Crisanen e o Manuscrito Perdido
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Casa do Sr. Georg Gorap

Sr. Georg: ─ Quem está aí? Perguntou o velho mirrado com sua voz apagada e rouca, mãos cruzadas no peito, ao perceber alguém em sua casa. Estava deitado em sua cama. Por morar sozinho há mais de 40 anos, uma presença inesperada assim no meio da noite não era algo comum.
??? ─ ... Crisanen. Respondeu a voz feminina.
Sr. Georg: ─ Quem??? Estranhou, forçando a vista e vendo a silhueta dela parada atrás das cortinas. Lembrava uma artista esperando pra entrar no palco. Ficou curioso mas não teve medo. Sua idade avançada não lhe permitia se impressionar com mais nada.
Crisanen: ─ ....Crisanen Lifedrinker. Reafirmou, ainda sem se revelar.
Sr. Georg: ─ Quem nesse mundo é Crisanen Lifedrinker? Já um pouco nervoso com aquilo.
Ela então se revelou passando pelas cortinas. Era uma vampira de aparência jovem e pálida, de cabelos roxos, um penteado repartido no meio com dois coques laterais, vestia blusa e saia curtas de seda, com babados, laços e renda geral. Seus olhos eram amarelados e seus lábios vermelhos. Tudo nela deixava transparecer seu jeito esnobe, vaidosa e atrevida.
Sr. Georg: ─ Eu sei quem é você! Disse depois de puxar pela memória e recordar já ter visto ela antes.
Crisanen: ─ Sim, acho que já nos vimos rápido outras vezes, quando você era mais jovem. Porém nunca tivemos a chance de nos conhecer não é? Caminhou acautelada com os olhos fixos nele até a cama e se sentou ao seu lado. ─ Mas, antes tarde do que nunca! Falou, apoiando as duas mãos no travesseiro e olhando-o mais de perto, num movimento ousado de intimidade.
Sr. Georg: ─ Por que está aqui?
Crisanen: ─ Eu estava passando, vi a luz do quarto acesa, e vim fazer uma visita cordial ♪
Sr. Georg:─ Eu deveria ter apagado a luz do quarto.A voz saia extenuada daquele corpo seco e enrugado.
Crisanen: ─ O que houve? Está com problemas pra dormir?Cruzou as pernas e ficou balançando um dos pés descalços.
Sr. Georg:─ Você está certa. Eu não estava conseguindo dormir. Que horas são?
Crisanen: ─Já é mais de meia-noite. Quer que eu conte uma história legal e divertida pra dormir bem?
Sr. Georg: ─ Você disse que veio fazer uma visita...
Crisanen: ─ Uhum. Uma visita cordial.
Sr. Georg: ─ Cordial... Você possivelmente veio sugar o meu sangue.
Crisanen: ─ Eu sugaria. Mas o tempo já sugou toda a sua força vital que algum dia teve. Uma pena, porque eu sei que você tá morrendo de vontade que eu sugasse o seu sangue...
Sr. Georg: ─ Humph. Seria um grande presente de aniversário...Falou irônico.
Crisanen: ─ Que fragrância é essa? Se distraiu e começou a farejar o ambiente. Pressentindo de onde vinha o cheiro que despertara sua atenção, ela levantou-se e caminhou até uma velha cômoda de madeira. ─ Posso ver? Sorriu buscando simpatia, já com as duas mãos prontas para abrir as duas pequenas portas da cômoda.
Sr. Georg: ─ Tudo bem. Não tem nada de valor aí. Observou a vampira de frente para o espelho em cima da cômoda; ela não tinha reflexos. E nem seu corpo lançava sombras com a luz da lâmpada de óleo do quarto. Depois ele simplesmente voltou o olhar para o teto do quarto.
Crisanen: ─ Uhnm! Eu sabia, perfumes antigos~ Vamos ver ♪ Pegou alguns dos frascos e daí começou a experimentar, comentando cada uma das fragrâncias, perdida em seu mundo particular. Só depois de um tempo lembrou-se do velho que fitava o teto do quarto em silêncio. ─ Hoje é seu aniversário? Tentou reatar o fio da conversa enquanto continuava ali.
Sr. Georg: ─ Sim, hoje é meu aniversário de cem anos.
A vampira ao ouvir aquilo olhou o Sr. Georg um tanto admirada.
Crisanen: ─Eu tenho mais de quatrocentos.
Sr. Georg: ─ Sim, mas você suga sangue pra não morrer. Você bebe o sangue das pessoas... É por isso que você não envelhece. Você mata as pessoas pra cont──
Crisanen: ─Tá bem, filho! Já deu pra entender.
Sr. Georg: Eu tive uma vida longa e sem arrependimentos, a não ser um. Meu avô, o Dom Peter Gorap costumava ser um dos favoritos do rei, chegando a fazer parte da corte real, e ganhou uma grande casa pra morar. Um dia, ele foi designado pelo rei para guardar consigo um importante pergaminho. Infelizmente ele morreu tragicamente em um acidente enquanto montava. Nenhum sinal do manuscrito foi encontrado, nem com ele, nem na casa onde morava. O rei não gostou de perder aquele manuscrito, e considerou que meu avô foi descuidado ou talvez tenha agido traiçoeiramente contra ele.
A essa altura, Crisanen já havia parado de bisbilhotar pelos pertences do velho e agora ouvia a história daquele senhor centenário estendido ali na cama. Sentia-se impaciente mas não quis ser rude. Coçou a testa e em consideração por ser seu aniversário de cem anos tentou ouvir até o fim as palavras cansadas dele.
Sr. Georg: ─ Nada foi provado, mas a minha família caiu em desgraça. Perdemos nossas riquezas. E a casa agora é propriedade real. Nesse instante ele lançou em direção a vampira um olhar cheio de súplica. ─ Eu sempre acreditei na inocência do meu avô... Se ao menos esse manuscrito fosse encontrado, eu poderia limpar o nome da minha família e morrer em paz.
Crisanen: ─ Espera: quer que eu saia por aí atrás desse cacareco? Reagiu incrédula.
Sr. Georg: ─ Eu sei que estou pedindo muito. Mas se você apenas pudesse uma última vez procurar pelo pergaminho na antiga casa, já era o bastante pra mim.
Crisanen: ─ Tá bom. Respirou fundo e decidiu aceitar aquela tarefa. ─ Só vou procurar isso porque hoje eu realmente não tenho nada pra fazer. E também porque você gostou de me conhecer e ficou encantado comigo. Ficou desorientado e mal consegue disfarçar isso. Ficou, ficou, ficou.
Sr. Georg: ─ ....Boa sorte na sua busca pelo pergaminho. A casa fica na cidade.
Crisanen: ─ Antes de ir, me diga, qual é o seu nome? Eu já disse o meu.
Sr. Georg:─ Georg Gorap. Prazer. Estendeu a mão, o único movimento que fez desde que ela chegou.
Crisanen: ─ Prazer. Ela apertou a mão cumprimentando, e pode ver a surpresa nos olhos dele ao sentir o frio da mão dela. Mantinha contato visual com suas vítimas com um olhar perdido e indecente, como se estivesse imaginando loucuras. ─ Volto antes do amanhecer. Depois pensou consigo mesma: "Assim que eu conseguir isso que tanto quer, vou chantagear e brincar com você como nunca imaginou ♪"
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