Ela o via como um “Anjo Cruel” sempre andando com sua matilha noturna. Sempre a espreita pela janela do quarto ela o via passar toda noite.

Ele, sempre sereno, parecia flutuar com seu sobretudo preto e sempre seguido por pessoas vestidas de carmesim vagava como um andarilho, sem rumo, e ao mesmo tempo, seu olhar parecia sempre determinado...

Talvez fossem os olhos daquela bela menina que tanto o encantava, e que certa vez descobrira sem querer antes que a mesma se desse conta que ele lhe devolvia o olhar, que esta noite estava nervoso ao passar pela rua de trás. Ali ficavam os prédios mais altos da cidade, construídos estrategicamente para esconder o cemitério logo atrás embora os moradores reclamassem da vizinhança.

Os olhos da dela o vigiavam atentamente, como se estudasse com atenção os fios do cabelo dele, e o seguiam até entrar no cemitério. Ali sua espreita terminava, pois nem mesmo ela, que se dizia destemida, ousava entrar a essas horas da noite em um cemitério tão escondido e em pleno breu.

Ao amanhecer ele já não se encontrava mais lá.

Várias vezes ela já havia ido o procurar na manhã seguinte no cemitério, com intenção de lhe dizer seus sentimentos, usando a desculpa de visitar a avó ali enterrada. Porém tudo que encontrava eram garrafas de vinho vazias e por vezes alguma cruz quebrada.

Julgava-o satãnista por seus atos e os de sua matilha, mais que mal poderia aquele olhar tão carente lhe fazer? Mesmo com os avisos de seus pais sobre os “Delinqüentes” que por ali rondavam.

Não entraria em discussões desnecessárias com seus pais. Eles não precisavam saber. E estava armado o plano. Fingiria dormir na casa de uma amiga que morava no andar de cima, Sophie. Sendo no mesmo prédio sua mãe nem ao menos telefonaria...

Nesta noite iria, junto com a amiga, cuja mãe estaria viajando, para o escuro cemitério e encontraria seu doce demônio.

Encontraram-se na casa da amiga, onde o breu já dominava o cenário, e ali combinaram os detalhes. Não contara a amiga sobre seu anjo, apenas que queria ver o que estes delinqüentes faziam. Disse que manteriam distância e a amiga topou por compartilhar da mesma curiosidade.

Desceram pelas escadas para não serem pegas pelas câmeras do elevador, que podiam ser vistas pelas Tvs nos apartamentos, e ao chegar ao térreo escaparam pela garagem. Fugir de um prédio é bem mais fácil que entrar novamente, mas nem sequer pensaram nisso. Bateram a porta e correram para alcançar as grandes portas do cemitério antes dele e sua matilha.

A esse ponto sua obsessão por aquele ser era tanta que ao menos notou o rasgar de suas roupas ao pular o muro, muito menos de perceber que a amiga havia ficado um pouco para trás. Seguiu por entre as lápides buscando sinais de claridade até que os encontrou numa campana mais a frente.

Ambas as meninas se esgueiravam para ver pela pequena janela atrás da enorme campana. Em forma de uma igreja bonita com uma imponente torre, deveria esta ser a campana de uma antiga e tradicional família.

Lá dentro, ele e seus lobinhos carmesins bebiam e muitos papéis eram jogados ao anjo para que o mesmo recitasse os versos ali escritos por seus lobos a próprio sangue... Muitos falavam sobre amores impossíveis e tinham sempre um tom de vingança ou discórdia quando interpretados pelo anjo noturno. Alguns falavam sobre mortes cruéis e especificavam com detalhes os instrumentos usados e seus métodos de uso.

A esse ponto sua amiga se derrete num suspiro longo, mostrando a ela as verdadeiras intenções da amiga. A amiga também via o anjo, e ali estava seu próprio amor.

Ambas o escolheram como personificação máxima do amor e se enganaram para ali estar neste momento. Ela não poderia perdoar a traição da amiga, não por não lhe contar, mais estar apaixonada por seu anjo?! Que tipo de brincadeira de mau gosto poderia ser?!

- Ele não é lindo?! – Disse a amiga olhando para ela que havia se levantado e se afastado um pouco.

— Sim, mais é meu! – Disse ela agora segurando uma cruz de mármore da lápide que haviam passado.

Sua amiga deu uma risada como se não entendesse o que estava acontecendo e por um minuto tudo se silenciou.

Agora todos dentro da campana atentaram para presença das duas. Ao saírem o anjo logo as reconheceu. Seus lobos as cercaram.

- Anjo meu, Qual teu nome? Estive sempre a te observar... – Disse ela ainda manchada com o sangue da amiga e segurando um enorme pedaço de mármore.

— Como ousas? Mataste minha amada! COMO OUSAS? – Disse o Anjo Cruel que agora se ajoelhava para o corpo da amiga ensangüentado. – Garota Idiota. – Disse aos prantos e forçando a se recompor se dirigiu a seus lobos – Lobos meus... Sabem o que fazer... Deixem-na viva... Não precisa estar inteira...

Levantando o corpo da linda amiga dela nos braços se dirigiu para a campana e deixou-a com seus lobos que estranhamente não se moviam.

Ela ainda o olhava com admiração nos olhos sem saber o que havia acontecido ou o que lhe esperava. Estava em choque.

Os lobos se entreolharam e começaram a fechar o cerco e ela nem mesmo se mexia. Assim que o Anjo fechou as portas da campana ouviu gritos da menina que havia matado sua paixão, mais ele não queria saber, precisava cuidar de seu amor, talvez ainda houvesse chance. Verificou respiração e pulso sem resultados... Ainda com muito sangue escorrendo de suas costas e já sem respirar a amiga abre os olhos já dilatados e balbucia: “Qual teu nome, anjo meu?”

— Ramiel, Ramiel é meu nome princesa minha... – Gritou ele esperando que, assim a acordasse.

Ela balbuciou em agradecimento e voltou a seu sono. Lá fora os lobos já haviam terminado o trabalho e agora esperavam por seu mestre junto a porta da campana.

Ramiel abriu ferozmente a porta da campana e se dirigiu a ela, com suas roupas rasgadas, e quase tão ensangüentada quanto sua amiga.

— Qual era o nome de tua amiga? Diz e te deixo viva. – Disse ele rispidamente.

Ela tentava dizer, mais o som não saía de seus pulmões. Ele repetia gritando cada vez mais alto e para ela sua voz parecia diminuir e se distanciar. Numa brisa gélida que lhe perfurou o pulmão lhe deu fôlego e em seu último ato decidiu dizer-lhe o seu próprio nome como sendo de sua amiga e com uma voz que saíra aos sopros disse-lhe:

— Lilin...

Seu anjo lhe deixou para trás e reuniu seus lobos. Juntos enterraram a amiga e seguiram madrugada a fora para um lugar distante.

Enquanto a lucidez ainda lhe permanecia, embora já deturpada pela dor, as imagens que lhe vieram eram de sua família e de sua amiga. E cada vez que pensava em seu anjo mais uma fagulha de vida se apagava. Foi de tentar, cada vez mais, relembrar as feições de seu amado, que morreu.

A campana, hoje, não existe mais, ela foi encontrada pela polícia e devidamente enterrada. Já sua amiga, bem, ao que tudo indica sumiu.

A cruz de mármore, arma do crime, fora engolida pela terra ou simplesmente exigida por sua vítima, agora, escondida embaixo da onde um dia fora a campana, fazia brotar ali uma rosa negra, marca eterna do que ali aconteceu.

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