Crossbreed
2 Diferente
Notas iniciais
I
Dark levantou-se lentamente sem desgrudar os olhos do vampiro, como se esse fosse um animal selvagem pronto para atacar ao menor movimento brusco. Enrico continuava meio deitado, os olhos fixos no vampiro. Dark analisou rapidamente a sua situação: o vampiro estava na janela a dois metros da cama de Enrico. No quarto ao lado estava Giovanna e no fim do corredor estava o pai dela. Se Dark ao menos conseguisse segurar o vampiro tempo o bastante para Giovanna e a família fugirem...
– Enrico, pega sua irmã e seu pai e saiam já daqui. – Dark sussurrou enquanto se aproximava mais do vampiro ficando entre ele e Enrico.
– Que coisa fofa... – o vampiro debochou. – Você está tentando proteger os humanos.
O vampiro sorriu deixando ainda mais visivel suas presas.
–Não sei o que é mais engraçado... – o vampiro disse. – Você achar que eu vou deixar os humanos fugirem ou pensar que pode me segurar.
Dark cerrou os punhos. Ele não era tolo. Apesar de nunca ter acreditado que algo como vampiros existissem, já assistira filmes demais sobre eles para não saber que vampiros eram mais fortes e mais rápidos que qualquer humano. Porém Dark também não era qualquer humano. Com sua força, ele poderia segurar o vampiro até que a família que o acolhera fugisse em segurança.
Enrico começou a sair lentamente da cama. O vampiro apenas o acompanhou com os olhos vermelhos e um sorriso debochado nos lábios. O rapaz foi andando de costas em direção a porta entreaberta.Quando sua mão alcançou a maçaneta, o vampiro surgiu ao seu lado. Dark mal teve tempo de virar a cabeça para olhar quando o vampiro atirou Enrico do outro lado do quarto fazendo-o bater contra a parede.
Antes de ser capaz de reagir, Dark sentiu seu braço ser torcido as suas costas e gritou.
– E aí? – O vampiro sussurrou ao seu ouvido. – Ainda acha que pode bancar o herói?
Sem pensar em nada a não ser salvar a família de Giovanna, Dark girou e acertou um soco no rosto do vampiro, que o soltou e recuou cambalando. Dark correu para socorrer Enrico. Quando o estava erguendo do chão, escutou a risada do vampiro. Olhou para trás e viu Giovanna e o pai presos pelas garras da criatura. As mãos do vampiro se fechavam em torno das gargantas de Giovanna e o padeiro.
– Dark... – Giovanna deixou escapar um sussurro estrangulado.
– Deixe-os ir! – Dark disse cheio de fúria. Ódio e medo crescendo em seu peito.
– Por que eu faria isso? – O vampiro não sorria mais. Havia ódio em sua face pálida tingida de escarlate apenas onde Dark o socara.
– Se você só deseja se alimentar, pode ficar comigo.– Dark disse afastando a gola de sua blusa e exibindo o pescoço.
– Sinto muito, mas eu não sou canibal. – O vampiro disse com sarcásmo. – Mesmo que você seja só um mestiço, isso vai contra os meus princípios.
– Eu sou o quê?! – Dark perguntou cheio de surpresa.
– Você nunca se perguntou por que é diferente? – o vampiro caminhou em direção ao garoto. – Você nunca encontrou explicação para sua força e agilidade. Você sente tanta fome que seria capaz de comer sozinho a comida de uma vila inteira e ainda assim a fome não passa.
Dark recuou. O vampiro parecia conhecê-lo por inteiro.
– Você é um mestiço, Dark. – o vampiro afirmou. – Você é filho de uma vampira e um humano.
– É mentira! – Dark gritou.
– Você sabe que é verdade. – o vampiro disse. – Você sente que é verdade.
– Não! – Dark sentiu seu peito queimar. Ele não era humano?
– Eu vim te buscar, Dark. – o vampiro disse num tom meigo. – Vou te levar para casa. Você nunca mais irá se sentir diferente. Você vai voltar para o seio da família.
– E eles? – Dark perguntou.
– Eles? – o vampiro deu de ombros e soltou Giovanna e o padeiro que cairam de joelhos no chão, mas logo correram para trás de Dark. – Não me importo com eles. Dois podem sair vivos daqui.
– Dois? – Dark estreitou os olhos.
– É. – o vampiro cruzou os braços sobre o peito mal coberto pela camisa preta de botões. – Para voltar para casa, Dark, você precisa se tornar um de nós. No momento você é mais humano que vampiro. E nós não aceitamos humanos em casa, a não ser, é claro, quando os humanos são o jantar. – Dark fez uma careta de nojo que o vampiro ignorou. – Para se tornar um de nós, você precisa se alimentar. Você precisa sugar um desses três.
– Não! – Enrico gritou e tentou avançar contra o vampiro, mas Dark o deteve com um mão.
– O que acontece se eu não me alimentar? – Dark perguntou.
– Você vai continuar assim... – o vampiro fez um gesto com a cabeça o indicando.
– Tudo bem para mim. – Dark disse. – Pode ir embora.
– Ir embora?
– É. – Dark afirmou. – Eu prefiro continuar desse jeito.
– Sinto em lhe dizer, Dark, mas isso não será possível. – o vampiro deu um passo em direção a Dark. – Você vai comigo de qualquer jeito. Se você não quer fazer isso por bem, então eu vou matar os três e te obrigar a beber até a última gota de cada um deles.
Dark cerrou os dentes e abriu os braços na frente da família do padeiro. Ele não permitiria que o vampiro tocasse neles. Mas e se ele não conseguisse? E se o vampiro cumprisse a ameaça?
– Tudo bem. – o padeiro abaixou as mãos de Dark e se adiantou olhando nos olhos do vampiro. – Basta um, não é? Os outros dois saem livres?
– Basta um. – o vampiro afirmou o olhando com certo respeito. – Seus filhos sairão livres.
– Não! – Dark, Giovanna e Enrico gritaram juntos.
– O senhor não pode...– Giovanna suplicou.
– Pai, não! – Enrico tentou puxá-lo, mas o padeiro se desvencilhou de seus braços e foi para junto do vampiro.
– Pare já com isso. – Dark disse cheio de firmeza. – Como se eu fosse fazer uma coisa assim...
– Se você não fizer – o padeiro olhou triste para Dark –, meus filhos morrerão.
– Não, Dark. – Giovanna agarrou o braço de Dark. – Não faça isso com o meu pai.
– Você não pode, cara! – Enrico segurou o ombro de Dark e o olhou cheio de medo.
Dark olhou para os irmãos depois para o pai. Ele nunca, em toda sua vida, se imaginara bebendo o sangue de alguém e não estava nenhum pouco ansioso para experimentar. Além disso, matar Marvollo não era uma opção. Mas se ele não o matasse, o vampiro mataria os três.
– Vou facilitar para você, Dark. – o vampiro disse antes de rasgar a garganta do padeiro com suas garras afiadas.
Dark e os filhos do padeiro gritaram enquanto o homem tentava tapar o ferimento com as mãos. O sangue escorria por entre seus dedos e logo ele empalideceu e caiu de joelhos olhando cheio de expectativas para Dark.
– Não... – Dark balbuciou.
Giovana tapou o rosto com os mãos e se agachou no chão chorando. Enrico ficou parado como se fosse uma estátua. Seus olhos arregalados não deixavam o pai moribundo.
– É melhor se apressar, Dark. – o vampiro disse. – Se ele perder muito sangue, talvez seja necessário mais um...
O padeiro estendeu o braço em direção à Dark, suplicando. Dark olhou para Enrico paralisado ao seu lado e Giovanna encolhida no chão e tomou sua decisão. Com passos firmes, ele foi até o padeiro e se agachou junto a ele. O padeiro agarrou seu braço. Dark o puxou para junto de si e inclinou a cabeça para baixo, seu nariz quase tocando a pele do homem. Enrico balançou a cabeça levemente como se não acreditasse no que via. Giovanna abriu os olhos e espiou por entre os dedos. Dark fechou os olhos e colou os lábios na ferida do homem. Assim que sentiu a primeira gota de sangue, Dark sentiu um formigamento no corpo, seu estômago doeu de fome como nunca havia doído antes. E ele sentiu a necessidade de sugar mais e mais. Foi com um fúria insandecida que Dark apertou o padeiro contra o corpo e cravou as presas que mal sabia quando haviam surgido em seu pescoço fazendo mais sangue jorrar para dentro de sua boca. Um rugido gutural irrompeu de sua garganta quando ele sentiu os ossos do pescoço do padeiro se quebrarem com seu aperto. Mas ele não se importou. Ele partiria o homem ao meio com suas próprias mãos se isso fizesse com que mais sangue fosse para sua garganta.
Quando não havia mais nada para sugar, fora o sangue frio que sujava suas mãos e o corpo destruido do padeiro, Dark ergueu a cabeça e farejou o ar sentindo o cheiro de sangue quente bem perto del. Dark rugiu novamente e seu olhar recaiu sobre os irmãos. Enrico continuava parado, os olhos arregalados e a boca aberta. O pavor estampado em sua face. Giovanna, ainda encolhida e com as mãos sobre o rosto, o observava por entre os dedos com os olhos arregalados de medo.
Por um instante, Dark mal soube quem eles eram. Apenas sua fome fazia algum sentido. Dark, de quatro no chão, como um fera selvagem, se moveu lentamente em direção aos irmãos. Enrico deu um passo para trás. Giovanna, meio atrás do irmão, se encolheu de medo. Dark, então, saltou e num piscar de olhos estava com Enrico preso contra a perede. Sua mão se fechava com força contra sua garganta e ele rugiu cheio de fome. Já ia quebrar seu pescoço quandou ouviu Giovanna gritar aos seus pés. Ele olhou para ela e seus olhos se encontraram. Nos grandes olhos de Giovanna se via mais que medo, via-se repulsa, decepção. Dark, então, sentiu seu peito doer e a dor em seu peito era maior que a dor em seu estômago.
A mão de Dark afrouxou o aperto e Enrico deslizou para o chão. Dark abaixou a cabeça e mordeu o lábio inferior fazendo seu próprio sangue escorrer. Ele, então, virou-se e foi para junto do vampiro que o esperava junto a porta.
– Vamos. – Dark disse baixinho.
O vampiro o olhou com curiosidade, mas balançou a cabeça concordando. Antes de sair pela porta atrás do vampiro, Dark olhou para trás. Os irmãos estavam abraçados no chão.
– Me perdoe. – Dark sussurrou ants de ir.
II
O vampiro o conduziu à janela junto ao corredor e a abriu.
– Há humanos na rua. – o vampiro disse. – Com toda essa confusão, capaz de já terem chamado a polícia. Vamos sair sem sermos vistos, ok?
– Medo? – Dark provocou.
– Medo, não. – o vampiro disse sem se abalar. – Precaução. A nossa existência é apenas um mito para os humanos e queremos que continue assim.
O vampiro pulou para a janela e apontou.
– Vamos pular para o telhado da casa vizinha e de lá para outro até sairmos dessa vila.
– Eu nunca... – Dark começou a dizer.
– Não se preocupe. – o vampiro disse. – Você consegue. É um vampiro agora.
O vampiro saltou para o telhado do vizinho e sinalizou para que Dark o seguisse. Dark se encarapitou na janela e olhou para baixo. Podia ver algumas pessoas saindo de suas casas e indo para a frente da padaria. A rua estava totalmente escura, como se alguém houvesse destruído toda as lâmpadas dos postes. Dark olhou para a criatura no outro telhado. Provavelmente ele havia feito aquilo. Apesar da falta de luz, Dark podia ver perfeitamente cada pessoa da vila. Podia sentir até mesmo o cheiro de seu sangue e ouvir o som do coração pulsando no peito. O vampiro voltou a sinalizar para Dark. O jovem respirou fundo e saltou surpreendendo-se quando pousou com graça ao lado do vampiro.
– Bom. – o vampiro elogiou. – Vamos indo.
Antes de seguir o vampiro, Dark olhou uma última vez para a casa de Marvollo. O padeiro e a família o haviam acolhido e Dark pagara o favor matando o homem. Giovanna e Enrico jamais o perdoariam. Dark nunca se perdoaria. Ele nunca mais poderia voltar ali. Ele nunca mais veria Enrico e... Giovanna.
Com lágrimas nos olhos, Dark virou as costas para a casa e foi atrás do vampiro. Seu futuro era sombrio.
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