Crie em Sua Mente
4 O Rei Solitário
Notas iniciais
- Como vai ser hoje? Terei mais um paciente.
- Eu não tenho muito produtividade, meu trabalho é realmente eventual, então ficarei aqui, esperando. Eu tenho uma imaginação bastante fértil, serve muito bem para passar o tempo.
- Gosta de ler?
- Muito. Mas história, nada muito científico.
- Te arranjo uns livros hoje, quando for visitar meu irmão. Você não tem uma família que sentirá sua falta ou algo do gênero?
- Minha família não é uma integração. Tenho parentes, e até mesmo o meu núcleo, espalhados por aí. A maior parte das vezes nos encontramos sem querer, ou para um funeral. Ninguém estranhará minha ausência, se é isso que quer saber.
- Não se sente triste com isso?
- Amo muito a minha família, e gosto de encontrá-los. Mas conviver é algo muito, muito, muito desgastante.
- Sim... Vou atender um cliente daqui a pouco, então...
- Tudo bem. Eu poderei sair com você?
- Claro. Vai querer conhecer meu irmão?
- Se você quiser... Mas por pequenos motivos óbvios, preferiria que minha história não se espalhasse.
- Eu imagino que o que você chama de pequenos motivos sejam motivos bem fortes, -sorriu Ligia- então não precisa se preocupar, que eu não diria nada, de qualquer forma. Agora tenho que ir.
- Não se preocupe, eu farei silêncio. A propósito...
- Sim? – a psicóloga se voltou, encarando os olhos castanhos da jovem.
- Tem uma coisa que me intriga na nossa história. Mesmo que você tenha um emprego incomum, e que esteja acostumada a pequenos eventos estarrecedores, vivemos numa época de caos social, não entendo, nem mesmo em dias mais pacíficos uma pessoa aceitaria um completo estranho em sua casa! Ainda mais um estranho nu e ferido! Animais possuem uma percepção muito aguçada, e eu herdo isso da minha espécie, porém não consigo perceber nada de errado, nenhuma má intenção em você... Mas é estranho!
- Estranho? –respondeu Ligia calmamente. Pandora estava um pouco ofegante e alterada, suas pupilas, dilatadas, captavam cada movimento da mulher a sua frente. Tinha que haver algo errado!
- Sim, porque você não me inquiriu? Aceitou minha explicação sem pé nem cabeça para os padrões, me deixa circular livremente sem desconfiança alguma... Você já olhou a porta dos seus vizinhos? Suas janelas? Eu já! Eles tem mais de três trancas em cada uma delas, chamam pizzas e se recusam a acreditar que a pessoa na porta seja mesmo o entregador! Nesses últimos dias, eu percebi, eu observei! Eles tem razão em estar aflitos, tendo em vista tudo que a humanidade já vivenciou. A paranóia domina como um subproduto do instinto de sobrevivência!
- Você está preocupada comigo? –sorriu, e as pupilas da jovem de 300 anos retraíram.
- Acho... Que sim. Você é muito boa comigo, Ligia. Mas quando você falou da minha família eu lembrei... Bem, não é seguro. Eu não pretendo lhe fazer mal, estou aqui para observar, e ter boas conversas, mas nem todos tem pretensões tão inocentes. O próximo que você deixar entrar...
- Fique tranqüila. Eu sei me cuidar, Pandora.
Observou os pés descalços contraírem e movimentarem seus dedos, em sinal de nervosismo. A expressão corporal realmente pode entregar uma pessoa.
Mordendo as costas de uma das mãos, Pandora se deu por vencida e se sentou.
Ela deixara escapar algo sobre a família... Que tipo de relação eles teriam? Por que o assunto despertou essa repentina preocupação? Ou seria o tão falado pressentimento animal?
Mas, de qualquer forma, estava atrasada para o próximo cliente.
Entrou em sua sala, encarando um homem em seus 45 anos. O tempo passava cada vez mais rápido para os trabalhadores em geral nos dias atuais, e ele tinha todos os fios de sua cabeça totalmente brancos. As rugas eram claras, uma vez que uma tese não comprovada se alastrara pelas lendas urbanas, que produtos injetáveis como o botox aumentassem as probabilidades de câncer.
Sentou-se, indicando para ele fazer o mesmo.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Diga-me, o que te trouxe até mim? Por que está interessado em meus serviços?
- Minha esposa. Ela diz que eu só me importo comigo mesmo. Mas isso não é verdade, eu...
- Podemos ver? Eu digo, mais profundamente.
- Ah... A vontade.
Uma hora e meia depois voltou, encontrando Pandora no quarto, trançando as pontas das cortinas.
- Muito tédio?
- As vezes é bom não ter nada pra fazer e esfriar a cabeça. Eu tenho explosões como aquela, as vezes. Você viu uma autentica apresentação da Y, usando os argumentos da X. Odeio sair do controle. Eu faço um esforço grande, e não reconhecido, na maior parte do tempo, para manter o controle de minha própria personalidade... Mas volta e meia, falho. Fica um pouco constrangedor para os que estão próximos na hora.
- Você queria o que? Fazer como um cachorro, que foge para morrer longe de todos que ama, para não fazê-los sofrer? Que eu saiba, você é uma coruja.
- Eu...
- Pandora, as pessoas que se importam com você ficarão felizes de dividir com você os momentos de alegria. Muito! Mas só se sabe se pode confiar em uma pessoa quando se sofre ao lado dela. Estou aqui para te apoiar, não como cliente, mas como amiga, não?
- Amigos não precisam carregar o meu fardo. Não precisam agüentar minha instabilidade. Todos se cansam, no fim das contas. Eu mesma estou cansada. E seu eu estou cansada de mim, como posso esperar que alguém continue ao meu lado? Quero que tenham consigo só o melhor de mim.
- Então está mentindo para todos. Não adianta esconder sua essência. É isso que estou tentando explicar para meu cliente de hoje. Ele está em um estado crítico de auto-negação, aliada a prepotência...
- Como foi? Lá dentro?
- Crie em sua mente um saguão de bailes, cercado de mesas para convidados, com um trono no centro. Um cheiro forte de perfume de especiarias, como cravo e canela. Eu percebi que havia algo estranho entre os valsantes, digo, as pessoas que dançavam...
- Neologismos são bonitinhos! –sorriu a hóspede.
- Que seja. –riu Ligia- Mas tinha algo diferente da maioria das pessoas. A essência de todos os personagens projetados era a mesma! Não demorou para eu perceber... Eram todos o próprio cliente.
- Isso não é normal?
- Sim, mas normalmente eles tem essências diferentes, pois a mesma pessoa tem diferentes linhas de pensamento e influência. Não tão pronunciado como em você, mas perceptível.
- E o que você fez?
- Esperei a valsa acabar, primeiramente. Mas em vão. Decidi então procurar meu anfitrião.
- Encontrou?
- Também não. Comecei então a indagar por ele aos passantes. Todos diziam coisas parecidas. O monarca gosta de ostentar. Ele se acha superior a corte. Ele só pensa em si. Perguntei pela esposa do monarca, ou quanto a mulher que lhe tinha amor, pois foi a esposa dele que o pediu para me procurar, e esse tipo de confusão as vezes é causado por alguma culpa, como uma infidelidade conjugal ou coisa do gênero. Mas não havia sinal dela.
- O que isso significa? Que ele não a ama?
- Não necessariamente. Pode ser apenas que ele goste dela. Goste dela porque ela gosta dele e ele precisa se afirmar, então a presença dela lhe faz bem, mas não envolve um sentimento de união, e sim de beneficio próprio.
- Que tipo desprezível... Por que iludir uma mulher apenas para inflar se ego?
- Não se precipite em julgá-lo.
- Não farei isso. Não conheço sua real história, apenas a sombra do que está em seu subconsciente. Julgamentos de valor são perigosos, e sempre nos fazem cair em contradição.
- Eu escolhi uma profissão em que esse sentimento é definitivamente proibido. –explicou a mulher, soltando seus cabelos aloirados e alongando os braços- Por fim o encontrei. Escondido atrás de uma cortina, observando e observando. Não vai sair?, perguntei. Ele disse: Não é seguro. Eles estão esperando. Esperando o que?, repliquei. Eu errar. Eles querem minha cabeça, respondeu.
- Esse cara trabalha com o que mesmo?
- Exatamente. A pergunta correta. Você é boa nisso! –Pandora desviou o olhar, suspirando- Ele é publicitário. Trabalha em campanhas políticas.
- Campanhas políticas? Hoje? –os olhos de Pandora se arregalaram levemente.
- Sim. Um ramo perigoso e competitivo, além de potencialmente mortal.
- A competitividade hoje desandou... Lembro de quando se falava dos problemas da democracia no Oriente Médio... Isso se alastrou mais rápido do que podíamos controlar, depois da segunda quebra da bolsa de Nova York, após o pacto mundial de extinção de 70% das fábricas bélicas. Os EUA foram obrigados a entrar, senão bloqueariam as pesquisas espaciais... E não iam abrigar mais os americanos das áreas litorâneas que perderam suas casas com o aumento do nível do mar... Realmente os botaram contra a parede, e isso bagunçou a política mundial. Ninguém imaginava que uma medida tão pacifica seria tão drástica. Não tinha jeito, de qualquer forma. Isso explica o medo do seu paciente.
- Sim. Eu tentei acalmá-lo. Mas ele imediatamente me perguntou o que a nobreza me dissera. Eu expliquei. Eles são todos mentirosos. Quanto maior o cargo, menos confiável! Essa corte está podre, e ninguém faz nada. Foi o que ele me murmurou, como um pedido de desculpas. Mas..., repliquei, se chegou a esse ponto, a culpa é sua, não é? Afinal, se quanto maior o cargo... Bem, você é o menos confiável, segundo suas próprias palavras.
- Você foi bem dura com ele, não?
- No subconsciente, se você não mostrar confiança, é perigoso. Você pode ser absorvido.
- Como?!
- Personalidades fracas são absorvidas por serem facilmente influenciáveis. Além disso ser a morte cerebral do invasor, também danificaria seriamente a mente do paciente, afinal, temos que tomar todo cuidado para não deixar vestígios nem implantar nenhum elemento desconhecido por onde passamos.
- Existe a probabilidade de você ficar presa? –se surpreendeu.
- Sim, sempre. Por isso é algo tão arriscado para ambas as partes. Ele se revoltou um pouco com a minha teoria, mas eu repliquei: Um rei é responsável por sua corte, então tome para si esse encargo! Mas fui interrompida. A corte percebeu sua presença e se voltou para nós. A valsa finalmente parou. Achei melhor interromper, tendo em vista que não podia prever o que viria a seguir. Conversarei com ele melhor amanhã.
- Boa sorte. Ele tem o que? Personalidade Narcisista?
- Sim, mas por trás disso há um terror imenso e uma falta de confiança em si. Ele tem grande probabilidade de desenvolver uma Síndrome do Pânico ou algo do gênero, o estresse provocado por seu trabalho é muito grande e ele realmente vive na iminência de um ataque. Bem, vou sair agora. Tenho que encontrar meu irmão.
- Como é o seu irmão? –indagou Pandora, já no carro, enquanto encarava com angústia o trânsito parado que prometia atrasá-las.
- Bem diferente de mim. –riu Ligia. Seus cabelos castanho claro caiam, crespos e volumosos, por cima de seus ombros magros. Devia ter uns trinta anos, pela experiência que levava nos olhos âmbar, que carregavam um ar melancólico consigo- Os cabelos dele são negros, quase azuis. E são ondulados, bem diferentes dos meus. Os olhos são parecidos, mas ele é menor que eu, apesar de termos apenas três anos de diferença.
- Minhas irmãs também não são muito parecidas comigo... E elas pararam de crescer em tempos diferentes.
- Por que você estacionou seu crescimento? É o sonho de muitos, não é? Juventude eterna.
- Não é bom. Sem o envelhecimento e a morte, muitos de nós não dão o mínimo valor a vida. Nem mesmo a própria, se entregam a letargia e a comodidade, sem se dedicar a nada ou tentar aprender qualquer coisa. Afinal, serão eternamente jovens, então terão muito tempo para isso. Confesso que eu mesma passei grande parte da minha vida assim. Mas a necessidade de conhecer coisas novas, que nem sempre surge em todos, me moveu e me move. Na busca por curiosidades eu aprendi, e gostei de aprender. Você é uma curiosidade que me fez me locomover bastante!
- Sério? Que engraçado, porque eu raramente me desloco para ver algo, nunca tenho tempo.
- Tempo é algo que não me falta, sim?
- Imagino que não falte mesmo. Estranharia se faltasse.
- Nós, seres “conscientes”, e nisso eu incluo os transmorfos e os humanos, precisamos perder para valorizar, então, sem a existência de um oposto, nunca apreciaríamos a vida e tudo que ela nos oferece. Se não houvesse morte, ninguém se importaria com a vida. Se não houvesse sofrimento, ninguém se preocuparia com a paz. Se não houvesse tristeza, ninguém valorizaria a alegria. E vice-versa. Não tenho todo tempo do mundo, apesar de tudo. Doenças e velhice não me afetam, sou resistente, mas ainda vulnerável a acidentes e assassinatos.
- Quem iria querer assassinar alguém como você?
- E quem iria querer assassinar alguém como você? Assassinos não seguem linhas de raciocínio com consideração. Nenhum assassino se importa de tirar uma vida, independente da mesma. Não querem saber quem são, de onde vêm, onde querem chegar. Apenas vão cortar esse processo de forma cruel e injusta.
- Nem todo assassino é um psicopata ou um irracional.
- Nada que tira uma vida deliberadamente e a troco de nada é racional para mim.
- Mas você não me respondeu... Por que não cresceu mais? Por que cresceu de forma díspar de suas irmãs?
- O peso que eu levo em meu corpo humano é o que levarei em meu corpo animal. Cresci pouco, e tenho aparência de uma garota de 19 anos pois minha forma animal não suportaria jamais mais de 40 quilos. Sou uma coruja grande, mas os ossos das aves são ocos... Não poderia crescer nem engordar muito. Interromperam a conversa para se identificar. A entrada e saída de um condomínio para o outro se tornara um processo árduo no tempo atual. Quase como fronteiras, cercavam todos os espaços residenciais. Lojas e espaços comerciais também se uniam em condomínios, galerias e shoppings. Após uma pequena confusão quanto aos documentos da Pandora, ou a ausência deles, conseguiram entrar.
- Ligia! Há quanto tempo você não me visita!
- Eu sei, eu sei. Ah, gostaria de te apresentar a amiga que disse que traria... Essa é a Pandora.
- Olá.
- Oi! Prazer em conhecê-la. Vocês estão namorando?
- Eu já te disse que eu sou hétero, Eduardo.
- Desde quando eu nasci até hoje o número de bissexuais cresceu bastante, não? –cochichou Pandora à Ligia- Isso é bom ou ruim? Não conclui nada ainda, só sei que me tranqüiliza um critério desnecessário a menos interferindo no amor entre duas pessoas.
- Também não sei definir. O amor é uma coisa difícil de fazê-lo. –cochichou de volta.
- Acho que você vai gostar do meu amigo que está aqui hoje, então. Ele também é hétero inveterado. Dimitri? Pode vir aqui um pouco? Um homem mais alto que Eduardo entrou na sala. Parecia ter a idade de Ligia, um pouco mais velho talvez, pelos poucos fios brancos espalhados pelo longo cabelo negro. Seus olhos passaram vagarosamente, medindo as convidadas de forma calma, como se pudesse compreendê-las. Pandora não gostou nada, mas se controlou. Não gostava de fazer juízos infundados sobre pessoas que acabava de conhecer.
Uma tatuagem tribal lhe marcava o ombro exposto pela manga arregaçada da blusa. Quando falou, sua voz ressoou, profunda, em contraste com a dos outros.
Apesar de soar cordata como a de Ligia.
- Olá, senhoritas.
- Olá, Dimitri. –Ligia estendeu a mão- É um prazer conhecê-lo. Sou Ligia, a irmã mais velha do Eduardo.
- Oi. –cumprimentou Pandora, sem descruzar os braços. Os olhos negros brilharam ao encontrar os dela, quase tanto quanto o dourado do brinco que ele usava se chocando com a luz- Pandora, amiga da Ligia.
- Sentem-se! Que bom que estamos reunidos, assim nem um nem outro ficará muito entediado enquanto eu converso com minha irmã. Querem alguma coisa? –a voz de Eduardo era absurdamente límpida perto da dos outros, e ele era um anfitrião e tanto.
Se, no fim das contas, Pandora não tivesse ficado conversando com ele, e Ligia com Dimitri, as coisas teriam sido bem incômodas para a primeira. Não gostara de Dimitri, e não era pessoal. Mas quando ele se aproximava, seu instinto gritava.
Algo nele fazia X e Z se agitarem e tentarem agir. Qualquer coisa que as deixava inquietas acabava por atrapalhar Pandora.
Eduardo em compensação era atencioso e não causava nenhuma grande reação. Uma pessoa comum. Comum e boa, apesar de sua conversa não ser lá grandes coisas, considerando que Ligia e Dimitri discutiam as constelações e os arquétipos junguianos no outro sofá.
Uma forma agradável de se passar o tempo, para alguém cansado como a tricentenária.
Apenas a noite conseguiram ir embora. Ligia e Dimitri trocaram celulares (telefone era algo que aparecia somente nos delírios de infância de Pandora, agora) e elas foram a uma livraria comprar alguns bons livros.
- Você gosta disso? –indagou, ao ver o livro de história nas mãos de Ligia.
- Sim. Você não?
- Na verdade, nunca gostei, nem nos meus tempos de colégio. Gosto de histórias que ensinam coisas, não de livros para ensinar. Se não tiver um bom enredo, não vai me prender por muito tempo. A não ser que seja um série, nunca deixo as coisas pela metade.
- Bem, fica realmente mais fácil de aprender quando não se percebe que está sendo ensinado, mas livros didáticos ampliam muitos horizontes.
- Histórias, um dicionário e alguns verbetes em enciclopédias me são suficientes para ampliar os horizontes.
- Cada um escolhe o quanto quer fazê-lo. Ou não fazê-lo.
- Realmente, algumas pessoas escolhem nem ter horizontes nesse sistema deplorável.
Concluíram os agitados olhos castanhos, conferindo os produtos recém saídos do caixa.
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