Crucifixo

1 Capítulo 1


Um

A primeira coisa que reparo em minhas presas é o seu odor. Normalmente cheiram a medo, até mesmo horror, ao me verem. Alguns tentam até correr. Como são ridículos.

Mas as presas que eu mais gosto são aquelas que me tratam pelo que verdadeiramente sou e não temem, não fogem, apenas esperam pelo meu ataque. Aceitam seu destino sem relutar. Elas sabem que não tem chance nenhuma contra mim. Contra o que eu sou.

É possível perceber a diferença entre um humano e a minha raça. Quando estamos em nossa forma natural, somos exageradamente pálidos, temos força sobre humana, olhos de um azul tão claro que chega próximo ao branco, e muitos outros mistérios que não se pode revelar. Mas normalmente modificamos nossa aparência para não sermos encontrados facilmente.

Mesmo existindo desde o principio da humanidade, nunca fomos identificados. Jamais houve uma denominação fixa para nossa raça. Desta forma, já tivemos muitos nomes ao longo de nossa existência. Hoje em dia, somos chamados de Gyilkos.

Vários cientistas já tentaram descobrir mais sobre nós, como se, sabendo mais sobre o seu inimigo, pudessem eliminá-lo mais facilmente. Por certas vezes realmente desejo que descubram mais sobre nós. Desta forma nos matariam mais facilmente. Esta vida normalmente é carregada de sentimentos vazios e sofrimento. São raros os que suportam existir por muito tempo. Por existir quero dizer algo próximo de “ser feliz”.

Até agora não expliquei claramente o que sou. Sou uma assassina. No mundo humano devo ser denominada como assassina de aluguel, uma capanga ou algo desse gênero. Porém minha raça não é somente isto, nos somos assassinos, mas somos também vampiros. A nossa linhagem foi criada juntamente com a dos humanos, desta forma, desde o momento em que os humanos existiram, nós também passamos a existir. Nossa existência é um mistério até mesmo para nós, a teoria que nossos lideres, ou anciãos, nos fazem crer é que os primeiros Gyilkos são resultados de uma mutação genética. Porém nem todos acreditam nisto. Eu sou uma delas.

Realmente acho que a nossa existência é algo muito complexo. Afinal, somos vampiros, temos força e velocidade desumana, podemos procriar, e sobrevivemos mesmo sem ingerir alimento algum, somente sangue, entre outros “poderes”. Creio eu que nunca todos os nossos segredos serão revelados, e, se em algum momento isto acontecer, será o nosso fim.

Mesmo nossos segredos não sendo revelados, por vezes nem a nós mesmos, por que apenas os anciões os conhecem mais completamente, os humanos descobriram uma forma de nos eliminar, e assim nós diminuímos gradativamente a cada ano.

Eu tenho certo tipo de respeito pelos humanos que nos matam. Afinal, matar um de nós não é uma tarefa simples. A única forma de matar um Gyilkos é sacrificando a própria vida. Não é qualquer humano que tem a coragem suficiente, ou é tão altruísta a ponto de matar-se para o beneficio alheio. Eles são chamados de Hunters.

O que eles fazem para nos matar não é um ritual, nem é nada que pareça ter saído de um livro de magia antiga, ou daqueles filmes ridículos de ficção. Eles apenas fazem um pequeno corte em si próprios. Um pequeno corte. O sangue flui pelo ferimento, e este sangue agita o demônio existente dentro de nós. Ao ver o sangue, nos descontrolamos e viramos, literalmente, bestas enlouquecidas pelo odor, os atacamos, e ao terminar de sugar seu sangue, se esta pessoa não esta na lista de pessoas de cada assassino, um crucifixo marcado em nosso peito começa a queimar-se. A dor desde sofrimento é algo inimaginável, apenas quem já a sentiu poderia dizer sua intensidade, porém, assim que o crucifixo começa a queimar, ele não para até carbonizar completamente o corpo do gyilko, desde forma, nunca se soube a real dor de uma carbonização causada pelo crucifixo.

Sorvendo o sangue de nossas vitimas é a única forma que temos de sobreviver, porém, é também a nossa ruína se matarmos pessoas fora da lista. Desde que os humanos descobriram isto, vem utilizando esta fraqueza ridícula contra nós, assim, nossa raça esta sendo dizimada cada vez mais rapidamente.

Assim, foi criada uma escola em Londres para controlar a sede por sangue dos vampiros. Assim, se estivéssemos alimentados antes de cada missão, nossos problemas com os Hunters seriam mínimos.

Nunca encontrei um deste tipo, mas tenho a certeza de que se encontrasse, ele não seria capaz de fazer-me um ferimento sequer. Afinal, eu sou uma Gyilko prodígio. Sempre fui.

Meus pais foram mortos por um único Hunter, que até hoje não se sabe se conseguiu fugir após deixar meus pais queimando, por que seu corpo não foi encontrado perto das cinzas em que meus pais se transformaram, e foi constatado que eles não sugaram completamente o sangue do corpo do Hunter.

Eu cresci sem família, sem amigos, eu não tinha nada. Literalmente, nada. A única coisa que eu podia fazer era estudar e aperfeiçoar tudo o que minha raça é capaz de fazer, assim tornando-me auto-suficiente. Meus professores sempre me elogiavam, diziam-me que eu era brilhante, claro que exageravam. Eu apenas estudava, afinal, eu não tinha mais nada nem ninguém. E mesmo não possuindo nada, eu sentia a aura doentia de alguns colegas de me prejudicar, de me matar. Sinceramente? Não me importava.

Não tenho muitas lembranças sobre a minha infância. Por sempre ser uma pessoa quieta e sozinha, sofri muito em todo este período. Percebo que meu subconsciente trancafiou grande maioria de minhas recordações, todas muito sombrias para uma pequena menina presenciar. Possuo apenas algumas pouquíssimas memórias das quais me lembro claramente.

Os anciões relatando-me que ambos os meus pais foram mortos por um único Hunter, e que o corpo do maldito caçador humano não fora encontrado. A inveja de meus colegas. Minha obsessão pelos estudos, eu queria ser a melhor, e eu era, mas para mim ainda não era o suficiente, eu tinha de ser tão forte a ponto de suportar o odor do sangue humano, e encontrar aquele maldito Hunter que matara meus pais, e mesmo que meu crucifixo me matasse depois de terminar com ele, eu morreria sorrindo, eu teria minha vingança concluída.

Uma lembrança que me marca até hoje, fora certa vez em que meus colegas de classe, os que invejavam minhas notas e a forma como eu me sobre-saia entre os demais, esperaram-me na porta da biblioteca deserta, eles sabiam que eu ficava até mais tarde lendo e revisando a matéria.

Assim que eu sai da biblioteca, senti um braço fortemente prensado em meu pescoço, e vi os rostos de vários colegas meus sorrindo sadicamente. Aquilo não me assustou, apenas me pegou desprevenida.

Eu não lutaria contra eles. Não queria machucá-los, e mesmo sabendo que era muito mais forte do que qualquer um ali, eles estavam em um numero realmente grande para uma menininha de 11 anos.

Eles me espancaram, realmente me machucaram tanto que eu não era capaz de mexer vários membros. Torturaram-me psicologicamente. Riam de minha sede de vingança. Gozavam de mim. Urravam que eu nunca conseguiria encontrar o maldito Hunter. Que eu seria uma fracassada, e que já era uma. E depois de tudo isso, ainda disseram que achavam que meus pais haviam atacado o caçador fora da lista por que realmente queriam morrer, afinal, quem gostaria de ter uma inútil como eu como filha. Eu os envergonhava. E fora por minha culpa que dois dos maiores Gyilkos existentes, meus pais, morreram. Minha culpa.

Aquilo fora a gota d’água. Minha força voltou, mesmo estando tão machucada eu me erguerá abruptamente do chão onde estava jogada. Não sentia mais dor, o ódio havia me possuído. A menina quieta e tímida deixara de existir naquele momento, ela não se encontrava mais ali. Agora, havia uma vampira. Uma Gyilko com sede sanguinária, com uma aura sombria, que oprimia a todos os ali presentes. Eu senti o odor do medo exalando deles. Fracos. Covardes. Como eu adorei aquela situação. Amei a sensação.

Lembro-me que eu nunca havia sentido o que senti aquela noite. Conheci poderes que eu nem imaginava que possuía. Matei a quase todos. Uma menina de cabelos loiros fugiu. Eu estava coberta de sangue, ela igualmente. Mas eu não descansaria enquanto não acabasse com a vida de todos os que disseram que meus pais haviam se ido por minha causa. Que haviam se matado por minha causa.

Ela escondera-se tremendo atrás de uma pilastra do grande castelo, onde a escola fora fundada. Eu tinha vontade de rir. Gargalhar até. Aproximei-me vagarosamente dela, desfrutando do medo que ela exalava. Estava controlando tudo ao meu redor, pedras flutuavam, a terra era movida. Eu me sentia poderosa. Eu realmente estava poderosa.

E de repente, eu fui parada. Uma onda gelada percorreu meu corpo, como se fosse um arrepio, mas a onda permaneceu ali, me trancafiando. Minhas pedras caíram, a terra que eu movia somente com o meu pensamento parou-se igualmente.

- Eu esperava que este dia nunca chegasse...

Mesmo congelada, o estranho que me prendia fez o favor de virar-me de frente para ele.

- Professor Ècuro?

Eu me encontrava realmente em choque. O que ele estava fazendo ali?

- Eu estava passando quando senti o cheiro de sangue. Você fez realmente uma carnificina perto da biblioteca, não? – disse ele sorrindo calmamente. Seu sorriso meio que me aterrorizou naquele momento. Aterrorizou bastante. A menina de cabelos loiros fugiu correndo, e se não me engano, seu nome era Mia.

A menina quieta e tímida estava voltando, mas eu não a queria. Mas ela apoderou-se de meu corpo antes que eu tivesse chance de protestar. Recordo-me de ter me questionado o que era aquilo, e se por acaso eu era transtornada ou algo assim. Talvez até bipolar.

- Agora terei de explicar o que, e quem você é Lyrah. E isto não me agrada, não me agrada nem um pouco.

Ele guiou-me até sua sala.Realmente, era tão sombria quanto ele. Mesmo um pouco perturbada com os poderes que haviam acabado de tomar conta de mim, e que eu havia acabado de descobrir, eu estava curiosa pela explicação que ele viria a me dar.

Eu estava sentada na sala de Ècuro, ele era alto, cabelos escuro e olhos azuis, como todos nós, e era também meu mais severo professor, o que nos ensinava como matar rapidamente um humano sem causar alarde, e, principalmente, sem cometer falhas. E ele pretendia contar-me quem eu era. Mas eu já sabia isto, eu era uma Gyilko, ele devia ter enlouquecido. Só podia ter enlouquecido.

Ele encaminhou-se até sua cadeira e me observou por um longo tempo. Lembro-me que me senti profundamente incomodada com aquele olhar gélido sobre mim.

- Lyrah, você não é o que pensa ser. Não é uma Gyilkos comum.

Como é que é? Como assim “você não é o que pensa ser. Não é uma Gyilkos comum.”?

- E o que eu sou então? Um mutante?

Eu ouvi a grotesca ironia contida na minha frase. Ècuro sorriu levemente. Até hoje não seu o que o seu sorriso significou.

- Você é descendente de uma vampira lendária. O sangue que corre por suas veias é diferente do de todos os Gyilkos neste castelo.

- Mas... por que eu sou diferente? Logo eu? – Eu não estava entendendo nada, nada mesmo do que ele estava falando.

- Há muito tempo atrás, existiu uma Gyilko diferente, forte, a mais poderosa vampira que já existiu. Seu nome era Cidra. Ela possuía poderes excepcionais. Controlava as pessoas, os elementos, os objetos, tudo ao seu redor. E você sabe que um vampiro considerado poderoso hoje em dia controla apenas um elemento. Nada mais. Como eu controlo o gelo.

Claro que controla, deve ser por isso que eu fui congelada no meio da minha carnificina e arrastada até a sala dele, óbvio.

- E o que ela tem haver comigo?

Ele ignorou minha pergunta e continuou sua narrativa. Adoro esse professor e suas maneiras educadas.

- Sempre fui fascinado por ela. Ela era perfeita, um modelo há ser seguido. Até que abruptamente ela faleceu, desapareceu, ninguém sabe ao certo. Nunca o nosso mundo sofrera uma perda tão grande.

- Ainda não compreendo o que ela tem haver comigo.

- Depois de seu desaparecimento, pesquisei tudo sobre ela. Descobri que ela tivera um filho. Seu nome era Miguel. O procurei obsessivamente. Após alguns anos, o encontrei, ele estava casado. O nome de sua esposa, era Kary.

- Espere, estes são os nomes de meus pais, como eles...

- Quando os encontrei, eles já possuíam uma filha. Você, Lyrah.

- Então, Cidra era minha avó?

- Isso.

- Não entendo o porquê de o senhor contar-me esta história.

- Lyrah, os poderes dela correm pelo seu sangue. Seu pai não possuiu todos os antigos poderes dela, algo aconteceu, e a geração dele fora pulada. Você é a primeira herdeira dos poderes da vampira mais poderosa que já existiu.

Depois disso, tudo ficou negro, e eu havia desmaiado.

Após esta noite, todas as minhas lembranças foram apagadas, e esta é uma das poucas que me restou. Não sei o que aconteceu comigo, mas tenho quase certeza de que Ècuro alterou minha memória. Sim, Gyilkos tem o poder de alterar a memória. Eu disse que tínhamos muitos segredos.

Até hoje, nunca, ninguém, viu a extensão de meus poderes. Desde aquela noite eu comecei a treinar sozinha, aperfeiçoando-me, melhorando. Tentava incansavelmente trazer de volta aquela sensação de que eu era uma Gyilko com sede sanguinária, com a aura sombria, com poderes incríveis e tal. Eu sabia que esta sensação aparecia quando o sangue de Cidra fervia dentro de mim.

Treinava até a exaustão total. Até conseguir controlar aquele sangue invasor, e também, a todos os poderes e mistérios que ele possuía.

Mas voltando a realidade, eu já não sou mais tão solitária.

- Lyrah, quando você vai parar de fantasiar?

- Cale a boca, Marcus.

Marcus. Acho que posso considerá-lo meu melhor amigo. O conheci em um de meus solitários treinos, ele aparecera do nada, e se prontificara a ajudar-me a treinar.

Naquele momento eu o desprezei. Queria que ele desaparecesse, estava atrapalhando meu treino, e eu precisava controlar tudo que eu era capaz de fazer.

Eu voltei a treinar, ignorando-o. Ele permaneceu ali, em silêncio, completamente calado, apenas me observando, um perfeito inútil. Eu parei de treinar e fui embora.

Mas sempre que eu estava treinando, ele aparecia e ficava lá, não se movia, não falava, simplesmente ficava parado me observando, uma perfeita estátua. Eu me perguntava qual era a razão que ele tinha para ficar lá.

- Por que você não sai daqui e me deixa sozinha? – Certa vez eu gritei para ele.

E ele simplesmente me olhou com seus olhos azuis esverdeados, andou até mim, e me abraçou. Me abraçou. O primeiro abraço de verdade que eu recebia em anos. Era tão... reconfortante, e ao mesmo tempo tão estranho. No momento não tive certeza do que havia acontecido, mas eu desmoronei nos braços dele. E eu senti que naquele momento algo nos ligou. Um sentimento que eu não conhecia muito bem, mas sabia como se chamava. Era a amizade.

- Você não esta mais sozinha Lyrah.

E então eu chorei, chorei como nunca havia feito, nem quando recebi a noticia de que meus pais tinham morrido. Chorei, por que percebi que havia acabado de fazer um amigo. Mas não um amigo qualquer, meu primeiro amigo. O meu melhor amigo.

- Nossa, que nervosismo.

- Você é a causa dele.

- Então você estava pensando em mim, não é? Sabia que você tinha uma queda por mim!

Sabe aquilo que eu disse sobre ele ser meu melhor amigo? Esqueça.

- Vá se catar Marcus.

- Eu sabia que você me amava.

- O dia que eu te amar, eu morderei um fora da lista.

- Eu realmente nunca entendi o sentido dessa lista idiota, sabia?

- Um idiota patético como você não entenderia algo tão complexo mesmo, já era de se esperar.

- Eu sei que você me ama. Agora vai, me explica o sentido real da lista. De forma simples por que eu não estou a fim de pensar.

- Você não seria capaz de pensar na verdade. Ms escute e preste atenção, nós somos como assassinos de aluguel, lembra?

- Sim, sou idiota, mas não a este ponto Lyrah.

- Então, na lista estão os nomes das pessoas que devemos matar. Somente estas pessoas. Quando matamos pessoas fora de nossa lista, o crucifixo gravado em nosso peito quando nos formamos na escola começa instantaneamente a queimar-se, e somente para quando o corpo do Gyilko estiver totalmente carbonizado.

- Agora eu entendo por que você é um prodígio, é uma enciclopédia ambulante. Então a lista é como...

-... A nossa razão de viver, mas se ultrapassarmos seus limites, ela nos destrói gradativa e dolorosamente.

- Ah, entendi. Mas ainda não entendo por que ela foi criada.

- Não precisa entender, só obedecer. E se você disser que eu te amo mais uma vez, eu vou te matar lenta e muito dolorosamente.

- Eu sei que no fundo você gosta de mim.

- Cale a boca, Marcus.

Talvez eu até goste dele. Um pouquinho. Mas ele nunca vai ficar sabendo disso. Nunca mesmo.

E de repente ele sumiu. Como num passe de mágica. Puft. Odeio profundamente quando ele faz isso.

Eu continuei parada no pátio do castelo. Analisando a antiga construção. Era bonita. De formas meio grotescas, mas ainda assim bela. Feita de pedras envelhecidas pelo tempo, com grandiosas pilastras e formas adoráveis ao dia.

Porém a noite ele realmente se transformava em algo sombrio. Imagine para um humano, entrar durante a noite neste pátio sabendo que o castelo esta lotado de vampiros poderosos e que possuem diversos poderes inimagináveis.

Realmente, para um humano, isso deve ser muito amedrontador.

Cheguei ao meu quarto, pulei a janela e deitei no telhado, observando a noite escura repleta de incontáveis estrelas. Adoro fazer isso.

- Lyrah.

Marcus adora me assustar, algum dia vou acabar matando-o por isso. Ele sumiu misteriosamente e agora apareceu misteriosamente.

Afinal, pra que todo esse mistério?!

- Lyrah, Fotter quer te ver.

- Marcus, quando você vai aprender a chamá-lo de Presidente? Que, por acaso, é o que ele é.

- Pra mim ele continua sendo um vampiro velho e caquético.

- Você realmente nunca toma jeito.

Bufei e segui meu caminho. O que será que o Presidente Fotter queria comigo? Ah, não havia explicado ainda, o Sr. Fotter é o mais sábio dos anciãos, por isso é considerado nosso líder, nosso “presidente”.

- Por que você esta indo junto Marcus?

- Eu também fui convocado Lyrah.

Oh Deus. Será que sempre que eu paro para observar as estrelas no telhado do castelo, sempre acontece algo estranho?!

Afinal, a meio segundo eu estava vendo lindos pontos luminosos no céu. Agora, eu estou correndo com Marcus até a sala de Fotter. Que maravilha.

- O que acha que ele quer?

- Não faço a menor idéia.

Normalmente quando alguém é chamado até a sala do Sr. Fotter, esta seriamente encrencando. Mas muito ferrado MESMO. Não me lembro de nada que eu tenha feito de ruim ultimamente para ser chamada, então isso é realmente muito estranho.

Depois de corrermos por alguns segundos, chegamos finalmente à sala de reuniões principal do castelo. A sala é de coloração bege, com uma mesa redonda e cadeiras de madeira ao meio. Nada aconchegante mesmo. Como todo o resto do castelo. Às vezes me pergunto por que continuo aqui. Ah, lembrei, é por que eu simplesmente não posso sair.

- Presidente Fotter?

- Finalmente chegaram. Lyrah, tenho uma notícia para você, que, creio eu, muito lhe alegrará.

Estranho. Sempre que eu sou chamada a esta sala, é para receber a nova lista, e isso não é uma coisa que me deixa lá pulando de alegria...

- Lyrah, nós localizamos o Hunter que matou seus pais.

Choque. Acho que esta é a melhor maneira de descrever como me senti naquele momento, completamente chocada.

- Mas, como? As investigações não foram paralisadas há muitos anos atrás?

- Foram, mas ultimamente vários Gyilkos foram mortos, e somente por um único Hunter, por que nunca encontramos um corpo seco no local.

Por corpo seco, ele se refere a um humano morto sem sangue. Completamente drenado e completamente inútil. Somente uma carcaça.

- Nós estranhamos esta situação, e como ela se parecia com o caso de seus pais, as investigações foram reabertas. Assim, descobrimos que um único Hunter já matou cerca de sete Gyilkos, incluindo seus pais.

- Onde ele esta, Sr. Fotter?

- Lyrah, você não vai sair para caçá-lo agora.

- Como não? Qual é o sentido para você me chamar aqui, alertar-me que o Hunter esta matando outros de nós se não fosse para me ordenar matá-lo? – Eu gritei para ele. Gritei com o homem mais poderoso do nosso mundo. Que ótimo. Mas que se dane também! Onde ele pretende chegar com isso?

- Você não vai caçá-lo agora, por que, além de não termos uma confirmação exata de seu endereço, ele não esta na sua lista ainda.

- Ainda?

- Sim, eu tive de encontrar um motivo para incriminá-lo perante os políticos, para assim eles concordarem em colocá-lo em uma lista.

Ah sim, era claro. Os Políticos. Um grupo de vampiros velhos e enrugados e julgavam quem devia ou não ir para a lista, ou seja, quem devia morrer pelas mãos de determinado vampiro.

Eles são realmente um incomodo para a nossa comunidade, mas reconheço que sem eles, muito de nós matariam pessoas inocentes, e nossa raça seria reduzida a poucos Gyilkos pelo mundo.

Mas só por que eles são importantes não quer dizer que eu não posso odiá-los. Ah, e eu os odeio, como eu os odeio.

- Estou entrando em um acordo com eles, assim, conseguirei colocá-lo em sua lista Lyrah.

- Nome.

- Como?

- Qual o nome dele e em que cidade esta?

- Reesen. Liot J. Reesen. E esta aqui, em Londres.

Outra onda de choque passou por mim. Então quer dizer que aquele desgraçado esteve sempre tão próximo de mim, e eu nunca o havia encontrado e o matado?! Mas que inferno!

- Quando eu receberei a lista?

- Dentro de quatro ou cinco dias.

- Seu nome estará nela?

- Com toda certeza.

- Como o encontrarei se seu endereço ainda não foi confirmado?

- Até você receber a lista, já será confirmado, e você será informada. Mas não se esqueça Lyrah, vá atrás dele somente depois de ter a lista. E o mais importante de tudo, você é uma Gyilkos, seu dever é matá-lo, somente isto. Indolor e rapidamente.

Eu já estava quase me retirando da sala de reuniões quando percebi que algo não se encaixava, uma coisa que Fotter não havia mencionado.

- Presidente?

- Sim?

- Por que Marcus foi convocado?

- É, por que eu tive de vir?

- Por que ele a acompanhará na caçada de Reesen, Lyrah.

- Como assim?

Certo. Mais quantas vezes nesta noite este velho caduco vai me deixar embasbacada e chocada?!

- Os Políticos e os Anciões concordam que Reesen é um perigo a nossa raça, e que você não deve ir atrás dele sozinha.

- Acham que não sou capaz de cuidar de um único Hunter? Quem eles pensam que são para me julgar fraca?

- São os Políticos e os Anciões. – Marcus me respondeu segurando o riso.

Ora, vá se danar.

- Eu perguntei em voz alta?

- Sim Lyrah. Eu sei que você acha que é capaz de exterminá-lo sozinha, eu tenho certeza de que sim, afinal, é o nosso prodígio, sempre foi, e vi que continua sendo, mas mesmo assim, eles não querem arriscar que você corra qualquer tipo de perigo.

- Mas se fosse assim, por que não mandam um outro Gyilko qualquer? Um desconhecido meu?

- Por que você acabaria descobrindo que ele teria ido para “cuidar” de você enquanto a missão estivesse acontecendo, e encontraria uma forma de achar o Hunter sozinha e tentaria matá-lo, ou talvez até mesmo matasse seu acompanhante, mesmo estando fora de sua lista, apenas para provar que você é forte o suficiente.

- Assim eu morreria, e eles me perderiam. – Fazia sentido na minha mente agora. – Bem, parece que eles me conhecem não?

- Exato. Lyrah, você não percebe não é? Você é o bem mais valioso da nossa comunidade agora, poucas pessoas sabem do seu passado, do sangue que corre em suas veias, apenas os membros mais altos da nossa hierarquia sabem. Eles não querem te perder de forma alguma. Você é a ligação mais forte do nosso mundo com o passado.

- Então eu sou preciosa e delicada, que ótimo.

- Pode-se dizer que você é a nossa melhor arma.

- Então Marcus vai me acompanhar para me proteger?

- Sim.

Sai da sala sem falar nada. Corri o mais rápido que pude, não queria que Marcus me alcançasse, sei que ele não vai me alcançar.

Dirigi-me ao meu quarto, ele fica em uma das torres do gigantesco castelo. Não é o lugar que eu mais gosto, mas não posso me queixar dele, afinal, ele tem uma janela enorme, por onde eu consigo ver o céu. Não é um quarto muito grande, e eu nunca fiz grandes mudanças nele em todos os onze anos em que fico nele. Meus pais morreram quando eu tinha sete anos, e desde então tenho o mesmo quarto. Continua tendo a mesma parede bege, os mesmos livros enormes e empoeirados na estante, a cama em um canto, um pequeno armário com roupas e ataduras, um quadro com uma foto de Cidra da parede, e um pequeno criado-mudo ao lado da cama com um porta-retrato sobre ele. Peguei o porta retrato, nele tem uma foto de meus pais. Os dois se abraçando e sorrindo. Ambos eram tão jovialmente belos. Meu pai era alto, cabelos negros meio que lhe caindo sobre os olhos, estes de um azul tão celestial que chegavam a hipnotizar. Tenho muitos traços dele. Mas normalmente as pessoas que conheceram meus pais dizem que me pareço mais com minha mãe. Analisei-a na foto. Exuberante. Minha mãe era linda. Seus cabelos eram lisos, ondulados levemente nas pontas, e iam quase até o quadril. Seus olhos de um azul quase idêntico ao do meu pai. A lembrança mais forte que tenho dela é o seu olhar, ela me olhava de forma intensa mais carinhosa ao mesmo tempo.

Realmente sou mais parecida com ela. Meus cabelos são iguais aos dela, mas vão somente até a cintura. E o meu jeito de ser é mais sério, assim como o dela, mesmo meu pai sendo um comediante. Sou magricela, alta, e pálida.

Soltei o porta retrato em seu lugar ao lado da minha cama e virei-me para a grande janela no lado oposto da estante. O céu esta lindamente negro e pontilhado pelas estrelas.

Sempre fui fascinada pelo céu à noite, desde criança era apaixonada por ele. É tão belo. É escuro e sombrio, mas sempre existem algumas estrelas iluminado a noite. E por vezes o céu esta apenas negro. Mórbido. Sem felicidade alguma.

É exatamente por isso que eu o amo. Ele mostra exatamente como nós somos. Somos sempre obscuros, por vezes temos alguma felicidade limitada, que se faz representar pelas estrelas. Já em outras vezes não somos felizes. Não vivemos, apenas existimos. É ai que nos tornamos um céu sem estrelas. Somos apenas uma imensidão negra. Profunda e vazia.

Observei mais um pouco o céu, e sai pela janela, andei até o telhado. Ali sim, eu poderia considerar ser o meu lugar favorito.

Desda morte de meus pais, quando fui designada a este quarto, eu saio pela janela e me deito no telhado observando a grandiosidade negra que se estende acima de mim. É uma das coisas que eu posso dizer que amo fazer.

Estava deitada quando ouvi alguém atrás de mim. Levantei-me em um salto e me encurvei em posição de ataque. Sei que dentro do castelo ninguém pode me atingir, mas é realmente algo instintivo. Afinal, nós, Gyilkos, temos um instinto de auto-preservação muito forte, e assim nos colocamos em posição de ataque a qualquer mínimo som não esperado.

- Sou eu Lyrah.

- Então não me assuste de novo Marcus, senão quiser que eu lhe arranque a cabeça.

- Como se você fosse capaz de machucar este corpinho! – disse ele sorrindo e piscando para mim. Céus.

Mas que droga. Quase o ataquei agora, já entendi por que estão enviando-o junto de mim. Acham-me tão irresponsável a ponto de não conseguir reconhecer que era um amigo atrás de mim, e não um inimigo.

Como eu sou patética.

- Pare de perturbar-se mentalmente.

- Como?

- Você morde os lábios quando se amaldiçoa por alguma coisa.

Alem de ter de levá-lo a um local onde ele pode se machucar, ainda tenho que suportá-lo observando meus trejeitos. Que maravilha.

- Você não quer que eu vá, não é? – ele sentou-se ao meu lado no telhado.

- Não é isso, é que... – observei-o. Estava calmamente olhando o céu.

- Você se acha capaz de fazer isso sozinha não é?

- Sim, mas...

- Você sabe que eu só vou por que é uma ordem.

- Eu sei, só queria que... – Meu Deus, será que ele vai parar de me interromper cada vez que eu tento falar?!

- Se eu pudesse escolher, não iria, apenas para você não ficar emburrada assim.

- Será que você pode parar de me interromper seu imbecil? – gritei para ele.

Ele arregalou um pouco os olhos, mas – finalmente – me deixou falar.

- Você não entende.

- Então me explique.

- Marcus, eu sei que sou capaz de completar isso sozinha, sei que você é capaz de se proteger sozinho também, mas eu temo o que possa acontecer.

- Por quê?

- Reesen já matou sete Gyilkos Marcus, sete!

- Mas você é o nosso prodígio! Vai conseguir acabar com ele fácil e...

- Marcus! Eu não me preocupo comigo! Eu temo por você!

Ele ficou quieto.

- Você não entende, certo?

- Não Lyrah, eu não te entendo.

- Eu não quero que você se machuque Marcus! – eu lhe falei agarrando seus ombros.

- Mas... Por quê?

- Por que... Eu não sei.

O que esta acontecendo comigo? Desde quando fiquei tão sentimental? E por que pensar em Marcus morto me causa tamanha dor?

Eu estou enlouquecendo, só pode ser.

- Pensar em você machucado, ou pior ainda, morto, destruiria minha vida Marcus.

- Sou tão importante assim?

- É, você é mais do que um irmão para mim. Se você se machucasse por minha culpa, eu carregaria esta culpa por toda a eternidade.

Ele me abraçou afetuosamente. Por que cada vez que ele me abraça eu me lembro do dia em que ele me disse que eu não estava sozinha?

- Eu vou ficar bem, você vai ficar bem, e nós vamos acabar com a vida daquele infeliz, certo? – Ele desfez o abraço e me analisou.

- Certo!

Ele levantou-se abruptamente.

- Então eu sou importante. Á-há! Eu sabia que você me amava Lyrah!

Eu vou matá-lo. Lenta e dolorosamente. Esqueça a parte da dor por Marcus morto.

Como eu posso ter um melhor amigo tão diferente de mim? Como isso é possível? Ele ainda me olhava sorrindo.

- Quer saber? Você não vai estar vivo para ir até o maldito Reesen. Assim eu não terei de me preocupar com você.

- Ah é? O que vai me impedir?

- Eu.

- O que você vai fazer?

Levantei-me lentamente, e fiz a melhor cara de assassina sem escrúpulos que consegui. Estava morrendo de rir por dentro. Morrendo mesmo.

- Lembra que eu disse que ia te matar lenta e muito dolorosamente se você afirmasse que eu te amo novamente?

- Lembro. Por quê?

- Por que é isso que eu vou fazer. – E sai correndo atrás dele.

Às vezes eu até acho que entendo por que esse idiota é meu melhor amigo. Exatamente por ele ser tão idiota.

Acho que nós nos completamos. Eu sou séria e esforçada, já ele é um idiota, e um desleixado total. E é mais um pouco idiota.

Mesmo eu o desprezando realmente quando ele diz que eu o amo, acho que eu não conseguiria ver minha vida sem ele.

Mas novamente, ele nunca, nunca mesmo vai saber de algo assim. E eu nunca vou elogiá-lo, pois a única vez que eu o fiz, ele teve essa idéia de que eu o amava, e me lembrou do maldito elogio por meses. Vários meses. POR ANOS NA VERDADE.

Depois que a perseguição terminou, eu voltei para o meu quarto e me deitei. Acho que vou surtar até a missão começar. Sou uma das pessoas mais ansiosas do mundo, e sei que vou ficar completamente impossível nos próximos dias, vou ficar pior do que o meu normal.

Notas finais
E aí? Alguém leu e gostou? (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.