Criminal.
17 Capítulo 17: Please, don't leave me.
Point of view: Selena.
Conforme eu apertava os passos através do extenso corredor branco, pareciam que todos os olhares se fixavam ainda mais em mim, como se todos ali soubessem. De fato, todos sabiam. Era impossível esconder o quão vermelhos meus olhos estavam e o quanto a ultima noite em claro havia feito com que olheiras roxas tomassem as partes inferiores dos meus olhos. Agarrei-me ainda mais ao meu fichário como se pudesse ali encontrar um abraço protetor e contornei os armários, percorrendo de cabeça baixa mais outro corredor. Todos aqueles olhares pareceram pesar sob meu corpo e num movimento involuntário levantei os olhos parcialmente apenas para constatar que todos estavam me olhando com expressões das mais diversas possíveis. Entre os olhares encontrei pena, nojo, insatisfação, solidariedade... Voltei a caminhar até o meu próprio armário e coloquei meu fichário lá, fechando a porta do mesmo sem fazer nenhum movimento que pudesse atrair ainda mais a atenção.
– Ei, Selena.
Ao virar para o lado, deparei-me com um garoto que nem se quer conhecia e apenas suspirei me preparando para o que estava por vir. Estava sendo assim a semana inteira.
– Eu fiquei sabendo por aí que você é lésbica e sua namorada te traiu com outra mais gostosa. – ele riu – Não chore, isso que você tem é falta de um homem de verdade. Eu posso consertar você. – nem mesmo tive forças para responder – O que você acha?
– Eu acho que você deveria dar o fora. – a voz de Taylor soou ameaçadora próxima ao meu ouvido –
– Ei, acalme-se, gatinha. – riu novamente –
– Por que você não vai procurar outra pessoa para torturar? – Ashley posicionou-se ao meu lado –
– É, por que? – Taylor tomou a frente e empurrou o garoto pelos ombros –
– Pelo visto vocês são um bando de lésbicas. – ele cruzou os braços com a sobrancelha erguida –
– E se nós formos? – Ashley parou ao lado de Taylor formando uma barreira – Você nunca teria uma chance mesmo. – deu de ombros –
– Eu vou cair fora antes que esse pozinho gay que vocês usam seja lançado em mim. Doentes.
Antes mesmo que minhas amigas tivessem uma chance de alcançar-me, eu já estava fora da escola correndo diretamente para o meu carro. Ao entrar no veículo, certifiquei-me que estava de cinto para começar a dirigir o mais rápido que consegui para casa. Mesmo sabendo que seria questionada pela minha mãe, eu não estava em condições de permanecer naquele lugar para receber mais e mais piadas sobre a minha atual situação amorosa. Já estava doendo o suficiente sem ninguém precisar tocar na ferida. Logo após estacionar o veículo adequadamente no gramado eu tranquei-o na chave e atravessei a sala de estar como um raio, deixando finalmente que todas as lágrimas que estavam presas saíssem, proporcionando-me novamente o meu próprio inferno particular. Os músculos pareciam repuxar em meu estomago causando a estranha dor que seguia até o meu peito, onde apertava ainda mais, como se pouco a pouco os meus ossos estivessem se quebrando. Meu soluço alto ecoou no quarto quando levantei determinada. Entrei no banheiro, trancando a porta antes de seguir até o armário onde haviam os mais variados tipos de remédio e peguei um do que sabia ser o calmante preferido da minha mãe. Joguei alguns comprimidos na mão que em uma conta rápida notei serem nove e engoli todos de uma vez com a ajuda da água da pia. Olhei meu rosto no espelho uma última vez, sabendo que era o rosto de talvez a mulher mais tola e inocente do mundo. A raiva me fez socar o objeto com a mão fechada e recuar com a mesma imediatamente após sentir o impacto causar uma dor diferente da que habitava meu peito há alguns dias. Dar-me conta de que eu não estava chorando pelo que aconteceu hoje e sim porque sentia falta de Demi deixou-me com ainda mais raiva, e mais alguns comprimidos rolaram para a minha mão, porém antes que eu pudesse levá-los até a boca, meu corpo estava batendo contra o chão. Por alguns segundos de inconsciência, vi o sorriso perfeito estampado no rosto da garota e o incomodo em meu estomago se intensificou, aliviando logo em seguida quando os dedos delicados tocaram meu rosto em uma leve carícia no meu maxilar. “Fique forte.” As tatuagens dos pulsos me foram mostradas e então o sorriso estava desfeito, dando lugar a uma expressão de pânico que até então nunca havia sido presenciada por mim.
– Selena!
Desviei o olhar para o lado, observando sem nenhuma reação quando minha mãe aproximou-se correndo e ajoelhou ao lado do meu corpo já quase sem vida. E então, Demi desapareceu. O choro alto, os gritos, a correria, nada daquilo parecia o suficiente para me atingir naquele momento, e julguei que o remédio deveria estar fazendo o efeito que eu desejava. Em poucos minutos, toda aquela dor insuportável teria ido embora e eu poderia finalmente ficar em paz. Sem dor, sem cobranças, sem vinganças, traições, nada. Apenas eu. “A morte é fácil, rápida. Viver é difícil.”
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Point of view: Demetria.
No momento em que Selena atravessou a porta foi o momento em que me dei conta do quão estúpida e infantil eu estava sendo por usar os sentimentos de uma até então inocente garota que não tinha nem um pingo de culpa por ser filha de Mandy. Liguei para o celular dela diversas vezes durante a semana, cheguei a ir até a porta da faculdade e esperar que a garota saísse para tentar de alguma forma me desculpar, mas parecia que quanto mais eu esperava, mais ela demorava. Em um desses dias que estava esperando, vi uma certa movimentação e dei-me conta de que se tratava de Selena quando três garotas saíram correndo e apontaram na direção de um carro que passou rapidamente pela minha frente. Acelerei o meu próprio veículo deixando que algumas lágrimas escorressem pelo caminho já conhecido por mim até a enorme mansão branca. Fechei os olhos com força quando vi o carro preto estacionado lá sinalizando que Mandy estava em casa e resolvi estacionar um pouco antes do portão prateado para esperar até que a Gomez mais velha saísse para o trabalho e eu pudesse entrar para tentar reparar todos os danos que havia causado a garota pela qual me vi disposta a mudar. Enquanto esperava, permiti-me chorar mais uma vez naquele dia, tendo em vista que havia chorado pela manhã quando mandei uma mensagem e Selena não respondeu. Creio que perdi a noção do tempo em algum momento enquanto tentava encontrar uma solução para a situação na qual me encontrava e pulei no banco com o susto quando vi a ambulância abrir as portas traseiras e três enfermeiros saltarem apressados correndo na direção da casa. Antes que pudesse controlar o impulso, percebi que já estava empurrando o corpo de uma enfermeira contra a parede.
– Mas o que significa isso? – perguntou a mulher um tanto quanto incrédula –
– Quem vocês estão indo socorrer? – grunhi contra o rosto da mulher, imprensando-a ainda mais no muro –
– Eu não sei se devo dizer a você, você está me esmagando contra um muro. – franziu o cenho –
– A MINHA NAMORADA MORA NESSA CASA! ME DIZ AGORA! – gritei –
– Selena Gomez. – sussurrou devido ao aperto do meu braço agora na garganta exposta –
– Selena? – minha pergunta saiu num sussurro e a garota assentiu – O que houve?
– Tentativa de suicídio, e se você não me deixar sair daqui, creio que essa tentativa será concretizada.
A onda de choque atravessou meu corpo no mesmo instante em que o medo e sentimento de perda me fizeram crer que se aquilo realmente acontecesse, eu não seria capaz de viver com a culpa que ficaria impregnada em cada célula do meu corpo. No momento em que tomei consciência novamente, ignorei o fato de que provavelmente estaria assinando minha sentença de morte e adentrei a enorme casa, correndo direto para o quarto que sabia ser de Selena. A movimentação e aglomeração de pessoas fez com que todo o meu nervosismo se intensificasse e um choro abafado explodiu em meu rosto, atraindo alguns olhares para mim. Mandy estreitou os olhos e colocou-se de pé em uma postura defensiva enquanto avançava em passos consideráveis na minha direção.
– O que você está fazendo aqui?
– Eu vim ver Selena. – anunciei com a voz firme apesar do choro –
– Como você ousa? – um tapa inesperado acertou a lateral esquerda do meu rosto em cheio – Se eu souber que você está envolvida nisso, eu acho que sou capaz de tirar sua vida com minhas próprias mãos! – o grito pareceu não influenciar em nada os paramédicos, que me impediam de ver Selena –
– Então tire! – avancei na direção da mulher – Tire, porque eu estou envolvida nisso! Eu estou tão envolvida nisso que estou aqui, chorando e discutindo com a última pessoa que eu gostaria de ver na minha vida! Eu estou tão envolvida nessa porcaria que eu vim me desculpar com a sua filha, e você sabe por que? – gritei, empurrando Mandy pelos ombros – Porque eu estou apaixonada por ela! E você conseguiu estragar tudo outra vez! Se não fosse você eu estaria feliz com ela, e não precisaria estar vendo-a morrer! Por culpa sua! Então se você não se importa com a sua filha o suficiente para esquecer nossas diferenças, eu me importo com ela o suficiente para matar você agora se não sair da minha frente e me deixar ir ver o que está acontecendo. – dei mais um passo firme – Como vai ser?
Quando passaram-se alguns segundos e a mulher não se moveu, não hesitei em empurrá-la para o lado bruscamente fazendo com que o corpo musculoso caísse contra a cama bagunçada. Corri até Selena a tempo de ver que os paramédicos estavam terminando de amarrá-la na maca e um dos enfermeiros tentava manter os olhos da garota abertos.
– Selena? – choraminguei empurrando todos em minha frente até tocar o rosto mais pálido do que o habitual com a ponta dos dedos – Sel... Sou eu, Demi... Por favor, Selena, seja forte. Fique forte, olha... – ergui os pulsos permitindo que a mesma visse as tatuagens e quando as sobrancelhas se franziram não pude conter um sorriso – Por favor... Não me deixe.
O sorriso foi desfeito quando observei em silencio os olhos da garota se fecharem e uma massagem cardíaca ser iniciada violentamente. Os gritos, os chamados de Mandy, alguém me afastando, nada parecia fazer sentido depois que senti em algum lugar dentro de mim o medo de talvez não ver Selena sorrir nunca mais.
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