Cry Wolf

2 Capítulo 01 - Isolados


Estava anoitecendo e a tempestade não passava. As nove pessoas estavam na sala da mansão. Havia dois sofás grandes de cor branca e um lustre no centro do cômodo, cheio de cristais pendurados. No fundo da sala havia a escada de mármore branco. Oito deles estavam sentados, com exceção de Klaus, que estava em pé, observando o exterior da mansão pela janela.

– Eu acho que essa tempestade vai demorar pra passar – Disse ele.

– Aqui não tem sinal – Avisou Fiona, que tentava falar com sua mãe.

– Alguém aqui já conhecia esse homem? – Perguntou Harry, preocupado.

Todos se entreolharam, cada um esperava que outro dissesse que sim, mas ninguém conhecia Robert Greyheart.

– Ele me contatou por e-mail – Disse Edward, com sua mochila sobre as pernas.

– Eu também nunca o vi pessoalmente – Falou Rachel – Ele me ligou, disse que precisava de uma enfermeira particular.

– Então esse contratou um arquiteto, uma enfermeira, uma babá e marcou uma reunião de negócios ao mesmo tempo? – Perguntou Harry – Isso não me cheira bem.

– Eu espero que ele chegue logo – Comentou Agatha – Mas ele deveria ter alguém aqui para nos informar sobre algo – Disse ela, estranhando a ausência de empregados.

– Se nós não conseguiremos voltar à cidade nessa tempestade, ele também não vai conseguir voltar à ilha – Falou Max – Estamos presos aqui até essa chuva passar.

– Ele falou que havia quartos preparados para nós aqui nesta casa, certo? – Perguntou Miranda – Mas por que motivos ele faria isso, sabendo que nós iríamos voltar?

– Alguém que foi contatado por ele por telefone ainda tem o número gravado no celular? – Perguntou Charlotte.

– Não tem sinal aqui – Respondeu Edward, olhando para Fiona – Como a garota já falou.

– Ah, é mesmo.

– Eu não vou passar a noite nesse lugar – Falou Agatha.

– Talvez sejamos obrigados – Lamentou Harry.

– Eu nem conheço esse homem, sabe-se lá que tipo de pessoa ele pode ser.

Klaus saiu da janela e foi até um móvel perto da estante, onde estavam alguns copos e uma garrafa de cristal com um líquido marrom dentro. Ele cheirou o conteúdo, confirmou que era uísque e despejou em um dos copos.

– O que você está fazendo? – Perguntou Charlotte.

– Eu preciso disso – Respondeu ele, dando um gole na bebida.

Em seguida, Klaus sentou-se no sofá, ao lado de Rachel.

– Talvez eu o conheça – Disse ele.

– Como assim? – Perguntou Fiona.

– Eu vim até aqui visitá-lo.

– Então você é amigo dele?

– Na verdade, eu não me lembro dele... Ele me convidou para jantar e conhecer alguns membros da família. Eu fui o cirurgião que o operou há alguns anos. Não tinha planos então aceitei o convite, mesmo sem me lembrar de quem ele era.

– Então você não o conhece – Concluiu Harry.

– Eu não sei, não consigo me lembrar de nenhum Robert Greyheart.

Agatha olhou para Miranda e perguntou:

– Você o conhece?

– Não – Respondeu Miranda – Ele me contatou por telefone. Sou dona de uma empresa de laticínios, ele era um milionário querendo fazer um investimento, eu não podia dizer não, os negócios não vão muito bem.

Edward abriu sua mochila e de dentro tirou um laptop. Ele já estava pré-carregado então a tela simplesmente ligou na área de trabalho.

– O que está fazendo? – Perguntou Klaus.

– Talvez ele tenha uma rede wifi por aqui, eu vou tentar conectar e pesquisar sobre esse cara.

Enquanto ele pesquisava uma rede, os outros permaneceram em silêncio, preocupados com a tempestade e com o tempo que ficariam ali.

– Ele precisa nos contatar de algum modo e avisar o que aconteceu, não vamos passar a noite aqui – Disse Harry.

– Como ele fará isso? Aqui não tem sinal... Provavelmente a chuva derrubou as conexões – Falou Charlotte.

– Ou aqui nunca teve sinal mesmo, é uma ilha remota – Disse Fiona.

– E como ele nos ligou antes? – Perguntou Harry – Deve ter uma antena por aqui e só está fora do ar, vamos esperar.

– Só espero que a chuva não acabe também com a energia – Disse Miranda.

– Deus me livre – Completou Max.

– Onde será que fica o banheiro? – Perguntou Agatha – Eu preciso usá-lo.

– Provavelmente lá em cima – Respondeu Harry.

– Eu tenho medo de ir, e se tiver alguém que mora aqui?

– Ele disse que a casa estava vazia, então...

Ela se levantou e foi procurar.

Klaus levantou-se do sofá e foi até a janela novamente. Espiou o tempo lá fora. Parecia que o céu ia desabar. Os trovões e relâmpagos já haviam começado e estavam aumentando de intensidade a cada vez. Aquilo era uma tempestade para a noite inteira.

***

Já passava das nove e meia da noite. Eles estavam ali há muito tempo, sem nenhuma reposta e nenhum sinal do anfitrião. Para piorar, a tempestade parecia ficar mais forte.

Fiona estava sentada com a mão direita apoiada no queixo. Harry andava de um lado para o outro atrás do sofá. Os outros permaneciam sentado, com exceção de Charlotte, que não estava lá.

Segundos depois, ela apareceu, descendo as escadas.

– Vocês não vão acreditar – Disse ela.

– O que houve? – Perguntou Klaus.

– Eu passei por um corredor cheio de portas e cada uma delas tem um papel com os nossos nomes.

– Ele realmente preparou quartos para nós? – Perguntou Fiona, estranhando.

Os que estavam sentados se levantaram e os nove subiram as escadas, entrando à esquerda. Eles passaram por um corredor com paredes brancas que pareciam ter um tom amarelado por conta da luz que vinha das luxuosas luminárias cristalizadas. Em seguida entraram em um corredor à direita, do qual Charlotte estava falando.

Havia várias portas, apenas uma não continha uma placa.

Eles abriram o primeiro quarto, o qual continha um papel colado com o nome “Charlotte Winston” escrito à caneta preta. Fiona, Max, Agatha e Miranda entraram com ela. Os outros foram olhar os outros quartos.

O cômodo era enorme. As paredes tinham um tom escuro de madeira e havia um lustre no centro, não tão luxuoso quanto o da sala, mas ainda assim belíssimo. A cama era grande e estava devidamente arrumada, com lençóis limpos e dois travesseiros em cima dela. Além disso havia um guarda-roupa de madeira e uma cômoda com um espelho, sobre a qual estavam dispostos artigos de banho e toalhas.

– Nada mal – Disse Fiona, deslumbrada.

No fim do quarto à direita tinha uma porta. Charlotte caminhou até ela a abriu. Era um banheiro. Os azulejos brancos e a bancada de mármore. Não era apertado, muito pelo contrário, era até grande demais para um banheiro.

Ela voltou ao quarto.

Fiona saiu do quarto de Charlotte e caminhou pelo corredor, até a porta que tinha seu nome. Abriu e percebeu que o quarto era exatamente igual ao outro, com as mesmas coisas em cima da cama. Ela olhou para trás, para o quarto de Agatha, que ficava em frente ao seu. Também era igual.

Quando saiu, esbarrou em Rachel, que estava com o celular na mão.

– Desculpe – Disse Fiona.

– Ainda sem sinal – Falou ela.

– Eu acho que teremos que passar a noite aqui – Lamentou Max.

– Não será esquisito acordar na casa de um desconhecido e depois olhar na cara dele e dar um oi pela primeira vez? – Perguntou Agatha.

– Não temos outra escolha.

Ela sabia que não havia outra escolha. A tempestade parecia ficar mais forte e não dava sinais de que ia parar. Estavam isolados naquela ilha.