Crossroads - The Dark Hunters Chronicles
16 Um Visitante de Outra Dimensão
Notas iniciais
Venice: Qual é o problema? Você parece chateado.
Omsk, Rússia, 30 de dezembro de 2100. Youth se sentia mal-humorado há dias, procurando entender como teria sido tão imprudente a ponto de se deixar rastrear tão facilmente.
Venice: Terra para Youth. Responda.
Youth sentia um misto de emoções negativas em relação a si próprio. Entre elas, a sensação que mais o atormentava: Ser um títere cujas linhas eram seguradas pelas mãos firmes de seu pai, o Presidente dos Estados Unidos.
Venice: Youth, fala alguma coisa! Tá me deixando nervosa!
Youth: Eu devia ter percebido...
Venice: Hã?
Youth: Não era à toa que eles sempre me achavam, não importava aonde eu me escondia.
Venice: Ainda tá bolado com isso? Youth, você não tem que ficar se martirizando por isso. Eles sabiam que você não iria largar sua espada; foi só questão de oportunidade pra colocar o rastreador sem você perceber.
Youth: Fui um idiota pensando que poderia estar livre daqueles desgraçados. E esta cidade corre riscos com a minha presença.
Venice: Ah, nem tanto. Se bobear, eles podem até estar com receio de vir aqui, achando que é uma emboscada.
Youth: Hmph... Que seja. De qualquer modo, é bom que eles não apareçam mesmo.
Venice: E se eles chegarem, nós damos um jeito. Não tem que se preocupar.
Youth: Tá... E você, vai recomeçar o treino ou não?
Venice: Olha, eu acho que vou parar agora. Quero voltar para minha casa passar os últimos momentos do ano com minha família.
Youth: Certo...
Venice: Mas antes, posso te pedir uma coisa? Nós nos conhecemos há dias, mas ainda não nos tornamos íntimos...
Youth: Como assim, "íntimos"?
Youth direcionou um olhar torto pra Venice, que ficara ruborizada e evitava olhar para ele.
Venice: Er... Bem... Eu só estava pensando em sermos mais amigos... Pra mais confiramos um no outro, sabe... E pra isso, eu ia perguntar se podíamos almoçar juntos...
Youth: Não sei...
Venice: Ah, vamos, Youth. Eu sei que você não tem nada melhor para fazer mesmo.
A garota tinha razão. Não havia nada melhor para Youth fazer. Além do mais, é apenas um almoço.
Youth: Aff... Tá bem. Vamos.
No edifício da prefeitura, Tyto, Darius e Reddar mantinham uma conversa solene sobre o rastreador embutido na espada de Youth.
Tyto: Bom... E agora? O que vai acontecer com Youth? Na certa, virão procurá-lo.
Reddar: Não acho que na situação atual nós precisamos nos preocupar.
Darius: Tua assunção é acurada. Dispomos de aliados poderosos, e um conflito de tal magnitude é a última coisa que os americanos desejam no momento.
Reddar: Até porque este tipo de conflito seria uma surpresa bastante desagradável para eles.
Tyto: É, mas Youth estava fugindo. Se vocês estivessem no lugar deles, não achariam estranho um fugitivo resolver passar um tempo parado em um determinado lugar?
Darius: Tyto, tu me permites conceder-te alguns de meus conhecimentos sobre história mundial?
Tyto: Por que isso de repente? Não sei como vai ajudar.
Darius: Conheces as circunstâncias dos ataques dos americanos?
Tyto: Bom... Tudo o que eu sei é que os americanos são imbatíveis.
Darius: Isto, na verdade, é o que eles querem que nós pensemos. Não passa de crédito fajuto.
Tyto: Como assim?
Darius: Se parares para pensar, verás que eles atacaram apenas os países mais convenientes em termos de desvantagem.
Tyto: Ah... Tá, mas e quanto à Rússia? Rússia não é um país fraco.
Darius: Verdade. A Rússia, contudo, é uma exceção. Os americanos atacaram a Rússia por julgarem que não havia escolha. Eles a viam como uma ameaça ao poderio deles. Mesmo assim, não é suficiente para desviar do padrão que estabeleceram.
Reddar: Em suma, os americanos só atacaram os mais fracos, mais a Rússia, mesmo sendo ela uma nação poderosa.
Tyto: Mas aí é que está. Estamos no meio de ruínas, no meio do lixo! Não temos condições de nos defender deles!
Reddar: É aí que entram os nossos aliados. E desse detalhe, os americanos não fazem a menor ideia.
Darius: Obviamente, existe a possiblidade de invasão americana da cidade. Porém, eles tem coisas melhores para se preocuparem.
Reddar: Como ser traído por alguém considerado digno de confiança, por exemplo.
Tyto: Quê? Não me digam que vocês têm alguém infiltrado lá nos Estados Unidos!
Reddar: Pra falar a verdade, não. Mas, como os americanos ganharam mais inimigos ultimamente, fica mais difícil para eles vigiar o seu próprio pessoal. Portanto, a existência de um infiltrado no círculo interno americano não é uma possibilidade tão remota quanto antes.
Darius: Eu não definiria melhor.
Enquanto isso, no meio do deserto de ruínas, havia um bando composto por anões, ogros e humanos. Eles reviravam entulho e lixo à procura de objetos de valor, a fim de negociar com outras cidades. Eram muito territoriais, manifestando apreensão sempre que percebiam alguém pelas proximidades. Porém, naquela situação em particular, o nível de alerta desse bando foi às alturas, pois viram um vórtice de energia se formando a alguns metros de distância deles. Súbito como apareceu, o vórtice se foi, e, em seu lugar de origem ficou um jovem que olhava em volta um tanto desorientado.
????: Porcaria, viu? Meu sistema de transporte deu bug de novo...
O jovem então viu o bando. Vendo que não tinha muita escolha, resolveu ir até eles para pedir uma informação. Porém, antes de falar qualquer coisa, um ogro enorme e com uma aparência aterrorizadora soltou um brado.
!!!!!: Um intruso! Peguem ele!
????: Ô, pera lá! Eu vim em paz! Só quero que me respondam uma pergunta; dá pra ser?
Um homem, membro do bando, reparou na aparência do jovem. Estava vestido com roupas modernas e ostentava acessórios chamativos, em especial um bracelete e o que parecia ser fones de ouvido. Com um sorriso de satisfação, o homem declarou.
%%%%%: Heh... Olhem só, pessoal. Ele tem uns brinquedinhos interessantes. Acho melhor manter esse pivete aqui até que ele entregue tudinho. O que acham?
Acatando a sugestão, vários guerreiros armados cercaram o jovem. Este porém não desejava entrar em conflito naquele momento. Mas, em vez de medo, ele sentiu uma leve admiração.
????: Ai ai... A vida é mesmo engraçada... Meus amigos vivem dizendo que eu corro atrás de problemas... É até verdade, mas vejam só que coisa. Os problemas também correm atrás de mim! Parece até que fomos feitos um pro outro! Heheh...
O jovem mantinha um expressão jovial, o que levou o líder do bando achou que ele debochando de seus companheiros.
!!!!!: Garoto atrevido... Se quer tanto assim morrer, que assim seja! Ataquem!
O bando obedeceu a ordem e arremeteu contra o jovem. Mas ele desviava dos ataques contínuos sem nenhum esforço.
????: Ah, qualé, pessoal. Se é pra me acertar, pelo menos caprichem mais na mira.
Um membro do bando então arremessou uma machadinha em direção ao garoto. Por pouco não o acertou no rosto, mas foi perto o suficiente para cortar alguns fios de seu espetado cabelo castanho. Vendo os fios flutuando no ar, o jovem resolveu reagir.
????: Bem, já é algo. Muito bem... Minha vez.
O garoto então praticamente sumiu da frente deles. Foi aí que um anão do bando tomou um susto: O garoto reapareceu bem na sua frente. Paralisado de susto, ele nada pôde fazer pra evitar um belo murro no meio de sua moleira, o que o levou a nocaute instantaneamente.
????: Er... Desculpe se pareceu covardia, mas é que eu não sou muito chegado a baixinhos...
Os outros, ainda mais furiosos, prontamente contra-atacaram, mas o menino os evitou. Estranhamente, enquanto ele esquivava dos ataques, vários membros do bando caíam, um a um, sem que o menino sequer os tocasse; ele apenas apontava a mão para cada um, como se estivesse para da um peteleco em pleno ar, e, assim que o dava, um deles caía, seja desacordado ou se contorcendo de dor. Num último esforço, o bando tentou encurralar o menino. Em resposta, o jovem levantou o braço para frente, fazendo um gesto pedindo pra parar.
????: Esperem um pouco aí. Antes de prosseguir, me digam... Não acham que tá um pouco frio demais aqui?
%%%%%: Não esquenta, garoto. Daqui a pouco, você não vai sentir mais nada.
????: Não esquentar? Ah, que é isso; um pouquinho de calor faz até bem. Sintam só.
De repente, do braço do garoto surgiu uma forte corrente de vento escaldante. A força eólica foi forte o suficiente pra jogar o restante do bando inteiro para trás e o calor da corrente foi intenso o bastante para causar queimaduras em seus rostos, as quais faziam o bando gritar de dor. Vendo que não podia com ele, o bando se viu forçado a bater em retirada.
????: Foi um prazer conhecê-los. Ah, e passem Caladryl depois que melhora isso aí, viu?
Foi aí que ele se lembrou...
????: Aff... E no fim das contas, eles não me responderam pra que lado fica Omsk... É osso, viu?
Sua frustração, entretanto, logo desapareceu, pois ao ver as poças de água formadas pelo derretimento da neve causado pelo vento quente lhe deram uma ideia que o fez permanecer ali por um pouco mais de tempo.
Meio dia. Numa sacada do edifício da prefeitura, Venice e Youth desfrutavam de uma refeição.
Youth: Você até que cozinha bem. Tô surpreso.
Venice: Ah, obrigada. Sabe como é, ser a única mulher da família me motivou a aprender a cozinhar mais cedo...
Youth: Entendo. Tive que aprender também, mas, no meu caso, foi por conta de obrigações militares.
Venice: Você treinava no exército desde pequeno, não é?
Youth: Sim...
Venice: Ah. Você devia ter pouco tempo livre então. Devem ter sido poucas as vezes que você foi se divertir longe do exército.
Youth: Com o tempo eu reconheci que minha vida não era normal. Fato é que eu vivi preso ao exército. Meu pai queria que eu estivesse sempre pronto para fazer o que ele mandava.
Venice: Mas vocês dois nunca tiveram um tempinho pra vocês? Tipo, um momento de pai e filho?
Youth: Ele era muito ocupado por razões óbvias e eu ficava isolado. Só nos falávamos quando eu cometia erros e ele me punia. Mas teve pelo menos uma vez que nós saímos para um parque.
Venice: Ah, já é alguma coisa, não?.
Youth: Sempre fui um pouco antissocial... Eu fiquei quieto no meu canto, observando outras crianças brincarem. Meu pai perguntou o que eu estava achando, eu respondi que tudo aquilo ao meu redor não fazia nenhum sentido para mim e pedi para voltar para casa. E o meu pai, ríspido do jeito que era, apenas respondeu “Que seja”... Seja lá o que ele tenha tentado fazer, não funcionou.
Venice: Não me leve a mal, mas não acha que sua atitude foi um tanto malcriada?
Youth: Foi sim. E eu não dou a mínima.
A indiferença do garoto fez Venice rir. Youth porém resolveu deixar isso quieto por um momento.
Sala de reuniões da prefeitura. Reddar e mais um homem conversavam, enquanto tomavam café quente.
Reddar: Então, David... Quer dizer que o povo do Cazaquistão está tentando praticar agricultura na terra deles?
David: Sim senhor. E eles mandaram avisar que estão dispostos a estabelecer uma rota de comércio com esta cidade.
Reddar: Parece promissor. Acho que será bom para os dois lados. Só me pergunto se eles conseguirão mesmo produzir naquela terra...
David: Soube que eles obtiveram novos recursos tecnológicos; eu acho que eles conseguem. Agora, mudando de assunto, uma coisa esquisita aconteceu há pouco...
Reddar: O quê?
David: Quando eu vinha para cá, o soldado que me acompanhava disse que uma onda de calor emanou de um lugar não muito longe de onde eu estava.
Reddar: Onda de calor?!
David: É. Ele foi verificar e, quando voltou, disse que encontrou uma grande área circular onde havia neve derretida. Disse também que a terra tava encharcada.
Reddar: Que coisa...
David: E isso não é tudo. O soldado disse que, quando chegou perto das ruínas, ele encontrou uma pequena piscina. E a água tava bem quente. Parecia até que transformaram o local numa terma ao ar livre.
Reddar: Uma terma ao ar livre... Aqui... Essa é ótima. Quem em santa consciência teria a ideia brilhante de...
Naquele momento, a imagem de uma pessoa passou pela cabeça de Reddar. Tal imagem deixou Reddar emudecido por um momento.
David: Er... Senhor Reddar? Algum problema?
Recuperando a compostura, Reddar respondeu.
Reddar: Não, nenhum problema. Só é... Estranho. Uma onda de calor num lugar frio como esse e ainda por cima uma... Terma. É mesmo uma situação bem peculiar.
David: Bom, isso é. Por acaso... O senhor tem ideia de quem possa ter feito isso?
Reddar: Er... Eu pretendo averiguar a respeito disso.
David: Como quiser... Estou de saída, senhor. Se precisar de mais alguma coisa, posso solicitar a outras cidades.
Reddar: No momento, não. Pode ir.
David: Obrigado, senhor. Com licença.
David pôs seu copo de café na mesa e se retirou. Assim que ele saiu, Reddar se pôs a pensar sobre o ocorrido. Logo depois, Tyto adentrou a sala.
Tyto: Aí Reddar, vim pedir para você mandar levarem algumas coisas que eu estou precisando lá no apartamento e...
Reddar nem percebeu que Tyto entrara. Tyto estranhou a expressão dele.
Tyto: Reddar? Aconteceu alguma coisa?
Reddar: Não, nada. Estava só pensando.
Tyto: Nossa, você tá com uma cara... Parece até a cara de alguém com um nêmesis que pode aparecer a qualquer instante...
Subitamente, a porta atrás de Tyto é brutalmente escancarada. O loiro tomou um susto, mas Reddar parecia impassível. Este fitou a figura nos olhos e dirigiu a palavra a ele.
Reddar: Sempre se metendo em encrenca, sempre chamando atenção por onde passa... E sempre quebrando as coisas pelo seu caminho... Não é mesmo...
O garoto recém chegado sorriu para Reddar. Um largo sorriso recheado de alegria e de cinismo.
Reddar: ...Kaze?
Notas finais
"Hoje, eu finalmente mudei a minha maldita rotina. Ao invés de ficar parado feito um dois de paus sem fazer porcaria alguma na varanda, agora eu fico parado feito um dois de paus sem fazer porcaria alguma num deserto de gelo. Mas infelizmente isso não mudou muito: Continuo sendo chutado, zoado etc. Pelo menos, não é com tanta frequência como normalmente é. Aqui não tem cachorro pra fazer xixi em mim nem criança me encher o saco. Só um bando de aberrações. Alguns deles param e riem de mim, outros só se perguntam quem foi o idiota que me fez ali... E a maioria me ignora. Bom, pra mim tá bom. Posso ficar aqui parado, tranquilo, sem precisar me preocupar em... Derreter? Epa, peraí! Eu, derretendo, no meio desse deserto de gelo?! Não é possível! O que está... Ah, não... Isso só pode ser zoeira! De todo o tipo de criatura bizarra que tem por aqui, tinha que me aparecer logo um que manda JATOS DE VENTO QUENTE pra tudo quanto é canto?! Vá tomar noAAAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaah..."
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