo, meio-fada Maíra Aspenfair? – A feiticeira sorriu radiante para a garota-fada, enquanto seus cabelos exultavam em cores tão variadas que pareciam um arco-íris.

Augusto olhou desconfiado para as duas, mas imaginou que era algum comportamento inadequado de membros do Submundo, como sempre imaginava que tivessem, e se dirigiu a Pedro, em resposta a sua indignação com as determinações da Clave.

– Você terá de seguir o que a Clave determinou ou sofrerá novamente as consequências de ser mandado para algum serviço burocrático em Idris pro resto da vida ou até mesmo o banimento! É isso que você quer, Pedro?

– Vamos ver o que será de mim em breve. Podemos passar aos nossos convidados ou você pretende tratar assuntos internos dos Nephilim na frente deles?

– Ah, sim, podemos... – Augusto olhou em volta e se sentiu constrangido com os olhares dos demais. – Perdoem o mau comportamento dele. Quais os assuntos desejam tratar com o Instituto?

– A Praetor solicita a liberação de Felipe Wolfmark para ser tratado em nossas instalações. – Malthus Seville foi quem tomou a palavra. Ele liderava a Comitiva Local para Assuntos Diplomáticos (CLAD) da Praetor Lupus do Brasil. – Consideramos que já é tempo mais que suficiente para um licantrope estar a três dias sob os cuidados de um irmão do silêncio.

– Ora, sejamos razoáveis! – Augusto tentou intermediar a situação. – O jovem está em coma há três dias e, por todos esses dias em que aqui esteve, o Irmão Jacob e seus assistentes têm procurado extrair o sangue de fada com a magia do Anjo. É justamente esse sangue que tem dificultado que ele desperte. O Instituto insiste que o mantenhamos sob nossos cuidados até que se recupere, então o encaminharemos novamente à Praetor.

Os três licantropes se entreolharam desconfiados e cochicharam entre si. Lino dizia a Malthus que essa era uma estratégia dos caçadores para extrair informações da missão de Felipe e que a Praetor não seria nada piedosa se isso acontecesse. Loius, por sua vez, propôs ao líder da comitiva uma contraproposta que pareceu razoável. Então Malthus retomou a palavra e deu seu parecer.

– A Praetor só permitirá que um membro nosso fique com os Nephilim se levarmos ele – Malthus apontou para Pedro – e o livro que tanto importa à Clave conosco, uma garantia de que vocês não usarão nosso membro para obter informações, assim como nós também garantiremos que não investigaremos segredos nephilim, até que o Felipe tenha liberação médica pelo Irmão Jacob. Não aceitaremos qualquer outra proposta.

– Mas o que vocês pensam que... – Augusto estava pronto para um sermão, mas foi interrompido surpreendentemente por Pedro.

– Eu vou. Ficarei de boa fé com a Praetor até a recuperação do meu amigo Felipe. – Pedro olhou de relance para Mag, que sorriu satisfeita com a atitude do caçador. Eles sabiam que estar com os licantropes da Praetor daria mais acesso um ao outro e também seria mais fácil para Pedro desaparecer com ela quando o prazo para Felipe se recuperar acabasse.

Parabatai, você está certo disso? – Matheus ficou impressionado e temeroso por ele, mas ao mesmo tempo orgulhoso em saber que protegia um amigo.

– Não se preocupe, Math. É o melhor que posso fazer para evitar maiores conflitos entre os licantropes e os Nephilim. – Pedro virou-se para Augusto e continuou – até mesmo porque o diretor do Instituto de São Paulo não colocaria em risco a honra de sua palavra em um acordo justo como este. Não é mesmo, Dom Eliel?

Augusto apertou o punho direito de ódio sobre a mesa, mas sabia que era mais fácil dar desculpas para o não envio do livro dos Blackshadow a Idris do que justificar uma cisão diplomática com a Praetor. As relações com o Submundo andavam sensíveis e era preciso acordos fossem feitos e cumpridos dignamente para o bem de todos.

– Você tem minha benção, Blackshadow, mas não pense que terá escapado de mim quando retornar.

– Como desejar, ó honrado Abade! – Pedro fez uma reverência e sorriu satisfeito. Math e Maíra contiveram o riso para não irritar mais Augusto, entretanto se divertiam com o que deveria ser uma séria reunião.

– Alguém mais exige alguma coisa ou quer fazer acordos? – Augusto questionou em tom irônico aos demais.

– Eu venho interceder pelo meu irmão. – Mag Lyn antecipou-se a Maíra, que já levantava a mão. – O feiticeiro Lucas Draco está sob custódia dos Nephilins na Cidade do Silêncio e solicito sua soltura, uma vez que suas atitudes se justificam por estar sob domínio demoníaco. Proponho-me a bani-lo do Brasil e vigiar de perto seus movimentos para que não venha a sofrer mais nenhuma influência ou de livre vontade transgredir a Lei.

– Você deve estar louca, não é, Alta Feiticeira? – Augusto estava repleto de indignação. – seu irmão foi responsável por invocar um demônio da mais alta periculosidade e, mesmo que estivesse sob a influência dele, ainda assim compactuou livremente em atrair caçadores, colocar em risco os mundanos e ser responsável pela morte de dezenas de fadas. A sentença dele certamente seria a morte!

– Como assim “seria”? – Mag intrigou-se.

– Como assim “irmão”? – Matheus estava estupefato com a informação que desconhecia.

– Ah, caçador, longa história... Seu parabatai pode um dia te contar. – Ela se virou novamente para Augusto e continuou. – Agora, voltando ao que perguntei, o que acontecerá com ele, já que não será morto, pelo que entendi?

– Sobre ser ou não ser morto – Maíra agora interrompeu o diálogo dos dois –, isso agora compete à Rainha Seelie. O acordo feito com os Enclaves de São Paulo e Santo André foi que conduziríamos os caçadores dentro de nossos domínios até a caverna onde o demônio estava sendo invocado e onde o responsável pelo rapto de mundanos e assassinato de fadas se encontrava. Em troca, levaríamos o culpado conosco, preço pelo sangue de nosso povo derramado. – A garota-fada sorriu reluzente em seus raios dourados que se espalhavam pelo corpo. – Aliás, a rainha solicita que eu leve o prisioneiro comigo imediatamente, se não for pedir muito.

Acredito que – o diretor do Instituto limpou a garganta para falar – os Nephilins de acordo com os termos. Bom, não há mais o que discutir hoje; acho que podemos encerrar a reunião.

– Augusto! – Matheus, que até então permanecera calado na reunião, levantou-se da cadeira, indignado. – Como você pôde... Isso pelas nossas costas!

– Não posso fazer nada com relação a isso, Matheus Heartway! Sei que você tem um coração bom e não vê condenação no feiticeiro, mas a decisão foi do Enclave de São Paulo e, mais do que isso, uma decisão compartilhada com o Enclave de Santo André. O coletivo vence sobre a vontade individual, isso você já deveria ter aprendido enquanto um dos mais aplicados Nephilim.

– Math, acalme-se. – Pedro segurou na mão do parabatai e o puxou de volta ao assento. – Não há nada que possamos fazer.

– Ele vai morrer, Pê! As fadas não o perdoarão. Por mais que tenha feito o que fez, como poderia responder por si com a influência do próprio pai agindo no sangue que corre em suas veias? Não concordo que ele deva morrer; você me conhece e sabe o que penso desse senso mórbido e deturpado de justiça...

– Ah, não se preocupe com isso, Nephilim! – Maíra voltou-se ao caçador fazendo aparecer uma pequena chama dourada em sua mão direita. – Há destinos piores do que a morte... – Ela fechou a mão, abafando a chama, que se transformara em fumaça saindo pelos espaços entre os dedos.

Mag Lyn levantou-se indignada, os olhos contendo chamas rosa choque e as mechas dos cabelos tomados pela mesma cor. Os licantropes recuaram e fizeram sinal para Augusto encerrar a reunião, mas antes que ele pudesse sinalizar o término, a feiticeira começou a falar.

– Se algum dia você se considerou Nephilim, Maíra, certamente acabou de extinguir a última gota do sangue do Anjo Raziel dentro do seu coração com essa sua postura irritante! Espero que não nos cruzemos nunca mais, ou você saberá por que eu sou uma Alta Feiticeira enquanto você é apenas metade fada!

– Não espero qualquer vantagem por ter sangue do Anjo correndo em minhas veias, Mag. Não depois do que Augusto e sua corja fizeram comigo em nome do bem dos Nephilins, me usando como mercadoria de troca, sem considerar o nome da minha família. Nunca poderei rever meus pais por conta dos próprios Nephilins, nunca poderei estar novamente com meus amigos. Fui banida pra um reino desconhecido, mas ao menos existe aceitação por lá, existe respeito. O feiticeiro derramou sangue de fada e terá o seu castigo. Essa é a justiça de Faërie, não há nada o que eu possa mudar.

– Bom... – Augusto parecia temeroso com o clima de tensão mágica no ar. – Acho que podemos declarar encerrada essa reunião.

Mag Lyn cruzou os braços e uma energia cor-de-rosa a envolveu da cabeça aos pés, levantando-a alguns centímetros do chão e impulsionando seu corpo em direção às portas do salão do Santuário, que se abriram com violência para ela passar. Do lado de fora, a feiticeira se elevou e ficou invisível e os lobisomens olhavam para o céu e se entreolhavam, impressionados com uma feiticeira em fúria, algo que nunca haviam visto até o momento. Poucos segundo depois, dois cavaleiros elfos chegaram à entrada do Santuário, aguardando instruções da representante da Rainha Seelie na reunião.

– Augusto – a garota-fada levantou a mão. – Poderia trazer o prisioneiro? Os cavaleiros da rainha já se encontram aqui para transportá-lo.

– Solicitarei aos Irmãos do Silêncio que o tragam para cá. Agora, se puder me dar licença... – Augusto virou a cadeira de rodas com um movimento de mãos e seguiu em direção à porta interna do Santuário, que conduzia ao interior do Instituto, enquanto Matheus tentava animar o parabatai, pedindo que fossem, ao menos, dar as boas notícias recebidas aos amigos.

Antes de deixarem o Santuário, Pedro olhou para Malthus Seville, como se pedisse permissão. O caçador sabia do trato feito com os licantropes presentes, mas precisava se despedir dos amigos.

– Esperaremos aqui. – Malthus assentiu com um aceno de cabeça e os parabatai adentraram o Instituto.

***

Eu falei 30 minutos, jovens! Vocês extrapolaram, e muito, o tempo. Vamos continuar o processo de extração mágica, falta apenas uma sessão. – Irmão Jacob era metódico e objetivo, não se importava com a cara abatida dos dois, pois desânimo e sentimentos pesarosos nunca salvaram vidas em longas décadas de serviço.

Os parabatai deitaram em seus leitos enquanto o irmão aplicava marcas nunca vistas nos braços dos rapazes. Os demais amigos estavam próximos a eles e curiosos para saber dos detalhes da reunião. Luana Heronstairs olhava fixamente para Matheus, admirada com sua beleza e corando as faces. Essa não era a primeira vez. Matheus olhou de relance para a garota e balançou a cabeça como se a cumprimentasse, mas logo achou a coisa mais idiota do mundo a se fazer.

Pedro começou contando tudo o que foi discutido na reunião; seu parabatai o ajudava com os detalhes. Os demais Caçadores e a mundana, Joyce, também se chatearam com a sentença de Lucas, mas não havia nada que pudessem fazer. Mais ainda se preocuparam com o fato de Pedro ter de passar alguns dias retido na Praetor, entretanto não poderia ser pior do que está sob as ordens de Augusto. Certamente os dois iriam explodir e nunca era recomendável se exceder com o diretor de um Instituto.

A única alegria visível, decerto, era a de Joyce, que em breve retomaria o nome Carstairs e poderia novamente contar com a segurança para os seus filhos, ainda que agora estivesse certo que cresceriam como caçadores de sombras. Esta era uma das coisas da qual teria de agradecer ao feiticeiro Lucas: ele salvara a vida de seus filhos com sua mágica e, mesmo capturado pelos Nephilins, fez questão de resgatá-los do bolsão espaço-tempo, abrindo-o no Instituto e entregando cada um dos três aos cuidados da mãe novamente. Ela também ficou feliz em saber que os mundanos controlados por sua mágica foram libertos por ele e suas memórias apagadas. A mágica do sangue de fada foi completamente extraída de todos eles pelos Irmãos do Silêncio – explicou o Irmão Jacob na enfermaria – e, com a memória apagada, as chances de terem sequelas seriam mínimas. Se algum resquício de mágica ainda tivesse permanecido neles, teriam apenas algo como sonhos demasiadamente fantásticos, sem maiores danos a sua vida corriqueira.

– Queremos também dar uma notícia a vocês. – Mayara foi logo soltando, mesmo com a reprovação da amiga, que dizia para esperar. – Não, Ryo, esperar para quê? Não já está decidido? – Ela se voltou aos amigos novamente. – Escutem, pessoal, eu e a Luana concordamos em ser parabatai. Vamos comunicar a Augusto amanhã mesmo, quando estivermos mais bem recuperadas. Ele se alegra com tradições Nephilins sendo realizadas, acho que deve acalmar um pouco o estresse dele.

– Que maravilha! Meus parabéns! – Matheus foi o primeiro a saudar as amigas pela decisão, seguido pelos demais.

– Claro que o Irmão Jacob vai presidir o ritual! Certo, irmão? – Mesmo chateado com a reunião, Pedro ainda arranjava forças para mais uma brincadeira.

Vocês, jovens, são extremamente irritantes! Eu preciso de concentração para finalizar o trabalho. – Todos se calaram ao mesmo tempo, com aquela voz ecoando em suas mentes. Então o Irmão considerou o silêncio. – Claro que presidirei. Será uma honra, assim como é presidir qualquer ritual abençoado pelo Anjo.

Todos eclodiram em uma salva de palmas para ele. – Viva o Irmão Jacob! Viva! – Ele virou a cabeça em volta da enfermaria em festa, com a lentidão de um zumbi, como se pudesse enxergar com olhos humanos, mas as marcas neles o impediam. Sua visão, há muito, era espiritual. Voltou a cabeça em direção aos braços dos rapazes e continuou o trabalho com as marcas, fingindo que nada daquilo tinha acontecido. Em alguns minutos, terminaria o serviço com os parabatai.

Antes que Pedro pudesse levantar do seu leito e se despedir dos amigos, todos ouviram o barulho dos cavalos dos elfos no ar, suas ferraduras cruzando o céu como passagem para Faëre. Math sabia que o feiticeiro estava sendo levado à pior condenação possível, se dependesse do senso de justiça da Rainha Seelie, e segurou forte a mão de Pedro, que a havia lhe estendido em solidariedade. Entretanto, mal terminou seu pensamento, Matheus se surpreendeu com o diretor adentrando a enfermaria em sua cadeira de rodas, ofegante.

– O feiticeiro... – Augusto colocou a mão no peito, tentando se recuperar. – O feiticeiro desapareceu da Cidade do Silêncio.