Cruel Summer
3 Part III - head low in the glow of the vending machine
Notas iniciais
CRUEL SUMMER — PART III
A luz azulada da máquina de refrigerante piscava como se estivesse prestes a se apagar, e Astoria apoiava o queixo na mão, cansada demais para se importar com a estranheza da situação. O chão grudento da lanchonete 24h era quase um alívio depois dos salões dourados onde passara a última semana. O odor de fritura velha impregnado no ar ainda era melhor do que o aroma doce e enjoativo das madames da alta sociedade.
Ela não apenas tinha participado, como anfitriã, da inauguração de uma grande mostra na Maison des Arts, a galeria da família, como também tivera de comparecer a um baile beneficente em nome da Greengrass Design Paisagístico, completamente sozinha. Normalmente esse era o trabalho de Daphne, mas a irmã estava fora de Londres em uma conferência, e seus pais supervisionavam um projeto grande na França.
A solidão andava a assombrar mais do que o normal, enquanto ela recusava taças de champanhe para não se envolver em mais constrangimentos e fingia apoiar aquela grande causa em prol das crianças com câncer — como se não fosse apenas um esquema para amortizar o pagamento de impostos das empresas envolvidas. Sentia a falta dos pais e de Daphne, para não precisar encarar sozinha toda a atenção e o peso de ser a “senhorita Greengrass”.
A mãe gostava de colecionar quadros como se fossem souvenirs de guerra: quanto maiores forem as peças, ou mais renomados os nomes nas assinaturas, mais ela sentia que tinha ganhado na vida. Enquanto isso, Astoria havia aprendido a amar o que a família jamais levaria a sério: o silêncio entre as cores e os gritos abafados pelas pinceladas violentas nas telas.
Mas todos ali não poderiam se importar menos com qualquer coisa que ela sentisse ou pensasse. Eram sempre as mesmas famílias, as mesmas tradições e opiniões, cobertas apenas pelas novas tendências de Paris e Milão.
Astoria sentia-se ainda mais patética naquela semana porque, no meio daquela multidão de colarinhos brancos, seus olhos estavam sempre à procura de Draco Malfoy. Quase suplicava aos céus para vê-lo escorado em algum canto, mas só encontrava mais do mesmo. Ele combinava com aqueles salões luxuosos e com os corredores carregados de molduras douradas envolvendo peças caras. Combinava também com os sorrisos falsos e com o dinheiro gasto para limpar a sujeira que acontecia nos bastidores — justamente o tipo de coisa que causava repulsa em Astoria.
Ele até combinava também com a vida dela, mas não a vida que ela gostaria de ter.
E, mesmo desejando e ansiando pela presença dele, depois do último encontro que tiveram, ela nunca mais o viu. Não tentou entrar em contato, ainda que tivesse recebido flores: um belo vaso com orquídeas brancas, tão frágeis quanto belas, acompanhadas de um cartão pessoal com o telefone dele e a simples mensagem: “Me ligue para terminar o que começamos ontem.”
Um calafrio percorreu seu corpo todo e a lembrança da última noite que se viram inundou seus pensamentos. A vontade ainda estava ali, latente. Ela queria olhá-lo mais de perto, ter mais desculpas para tocá-lo, como suas mãos ficaram geladas ao tocar as dele.
Era tentador demais, mas Astoria sabia que se a imprensa Londrina desconfiasse de qualquer conexão entre os dois, sua paz, que já não era muita, teria fim.
As flores eram lindas, mas aquele arranjo jamais sobreviveria em seu estúdio abafado e seco. Orquídeas eram plantas de alta manutenção: delicadas demais para excesso de sol, exigentes demais para ficarem apenas nas sombras, pediam água em medidas milimetradas. Cuidados que ela não estava disposta a oferecer a ninguém naquele momento.
Os dias se passavam e ela ponderava entre matá-las ou levá-las para a estufa da casa de seus pais, já que eram uma lembrança constante de um desejo ao qual ela não queria se render.
De qualquer forma, o Malfoy já tinha alugado um salão inteiro nos pensamentos da jovem Greengrass, todos os dias desde então, como um fantasma de olhos gélidos em um retrato inacabado no canto de seu estúdio. Talvez fosse melhor matar o mal pela raiz. Ela pensara inúmeras vezes em destruir aquela tela que jamais deveria ter começado, mas esse pensamento só a fazia rascunhar mais e mais o Malfoy.
Cada pincelada torta e raivosa em seu caderno de rascunhos, era uma tentativa de incinerá-lo de sua mente. Porém, era um ato falho: agora não apenas sua mente estava tomada por ele, mas também todo o seu lar.
Astoria foi trazida de volta para o presente quando o letreiro azul na fachada descascada do Blue Moon Diner soltou uma faísca e apagou-se por completo. Aparentemente, havia luzes que precisavam de mais atenção do que a pálida na máquina de refrigerante.
Todos no estabelecimento voltaram a atenção para a porta de entrada, e ela pôde ouvir o Sr. Carrow xingar alto antes de sair correndo para checar se nada havia pegado fogo.
Astoria se perguntou por que sempre acabava em lugares assim — meio apagados, meio esquecidos. A máquina de refrigerantes tilintou quando ela apertou o botão, quebrando seu devaneio por completo. Ela pegou a Coca-Cola morna e sentou em um dos booths perto da janela, assim ela tinha uma visão privilegiada do caos que se instaurava lá fora.
A voz rouca do dono ecoava pela porta escancarada, atravessada por impaciência e irritação, enquanto ele culpava um dos funcionários pela falta de manutenção do letreiro. Astoria não pode evitar rir, porque desde que ela começara a frequentar aquele lugar durante as madrugadas, aquele letreiro já dava sinais de problemas, uma vez que a letra N de Moon ela nunca vira acesa.
— Me pergunto se a luz interna dele também esteja se apagando — voz calma indagou ao lado de Astoria, que parecia deslocada daquele cenário.
Astoria virou a cabeça e se deparou com uma mulher de longos cabelos loiros e um vestido azul esvoaçante que não combinava nada com aquele ambiente sujo e de pouca luz, naquela madrugada úmida de Londres. Ela sorria como se fossem velhas amigas.
— Desculpe? — Astoria arqueou a sobrancelha, confusa.
— O dono — a mulher apontou para o Sr. Carrow. — O coração dele falhou há alguns meses, sabia? Agora o amado Blue Moon apaga junto.
— Algumas pessoas queimam mais rápido, e isso as mata mais cedo — Astoria comentou, resolvendo entrar no papo filosófico com aquela estranha.
— E alguns deixam a vela acesa os corroendo por dentro por todo uma vida — a mulher comentou encarando Astoria que engoliu seco, se sentindo extremamente desconfortável.
Estava se sentindo estranhamente exposta, mas não quebrou o contato visual.
— Por que eu sinto que te conheço de algum lugar? — Astoria indagou.
— Luna Lovegood — ela respondeu estendendo a mão.
Uma lambada se acendeu para Astoria.
— Espera… você é aquela artista… a que pinta sons? — respondeu, enquanto segurava a mão de Luna.
Astoria lembrava de quando fizera curadoria para uma exposição dela: havia insistido em incluir algumas telas de Luna que eram cores vibrantes e oníricas, alegando que causavam fascínio nos turistas. Só assim, provando o quão lucrativa suas ideias poderiam ser, que elas eram aceitas pela família. Ainda se lembra do brilho no olhar de sua mãe quando Padma Patil, coordenadora de aquisições, chegou no galpão de armazenamento deles com as telas de mais de 2 metros de altura em cores neon.
— Eu só pinto o que sinto. — Luna respondeu com serenidade. — Sons, cheiros, o gosto da sua Coca-Cola morna…
— Então é mais um relatório diário do que arte — Astoria deixou escapar, irônica.
Trabalhar na galeria e se apaixonar por arte, fez com que a jovem Greengrass gostasse de instigar também os artistas com quem ela se envolvia. Isso sempre trazia uma resposta ainda mais verdadeira sobre o que eles gostavam de transmitir.
— Arte é só outra forma de traduzir a solidão que a gente guarda. — Luna inclinou a cabeça, ainda sorrindo. — E você é boa traduzindo isso para a tela.
Astoria arqueou a sobrancelha, surpresa com a alfinetada. Ela não havia se apresentado ainda, muito menos comentado que pintava.
— Como você sabe que eu pinto?
Luna ignorou a pergunta e roubou um gole da bebida de Astoria que estava na mesa, fazendo uma careta em seguida.
— Você cheira como uma Greengrass — disse pela primeira vez sem olhar diretamente para Astoria. — Crystal Noir, certo? Assim como sua mãe. Não é um perfume para quem quer ser esquecida.
Ela sentiu o estômago torcer. Até mesmo seu perfume carregava os ecos de outra mulher, da mãe, que ela tentava se distanciar, mas não conseguia.
— Justo — Astoria soltou uma risada amarga. Seu sobrenome sempre estaria impregnado em sua pele. — E, no fim, talvez seja isso que me mate primeiro.
— Alguns verões queimam mais forte. — a outra artista disse prontamente.
Antes que Astoria pudesse responder, uma das garçonetes gritou o nome de Luna, indicando que a comida dela estava pronta.
— Boa noite, Astoria! — Luna se despediu, pegando a sacola. Os olhos dela brilhavam como se já tivessem visto o fim da história. — Nos vemos quando o quadro estiver pronto.
Astoria a observou sair do estabelecimento saltitante, deixando-a ali mais uma vez sozinha — e agora, muito confusa.
Que quadro?
O quadro que ela estava fazendo ou um que Luna pintaria sobre aquela noite?
O coração de Astoria acelerou e ela sentiu um arrepio subir pela nuca, como se tivesse sido pega em flagrante em um segredo que jamais contaria a ninguém.
Após aquele encontro inusitado, Astoria permaneceu divagando alguns minutos na mesa velha, antes de comprar um muffin na bancada e seguir rumo à mansão dos Greengrass. Dormiria lá naquela noite.
Ao sair, olhou uma última vez para o letreiro recém-destruído do Blue Moon e pensou em como o nome soava poético demais para um lugar onde as mesas rangiam e o balcão cheirava a café velho. Mas talvez fosse exatamente isso que a atraía ali: a dissonância.
***
Eram 8:30 da manhã quando Astoria entrou na galeria. Ela havia dormido poucas horas na mansão, apenas o suficiente para ser uma humana funcional naquele dia de altas demandas. Ainda podia sentir o cheiro do Blue Moon preso na roupa e o sabor metálico do refrigerante e o eco das palavras de Luna ainda dançavam em sua mente quando atravessou a porta da galeria na manhã seguinte.
O saguão cheirava a tinta fresca e ao air freshener favorito de sua mãe, um jasmim adocicado que tentava disfarçar o odor de madeira envernizado. As paredes brancas brilhavam sob a iluminação direcionada e algumas caixas ainda estavam empilhadas próxima da entrada, com etiquetas de embarque internacionais, imagem que fazia Astoria sorrir. Para ela, aquilo era melhor do que manhãs de Natal, amava quando um projeto acabada e tinha que desembalar as novas peças que chegaram.
Era um espaço entre o caos e a ordem, como se a Maison des Arts nunca estivesse completamente pronta, mas sempre deslumbrante para quem a visitava.
Padma Patil já estava sentada na recepção, mexendo freneticamente em seu iPad enquanto mantinha uma voz calma e baixa no telefone. Estava provavelmente negociando com algum cliente importante, pela expressão controlada no rosto. Astoria a admirava em silêncio: a capacidade de separar emoções do trabalho, a paciência quase irritante diante de colecionadores arrogantes, e principalmente o talento em transformar uma conversa fria em uma venda garantida.
— As vendas da última exposição estão 80% concluídas. — Padma informou, assim que desligou. — Mas o colecionador francês ainda não confirmou a transferência.
— Que bom, mas temos que fechar esses 20% ainda hoje. — Astoria respondeu, massageando a têmpora. — Você sabe como é minha mãe, vou ser bombardeada de perguntas assim que ela chegar.
Padma suspirou fundo, como se já previsse a tempestade que seria receber a mãe de Astoria naquela noite. Tinha esse talento irritante de enxergar três passos à frente, e às vezes Astoria odiava o quanto precisava disso.
Astoria passou os olhos pela lista de artistas e suspirou, sentindo uma leve ansiedade no peito. Tudo precisava estar impecável antes do jantar com os pais mais tarde. Apesar da rigidez da mãe muitas vezes a sufocar, quando se tratava da galeria, Astoria admirava o perfeccionismo dela.
A Maison des Arts havia nascido de um hobby: a paixão da mãe por colecionar quadros, primeiro pequenos achados em leilões discretos, depois telas cada vez maiores e nomes mais sonoros. O que começou como capricho transformou-se em um empreendimento respeitável. A mãe tinha olho afiado para negócios — ajudava artistas emergentes a ganharem espaço, criava eventos pela cidade que atraíam imprensa e colecionadores, e, no processo, transformava a galeria em uma máquina de prestígio e lucro.
— Ah, tem mais uma coisa. Um cliente novo pediu uma curadoria personalizada para a mansão dele — Padma anunciou, enquanto revisava as próprias anotações. — Quer exclusividade: peças que ainda não foram exibidas em nenhuma exposição.
— Ótimo, mais um colecionador com ego inflado. E quem é o milionário da vez?
Astoria amava e odiava esse tipo de cliente.
— A esposa entrou em contato ontem. Parece que a família está redecorando uma propriedade antiga. — Padma fez uma pausa curta, franzindo a testa. — Fiquei surpresa com a pressa deles, considerando o histórico da casa.
— Contanto que o orçamento seja bom e o briefing não seja muito torturante, estou mesmo precisando de um projeto novo. — Astoria girou a caneta entre os dedos e completou, com uma ironia seca: — Prefiro me preocupar com as paredes alheias do que com a minha própria miséria.
Padma revirou os olhos.
— Claro, minha pobre menina rica.
Astoria não pôde evitar soltar uma gargalhada. Rir com Padma era raro, mas sempre parecia aliviar, ainda que por alguns segundos, o peso que carregava nos ombros.
O instante de descontração evaporou quase de imediato, substituído pelo turbilhão familiar de obrigações que rondava sua mente. Contratos de consignação empilhados na pasta marrom, e-mails de artistas italianos exigindo respostas rápidas, molduras atrasadas em Dover, a iluminação da nova ala que ainda não estava aprovada, o catálogo bilíngue cheio de notas em vermelho. E, como se não bastasse, o colecionador francês ainda não havia confirmado a transferência — o que significava uma chamada de emergência para Padma até o fim do dia.
Ela respirou fundo, tentando organizar mentalmente o caos. Precisava ainda revisar o relatório de seguros, conferir a lista de convidados VIP para a próxima abertura e anotar os pedidos insistentes de jornalistas. Cada tarefa parecia puxar outra, como fios de um tecido impossível de desfazer.
Fez uma nota mental de passar na lavanderia para buscar o vestido do jantar, calcular tempo suficiente para um banho longo e, principalmente, ensaiar o sorriso impecável que usaria diante dos pais. Por mais que a mídia e a própria família a pintassem como a alma rebelde dos Greengrass, Astoria conhecia os limites da rebeldia. E, naquela noite, tudo o que mais queria era agradar à mãe, porque afinal ela andava trabalhando duro para merecer o respeito dela quando se tratava de arte.
O último ano havia sido todo dedicado a isso e essa era a primeira vez que a mãe havia a deixado tomar conta da galeria sem ter que consulta-la em todas as decisões. Portanto, Astoria nem reclamava do cansaço que tomara conta do seu corpo quando o relógio bateu às 18h. Seu corpo ansiava pela aprovação materna mesmo que tão difícil e rara, dessa vez ela se sentia digna.
Porém, no fundo da sua mente pulsava a memória da noite anterior no Blue Moon: o vestido azul esvoaçante, o sorriso enigmático de Luna, e a frase que não parava de martelar — “nos vemos quando o quadro estiver pronto.”
Ela era digna de organizar e tomar decisões no Maison des Arts, mas quando seria digna de expor sua arte? Será que um dia seria vista como uma artista séria? Será que um dia se levaria a sério?
Astoria deixou a caneta escorregar pelos dedos e apoiou o rosto nas mãos por um instante. Tentava afastar a sensação incômoda de que estava apenas apagando incêndios, nunca criando nada realmente seu. Sensação irônica após estar se sentindo no topo do mundo há segundos atrás.
Instintivamente, os olhos de Astoria se voltaram para uma das paredes da galeria, onde descansava uma tela ainda coberta por tecido. O contorno das pinceladas que escapavam pelas bordas denunciava sua inquietação, um segredo quase vivo, escondido e abandonado em plena Maison des Arts.
Suspirou, pegou a bolsa e lembrou-se do vestido na lavanderia. Havia um jantar à noite, e não podia se dar ao luxo de falhar. Mas, enquanto atravessava o saguão, não conseguiu evitar a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, alguém levantaria aquele pano — e veria tudo o que ela tentava esconder.
***
Astoria chegou à mansão e correu pelos corredores vazios e gelados, até se trancar no banheiro. A casa estava meticulosamente preparada para a chegada do senhor e da senhora Greengrass: flores frescas em todos os vasos, o assoalho recém-encerado brilhando sob a luz e o ar impregnado de jasmim — o mesmo perfume que pairava na galeria. Apesar de não querer admitir, aquele era o cheiro de lar para Astoria.
No banheiro, despiu-se sem pensar duas vezes e ligou o chuveiro, deixando a água gelada escorrer pelo rosto. Tentava lavar a ansiedade junto, mas a sensação de sufocamento no peito só aumentava.
Ela deveria estar feliz, relaxada. Havia cumprido tudo o que lhe fora determinado, mas esperava, a qualquer instante, que sua queda chegasse — seja na forma de uma tarefa inacabada, um fornecedor atrasado ou algum erro seu imperceptível aos olhos dos outros.
Astoria não se considerava invejosa, mas sentia inveja de quem podia buscar refúgio nos pais. Tinha inveja de todos que recebiam apoio. Nunca lhe faltara nada: melhores roupas, instrutores de ballet impecáveis, brinquedos sofisticados. Estudara nas melhores escolas da Inglaterra e em um dos institutos de arte mais prestigiados, mas jamais fora levada a sério. Sentia como se todos aguardassem que sua fase rebelde passasse para finalmente envolvê-la na empresa da família. Para se dedicar à arte e ao mundo boêmio, apenas vagabundos ou esposas de milionários eram aceitos.
Ela sentia cada músculo do corpo tenso enquanto penteava o cabelo. Sentou-se diante da penteadeira e encarou o próprio reflexo, desviando o olhar quase imediatamente. Podia ver sua mãe estampada ali. Talvez fosse por isso que sua mãe era tão exigente: olhar para Astoria era como encarar um espelho quebrado, enquanto Daphne herdara não só a aptidão pelos negócios do pai, mas também os cabelos loiros esvoaçantes e o sorriso encantador.
Olhou para o grande e antigo relógio dourado na parede. Apenas meia hora separava-a da chegada dos pais. Engoliu o próprio rancor e amargura e terminou de se arrumar com movimentos precisos e mecânicos.
A maquiagem foi leve, suficiente para disfarçar o cansaço e a palidez. Vestiu o vestido que seu pai dizia que a fazia parecer uma estrela de TV. Alisou os cabelos, alinhando cada fio exatamente como sua mãe gostava.
E assim, ela se diminuía para caber na realidade de ser uma Greengrass.
Fantasia finalizada, dirigiu-se à sala de jantar. A mesa estava posta com candelabros e o jogo de pratos e talheres favoritos da mãe. O vinho Château Margaux 2015, intenso e elegante, já repousava em sua taça. O aroma da comida se espalhava pelo cômodo, e Astoria sentiu o estômago reagir. Pelo menos isso sempre era formidável: a comida da casa.
Sua mãe chegou poucos minutos depois. Astoria ainda segurava a taça quando foi recebida com comentários sobre o voo até Londres e a saudade de casa. Era uma recepção estranhamente calorosa para a personalidade normalmente fria da mãe, forçando Astoria a lutar contra a vontade de beber a taça inteira de uma vez só.
Ela se levantou para dar um rápido abraço nos dois e não pôde evitar notar o olhar cansado do pai, escondido sob a compostura habitual.
Todos se sentaram à mesa e foram logo servidos pelos empregados: primeiro a salada com molho balsâmico, seguida da entrada — uma terrine de foie gras com redução de vinho do porto, prato chique que sua mãe tanto amava. Entre garfadas e conversas afiadas sobre a viagem, não demorou para a Sra. Greengrass perguntar pelo andamento das novas vendas e aquisições.
Astoria engoliu seco e começou a relatar tudo que havia acontecido naquele dia. Podia notar um leve sorriso satisfeito no rosto da mãe, que infelizmente não deixou de reclamar da demora para fechar os contratos. Pelo menos uma crítica tinha que ser feita naquela noite.
Astoria estava se sentindo quase feliz e aliviada, até que o tilintar do garfo de prata contra o prato cortou o momento, quando a mãe pousou os talheres com uma calma exagerada.
— Recebi uma carta de Daphne esta manhã — anunciou, como quem revela um triunfo. — Ela decidiu estender a estadia em Genebra. Parece que os Malfoy têm marcado presença em conferências e eventos de caridade, e ela achou prudente… aproveitar a oportunidade de se aproximar.
O pai inclinou a cabeça em aprovação, erguendo a taça de vinho.
— Inteligente da parte dela. Sempre soube enxergar além das aparências. Os Malfoy ainda são um nome poderoso, apesar dos… tropeços.
Astoria manteve a postura, mas sentiu o estômago virar. De repente, não tinha mais fome. O comentário seguinte veio como uma lâmina disfarçada em seda.
— Quem sabe — a mãe continuou, sorrindo de forma quase afetuosa — Daphne consiga estreitar laços que, no futuro, seriam benéficos para todos nós. Uma aliança dessas daria prestígio às duas famílias.
Astoria apertou o cristal da própria taça com força, temendo trincá-la ali mesmo. O vinho escorreu pela garganta como fogo, queimando mais do que as palavras recém-ditas.
— Seria apenas mais uma vitória para a princesa das flores — Astoria comentou, com uma ponta de sarcasmo contida. — Talvez assim ela conseguisse o primeiro escândalo na mídia. Aposto que ficaria feliz com os novos seguidores no Instagram.
A mãe ignorou o comentário, e então perguntou de forma inesperada:
— E você, Astoria, quando vai mostrar interesse por alguém? — ela indagou, repentinamente. — Depois dessa viagem percebi como estou ficando velha. Preciso de netos. Daphne eu sei que é garantido, mas a senhorita? Se estiver interessada nesse grupo LGBT sei lá o que, trate de adotar pelo menos.
Astoria quase engasgou com o próprio vinho, a garganta apertada pelo choque e pelo desprezo implícito nas palavras da mãe.
Os pais estavam agindo como se Draco e Daphne já fossem como se fossem um grande acordo bem-sucedido entre as famílias que ela também devesse aprovar.
O olhar da mãe parecia atravessá-la, pesado e avaliador. Astoria respirou fundo, tentando manter a compostura, mas um fio de sarcasmo escapou involuntariamente.
A Sra. Greengrass ergueu uma sobrancelha, o sorriso glacial se alargando de forma quase predatória.
— Não ria, Astoria. Este assunto não é brincadeira. Seja honesta sobre suas intenções, ou vamos acabar vendo sua irmã tomar todos os caminhos certos, deixando você para trás mais uma vez.
Astoria fechou os olhos por um instante, sentindo cada palavra pesar sobre o peito como pedras acumuladas. O silêncio que se seguiu na sala parecia amplificar o tilintar dos talheres e o sussurrar dos empregados.
— Eu só… — começou Astoria, mas a mãe a cortou com um gesto elegante e preciso da mão.
— Eu não quero justificativas, Astoria. Quero decisões. — A voz da Sra. Greengrass era calma, mas carregava uma ameaça silenciosa e inescapável. — Quero firmeza e determinação, nem que seja para arrumar um companheiro digno e criar uma família, já que negócios não são seu forte. Você sempre foi minha jovem sonhadora. O mundo esmaga sonhadores, e eu não posso permitir que seja esmagada sem defesa.
Astoria permaneceu em silêncio, o vinho agora morno em sua mão, queimando levemente a pele. Cada palavra da mãe parecia perfurar o peito, revelando uma vulnerabilidade que ela não queria admitir nem para si mesma que pairava ali. Respirou fundo, tentando reorganizar os pensamentos que teimavam em se embaralhar.
Firmeza? Determinação? pensou, com uma ponta de amargura. Eles sempre querem na verdade confundem obediência…
A jovem sentiu a raiva crescer, misturada a um desespero contido. Queria gritar, sem saber se ainda cabiam sonhos em sua vida atual.
— Você sabe que eu nunca serei a Daphne — disse por fim, a voz baixa, controlada, mas carregada de sarcasmo silencioso que só ela percebia. — Eu entendo que, no fim, você só quer o melhor para mim.
A Sra. Greengrass apenas inclinou a cabeça, satisfeita com a resposta superficial. Mas Astoria sabia que, por dentro, estava resistindo a cada expectativa, cultivando uma rebeldia silenciosa que, um dia, explodiria.
Enquanto continuavam a refeição, cada comentário, cada elogio velado a Daphne, cada observação sobre a família ou os negócios, era como uma faísca acesa na mente de Astoria. Ela engolia a raiva com o vinho, respirava fundo e planejava mentalmente o momento em que não precisaria mais caber no molde que os Greengrass haviam criado.
Mesmo sob o peso da formalidade e das expectativas sufocantes, uma pequena chama de resistência queimava dentro dela, prometendo que, cedo ou tarde, encontraria um caminho próprio — fora da sombra da irmã, da mãe e do mundo que tentava moldá-la.
Depois disso, o jantar correu de forma superficial e aparentemente pacífica. O pai parecia, pela primeira vez, interessado na próxima exposição da galeria, que teria como patronos grandes amigos dele, como o Conde Augustus Rosier, enquanto a mãe fez apenas mais algumas perguntas sobre o andamento da galeria, que Astoria respondeu da maneira mais profissional possível, contando mentalmente os segundos para voltar ao seu estúdio.
Queria espalhar tinta por todo lado, gritar com o pincel e compensar, em cores e formas, as palavras engolidas à mesa.
***
Astoria chegou ao estúdio como uma tempestade, derrubando tudo pelo chão — a bolsa, o casaco, os sapatos — e avançando direto para a grande tela perto da janela. Sentiu o coração pulsar mais rápido ao remover o pano da tela, encarando os gélidos olhos e o sorriso sarcástico inacabado que a própria pintura parecia devolver.
Ela queria gritar, quebrar o silêncio sufocante que a perseguira o dia inteiro. Talvez, pela primeira vez, fosse correr atrás do que realmente queria, sem pensar nas consequências ou nas expectativas alheias. Ela precisava terminar aquele quadro antes que a fúria — mistura de frustração e desejo — a destruísse por dentro.
O estúdio estava mergulhado em silêncio, a luz prateada da lua entrando pela janela e pintando sombras afiadas sobre a tela e os pincéis espalhados pelo chão. Astoria avançava como uma avalanche, espalhando tinta com gestos bruscos, às vezes violentos, cada traço carregado de raiva, frustração e um desejo que queimava dentro dela. Vermelhos gritavam sua fúria, pretos esmagavam o peso do dia, e azuis e brancos surgiam como pequenos lampejos de sonhos que ela não podia realizar.
Cansada de pisar em ovos, de silenciar a própria voz, de esperar sob o olhar atento da mãe e da sombra da irmã, cada pincelada era um grito mudo, uma tentativa de arrancar de si mesma a necessidade de agradar, de controlar, de se encaixar. O coração batia acelerado, misturando raiva e desejo, e por um instante ela se permitiu imaginar Draco — seu toque, a tensão entre eles — enquanto a tinta escorria pelas mãos.
Quando finalmente recostou na cadeira, exausta e suada, a tela diante dela parecia viva — não perfeita, nem bonita, mas brutalmente honesta, um reflexo de tudo que não podia dizer em palavras. Ela não queria apenas liberdade; queria sentir, arriscar, quebrar regras, entregar-se ao que a fazia vibrar, mesmo que fosse perigoso.
Então, pegou o celular, procurou pelo cartão perfumado que quase jogara fora e salvou o número dele, o coração disparado e a respiração pesada, como se cada batida marcasse o início de algo que não podia mais conter.
I'm not dying (Oh yeah, you're right, I want it)
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