Notas iniciais
Manolos da Tia Corva, recomendado ler ouvindo a música And Then There Was Silence, de Blind Guardian. q

“Os portões do paraíso não se abrirão para mim.

Com essas asas quebradas, eu estou caindo.”

Japão; Século VIII a.C.

Um novo estrondo cortou o silêncio daquela madrugada, fazendo com que alguns dos humanos ainda acordados nas proximidades trancassem suas casas, à espera de uma forte tempestade. Não tratava-se, porém, de um trovão, e sim do choque entre duas lâminas celestiais, cujo impacto lançara os dois oponentes para lados opostos. Após o golpe, o vento soprou mais forte, balançando a grama alta daquele campo aberto enquanto finas nuvens cortavam a luz da lua minguante que iluminava a batalha. Aquele momento de calmaria durou apenas alguns segundos, pois logo os dois seres celestiais viraram e se encararam, prontos para mais. O maior dos adversários, semelhante a um humano adulto, abaixou os olhos negros para o outro, afastando os cabelos descolorados da face séria pouco antes de empunhar a espada, mantendo-se atento. Apesar de tantos milênios, Airzel continuava imprevisível e ele tinha que tomar cuidado.

— O que está esperando? – provocou o querubim um palmo baixo que seu inimigo. Seus olhos azuis o encaravam por entre os cabelos negros como uma criança ansiosa por brincar, embora já estivesse um tanto ferido da luta. – Achei que durasse mais, Rephaim.

— Você fala demais. – cortou o anjo grisalho, fazendo muito esforço para conter a raiva. – Devia poupar o fôlego para lutar

E dito isso, Rephaim venceu os poucos metros que o separavam de Airzel e abaixou a espada sobre seu corpo, o que o teria partido ao meio se o anjo de cabelos negros não apartasse com a própria lâmina. Faíscas saltaram quando os metais se encontraram, mas isso não deteve nenhum dos dois. Airzel forçou a espada para cima, obrigando o outro a afastar a própria, conseguindo rasgar seu peito de um ombro a outro. Apesar da dor lancinante, Rephaim fechou o punho e acertou o menor na parte mais baixa do peito, sorrindo ao sentir ossos se partindo sob o golpe. O moreno curvou-se de dor, deixando um filete de sangue escorrer por entre os lábios antes de ter os fios escuros segurados com força. De um movimento, Rephaim puxou Airzel até que seu corpo ficasse de lado, não caindo por ainda segurar-lhe os cabelos. Seus olhos novamente se cruzaram, como um mar revolto chocando-se com uma noite fria, e naqueles curtos milésimos, ambos puderam ver um passado que não voltaria mais passar nas íris opostas. Após milênios juntos como irmãos, uma simples decisão tornara os dois querubins inimigos. E nenhum dos dois desistiria da escolha que tomara.

— Veja a que ponto chegamos. Se tivesse me dado ouvidos, ainda estaríamos nos Sete Céus, em harmonia. Mas preferiu seguir aquele general tolo e desafiar Miguel. – Rephaim quebrou o silêncio, segurando com mais força os fios escuros quando Airzel tentou soltar-se.

— Não me arrependo de ser um renegado nem por um segundo. – retrucou o moreno, encarando-o com raiva.

— E agora pagará por isso. – cortou o maior, erguendo a lâmina de sua espada e a encostando no pescoço esticado abaixo de si. – Últimas palavras?

A respiração levemente descompassada de Airzel tornou-se um ofegar de receio ao sentir o metal frio contra sua pele, pronto para ceifar sua vida. Seus olhos azuis desprenderam-se das íris negras e percorreram o corpo do adversário, procurando algo a que usar em seu favor. Rephaim estava coberto de cortes assim como ele próprio, mas usava uma placa de metal cobrindo quase todo o peito, afora a parte dos ombros onde conseguira cortar. Era verdade que uma grande quantidade de sangue escorria do ferimento, mas isso não o salvaria. Então uma idéia brilhou em sua mente e o renegado fechou o punho, começando a concentrar a energia de sua aura ali. Teria que apostar tudo em uma jogada de sorte. Para esconder suas intenções, tornou a erguer os olhos para o celestial inimigo, abrindo um sorriso sarcástico para este.

- Isso vai doer mais em você do que em mim.

Sem entender onde o renegado queria chegar, Rephaim estendeu a espada para o céu e a abaixou para partir o pescoço do outro. Airzel, ao perceber que seu tempo acabara, afastou um pouco o punho contendo a energia e acertou um soco entre suas pernas. Contava que a divindade especial de todos os querubins, a Ira de Deus, não falharia em tão decisivo momento, e de fato, estava certo. Com um urro, o celeste deixou a espada cair e soltou-o, curvando-se. Airzel bateu com as costas no chão e gemeu baixo ao sentir os estilhaços de ossos movendo-se, mas sem perder tempo, procurou pela própria arma naquele campo. A grama alta dificultava sua procura, mas conseguiu avistar a espada caída. Estava a alguns metros de distância, na parte onde a vegetação quase sumia pela inclinação do solo. Sabia que naquele ponto o terreno acabava abruptamente, para dar passagem a um rio alguns metros abaixo, por isso apressou-se para recuperar a espada.

- Onde pensa que vai?


Soou a voz furiosa de Rephaim, antes que um grito ligeiramente agudo de dor ecoasse vindo de Airzel. O anjo grisalho não havia tardado a superar a dor de seu soco o bastante para pegar a arma e enterrá-la logo abaixo do ombro do renegado, deixando apenas metade da lâmina visível. O menor estremeceu quando o primeiro choque de dor passou, podendo virar o rosto para fitar a expressão de puro ódio que o sempre sério Rephaim agora exibia. Teria achado graça naquele momento se não gemesse baixo ao sentir a espada sendo tirada de sua carne e o tecido que cobria suas costas ser agarrado e apertado contra o tronco de uma árvore. Tornavam, assim, a encararem-se. Rephaim não demorou-se muito em seus olhos azuis desta vez, empurrando a espada contra seu peito. Sem pensar em outra saída, Airzel agarrou-se à madeira e chutou a lâmina, fazendo com que apontasse para cima em sua trajetória e fizesse um corte no queixo do outro. Aproveitou aquele pequeno espaço de tempo e soltou-se de sua mão, correndo até onde estava sua espada, se forçando a ignorar a dor aguda que sentia em todo o tronco. Tropeçava um pouco enquanto corria, mas alcançava a arma, parando na borda do despenhadeiro enquanto a erguia.

Fazia-o no momento exato em que Rephaim descia a lâmina em um gole diagonal, parando-o por muito pouco. Já imaginava que o celeste o seguiria como uma sombra, caíra naquele truque por muitos séculos para esquecer de suas táticas. Rephaim também percebia isso, e talvez fosse este o motivo para empurrar a lâmina para baixo, fazendo o renegado esforçar-se cada vez mais para detê-la. O que nenhum dos dois percebeu foi que o terreno já fraco começava a soltar-se, até o momento em que as rachaduras na terra aumentavam, atingindo o ponto onde Airzel estava. Ofegando, o querubim banido abaixou os olhos para o espaço vazio que se tornava o solo onde pisava, caindo rumo ao fio azulado muito abaixo. Ao vê-lo cair, Rephaim estendeu a mão livre e tentou agarrar a vestimenta do moreno, mas seus dedos se fecharam sobre o ar, limitando-o apenas a ver o corpo de Airzel sumir de sua vista quando enfim atingia a água abaixo.

Afundando rapidamente, o renegado tentou lutar contra a queda na água, mas cada movimento saía desajeitado pelos ferimentos da luta. Aos poucos, sua vista se fechava quando a falta de ar o assaltava, deixando como última visão o pequeno vulto de seu adversário, antes de enfim imergir na escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.