Crush Culture
3 "Eu sei o que você está fazendo"
"Você gosta de mim, bem, obviamente
Então por que você está tentando sair quando sabe que eu sou o rei?
Porque eu sou supremo
Outros amores não te dão sorte
Porque eu sou o único que fez você se apaixonar"
05 de fevereiro de 2021.
Chegara a tão esperada tarde de sexta-feira, onde Kagami havia "prometido" a Luka que veria o ensaio da banda dele.
Sua mãe estranhamente havia permitido tal saída, ela não era fã de deixar Kagami ir para fins tão "inúteis" quanto esse, o que fez a garota ficar preocupada com sua progenitora. Todavia, preferiu não questioná-la a respeito da decisão, ou ela mudaria de ideia.
O rapaz seguiu dando suas sutis investidas durante os intervalos das aulas, e a moça seguia com as suas descaradas recuadas. O jeito que o rapaz tentava "demonstrar que o amor existe" era muito mais puxado para um "fazê-la se apaixonar por mim", e Kagami percebia isso até de olhos fechados.
Na tarde do "encontro", Luka havia combinado com Kagami de buscá-la em sua casa. Mesmo contrariada com tal ideia, a garota aceitou.
Chegando no local, o rapaz tocou a campainha e esperou por sua resposta. Esperou, esperou e esperou. Sem resposta, decidiu tocar outra vez.
Quando ia apertar aquele pequeno botão, seus olhos se encontraram com a garota correndo até o portão de sua casa.
Kagami estava muito bela. Usava um vestido preto de alças finas com uma camiseta branca por baixo, uma meia-calça branca e um coturno preto delicado. Para quebrar o clima preto e branco, a garota trazia consigo um sobretudo vermelho nos braços e uma pequena bolsa tiracolo anil.
Seu rosto possivelmente não estava maquiado — e se estava, era o mais natural o possível — exceto pela cor de seus lábios que estavam mais avermelhados que o de costume, não chegava a estar pintados por batom, mas por algum outro tipo de produto que pigmentasse, talvez um gloss, ele não saberia dizer ao certo.
Ele estava boquiaberto com tal beleza que ela exalava e parecia nem fazer esforços para isso.
Luka a viu abrir o portão e logo fechá-lo após sair para a rua.
— Desculpe a demora — disse enquanto recuperava o ar da pequena corrida que havia feito.
— Você está linda — comentou Luka sem pensar duas vezes, ainda impressionado com a beleza da moça, que ficara muito maior de perto.
— Isso não é um encontro. Não precisa me elogiar — respondeu, olhando Luka com uma cara feia.
— Não estou te elogiando por isso. — O rapaz cruzou os braços e revirou os olhos de maneira divertida. — Eu apenas gosto de dizer quando vejo uma joia preciosa... — Ele se aproximou da garota inclinando o tronco. Kagami afastou-lhe suavemente com a mão esquerda sem perder a feição de aborrecida. Todavia, Luka percebia que ela estava levemente corada com o que havia dito e permitiu-se abrir um meio sorriso.
— Nossa, que postura de Host... — Kagami disse, revirando os olhos. — Já lhe disse: eu sou à prova de amor.
— Sei... — Luka deu de ombros e soltou um pequeno riso. — Ainda temos quase uma semana para o Dia de São Valentim, ainda vou te provar o contrário.
— Cale a boca e vamos andando. — Ela deu um leve empurrão no braço do garoto, para sinalizar que deveriam ir andando. — Não seja um músico irresponsável atrasando sua banda.
— Ok, ok! Você é compulsiva com horários, não? — Ele indicou com a cabeça a direção em que deveriam ir e começou a caminhar com Kagami ao seu lado.
— Compulsiva não, responsável — retrucou. — No Japão levamos horários muito a sério, e em minha casa segue sendo um costume.
— Mas se atrasar é tão elegante — brincou Luka, soltando um leve riso, vendo a garota soltar um suspiro enquanto balançava a cabeça negativamente.
— Seu conceito de elegante é esquisito.
Luka riu deliciosamente daquele comentário. Enquanto Kagami o fuzilava com os olhos enquanto ele tentava defender seu ponto de vista.
Logo, eles chegaram a uma pequena casa em estilo americano, com o portão da garagem aberta, onde se encontravam jovens muito diferentes um do outro, era mais ou menos um grupo de quatro adolescentes — agora seriam seis, com Luka e Kagami.
Kagami observou bem e reconheceu Ivan de sua sala, era um rapaz alto e forte, com uma aparência de valentão. E também pode reconhecer a namorada dele, Mylène, que não era de sua sala, mas sempre os via juntos nos intervalos, que tinha metade da altura do rapaz e um estilo criativo e fofo. Além deles, havia uma menina baixinha, com cabelos loiros curtos, e era tão miúda que parecia ser frágil, vestia roupas fofas e bem cor-de-rosas, parecendo uma pequena boneca de porcelana; e perto dela tinha uma moça alta com cabelos negros com as pontas coloridas por um roxo vibrante, sua franja cobria um de seus olhos, e suas roupas eram boa parte pretas. A Tsurugi as conhecia de vista, mas não sabia dizer os seus nomes, visto que elas eram da outra sala.
— Galera, desculpe o atraso, mas fui buscar mais uma pessoa para nossa pequena plateia. — Luka colocou seu braço em volta do pescoço de Kagami e sorriu abertamente para a moça e depois para seus amigos. — Pessoal, Kagami. Kagami, pessoal! — Ele apontou para eles e depois para ela, e fez o mesmo, só que ao contrário, deixando compreensível o que queria dizer, apesar de confuso. — Ivan, Mylène, Rose, e Juleka, minha irmã. — Apontou para cada um respectivamente e sorriu.
A intitulada Juleka foi até Luka, puxando-o um pouco, fazendo que ele soltasse Kagami. Ela sussurrou algo no ouvido dele, o que o deixou chocado.
— O quê? — Ele esperou a irmã responder, fazendo que ele franzisse mais ainda o cenho. — Por quê? — Após outro sussurro, ele virou o rosto para a irmã, que dizia-lhe as coisas em seu ouvido, expressando surpresa pela entonação e pela expressão. — Eu?
A garota apenas balançou a cabeça positivamente, fazendo com que o irmão suspirasse pesadamente.
— Ok, ok. — Luka foi até a sua guitarra, colocando-a com a alça sobre seus ombros e se direcionou até o microfone. — Senhoritas da plateia, lamentamos informar que nossa vocalista está com a garganta inflamada e não poderá cantar. Mas ela estará atuando no teclado hoje e eu estarei agraciando os ouvidos de vocês com a minha bela voz. Se acomodam e aproveitam o ensaio da Kitty Section.
Kagami sentou-se em um dos puffs quadrados ao lado de Mylène e esperou os outros músicos se posicionarem.
Luka indicou para Ivan que poderia fazer a contagem e deu uma piscadinha para Kagami enquanto o outro rapaz batia as baquetas. A moça apenas revirou os olhos com tal atitude, e o rapaz riu da reação.
Luka dedilhava a guitarra enquanto os outros membros da banda acompanhavam a melodia. O rapaz logo começara a cantar em inglês e Kagami achou impressionante como o rapaz cantava bem naquele idioma. Era claramente um cover de Checkmate, do Conan Gray, em uma versão mais puxada para o rock. A voz de Luka era um tenor agradável, não era tão aguda, mas também não chegava a ser grave ao ponto de ser considerado um barítono.
Mylène passou uma lista para Kagami e lhe explicou que hoje seria um dia dedicado a ensaiar alguns covers, já que as composições autorais eram específicas para Rose. Também contou-lhe que a banda migrava em vários estilos diferentes, igual como seus próprios integrantes que eram dos mais diversos estilos, até brincou na seguinte explicação: Ivan era o Heavy Metal, Juleka era o Rock clássico, Luka era um mistura de Pop e Rock, e Rose poderia ser considerada como a Balada Pop; por isso eles faziam questão de diversificarem as músicas que tocavam.
Depois de Checkmate, Luka cantou The King, do mesmo cantor, e fazia questão de olhar para a Kagami enquanto cantava, o que a deixou desconfortável — não pelo intenso contato visual, mas pela letra daquela música, a qual ela conhecia —, fazendo-a ficar corada sem perceber.
"E você não pode explicar porque estou sempre correndo em sua mente
Você não vê que a resposta está bem na frente de seus olhos?
Você gosta de mim, oh, obviamente
Então, por que você está tentando ir embora quando sabe que eu sou o rei?"
Mylène riu percebendo que Kagami estava vermelha e com a cara fechada para Luka, enquanto via o garoto se divertir em provocá-la. Parecia uma cena de filme clichê americano.
[...]
Quando terminaram o ensaio, Luka ficou impressionado que Kagami não foi embora pelo tanto de vezes que ele flertou com ela durante o ensaio, seja pela troca de olhares, expressões ou pelas músicas que interpretava. Eles guardaram os instrumentos e arrumaram a garagem.
O rapaz caminhou até a moça, que se levantou quando ele se aproximou.
— Tem horário para voltar para casa? — perguntou, esperando uma resposta que não o decepcionasse.
— Tenho, mas ainda está cedo — respondeu.
— Certo, então já sei para onde iremos. — Luka segurou o pulso de Kagami, e começou a puxá-la para fora da garagem. Despediu-se dos companheiros rapidamente, enquanto caminhava.
— Para onde estamos indo? — indagou a menina, curiosa e confusa, enquanto corria ao lado do rapaz.
— Você verá, baby. — Luka olhou para ela e piscou rapidamente.
— Não me chame de baby — retrucou franzindo a testa.
— Ok, honey — disse, enquanto a garota revirou os olhos. Seria inútil contestar, ele arranjaria qualquer apelido para provocá-la.
Finalmente, os jovens chegaram perto de uma ponte no rio Sena, e Luka correu com ela até um carrinho de sorvete.
— Chegamos — disse entre arfadas, com um sorriso vitorioso.
— Você me trouxe aqui para tomar sorvete? Correndo? — perguntou indignada, enquanto ofegava pelo cansaço da corrida.
— Não é só sorvete! É o sorvete do André! — exclamou enquanto apontava para o sorveteiro, que acenou docilmente. A garota seguiu com a cara de tédio, sem saber o porquê da euforia. — O sorvete dos apaixonados!
— Os casais que tomam do meu sorvete ficam juntos para sempre! — intrometeu-se André, enquanto preparava uma combinação para os jovens.
— Não somos um casal! — Olhou para o sorveteiro, mostrando-se brava. — Fora que isso é só uma superstição tola!
— É o que veremos... — Luka segurou o rosto de Kagami pelo queixo e deu um sorriso galanteador, fazendo a Tsurugi ter um arrepio com uma mistura de vergonha e excitação pelo calor de suas mãos. — Pode mandar, André! Vamos provar para esse docinho amargo que ela está enganada.
— É assim que eu gosto, meu rapaz! — O sorveteiro riu e entregou para eles uma combinação de menta azul e laranja. Parecia uma combinação peculiar, e era, mas ficara extremamente atrativa. Cítrica e refrescante.
Luka sentou-se com Kagami nas margens do rio e deu-lhe uma colher de plástico.
— Bom apetite, honey — disse e pegou um pouco de sorvete, levando a boca.
— Você não vai se cansar nunca? — Suspirou, imitando a ação do rapaz, saboreando o sabor de menta azul. — Incrível...
— Você nunca tinha experimentado esse sabor? — O rapaz riu da reação da moça, enquanto a observava levar mais uma colher daquele sorvete até a boca.
— Nunca... Eu sempre preferi sabores mais tradicionais, como chocolate ou creme — respondeu. — Fora que não tenho costume de tomar sorvete, só em ocasiões especiais.
— Nossa, você não sabe o que está perdendo! — exclamou. — O que achou da banda?
— Vocês são bons... — disse indiferente, mas corou sutilmente ao se lembrar de The King.
— "Bons" para a banda que tem os filhos do Jagged Stone soa ofensivo — disse de maneira divertida, enquanto observava a garota analisar algo.
— Jagged Stone... Esse nome me é familiar...
— Meu pai foi um grande rockeiro — comentou, e Kagami lembrou-se de quem era.
— Ah, é... Mas, foi? — perguntou curiosa.
— Meu pai decidiu se aposentar recentemente para passar mais tempo comigo e com minha irmã. — O rapaz deu de ombros.
— Deve ter sido interessante ter tido um astro do rock como pai, as pessoas deviam comentar muito — disse, olhando o rapaz que ficou com um olhar e um sorriso tristes.
— Na verdade, faz pouco tempo que a gente descobriu que ele era nosso pai — comentou, suspirando fundo. — Vivemos quase a vida inteira com a nossa mãe. O Jagged nos deixou quando eu tinha um ano e meio, e a Juleka tinha por volta de três meses. Ele sempre foi meio imaturo, tinha medo de que dois filhos fossem muito peso para um astro do rock em ascensão e preferiu nos deixar do que abandonar a carreira.
— Nossa, sinto muito — lamentou Kagami, sentindo culpa por ter feito aquele comentário.
— Não precisa sentir... Meu pai foi um babaca, mas todo mundo merece uma segunda chance, não? — Sorriu para a garota, o que a fez dar um pequeno sorriso fraco, pois estava triste pelo passado, mas feliz por ele não ter rancores disso. Se fosse com ela, possivelmente sentiria um rancor extremo até o resto de sua vida.
— Mas, e a sua mãe? Você não mora mais com ela? — indagou curiosa e receosa.
— Meio que temos uma guarda compartilhada. Uma semana eu fico com a minha mãe e minha irmã com meu pai. Nos finais de semana é um esquema de: os dois ficarem com um só, então eles se revezam. De vez em quando, todos nós nos reunimos para passar um dia juntos, assim meu pai tenta fazer as pazes com a minha mãe.
— Fico feliz que seu pai esteja tentando arrumar a merda que ele fez... — Riu fraco, mas corou ao perceber o que havia dito. — Me desculpe por dizer isso do seu pai, dessa forma.
— Sem problemas. — Luka riu daquela afirmação, seguida do pedido de desculpas. — Não é segredo nenhum que ele fez merda.
Kagami ficou observando Luka rindo. A risada dele era uma melodia diferente e prazerosa.
Luka parou e ficou em silêncio, observando a garota que parecia hipnotizada. Ele sorriu com tal feição, que era composta por olhos perdidos sobre ele e um sorriso bobo, como quem se deleitava com algo.
— O que foi? — perguntou o rapaz. — Se apaixonou? — E com essas palavras, ele a despertou daquele profundo transe que o fez rir de sua reação.
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