Criminal Mind
1 The Many Faces of an Angel
Notas iniciais
John tinha recentemente adquirido o hábito do café. Antes era apenas por mera casualidade, porém agora ele tomava a bebida compulsivamente. Estava praticamente sobrevivendo apenas com café. Como ninguém está livre de consequências o loiro sofria constantemente de insônia. Ficava acordado por noites inteiras, pensando em só Deus sabe o que. Às vezes assistia a programas nem um pouco interessantes na TV, mas a maior parte do tempo ficava apenas encarando a janela.
Desde que John começara a viver assim, Sherlock mal saia do próprio quarto de madrugada. Sempre ia a sala de estar nas horas mais escuras da noite para tocar seu violino ou quem sabe mergulhar em casos e fazer suas deduções, mas não mais. Não queria admitir, mas estava com medo de olhar para John. Medo de olhar nos olhos do amigo sabendo o que já tinha planejado.
Mas para a sorte de Sherlock, naquela específica noite, o loiro dormia como uma criança. Não querendo interromper o silêncio, andou na ponta dos pés até o quarto de John para checar se ele realmente estava dormindo. Depois se dirigiu à porta do flat, na esperança de que ela não fizesse barulho ao ser aberta. Aprendera tempos atrás que a audição de um médico militar era muito boa, obrigado.
Sem pegar seu costumeiro casaco, saiu do aposento. Não queria ser reconhecido. Dado o local que estava se dirigindo não podia se dar ao luxo de ser reconhecido. Era madrugada, sim. A rua estava deserta, porém prevenção nunca é de mais.
Estava vestido com uma camisa de seda preta com botões, um casaco totalmente diferente ao que estava acostumado, assim como um chapéu que não fazia nada seu estilo. Mas era preciso.
O lugar destinado era muito longe para uma caminhada completa, então resolveu ir andando até achar um táxi. O que, para sua surpresa, não foi difícil.
O ar estava gelado e, para sua infelicidade, tinha esquecido as luvas. As mãos, bochechas e nariz estavam vermelhos e frios quando entrou no táxi.
Deu o endereço desejado ao motorista, que nem sequer olhou para seu rosto. Fato o qual Sherlock agradeceu. Percebeu que a pequena viagem seria silenciosa, do jeito que apreciava.
Para sua surpresa levou menos tempo do que esperava para chegar ao enorme e único prédio daquela região. Pagou o taxista e saiu, admirando a construção de doze andares. Parece pouco, mas eram andares enormes e largos. Uma típica moradia para pessoas economicamente privilegiadas.
Tocou a campainha do portão de entrada para visitantes, esperando a voz do porteiro. O que na verdade veio a ser a voz de uma mulher, pelo que parecia de uns cinquenta anos. A síndica, talvez? Tinha um tom grave. E urgente, o que parecia desnecessário para o detetive.
Disse seu próprio nome e o de quem desejava visitar, junto com o bloco, número do apartamento e essas formalidades. Ela fez a ligação para o sujeito, que já estava esperando Sherlock.
A mulher resmungou algo ininteligível e apertou um botão qualquer que fez com que o portão branco envernizado abrisse. O moreno entrou e voltou a fechar o portão. Passou pela cabine dos porteiros e acenou condescendentemente para a mulher, que estava prestando atenção em qualquer programa bobo na pequena televisão.
Passou pelo estacionamento de visitantes e achou a entrada para a garagem dos moradores, onde ficava o elevador. Foi fácil achar essa entrada, já que a maioria dos carros se aglomerava em um só canto. Hoje em dia ninguém quer nem mais fazer uma curta caminhada de seu carro até o elevador.
Dirigiu-se para o ponto desejado, esperando não encontrar sinal de vida. O lugar estava quieto, sem vozes ou passos, o que o aliviou. Estava realmente preocupado em ser reconhecido. Como John reagiria se soubesse onde ele se encontrava? Provavelmente defenderia Sherlock, dizendo que ele foi até lá apenas para exigir explicações. Pobre John, não passava de um tolo. E o detetive não queria nenhum tipo de suspeitas sobre seus planos.
Entrou na cabine metálica, apertou o botão correspondente ao andar desejado e esperou. Esperou e esperou. Claro que tinha que ser a cobertura, pensou Sherlock exasperado.
Quando finalmente o elevador parou e abriu o detetive foi recebido pelo silêncio. A porta da cabine dava direto no apartamento. Privilégios, ou não, da cobertura.
O aposento estava escuro e silencioso. Deu alguns passos em frente, esperando não esbarrar em nada. Os olhos ainda nem tinham se acostumado com a escuridão quando luzes fracas foram acesas e ele ouviu uma voz:
– Holmes, venha até onde eu estou. — disse a voz, com um quê de psicopatia. Nem ele nem ninguém podiam negar que esse tom estava impresso no sujeito. Na voz, na expressão. Nos olhos. Sherlock não gostava de admitir seus receios, mas aquele olhar deixava-o assustado.
– Diga-me onde está então. — respondeu ele, calmo.
– Por que não testa suas habilidades e me encontra? Disseram-me que é um bom detetive. — o sujeito falou também calmo. Sabia que aquilo não passava de uma brincadeira de criança, qualquer um podia seguir o som de uma voz. Mas sempre fora atraído por teatralidades.
Não houve resposta, a não ser os passos que podiam ser ouvidos do cômodo onde o sujeito se encontrava. Vinham exatamente em sua direção. De repente, um corpo alto e esguio apareceu na luz fraca, revelando por fim o rosto pálido e a expressão séria de Sherlock.
– Moriarty. – cumprimentou o detetive, num tom que indicava intimidade. – Como vai?
– Bem, bem. Mas não veio aqui para trivialidades como essa, não é mesmo? Se você não estivesse bem eu perceberia. Parece sentir um pequeno desconforto, porque sei que no fundo ficou, hm... Acostumado com seu pequeno bichinho de estimação.
– O detetive aqui sou eu, não? Você faz o papel do criminoso. E sim, tenho meus sentimentos por John. – rebateu, sentindo uma raiva indesejada por o outro ter chamado Watson de “pequeno bichinho de estimação”. Bom, não tão indesejada assim.
– Sentimentos por ele? Que tipo de sentimentos? Ah, nem se atreva! – apagou sua própria pergunta, já sabendo a resposta. – Só me diga... Sentimos que implicariam no nosso estado atual?
Sherlock apenas balançou a cabeça no sentido negativo, talvez mentindo. John era importante para ele de alguma forma, em seu pequeno e tolo jeito.
Mas o detetive precisava se afastar, por esse e outros motivos. Estava... Incapaz. Incapaz de resolver seus casos. Simplesmente não conseguia. O grande Sherlock Holmes estava com um bloqueio severo. Geralmente não se importava com o que iriam dizer sobre ele na mídia, mas exatamente porque nunca passara por uma experiência incapacitante como esta.
Enquanto refletia distraidamente, Moriarty saiu de onde estava sentado e começou a andar furtivamente para perto de Sherlock. Ele estava consciente da aproximação do outro, mas não dava a mínima no momento. Travava uma forte batalha em sua mente, relembrando tudo o que havia acontecido desde que conhecera John. E desde que conhecera Moriarty. Maldito dia, sempre se lamentava.
Não que estivesse apaixonado, nada disso. Porém o ritmo do criminoso, suas atividades ilícitas, as gangues com quem se relacionava... Sherlock era atraído por essa adrenalina. E, pelo que parecia, ele podia confiar desconfiadamente de Moriarty, e isso o deixava satisfeito. Pelo menos o bastante para que a excitação que a vida criminosa de Moriarty trazia a Sherlock chegasse a outros níveis.
Já com John era diferente. Ele era especial, sem dúvida. Um amigo e tanto, um daqueles que você confiaria a própria vida sem ao menos pestanejar. Ou seja, raro. Mais raro ainda para Sherlock, que sempre mantivera sua política sobre amigos. Mas John não trazia a excitação e as possibilidades que Moriarty dava a ele. Apesar da ajuda que recebia do loiro em seus casos e nas compras do mês, não era nem de longe a mesma coisa. A mesma empolgação. A mesma necessidade.
De repente, foi despertado de seus pensamentos pelo toque gelado dos dedos do criminoso em seu peito nu. Ele tinha desabotoado um pouco a camisa enquanto Sherlock nadava em seus pensamentos. Veio à tona, porém não respondeu aos toques. Moriarty já sabia que aquilo significava continue. E foi o que ele fez.
Terminou de desabotoar a camisa, sentindo o tecido macio. Levou as mãos ao peito de Sherlock, apenas admirando. Era pálido. Magro e forte ao mesmo tempo. Fascinante. Apesar dos olhares urgentes que lançavam um ao outro, ali não havia um pingo de paixão.
Como Sherlock também sentia, Moriarty era atraído pela empolgação de se deitar com um, como o criminoso mesmo o chamava, defensor da justiça, um sujeito a trabalho da lei. Novamente as teatralidades. Sherlock explicara que o que realmente importava para ele era testar seus “poderes mágicos”. Gostava de saber das coisas; como aconteciam, por que aconteciam, onde aconteciam. Não tinha nada a ver com a lei. A justiça apenas levava uma contribuição final, já que no fundo não tão fundo assim ele gostava de se aparecer. Gostava de ver todo mundo admirado, fascinado.
Fascinado era a palavra correta para traduzir o olhar de Moriarty. Ele olhava Sherlock com uma expressão enigmática em suas entranhas, mas fascinada por fora. De repente afastou-se do detetive, sentando na beirada da espaçosa cama coberta com lençóis de um tom verde-escuro. Os preferidos do criminoso.
Sherlock logo se juntou a ele, sentando de um modo em que as pernas de ambos se tocaram. Isso acarretou um pequeno, mas poderoso arrepiou na nuca de Moriarty. Este ergueu o olhar vagarosamente, fixando apenas a boca do detetive.
Sherlock sentiu o olhar penetrante e virou-se na direção do amante. Não havendo mais espaço para as pernas Moriarty posicionou a esquerda na coxa do outro, esperando reação. Essa que veio de imediato.
O moreno levou as mãos fortes para o queixo do criminoso, fazendo-o suspirar com o toque gelado e satisfatório. Aproximou o rosto ao de Moriarty, este sentindo seu hálito quente.
Das faíscas provocadas por ambos, já que as mãos de Jim passeavam por lugares suscetíveis a situação, veio um beijo. Urgente, agressivo até. Mas quente... Regado pela excitação que os dois sentiam. Anjos. Os dois. Porém nem todos os anjos são bons. Existem os mandantes, existem os desertores. As diversas faces de um anjo.
A noite ainda era uma criança, e nenhum dos dois estava com pressa. Sherlock apenas lembrava vagamente de que se não chegasse no flat antes de John acordar teria que arrumar uma ótima explicação para sua ausência, já que sempre estava em casa de manhã. Não poderia simplesmente dizer que foi dormir com seu aparentemente arque-inimigo.
O beijo de repente esquentou, as mão de Moriarty ainda passeando pelo corpo do detetive enquanto este também dava seu jeito de entreter o parceiro. Logo as roupas estavam espalhadas pelo chão de mármore frio e liso.
Apesar do frio extremo natural da cidade, aquele chão parecia uma boa pedida. Nunca tinham provado ali. Sherlock puxou o amante junto quanto escorregou para o piso, recebendo um rápido, quase imperceptível, olhar de surpresa. Apenas ignorou. Queria ali.
Jim tratara de pôr-se a funcionar, dominando o detetive. Apenas por um tempo, na verdade. Nenhum deles trocaria a dominância pela submissão completa, então revezavam. Logo o silêncio do quarto era preenchido pelos sons do contato humano. Da intimidade. Da urgência.
Ambos tinham sede. Sede pelo contado, os corpos numa agradável e íntima luta. Silenciosa, ao mesmo tempo barulhenta. Esqueciam-se de tudo. De John, da incapacidade momentânea para deduções. Das horas, do plano para o dia seguinte... Do ar gelado que embalava seus corpos quentes.
Entre eles, silêncio. Nenhuma palavra sequer era trocada. Já o quarto era banhado pelo som que os dois corpos suados produziam em seu encontro. O som do vácuo preenchido. Os sons graves e agudos saindo de suas bocas, também urgentes como a sede. A sensação era barulhenta também, é claro. Molhada. Suor pingava dos dois, na mais completa devoção. Beijos eram distribuídos. A boca macia de um não encontrava apenas a boca macia do outro. Havia outros lugares a serem explorados.
A noite apenas passava de sua metade quando o ato chegara a seu ápice. Talvez o melhor que já tiveram. O possível causador, além da implicante lei? A performance final, que seria apresentada na manhã que estava por vir.
– Jim – sussurrou Sherlock, ainda deitado no chão, ao lado do parceiro.
– Diga. – respondeu apenas isso, talvez por culpa de sua não recuperada falta de fôlego.
– Está tudo pronto para... Você sabe do que eu falo...
– Não queira fazer segredo, senhor Holmes. Não queira ser enigmático... Eu sei do que está falando, e desde que eu conheço a anatomia de objetos inanimados sei que as paredes não têm ouvidos.
– Eu não... Jim. – foi o que conseguiu dizer, acompanhado de um pequeno riso que foi automaticamente seguido pelo criminoso. Mesmo não havendo uma paixão, Moriarty era atraído por aquele tom grave do riso do detetive.
– Eu sou um profissional, e você está bem informado sobre isso meu caro. – falou o criminoso, relaxado. – Não se preocupe, está tudo pronto. Vai acontecer do jeito que você deseja. Você ligará para John, ele será distraído pelo tempo exato que você precisa para...
– Eu sei o plano, não há necessidade de repeti-lo para mim. – logo interrompeu a explicação de Moriarty, não querendo mostrar as fraquezas que nem sequer possuía, como o esquecimento. — Com certeza não irei esquecer. Eu vou morrer, lembra? Acho que não costumamos esquecer um compromisso como esse. – olhou no pequeno relógio dourado que estava em uma bela e rústica cômoda e completou: — Acho que tenho que ir para casa.
Fale com o autor