Notas iniciais
Neste capítulo Estêvão continua a sua busca por informações sobre a assombração do Carrasco no Pátio do Limoeiro. De volta á cena do crime vai encontrar alguém que lhe pode dar algumas resposta mas algo mais, cada vez há mais certezas que está perante um Espírito. Mas nem tudo o que vai ver é o que parece...

A cena do crime está mais calma mas ainda se encontra vedada pelas fitas azuis e brancas da polícia para não deixar os cidadãos trespassar as zonas de investigação policial. Os vestígios de sangue já não eram tão evidentes como na noite passada e no local do corpo decapitado encontrado está apenas a sua silhueta desenhada a giz branco no chão. Alguns polícias, não em tão grande número como na noite anterior, trabalham ainda na recolha de provas do crime. Na área delineada apenas circulavam os habitantes do Pátio do Limoeiro que atravessavam o local de cabeça baixa ainda horrorizados e tentando não trespassar as zonas tidas como importantes para a policia.

Fiquei paralisado.

Uma sensação estranha está a atacar-me! Nunca senti isto! Não é uma bruxaria ou feitiço de Demónio ou outro ser mágico. Já estou habituado saberia. O meu olhar ficou preso numa humana uma policia que estava no local da chacina a recolher informações do crime a uma suposta habitante do Largo. Era a humana mais surpreendente que já vi, é linda. Tem cabelos ruivos acastanhado claro, liso a cair pelas costas. O seu corpo em ampulheta perfeita, magro e com as medidas ideais para uma humana. Ate a mim que não sou humano, ela me cativou. Mas havia algo mais nela. Não era apenas o seu físico, havia mais por detrás daquele sorriso maravilhoso um corpo soberbamente esculpido em mármore branco, onde as roupagens agitadas pela leve brisa deixam transparecer o esbelto corpo por elas coberto. Um sorriso enigmático em harmonia com um olhar penetrante e profundo compilando um rosto desenhado a régua e esquadro de uma perfeição desconcertante. Um simples olhar de soslaio era capaz de desconcertar e deixar perdido á deriva nos seus olhos qualquer um. Podia tentar olha-la por dentro, ver o seu interior que se adivinhava de ouro e diamante, mas perdia-me rapidamente naquela beleza astronómica. Um lugar tão escuro e sombrio como o que nos encontramos após um crime de tamanha violência ganhava brilho em sua volta. Lutava dentro de mim próprio contra o impulso de olha-la mais uma vez e não ficar escravo da sua atraente beleza.

O uniforme de detetive policial caia-lhe perfeitamente. Uma camisa branca com os dois botões junto ao colarinho descasados a abrir para uns peitos redondos e apertados pela roupa e os suspensórios onde pendia uma arma de fogo junto ao seu seio esquerdo oposto ao distintivo dourado da polícia. Vestia umas calças de bombazina de um azul-escuro a condizer com a farpela dos seus colegas polícias ali presentes. As calças justas faziam-lhe firme o rabo arredondado que lembravam duas pequenas montanhas. Era de certo descendente de Anjo. Já vira alguns e embora estes não tivessem sexo eram igualmente esbeltos e atraentes quando, por ventura, decidiam descer dos Céus á Terra.

Tentava ler nos seus finos e arrosados lábios as suas palavras, mas estava distante demais para conseguir descodificar a conversa que mantinha com a moradora. A minha incrível audição estava fraca e não me permitia entender o que lhe perguntava. Percebia algumas palavras ditas pela mulher mas pela esbelta detetive não. A senhora tinha um timbre de voz elevado que podia levar o seu conversar a ser facilmente confundido com gritar. Mas mesmo assim com a grande diferença de timbre de ambas, uma certamente mais doce e outro elevado, era estranho eu não captar nenhum som emitido pela inquiridora. Tive de me aproximar.

Deixei o encosto do capou do meu carro estacionado estrategicamente numa sombra e avancei pela rua até ao Pátio para um local onde pudesse ouvir algo. O Pátio de Carrasco continuava, igualmente á noite anterior, ensanguentado. Há policias que trabalham na busca de provas do crime. Fiquei a observar atentamente tudo fazendo quase o papel de um polícia na procura de evidências que me possam ajudar na minha procura. Nisto um endivido aproxima-se de mim.

— Bom dia.

A sua voz era de choque e presumi que conhecesse a jovem morta ou fosse morador do Pátio. Pelo seu ar desleixado, umas calças de fato de treino velhas e gastas, rotas abaixo do joelho esquerdo e uma t-shirt com patrocínios de uma festa de Santa António, devia morar no local

— Também está surpreendido com este horrendo crime? É realmente desconcertante uma jovem perder tão brutalmente a vida. — Tirou do bolso um lenço de pano e limpou as lágrimas que começava a verter, tinha os olhos muito vermelhos, devia ter chorado toda a noite pela rapariga. – Não sei porquê ela. É injusto era uma boa menina que era simpática para toda a vizinhança, todos a adoravam. Foi um grande choque a sua trágica morte.

— Compreendo a sua dor. Uma morte tão violenta é sempre difícil de digerir, quanto mais quando s trata de uma jovem rapariga como ela.

— Conhecia-la?

— Não.

Não sei se era a resposta certa se queria descobrir o que se sucedera mas não lhe poderia mentir, notava-se que a conhecia.

— Fui eu que a encontrei aqui morta. Foi uma visão aterradora. Vinha a chegar a casa com a minha mãe com quem moro ali. – e apontou-me com o seu indicador uma casa com vasos a ladear a casa. – Ela ficou traumatizada. Não parava de tremer e só falava a gaguejar. Graças a Deus hoje já diz algumas coisas mesmo umas sem sentido. Já é velhota e doente não tem idade nem estofo para ver estas atrocidades.

O homem voltou a chorar e soluçar e retirou novamente o lenço da algibeira para aparar as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.

Atrás de nós surgiu uma senhora idosa que saia da casa que o sujeito me apontara anteriormente. Era minto curvada que quase ruçava os queixou no chão. Pela mão trazia uma velha mala de viagem que arrastava a custo sobre umas rodas quase quadradas.

— Onde vai mãe? Volte para dentro. Ver isto não lhe faz nada bem.

A velha fugiu ás mãos do filho que a tentava redirecionar de volta para casa.

— Não volto não senhor, não depois disto. – andou mais uns passo a custo. – Aqui não fico mais nem uma noite.

— Volte para dentro mãe e não diga isso. Para onde quer ir?

— Para onde vou não sei, mas aqui não fico. Já sou velha e acabada com uma doença que me consome a visão e audição todos os dias mas não fico á espera de ter o mesmo infeliz fim que essa pobre rapariga teve. Não esperarei que o Carrasco me traga a morte a mim também.

Ainda não tinha percebido porque tinha ali ficado parado a ouvir uma discussão familiar mas ainda bem que permaneci. A idosa começava a tocar num ponto que suscitava o meu interesse.

— Oh minha mãe, pondere bem o que diz. Não existem Espíritos que assassinam pessoas á noite. O Carrasco já morreu há quase cem anos e está bem morto e enterrado. Não foi ele o responsável por este crime. Quem fez isto está vivo e bem. Foi um doente mental ou tarado que se aproveitou da menina Maria e para ela não falar a ninguém e com medo de represálias, decapitou-a. É apenas uma infeliz coincidência.

A velha parecia nem ter ouvido nada do que o filho lhe dizia e continuou casmurra e na dela.

— Coincidências, coincidências… E os gemidos e gritos que ouço durante a noite? São coincidências. Eu é que sei o medo que tenho quando ele sai para a rua. Essa pobre menina teve a infelicidade de se cruzar com ele e foi morta, arrancada a cabeça sabe-se lá a que custo, sabe-se lá como e a que sofrimento. Eu não este fim para mim.

A idosa exaltava-se e já chorava também. Estava a tornar-se numa cena piegas e lamechas de família a roçar o deprimente.

— Mãe, esses ruídos que ouve não são mais que o assobiar do vento ou as conversas dos vizinhos ou mesmo a sua imaginação estimulada pelo medo dessa figura construída em torno do Luís Alves dos Santos.

O filho desesperado tentava remover a ideia precipitada de partir de casa á sua mãe. A velha teimosa e dominada pelo medo não arredava pé. Já me tinha desabituado a brigas familiares e de todos este problemazinhos mundanos.

A discussão foi interrompida por um policia que se aproximou de nós sem que nenhum dos dois desse por nada. Era um endivido careca e com o traje tradicional azul-escuro da policia. A cara queimada do Sol assim com a sua careca brilhante demonstrava que, provavelmente, trabalhava muito na rua. Certamente seria um dos infelizes que passam horas a fio nas ruas em busca de veículos mal estacionados ou em rusgas em espera de aceleras ou pessoas teimosas que insistem em conduzir sobre o efeito do álcool.

O polícia guardou o bloco de anotações no bolso e pôs o boné fazendo com que a pala deste lhe tapasse parte do rosto.

— A inspectora Pinho deseja falar com o senhor. – prenunciou-se o agente fazendo um movimento breve com a mão em direção á inspectora ruiva em que reparei quando cheguei.

O homem olhou a mãe como quem diz para que o esperasse e afastou-se acompanhado do polícia que o leva até á presença da inspectora.

O momento em que o polícia surgiu e levou consigo o filho desesperado não poderia ser mais oportuno. A sua velha mãe ali tinha ficado á sua espera e estava chorosa e com as defesas em baixo. Era o momento preciso para a inquirir sobre a história que envolvia o Último Carrasco.

Os mais velhos são sempre mais sábios nas questões dos Espíritos e mafarricos. São gente mais antiga que presenciava tudo e não tinha sempre um grupo de cientistas em constante busca por explicações lógicas para tudo o que acontecia no mundo.

Estava quase a abordar a idosa mas nem foi necessário.

— O que faz por aqui pobre alma? Este sitio não é o mais agradável para se passear, muito menos num dia como este. Que quer daqui jovem?

— Sou apenas um visitante curioso que já tinha ouvido falar deste Pátio do Limoeiro e toda a história que o envolve num misticismo sobrenatural e vi no jornal esta manhã uma notícia onde essas histórias se cruzavam com este assassinato e o Carrasco que aqui viveu em tempos… e não pode deixar de a ouvir falar com o seu simpático filho sobre a assombração deste lugar ligada precisamente ao tema do Negro, o Último Carrasco de Portugal. Por acaso não me sabe contar essa velha lenda?

— É tudo menos lenda. Oh meu rico moço, venha daí que vou lhe contar a história posterior á assombração do velho Luís Alves dos Santos.

A senhora fez me sinal para que a seguisse até sua casa. Como já era muito manca e a mala de rodas que arrastava atrás de si a atrasava ainda mais, eu, com gentileza peguei-lha para a ajudar.

Notas finais
Espero que tenham gostado do terceiro capitulo do "Último Carrasco" no próximo ficaram a saber a verdadeira história por detrás da assombração de Luís Alves dos Santos, ou pelo menos parte dela... deixem comentário para que este conto não morra. Obrigado