Crônicas

1 Yesterday I saw...


Ontem eu vi um navio parado esperando para ser tripulado. Acho que ele só queria um companheiro. Assim como o Merry Go. Um homem estava também parado olhando-o, de longe. Não muito longe. De um ângulo no qual pudesse ver toda a extensão do navio na sua vista. Com uma expressão séria e as mãos dentro dos bolsos, fitava… e ficava a observar. E o tempo estava passando. O homem tinha um bigode médio, olhos grandes, castanhos. Cabelos bagunçados, mas ajeitados, ironicamente. Não tinha óculos. E o que chamava mais atenção nele era o bigode. E o que para ele chamava mais atenção no mundo era aquele navio. Ainda não era hora para o sol se pôr, mas lá estava ele. E a noite pronta, mais uma vez. Mas ainda não era noite. O homem se cansou de ficar ali parado e deu um passo para trás, virou e saiu caminhando. Mas antes deu uma bela olhada no navio, para captar tudo nele. Só para não esquecer. O navio gemia quando uma pequena rajada de vento batia-lhe em qualquer lugar. E aquele som de madeira era ouvido pelo homem que se afastava a passos lentos de costas pro navio. E era uma ‘pequena eternidade’, apesar dessa expressão não fazer o mínimo sentido. Era como dava para interpretar o momento que estava se passando… E ele andava e o navio gemia; e ele não se distanciava e nem o som de madeira ficava menor; ele percebeu que era inútil continuar andando. Virou-se para ver o navio e percebeu algo. O navio não estava mais ali. Ele já havia se distanciado consideravelmente do mesmo. E quando parou para se concentrar, não ouvia mais o gemido, nem conseguia mais ver o sol descendo ao horizonte. Suas sobrancelhas se encurvavam mostrando sinais de confusão. Nos seus profundos sentidos, inconscientemente, aquele navio ficara guardado no seu ser. Ele entendeu, rapidamente. Com as mãos ainda dentro dos bolsos, entendeu que é dispensável importar-se com qualquer distância que separa um primeiro de um segundo. E os passos que tanto dera, de verdade mesmo, nem por um milímetro se distanciou de verdade do navio. Embora a física seja obviamente contrária à isto. Mas sempre foi assim, são as pessoas que explicam o mais complicado. Estava tão longe do navio, mas nos seus pensamentos ainda ouvia aquele som e sentia a luz do sol vindo por detrás de si. A essa altura, o homem de bigode estava parado refletindo sobre tudo isto. Olhava para o nada. Sorria com aqueles sorrisos de lado. Não pensava em nenhum momento em voltar para rever o navio. Um dia, um dia eles se veriam de novo. O navio ainda estará ali e o homem sabe onde pode encontrá-lo.

Notas finais
Written in about 2014 ~ 2015.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.