Dá primeira vez que me dei conta da natureza detetivesca do meu pai fora numa confraternização familiar – daquelas que sempre acontecem num domingo sonolento, quente, e terrivelmente entediante.

Era um churrasco, para ser mais específico, na casa de minha tia Neide, a irmã caçula do meu pai. No momento em que o estopim da trama disparou, eu estava cobrindo o meu turno junto à churrasqueira, abanando o carvão e lascas de caixa de ovo, virando os bifes e empalando as linguiças. A casa não estava cheia, eram poucos parentes que se dignaram a aparecer – a família por parte do meu pai não era muito unida.

A casa era de minha Tia Neide em questão, casada com o Tio Cláudio. Era uma casa ampla, mas de uma constituição modesta – embora meu Tio vendesse-a como um Taj Mahal. Meu pai e eu fomos convidados, assim como seu outro irmão Arnaldo, que era casado com a Tia Maria, e ambos tinham um filho... Henrique, de vinte e poucos anos, um tipo estranho que sumira por oito meses certa vez, metade da família achava que ele usava drogas, outra metade achava que ele vendia drogas, mas todos (com exceção de seus pais, logicamente) estavam de comum acordo quanto ao fato dele “ser um mau elemento”. E sentados no extremo da varanda, esfregando as costas na grade do portão, estavam Tio Nenê e Tia Josefa, com seus dois pirralhos gêmeos que nutriam o incômodo hábito de esconder talheres, chaves, o saleiro e qualquer coisa que brilhasse.

A gordura da carne derretia e pingava na brasa no fundo da churrasqueira, fazendo: Shiiiiiiiiii em intervalos regulares.

— Olhem só essa Belezinha!_ gracejava meu Tio Cláudio, enquanto agitava o pulso e fazia chacoalhar seu imenso relógio cinza – chumbo, com seu típico ar irritante de soberbia_ Custou DOIS PAUS! Que acha dele, eim Zé?_ concluiu ele, provocando meu pai e exibindo o troféu.

Foi o suficiente para fazer meu pai debandar da nossa companhia, e procurar minha tia Neide (um dos poucos familiares que meu pai se dava, relativamente, bem) do outro lado da varanda – mas não perdeu a oportunidade de fazer uma careta depreciativa antes de sair da roda. Esse era meu pai.

Meu estimado velho não se preocupava muito em ser agradável na maior parte do tempo, sua rudeza, disfarçada de um sarcasmo quase intolerável, fazia da sua companhia uma verdadeira provação de coragem e paciência na maioria das vezes. Mas gostava de ser visto como um homem sereno e debochado, o que não era totalmente mentira, no geral o velho Zé (como todos o chamavam, provavelmente desde o início dos tempos) era um homem divertido quando não estava ocupado demais aborrecendo todo mundo com sua metralhadora de reclamações e seu metodismo quase religioso. Beirava aos cinquenta e oito anos, com cara de quarenta e altivez de vinte, e com um pouco de verde no azul dos seus olhos.

O velho Zé gingou entre as cadeiras e mesas e sentou-se com a irmã, ambos conversaram um bom tempo. Eu, infelizmente, ficara preso entre o Tio Cláudio, a churrasqueira e seu Rolex imenso, que o homem fez questão de mostrar para cada membro da festa, nos fazia segurar e sentir a leveza, ouvir o tilintar da pulseira e o “Tick, Tick” dos ponteiros, e todos ficavam impressionados, com a exceção de mim e do meu pai, principalmente meu pai.

Quando beirava às onze da manhã, um corola pardacento estacionou no meio fio em frente a casa, era Natália, a filha dos anfitriões. Uma mulher deslumbrante de cabelos louros, uma solteirona convicta e que ostentava uma vida abastada como funcionária, de alto escalão, d’uma concessionária de Rodovias. Os pais tinham muito orgulho dela, e gostavam de compara-la com os primos, em especial esse que vos fala, afinal, eu ainda era dependente do meu pai, e ganhava pouco como ilustrador freelancer. Tio Cláudio correu receber a filha, que apeou do carro com um vestido verde oliva e uma bolsa bege a tira colo – nem preciso dizer que o mesmo não deixou de mostrar o relógio e vangloriar-se dos dois mil reais que perdera nele, como era de praxe.

— Os dois mil foram uma pechincha_ começou Tio Cláudio_ Se eu quisesse revender essa maravilha aqui, não seria por menos de cinco mil e acho até que é barato.

Todos ouviram isso.

Natália cumprimentou um por um. Beijou minha bochecha, ficando na pontinha dos pés, mesmo eu tendo não mais que um metro e setenta. Ela era muito pequena, destoando totalmente do resto da família. Sentou-se em roda com os parentes.

Em dado momento da festa, Henrique, o silencioso, se manifestou:

— Tia Neide_ disse ele, com aquela voz esganiçada e olhos estralados_ Onde fica o banheiro?

— Fica no corredor à direita querido_ respondeu meigamente_ De frente com o nosso quarto.

— Obrigado.

E assim dito, Henrique se se escafedeu para dentro da casa. Espremendo-se entre os gêmeos que corriam por todos os cômodos do palacete Cláudiano, entrando e saindo, subindo e descendo.

Passou-se mais uma hora e meu turno na churrasqueira havia acabado, Tio Cláudio me substituiria.

— Já vou ai guri_ disse, olhando para mim_ Vou só guardar o Rolex, pra não engordurar e pegar o coxão mole que comprei.

Quando ameaçou atravessar a porta, Natália o gritou:

— Pai, posso guardar minha bolsa no seu quarto? É um estorvo ficar segurando ela.

— Claro, filha.

E ambos entraram juntos.

Quando olhei em volta, meus olhos pousaram sobre a figura monumental de meu Pai, seu rosto magro e a cabeça calva, a blusa polo enfiada por dentro do short social, os chinelos. E confesso que, naquele instante, fiquei intrigado, pois percebi aquela expressão típica do velho, uma cara de “não sei o que”, misturada com “sei lá, tem algo acontecendo” – uma sobrancelha arqueada e a outra levantada, os olhos claros trêmulos, cintilantes e um discreto bico tortuoso no seu queixo quadrado. Relevei.

Duas horas se passaram, o rádio encima da mesa tocava uma seleção de Genival Lacerda bem alto – fazendo todos nós falarmos ainda mais alto. O entra e sai da casa cessara e eu estava entupido de carne, refrigerante... Sentia o estômago latejar e a gordura obstruindo minhas artérias, foi quando meu turno de churrasqueiro recomeçou.

Corri para a churrasqueira a tempo de virar a alcatra para dourar o outro lado. Meu tio correu para o interior da casa, de modo que deduzi que teria ido apanhar o maldito Rolex.

Entrou, mas não saia. Em seguida um murmurar surdo e distante, ofuscado pelo som do rádio e da verborragia do churrasco, até que enfim, Tio Cláudio cruzou a porta para a varanda... Pálido, raivoso e desconcertado.

— Roubaram meu Rolex!_ trovejou ele, com sangue no olhar e a cara retorcida numa careta furiosa.

. . . . . . . . . .

Roubaram o Rolex.

Roubaram aquela coisa enorme, ridícula, cinza – chumbo, cravejada de cristais e que fazia um “Tick Tick” horroroso, de modo que quando me dei conta, estávamos todos na sala de estar, fervorosos entre insultos e acusações.

— Foi esse seu filho Arnaldo! Tenho certeza!_ gritava meu Tio Cláudio, ameaçando se jogar sobre Henrique, o que não era possível, pois eu intercedi por ele, me colocando entre os dois.

— Cala a boca Cláudio!_ retrucou Tio Arnaldo.

— Meu filho não é ladrão, seu estúpido_ praguejou Tia Maria.

Tio Nenê tentou apaziguar os ânimos da peleja.

— Cláudio, calma... Nós somos uma família, e não roubamos nosso próprio sangue....

— Vai se ferrar Nenê! O Rolex custou dois mil_ A boca do Tio Cláudio se contorcia como uma cobra mal matada, só faltava espumar de hidrofobia_ Esse Rolex vale duas vezes mais do que um mês do seu salário, e quer saber, podem ter sido esses seus pirralhos encardidos_ disse o homem, apontando para os gêmeos, que estavam encolhidos no sofá.

Dita essa acusação, Tio Nenê enfurecido, saltou como uma naja no pescoço do Tio Cláudio, e os ânimos inflaram a flor da pele.

Os homens se estapeavam e as mulheres os puxavam. Então...

— CALEM A BOCA!_ ordenou o Zé, meu pai, o mais velho no recinto, e com certeza o mais inteligente... Curiosamente, talvez por espanto, ou até mesmo por um respeito subconscientemente mutuo, todos pararam e olharam para ele_ Cláudio, onde você guardou o relógio?

— Encima do guarda — roupa da Neide, Zé, no nosso quarto.

— Muito bem, vem comigo filho_ e fez sinal para que o acompanhasse.

O quarto dos meus tios era espaçoso e havia criados mudos para todo o lado, uma cama de casal king (onde estava a bolsa de Natália), uma cômoda brega – cheia de quinquilharias e santos – e o famigerado guarda – roupa, que na verdade era um roupeiro minúsculo com uma penteadeira embutida – enfiada sob ela, uma cadeira robusta, de madeirame escuro.

Meu pai se aproximou. Analisou atentamente.

Sseus olhos passearam por toda a extensão do piso – que era o único cômodo da casa, forrado com taboas de jacarandá – até o cume do roupeiro. Sua mão correu por cima do roupeiro, era um móvel baixo, de maneira que meu pai nem precisou se esticar muito.

— Seu tio Cláudio é mais ou menos do meu tamanho..._ resmungou ele_ os outros Tios também, tirando sua Tia Neide. Vem aqui filho, consegue colocar a mão encima do roupeiro apenas se esticando?

— Consigo_ disse eu, tateando o alto do roupeiro sem muita dificuldade.

— Henrique é do seu tamanho, certo?

— Creio que até alguns centímetros mais alto pai.

— Ótimo.

Em seguida ele se agachou, com a leveza de um adolescente, olhou pela fresta embaixo do móvel e viu que não tinha nada.

— O relógio não caiu atrás do roupeiro, o que era o mais provável._ ponderou.

Depois dedilhou com a ponta dos dedos, magros e cheio de calos, algumas estrias no chão, que iam do extremo do roupeiro a posição habitual da cadeira.

— Tá vendo essas marcas na madeira?_ me chamou com o olhar e apontou para o chão. De fato havia marcas corridas.

— O que são?_ perguntei.

— São arranhadelas de tanto arrastar a cadeira, eu suponho_ e agarrou a cadeira, sentindo com cuidado o peso dela_ Como eu pensei, é raro, mas não impossível_ disse, de si para si.

— O que pai?_ fiquei intrigado.

— Essa cadeira é feita de Pau Ferro, por isso é tão pesada. Essa madeira é ótima para fazer violões e violinos, até construções, mas é raro usar em móveis, pois são quase impossíveis de se levantar sozinho... Por isso, arrastando essa cadeira ela marca o chão._ respondeu.

Vale dizer que o nosso investigador amador, nutria profundos conhecimentos sobre madeiras de todos os tipos – experiência adquirida de nove anos como marceneiro.

Dizendo isso, se colocou de pé num salto, me deixando impressionado com sua agilidade felina – que certamente pareceria desconcertante para seus cabelos grisalhos.

Foi até a porta do quarto e gritou para a sala:

— Neide! Vem aqui, por favor.

Foram questões de segundos até minha Tia pontear no quarto.

— O que foi Zé?_ ela parecia aborrecida, afinal a briga ainda não havia cessado.

— Você guarda alguma coisa encima do roupeiro?

— Que roupeiro?

— O “GUARDA – ROUPA”!

— Não, por quê?

— Nada mesmo?_ Aqueles olhos semicerrados e lacerantes.

— Que saco Zé, NÃO!

— Tudo bem então. Essas marcas aqui são velhas? Já estavam aqui?_ ele apontou para os arranhões nas tabuas.

Minha tia olhou, ficou visivelmente mais irritada.

— Mas que inferno, não estavam ai, se estivessem eu já teria estrangulado alguém!

— Entendo, interessante... Pode voltar pra Sala, eu estou indo pra lá também.

Tia Neide voltou para a guerra. Meu pai e eu também nos preparávamos para enfrentar o fronte familiar a alguns metros dali, mas antes de sair do quarto, meu pai disse para trazer a bolsa de minha prima Natália. Confesso que não entendi na hora. Ele não deu espaço para perguntas.

O ar na sala estava carregado. O rancor, a raiva, o constrangimento... Esse caldeirão de sentimentos me sufocava, sentia o aperto na garganta, e fitar todos aqueles olhares malignamente irritados foi desagradável.

— Eu sei quem pegou o relógio._ disse meu pai, sem rodeio algum.

As cabeças de fuinha viraram-se em uníssono.

— Eu também sei Zé!_ gritou Tio Cláudio_ Foi esse bandidinho que eu chamo de sobrinho!_ apontou o dedo gorduroso para Henrique, este que estremeceu.

— Não foi ele Cláudio._ meu pai estava sério, solene, sua voz, que costumava ser macia, ficou densa_ Embora ele provavelmente tenha visto você guardando o seu relógio enquanto estava no banheiro que fica de frente com o seu quarto, porém não foi ele.

— Como pode ter tanta certeza Zé? Você se acha algum tipo de detetive?

Aquele tal de Zé que eu chamava de pai, aquele velho Zé, não se intimidou.

— Nós estamos em onze_ começou_ Mas apenas cinco de nós podem ser suspeitos de terem roubado o relógio.

— E quem são?_ Indagou Tio Arnaldo, aborrecido.

— O próprio Cláudio, a Natália, o Henrique e os gêmeos.

Essa declaração foi recebida com inflamados sons de reprovação e protesto, os pais intercediam por seus filhos e os filhos se afundavam em suas órbitas.

— MAS COMO EU ESTAVA DIZENDO_ gritou ele, fazendo todos ouvirem_ Quando você Cláudio, entrou para guardar o relógio, Natália entrou com você até o quarto, Henrique estava no banheiro em frente ao quarto e os gêmeos corriam pela casa, o restante de nós estava lá fora, por tanto, por eliminação, cinco são suspeitos...

Ele fez uma pausa, olhou para todos e prosseguiu.

—Ainda com a lógica da eliminação, os Gêmeos foram descartados, pois apesar de gostarem de esconder coisas, eles precisariam arrastar a cadeira da penteadeira, o que está fora de questão, já que é pesada demais, mesmo para duas crianças de quatro anos. Sendo assim, sobram três, mas Cláudio não roubaria o próprio relógio... Sobram dois: Natália e Henrique...

Henrique se encolheu num ângulo cego da sala, estava certo que lhe acusariam novamente, Natália estava calma, embora o canto da sua boca me parecesse trepidar em alguns espasmos, traindo assim sua “calmaria”.

— Mas como eu disse antes, não foi o Henrique...

— Você está dizendo que fui eu Tio?_ perguntou Natália, atônita.

— É! Você tá vendo Neide, seu irmão está chamando nossa filha de ladra, por que tem tanta certeza que não foi o filho do Arnaldo?

— Porque ele sabia que o “Rolex” era falso, quando você deu para ele segurar, ele percebeu na hora.

— O quê?_ todos indagaram em um só brado, e confesso que jamais esquecerei as caras de cada um.

— Aquilo custou dois mil, isso porque eu pechinchei... E...

Meu pai deu de ombros para os resmungos de meu Tio Cláudio.

— Filho_ disse-me ele_ Vem aqui, trás a bolsa.

Entrei no ponto luminoso da sala, saindo da penumbra de figuração da cena. Quando Natália viu a bolsa, pude ver o suro frio escorrer por aquela bochecha fofa e bem desenhada.

Meu pai abriu a bolsa. Tateou, tateou... E retirou de dentro o falso Rolex cinza – chumbo.

Constrangimento.

Muito constrangimento.

— Pois é Natália, sua mãe me contou de seus problemas financeiros, me contou que você foi demitida da empresa rodoviária, mas você é orgulhosa como seu pai, jamais alegaria falência_ meu pai disparou esses comentários de maneira impertinente, mas como eu disse antes, ele podia ser intragável quando queria, e poucas vezes se preocupava em ser decoroso._ Acredito que os “cinco mil” que seu pai disparara solto no vento, lhe interessaram de imediato, de modo que ele nunca desconfiaria da filha, estou certo?

Ela não respondeu. Apenas se encolheu mais na poltrona.

— As marcas nas tabuas do piso te denunciaram_ continuou ele._ Tirando os gêmeos, você é a única que precisaria subir em algo para alcançar o alto do roupeiro, é mais fácil pra você, do que para as crianças, puxar aquela cadeira pesada...

— Mas se a cadeira da nossa penteadeira é tão pesada quanto diz_ interveio Tia Maria, quase desconsolada._ Como nós não ouvimos ela ranger ao ser arrastada?

— O Rádio! O falatório._ disse ele, lacônico.

Todos se entreolharam. Finalmente meu pai cortou o silêncio.

—Mas sinto muito, essa coisa é falsa Natália, é um Rolex paraguaio querida, seu pai foi logrado.

Meu pai chacoalhou o relógio, fazendo a pulseira ulular.

— Eu tenho um amigo de infância, sabe? Ele é relojoeiro, um ótimo relojoeiro por sinal, ele me contou algumas coisas interessantes sobre relógios de marca, certa vez. Esse “Tick Tick” baixo vindo do ponteiro de segundos é por causa dele ser feito de quartzo. O ponteiro muda de repente, veem? Então, os Rolexes e muitos outros relógios finos têm ponteiros de segundos que se movem quase que perfeitamente, sem fazer barulho, deslizam de maneira suave e continua, pois são automáticos e não de quartzo... E outra, um Rolex de verdade é pesado, já que é feito de metais preciosos e cristais, isso aqui é leve demais, parece alumínio e tem visores de acrílico... Enfim, o mistério foi resolvido.

Novamente o constrangimento.

E agora, um pouco de ressentimento, uma pitada de raiva e estava pronta a fórmula secreta da briga mais defasada da historia das famílias brasileiras.

Preciso dizer que meu pai e eu não fomos convidados, para uma confraternização familiar que seja... Por três anos?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.