Criminal.
20 Capítulo 20: How to love.
Notas iniciais
Point of view: Demetria.
- E agora?
- Agora você precisa esperar mais 5 minutos. – Selena encarou-me através do espelho com um meio sorriso – Pelo menos é o que diz aqui na caixa.
- Não ficou tempo demais? – girei a cadeira até estar de frente para ela com a testa franzida – Quer dizer... O meu cabelo não vai ficar vermelho nem nada do tipo?
- Mas é claro que não, Demi. A tinta é rosa para o cabelo ficar rosa, daí você deixa de acordo com o rosa que quer. – o sorriso largo estampou a face de Selena –
- Eu não quero cabelo rosa nenhum. – revirei os olhos enquanto permitia que minhas mãos segurassem a cintura de Selena –
- Vai ficar bonito, e além do mais nem vai ser o cabelo inteiro. – deu de ombros antes de abaixar o rosto e selar nossos lábios demoradamente –
- Eu sou uma criminosa, eu não posso ter o cabelo rosa sabia? – sussurrei contra os lábios macios antes de fechar os olhos e sorrir –
- Selena, sua mãe está na porta.
Virei o rosto instantaneamente para a figura masculina que havia adentrado o meu quarto o mais silenciosamente possível e apertei ainda mais os dedos contra a cintura fina da garota agora tremula em meus braços.
- Boa noite, Demi.
- Boa noite pai. – balancei a cabeça em afirmação uma vez – Selena já está indo.
- É melhor que vá com ela. – o tom grave alertou antes mesmo que eu estivesse de pé – Ela parecia bem nervosa e difícil de controlar. Dianna está lá embaixo tentando controlá-la.
- Acho que preciso resolver isso sozinha. – a voz sussurrada me fez estremecer –
- Já te deixei sozinha por tempo demais.
- Não acha melhor lavarmos logo o seu cabelo? Isso pode demorar... – observei com certo pesar os lábios sendo comprimidos em forma de demonstrar o nervosismo –
- Como você quiser, meu amor.
- Eu vou lá ver como está tudo, tentem não demorar ok? – meu pai alertou com um meio sorriso – Não percam o foco e esqueçam da vida no banheiro.
Não pude conter a gargalhada quando o rosto de Selena ficou alguns tons mais vermelho e subitamente eu estava sendo arrastada até o banheiro. Coloquei apenas a cabeça dentro do box enquanto ela retirava a tinta do meu cabelo e logo em seguida lavava o mesmo. Eu ainda achava que colocar algo fixo e colorido ali era comprometedor demais para o meu perfil, mas ainda era a primeira semana que Selena passava longe de casa e ela chorava constantemente enquanto achava que eu estava dormindo, então eu fazia qualquer coisa para vê-la sorrindo mesmo que isso significasse tingir meu cabelo de cores que nunca imaginei fazer antes. Desci com a mão entrelaçada a dela, contudo Selena me travou nos últimos degraus da escada antes de abaixar a cabeça e soltar um suspiro pesadamente cansado.
- Acho melhor ficar aqui. Não quero envolver você nos problemas com a minha mãe. – ela deu de ombros ainda de cabeça baixa – Eu a conheço bem o suficiente para saber que tudo isso o que ela vai fazer agora não passa de drama.
- Mas Selena... – protestei – Eu faço parte da sua vida agora, e não vou te deixar passar por isso sozinha. – levei minha mão esquerda até o queixo da mesma, fazendo com que nossos olhos se encontrassem –
- Minha mãe é agressiva, Demi. – torceu os lábios bem desenhados em um sorriso falso – Quer dizer, ela vai dizer coisas como “o que eu fiz para merecer tanto desgosto?” “Deus, eu perdi uma filha” entre outras coisas típicas de alguém que deveria estar atuando na Broadway devido a tanto talento para o drama. – os olhos cor de castanho reviraram –
- Pois fique você sabendo que eu sou uma ótima atriz também. – ergui a sobrancelha esquerda e sorri para ela, envolvendo meus braços na cintura fina quando recebi uma risada de volta – Eu estou aqui, Selly... – sussurrei contra a pele alva do pescoço – Eu não vou te deixar sozinha nunca mais, eu prometo.
Quando chegamos próximas a porta da sala, Mandy estava com um semblante sério recostada a porta com os braços cruzados. Naquele momento eu percebi que a pose imponente de Selena vinha toda da mãe. Mandy era uma mulher com seus aproximadamente 40 anos, com a musculatura firme provavelmente resultante dos anos de musculação durante a juventude, o cabelo preto longo e o ar superior que faria qualquer homem se apaixonar, porém o que faltava em Mandy e sobrava na garota ao meu lado era o olhar doce e o sorriso capaz de iluminar cada pedaço apagado do meu coração. Fiquei parada em silêncio de frente para a porta enquanto Selena apenas assentiu com a cabeça como que dando a permissão para que a mãe começasse a falar.
- Quero conversar com você a sós.
- Não escondo nada dela. – o timbre rouco de Selena me fez estremecer como resultado da onda de desejo que atravessou meu corpo –
- Eu não estou brincando, Selena. Eu quero falar com você a sós. – ela rosnou entre os dentes –
- Mandy. – empurrei Selena para trás – Você sabe com quem está lidando não sabe? Não vou deixar você ofender a minha namorada com as suas atitudes dramáticas e desnecessárias. Você já sabe disso há muito tempo, Mandy, e eu não vou permitir que passe por cima dos sentimentos dela para me atingir. Se tem algo para falar comigo, fale logo.
O olhar que me foi lançado pareceu congelar meu corpo por completo e fixá-lo no lugar em que eu estava pelo que julguei ser uma eternidade. Uma linha de tensão foi estabelecida entre Mandy e eu por sabermos que a qualquer momento uma explosão de acusações poderia acontecer ali. Sentir o braço quente de Selena roçar minha cintura fez com que os músculos tensionados da minha costa fossem relaxando junto com a minha postura, que passou do ataque para a defensiva, e Mandy apenas se aproveitou disso.
- Você tirou o meu bebê de mim! – ela esbravejou contra o meu rosto e eu fechei os olhos imediatamente – Selena nunca faria isso comigo se não fosse influenciada por você! Eu tenho ódio de você! Desejo que esse relacionamento nunca dê certo e desejo que você sofra tudo o que fez a minha pequena passar! Quem passou horas durante todas as noites com ela fui eu! – um empurrão fez com que eu desse alguns passos para trás ainda de olhos fechados – Eu fui o apoio dela enquanto ela tentava se matar por estar apaixonada por alguém que nunca sequer pesou a conseqüência de seus atos e agora você vem bancar a heroína e salvar a pátria na frente dela? Você é falsa, manipuladora, ridícula! Você é uma criança, Demetria!
- Mãe, para! – Selena colocou-se entre nós duas –
- Você vai voltar para casa comigo. – afirmou ao dar alguns passos para dentro da casa –
- Ei, espera um momento. – me mantive na frente dela – Você não vai entrar na minha casa. – rosnei entre os dentes –
- E quem vai me impedir? – ergueu a sobrancelha direita e sorriu de lado –
- Com licença. – meu pai aproximou-se enquanto minha mãe arrastava meu corpo para trás com a ajuda de Selena – Peço que se retire, senhora.
- Não vou sair daqui enquanto Selena não vier comigo. – bateu o pé contra o chão e elevou a voz uma oitava – Ela é minha, entendeu?
- Dianna. – meu pai gritou ainda na porta –
- Eu vou matar você! – me debati nos braços da minha mãe – Escutou? – chutei o ar antes de ter meu corpo imprensado na parede pelo corpo alto do meu pai –
- Vamos ter uma conversa de mulher para mulher, Mandy. – a voz da minha mãe estava distante –
A movimentação dentro da casa contribuiu para que meu coração saltasse dentro do peito como nunca havia acontecido antes, o que gerou ainda mais raiva da minha parte. Por mais que tentasse empurrar o homem em minha frente meus esforços eram inúteis, então apenas me rendi e fiquei algum tempo ali até estar com a respiração normalizada. Senti um leve afago próximo a minha nuca, fechando os olhos em seguida quando a voz rouca preencheu o silêncio.
- Você foi muito valente hoje.
- Não tanto quanto deveria. – admiti em meio a um suspiro –
- Eu não sei se teria coragem para desafiar alguém maior e mais velho do que eu. – meu pai riu depois da afirmação –
- Eu fiz isso a minha adolescência inteira, sabe? A maioria deles eram policiais. – ri fraco contra o peito musculoso que ainda exercia pressão sobre mim – Daqueles bem fortes que mais parecem lutadores do UFC.
- Minha filha é uma valentona. – ele gargalhou – Como conseguiu fugir por tanto tempo?
- É fácil quando se tem o meu tamanho e a minha velocidade. Eu consigo me enfiar em buracos que você nem imagina. – nós rimos juntos e ele afastou-se um pouco para conseguir olhar meu rosto –
- Você deveria ir falar com a Selena. Eu consigo ouvi-la chorando daqui. – os dedos grossos deslizaram pela lateral do meu rosto –
- Tudo bem. Nós vamos estar no meu quarto, qualquer coisa...
Beijei rapidamente a face do meu pai e subi a escada com passos lentos ganhando tempo para pensar em alguma forma de consolar Selena. Ao abrir a porta do quarto deparei-me com a mesma encolhida no canto, as pernas sendo abraçadas enquanto o corpo tremia com os soluços do choro baixo. Corri até a mesma e abracei-a, deslizando a mão pela linha saliente da coluna.
- O que houve, Sel? – sussurrei –
- Eu não sou a garota certa para você, Demi. – o choro intensificou-se quando apertei ainda mais o abraço – Não sou. Você merece alguém que saiba amar.
- Selena, eu-
- Não Demi. – fiquei em silencio depois da interrupção – Eu vou embora e você vai poder seguir sua vida sem mim, vai ser mais fácil se não tiver alguém batendo na sua porta todos os dias para te dizer coisas que você não precisa ouvir. Eu não deveria ter deixado minha mãe dizer todas aquelas coisas de você, eu não sei amar ninguém direito.
- Será que posso falar? – Selena esticou as pernas e eu me encaixei no meio das mesmas, segurando o rosto molhado pelas lágrimas com delicadeza – Eu não vou deixar você sair assim. O que a sua mãe disse hoje é um elogio perto das coisas que eu sei que ainda vou ouvir dela, mas eu simplesmente não ligo. – balancei a cabeça negativamente antes de selar nossos lábios demoradamente e começar a sussurrar contra os mesmos – Deveria parar de pensar nessas coisas.
Selena permaneceu em silencio chorando copiosamente enquanto minhas tentativas de acalmá-la eram falhas. Uma leve batida na porta do quarto fez com que os soluços cessassem e o corpo tremulo contra o meu travou instantaneamente.
- É a minha mãe.
- Como você sabe? – franzi o cenho –
- Eu conheço a batida dela... – sussurrou –
- Você quer falar com ela agora? – levei o indicador ao queixo molhado e fiz com que nossos olhares se encontrassem –
- Preciso falar uma hora ou outra, não é?
Puxei o ar com um pouco de força e assenti antes de colocar-me de pé e ajudar a Selena. Quando a mesma estava de frente para mim, voltei a selar nossos lábios demoradamente enquanto afagava o rosto quente tentando passar algum conforto.
- Eu vou estar do outro lado da porta o tempo inteiro.
- Certo.
Sorri fraco uma última vez antes de aproximar-me da porta. Cada músculo do meu corpo pareceu enrijecer quando o olhar de Mandy parou em mim e desviou para Selena. Deixei que a mesma adentrasse o quarto sem trocar uma única palavra e encostei-me a parede do lado de fora quando a porta se fechou. Pude com muita dificuldade capturar algumas palavras da conversa, entre elas “vadia” “reputação” “mentira” e “vingança”. Em algum momento que não sei dizer com precisão, ouvi um grito ser abafado e coloquei-me de pé desajeitadamente, abrindo a porta com pressa. O momento seguinte foi apenas um borrão escuro em minha mente, pois quando me dei conta estava com o pescoço de Mandy nas mãos e Selena desmaiada em minha cama.
- DEMI, NÃO!
O choque contra meu corpo lançou-me violentamente contra a parede e levei a mão diretamente a costela sentindo o ar faltar em meu pulmão, contudo dei passos forçados até a cama e segurei o rosto da mulher inconsciente com força, pressionando os dedos contra o maxilar inumanamente maleável. Sentei na beira da cama ignorando a dor que tomava uma boa parte da lateral esquerda do meu corpo, analisei a expressão suave de Selena e desviei o olhar rapidamente para o chão onde meu pai sacudia os ombros de Mandy desesperadamente tentando sem muito sucesso acordá-la. Uma movimentação fraca em minha cama tomou novamente minha atenção, dessa vez dobrada. Apoiei o corpo alto e parcialmente adormecido com o meu e segui na direção do banheiro, entrando no chuveiro com a mesma ainda de roupa. No momento a única coisa que me importava era ver Selena acordada para que ela pudesse me contar o que havia acontecido, e então eu decidiria como iria matar Mandy. Depois de aproximadamente um minuto ou até menos os olhos castanhos giraram o cômodo e fixaram-se em mim, ganhando uma expressão de surpresa.
- Por que nós estamos de roupa? – questionou-me enquanto se despia –
- Você desmaiou, eu fiquei desesperada... Sinto muito. – abaixei a cabeça – O que a sua mãe fez com você? Ela estava tentando te matar ou algo parecido?
Esperei algum tempo ainda de cabeça baixa, virando para encarar Selena quando não obtive resposta. Para a minha surpresa ela estava novamente entregue ao choro, que dessa vez era ainda mais intenso, e as mãos tapavam o rosto bonito, o mesmo que foi apoiado em meu ombro.
- Vai ficar tudo bem, Sel...
- Nada vai ficar bem. – empurrou-me pelos ombros e limpou o rosto –
- Mas o que-
- A culpa de tudo isso é sua! Eu vou voltar para a casa da minha mãe.
- Sel, não... Por favor...
- Você destruiu a minha vida! – gritou contra o meu rosto enquanto uma nova camada de lágrimas cobria seu rosto – Tudo, até a minha faculdade eu parei por você!
- Mas eu estou aqui não estou? Você não pode simplesmente ir embora assim. – dei um passo para frente –
- Não me toca!
Naquela situação a última coisa que eu poderia permitir é que Selena saísse do banheiro. Primeiro porque ela estava totalmente molhada, segundo porque ela estava fora de si, e terceiro porque a partir do momento em que ela atravessasse aquela porta ela estaria levando uma parte de mim junto. Parte essa que eu não estava pronta para perder. Agarrei-a com força quando a mesma ameaçou dar um passo para fora do box e lutei alguns minutos contra os empurrões e chutes que eram dados contra o meu corpo, porém quando a mesma voltou a realidade, senti os braços compridos envolverem minha cintura com força.
- Me desculpa... – choramingou próxima ao meu ouvido –
- Nós tivemos um dia muito cheio hoje... Vamos dormir? – rocei os lábios de leve no pescoço gelado –
- Vamos... E a propósito, Demi... – levantou o rosto do meu ombro –
Encarei os olhos cor de chocolate que pareciam brilhar ainda mais naquela noite, talvez pelos cílios estarem molhados. Uma gota escorreu próxima a boca de Selena, o que me fez engolir a seco e senti como se vidro estivesse atravessando a minha garganta por toda a tensão do momento estar me deixando com um desejo quase incontrolável. Os lábios abriram e fecharam várias vezes, quando finalmente uma única frase fez o mundo parar para mim.
- Eu te amo.
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