Durante toda a reunião eu tentei me concentrar, essas eram as horas mais importantes da minha carreira e tudo que eu conseguia pensar era em como esse homem a minha frente é um enigma. Minha especialidade na ABI, era disfarces, me infiltrava em todo o tipo de lugares para obter informações, conhecia as pessoas, podia decifra-las, qualquer uma, seus gostos, manias, peculiaridades, observava os detalhes que ninguém notava, previa passos, planos, tudo, nunca havia falhado, até hoje. Faz mais ou menos duas horas que estamos nesta sala eu não consegui descobrir nem se ele realmente está prestando atenção na apresentação. Lucas falava, falava e falava, sobre as rochas, pedras, coroas... Mas durante toda a apresentação Gideon não tirou os olhos de mim, e eu não ousei desviar o olhar um segundo se quer, dois podem jogar esse jogo. O único momento que ele abriu a boca durante a apresentação foi para mandar sua assistente cancelar seus próximos compromissos, se fosse qualquer outra pessoa eu saberia dizer se aquilo significava uma coisa boa ou não, mas aquele homem era uma rocha, impenetrável.

Agora, depois de determinada a apresentação, Alfredo explicava que os testes que fizemos tinham sido em pequenas escalas, não podíamos ter certeza que iria funcionar em produções de grandes portes, embora eu apostasse todas as minhas fichas nisto.

– Como eu posso ter certeza de que isso irá funcionar? Veja, um investimento tão grande como este não pode ser feito no escuro. Gideon perguntou e enquanto Guilherme titubeava coisas como pesquisas e teorias, ele me olhava a espera de uma resposta.

– Como eu posso ter certeza que você não irá nos dispensar, levar nossas ideias e nos passar para traz? Perguntei.

–Parece que temos que arriscar.

– Você também. O senhor é um visionário, e como todo visionário enxerga as melhores oportunidades. Tentei manter a voz o mais firme que pude, tenho certeza que consegui, mas verdade seja dita, estava aterrorizada por dentro, poucas vezes na vida estive tão nervosa como agora.

– Pois bem, parece que vou ter que arriscar. Soltei a respiração que nem percebi que havia prendido, parece que o peso do mundo saiu das minhas costas.

Lucas e Alfredo comemoravam em uma conversa no canto da sala, Guilherme discutia com o assessor das industrias Cross os detalhes burocráticos de nossa mais nova sociedade, Gideon não abriu mão de escolher o nome, Crossfire, mas eu até simpatizei, nunca tive criatividade para criar esse tipo de coisa, o nome era bonito, forte e chamativo. Eu estava em um canto da sala mandando mensagem para minha mãe, agora era oficialmente social de Gideon Cross, cada um de nós tinha 15% das ações, e Gideon 40%, tenho até mais do que eu esperava para falar a verdade.

– Agora que você não está mais atrasada, podemos tomar aquele café. Gideon falou ao pé do meu ouvido, olha eu não sei por aqui, mas na minha terra quando se fala ao pé do ouvido é porque algumas coisas a mais quer, se é que vocês me entendem. É muita judiação, gato, sexy, sedutor, inteligente, forte... Perfeito, e agora meu sócio, ai você poderia achar que isso é uma coisa boa, mais fácil de pegar, vai trabalhar pertinho e tal, mas é ai que está o problema, nós vamos trabalhar juntos, eu lutei muito para garantir esse trabalho, não posso pôr a perder por causa de um romance. Romance? Isabella por favor, ele só te chamou para tomar um café, não pira. Sócios fazem isso o tempo todo, certo? Acho que não deve ter mal algum.

....

– Isso é sério? Eu não posso acreditar que você namorou a Paris Hilton kkkkkkkkkkkkkkkkk.. Uma crise de risos me assolou.

– Eu sei, eu sei, mas nossos pais eram sócios e eu era adolescente, você sabe como é.

– Não eu não sei, quer dizer, eu sei, mas juro que é engraçado imaginar vocês dois juntos. Gideon estava me contando de sua adolescência, não sei porque entramos neste assunto, estávamos conversando coisas banais, rindo de coisas estupidas, a conversa fluía muito rápido entre nós dois.

– E você? Tem namorado? Aposto que deixou um choroso no Brasil e um amargurado na França. Ele me perguntou isso com um certo interesse muito grande, mas não queria falar sobre este assunto, ainda era muito doloroso.

–Viúva. Foi tudo o que disse, e acho que ele percebeu meu desconforto pois não disse mais nada e logo mudou de assunto.

– Quer dizer que você é Brasileira?

– Sou, nasci no interior de um estado no nordeste, mas me mudei para o Rio aos 17.

–Para estudar?

– Também, mas eu entrei para a ABI. Comecei a explicar o que era e o que fazia lá, pelo menos a parte que ele poderia saber.

– E você aprendeu italiano, inglês, francês e alemão em quatro anos? Isso é impressionante senhorita Swan.

– Muito obrigada, senhor Cross, eu me esforcei muito.

Ao pôr do sol, decidimos ir para o hotel. Conversar com Gideon era fácil e natural, a muito tempo não me sentia tão leve com alguém. Não consigo explica o porquê, mas queria tanto toca-lo, durante várias vezes em nossa conversa me peguei quase o fazendo, era como se ele fosse um imã, e me atraísse o tempo todo. De repente aquela sensação foi me assustando, acho que Gideon sentiu o mesmo. Ele insistiu que me hospedasse por sua conta na rede de hotéis Cross, parece que esse homem tinha de tudo.

....

– Por favor, não me mate, eu sou inocente, juro, tenho filhos, esposa, família, ele me obrigou, eu não queria. Chorava desesperadamente o homem a minha frente. “Eu sinto muito”, foi tudo que eu pude dizer antes de atirar. Eu não queria, eu juro que não queria mata-lo, eu escutava aqueles gritos todos os dias quando fechava os olhos, lembrava de todos, cada um deles, suas vozes, suas suplicas. Aquela noite foi mais uma que eu não dormi desde a morte de Edward.

Notas finais
Comentem se querem que eu continue ou não. Beijos