Crush
1 Unstoppable
Alexis Hausler é a garota mais incrível que eu tive o prazer de conhecer. Eu gostava de observá-la em seus momentos de distração, quando qualquer ponto de uma parede gasta conseguia parecer mais interessante do que o dito centro das atenções. Mas não era fácil distinguir seus momentos de distração de seus lapsos temporários de pensamento envolvente. Eu aprendi a identificá-los olhando além de seus olhos. Quando distraída, Alexis faria algum movimento repetitivo com os dedos ou pernas, ou ficaria inquieta. Quando pensativa, ela pareceria dormir de olhos abertos, imóvel como um cadáver, a cabeça em qualquer lugar menos no que estivesse.
Estes não demoravam, no entanto, a se esvaírem. A garota, imperativa, piscaria e voltaria a olhar o seu foco original pouco depois, quase constrangida pela breve absorção. Ou, então, lhe gritariam o nome – Alexis! –, sem notar sua distração, e ela imediatamente prosseguiria com novos pensamentos. Nesses casos, refletiria sobre seu nome. Alexis. Por que Alexis? Por que mamãe escolheu esse nome? Parece rude, quase masculino. E eu não duvido da minha própria sexualidade. Poderiam todos me deixar contente criando um apelido, ou diminuindo a minha sina.
Mas como seria? Lex? Não. Muito comum.
Lexi? Isso é meu nome ou a marca de alguma coisa?
Alex? Ah. Piorou.
Que tal...
Ali?
Hum.
Interessante.
Não que alguma outra pessoa soubesse disso. Para todos, ela ainda era Alexis – a distraída, esperta, bonita e fria Alexis –, mas, para ela, quando estavam só ela e ela, era Ali. Era-me prazeroso observar esses momentos, vê-la contente com a nomenclatura particular, sorrindo para o nada e admirando a si mesma da forma que eu a admirava o tempo todo.
O tempo que passei a segui-la foi incrível, brilhante e sensível; a cada dia um novo sentimento brotava em relação a suas atitudes, reflexões e descobertas. Eu a xingava quando sentia vergonha, a fazia levantar a cabeça e pisar nos olhos de quem lhe dissesse qualquer repreensão (mesmo que apenas em seus desejos). Eu lhe dava tapas nas bochechas pálidas quando começava a questionar os ideais que construíra para si mesma por tanto tempo e com tanto zelo. Eu desejava poder puxar-lhe os fios claros que surgiam de sua cabeça quando seu coração parecia dominar a mente.
E ela?
Ela aprendia tudo habilmente. E não se esquecia.
Algumas coisas eu deixei-a aprender sozinha, no entanto. Deixei que aprendesse a ter disciplina em relação aos estudos, que conseguisse não falhar em suas ações e que lançasse para fora toda a confiança que desenvolveu enquanto Ali para que o mundo visse Alexis como ela realmente se via. Deixei que identificasse as pessoas confiáveis – ainda que isso possa tê-la machucado; não é de meu interesse, porque ela não me era interessante quando tal fato ocorreu –, pessoas iguais a elas (detestáveis, em minha opinião), pessoas que poderiam odiá-la e que poderiam amá-la.
Ali não gostava da ideia de ser odiada, mas gostava ainda menos da segunda opção. Felizmente ela ouvira bem quando orientei-lhe sobre aquele maldito verbo. Amar. Talvez fosse esta a sua maior fonte de pensamentos distrativos.
Por que é preciso amar? Eu não quero me casar, não quero gerar uma criança. Não quero dedicar minha vida a alguém por um sentimento passageiro que pode se tornar uma grande barreira. Ser amada deve ser bom, no entanto. Mas não desejo corresponder a sentimento algum. Quero ser amada sem dar nada em troca. Bom, talvez possa dar-lhes um pouco de luxúria. E insanidade. Só.
Eu desejava aplaudi-la quando tinha tais pensamentos. E, com o passar do tempo, tal orgulho apenas aumentou. Alexis cresceu, Ali se desenvolveu. Tornou-se uma bela moça, os longos cabelos castanhos e lisos batendo suavemente na curva da cintura, o rosto imponente e impassível, a personalidade maliciosa e as expressões sugestivas que seu corpo e face desenvolviam eventualmente para que se parecessem ainda mais tentadores. Ela sabia que funcionava, sabia que suas estratégias eram melhores que as de quaisquer outras garotas e que ela conseguia ser melhor nos mais diversos sentidos. As únicas coisas que amava eram sua própria mente, suas próprias armas, sua própria aparência. Amava Ali porque era Ali, e não Alexis. Por que quereria um motivo maior que esse?
Apesar de tal aversão externa, Ali gostava de divertir-se. Gostava de rapazes. Gostava de ter amizades. Gostava de canto, de dança, de exprimir sua hiperatividade. Mas, ah, os rapazes. Os intimidadores moços maus que em suas mãos viravam brinquedos de criança, maleáveis e belos e perfeitos. Não mais que ela, mas no nível que ela julgava adequado. Ali adorava explorar sensações, e não economizava em flertes e mensagens escondidas em falácias inocentes. Alexis sequer poderia ser chamada assim. Era bom poder brincar com corações, sentimentos e paixões, desde que não fossem dela.
Ali, bela, confiante e apaixonante, não mudou. Por anos seu comportamento permaneceu invejável, detestável e admirado, e ela sabia disso tanto quanto não se importava com comentários maldosos e toques indiretos; estes apenas a incentivavam a permanecer tal como era. Havia apenas uma preocupação em sua vida: ser a melhor.
Ser a melhor das garotas.
A melhor das fantasias.
A melhor dos desejos.
A melhor de todos os que passassem por ela.
E foi com este pensamento que engoliu aquela dose letal de comprimidos: ter a melhor das mortes e gerar o mais grandioso luto.
E é com grande honra que encerro tal relato de uma incrível e maravilhosa inspiração.
Com amor,
Ali
Fale com o autor