Crie em Sua Mente
5 Garotas Não Sabem Brincar
Notas iniciais
Pandora ainda dormia quando Ligia entrou em seu consultório. Ela dormia muito, por sinal! Apesar de ser uma suposta transmorfa de coruja, dormia cedo. Costumava acordar cedo, mas ficava dormindo pelos cantos, principalmente na parte da tarde. Mas seu metabolismo era estranho por inteiro, então Ligia não questionava.
Como questionar alguém que não passa um dia sem beber leite mas não bebe muita água, come quase dois quilos de alimentos variados (de preferência carne semi-crua, miojo e ovos em todas as suas variações –com exceção dos crus) por dia e ainda assim não engorda, sem mencionar o fato de ter trezentos anos.
Sua saúde mental estava acima de questionamentos, pelo diagnóstico da própria Ligia, então...
Mas a muito tempo ela havia se prometido não mais desacreditar de nada. Não que acreditasse em tudo, mas seu lema se tornou: Quem sabe...?
Sentou-se e deixou entrar o casal com uma menina de seus 14 anos.
- Boa tarde.
- Boa tarde. Doutora...
- Eu não fiz doutorado em nada. –sorriu- Sentem-se.
- De qualquer forma, minha filha, faz um mês que ela não fala!
- Eu não atendo crianças. –foi sucinta.
- Eu te disse. – o homem murmurou, vencedor, apesar de um pouco desesperançado.
- Por favor! –os olhos da mulher brilhavam de lágrimas.
- Posso tentar ajudar, mas não pretendo adentrar. Posso ferir a mente em desenvolvimento.
- Pode pelo menos tentar?
- Me digam o que houve a um mês atrás, para que tracemos uma linha de probabilidade.
- Probabilidade?
- O que pode a ter traumatizado a ponto de a calar? Perda total de função cognitiva não é nada normal.
- O namorado dela desapareceu mês passado. –a mãe soltou um pequeno grito de repreensão, mas a garota continuou sem esboçar reação.
- Algum fato significativo quanto a isso?
- Sumiu sem deixar pistas, como seu pai, a um ano atrás.
Dessa vez a mulher deu um tapa em seu ombro, o censurando. A menina continuou na mesma, como pode notar Ligia. Olhava distraidamente as paredes brancas e as janelas, até se fixar em algum ponto invisível no teto, na linha dos seus fios loiros levemente queimados pelo sol.
- Você não é o pai dela?
- Padrasto. Minha mulher se separou do pai dela...
- Há sete anos já. E ano passado meu ex-marido... Bem... Ele sumiu–segredou, como se a menina ao seu lado não pudesse ouvir- sem deixar rastros, assim como o namorado dela, esse ano. Desde então, ela não tem falado, apesar de fazer todas as suas atividades normalmente.
- Nada muito conclusivo, não? Vocês me forçam a isso... Tem certeza que não há mais nada?
- Sim, infelizmente.
Droga, pensou Ligia, um tanto contrariada. Não trabalho com crianças, não gosto de trabalhar com crianças, não quero trabalhar com crianças!
Elas são complicadas, seu subconsciente é sempre uma esponja, tenho que tomar cuidado dobrado em uma criança...
E, poxa vida, eu não sou uma detetive particular, sou psicóloga! Ponham alguém atrás desses dois, e talvez ela fale quando eles voltarem... Ai...
- Com licença, querida, eu vou entrar. Não vai doer, nem demorar, sim?
A menina apenas a encarou. Ligia se surpreendeu com a indiferença refletida naquele par de olhos verdes.
Pandora acordou com o barulho de água derramando.
- Ligia? Tá tudo bem?
- Sim. Estou tentando fazer um chá...
- Você está é tremendo como vara verde. –ajudou a psicóloga a fechar a torneira e a secar o chão, enquanto a mesma tentava por a xícara no microondas sem inundá-lo. –O que houve?
- Algo inesperado. Já me acalmarei, muito em breve, por sinal. Nenhum psicólogo que se preze se dá ao direito de se descontrolar. Ossos do ofício. Ai... Não quero pensar em ossos agora. Que problemão!
- Mente confusa?
- Pelo contrário. Perfeitamente lúcida. Mas aí mora o perigo. Ausência total de emoções como culpa ou simpatia... Fazia tempo que eu não encontrava um caso de psicopatia.
- Psicopatia. –Pandora fechou os olhos- Isso deve mesmo ser um problema, ainda mais no subconsciente.
- Se é. Crie em sua mente um subconsciente tranqüilo, cuja primeira visão é um quintal no estilo americano. Quente, mas úmido o suficiente para não ser opressor. Como um útero. Tinha uma menina lá. Uma menininha, com seus seis anos de idade... Ela conversou comigo normalmente.
- Do que falaram?
- Muitas coisas, do clima... Sempre começa com o clima.
- Realmente. –suspirou Pandora, lamentando os clichês narrativos de sua vida. E olha que o clima andava tão indefinido, comparativamente com quando ela era uma criança!
- Bem, falamos sobre como é bom ser criança, a irresponsabilidade que isso acarretava... E ela disse que gostou de mim, seu eu gostaria de ver algo bacana que ela tinha em casa. Ora, para alguém que não fala, sua projeção é bem extrovertida. Queria saber onde isso poderia chegar, então a segui. A casa não tinha mobília, era branca e imaculada por dentro. Chegamos até a escada que dava para o porão.
- Alguém andou assistindo filmes de suspense até derreter o próprio cérebro, pelo jeito.
- Você não imagina como os aparelhos áudio-visuais são potencialmente perigosos.
- Não imagino? Eu sou da “Geração 10 Minutos”, Ligia. Nasci em plena ascensão, popularização e queda dos televisores.
- Eu me esqueço, às vezes...
- Eu achei que o advento da Internet contribuiria para o desenvolvimento mental das futuras gerações, que escolheriam e moldariam suas próprias programações de acordo com seus interesses. Rá, até parece! O tempo muitas vezes me surpreende com a minha própria capacidade de superestimar o ser humano.
- Com suas esperanças.
- Isso não. –resmungou a tricentenária.
- Você está só mudando o nome, por pura teimosia. Dá na mesma, no fim das contas.
- Talvez dê. Eu possuo alguns mecanismos de fuga, talvez a minha vida atual seja só um grande mecanismo de fuga, já que eu não tenho serventia para a sociedade... E isso é mais uma fuga, pois, apesar de minha aparentemente inútil existência, eu nunca procurei utilizá-la de maneira eficiente. –murmurou, revirando os olhos e parando para olhar a parede do lado oposto ao que Ligia se encontrava.
- Quando sua existência toca outra, ambas se reconstroem, e isso faz com que sua existência não seja vã. E se tem consciência de seus defeitos, procure concertá-los. Nada nesse mundo é pleno, ou cômodo. Terá de correr atrás, se quiser se sentir bem. Uma ocupação também te daria menos tempo para entrar em conflito consigo mesma.
- Talvez. As vezes eu até mesmo sinto falta de um vício...
- Não diga isso. –Ligia teve seu humor ligeiramente alterado- Você não tem uma vida tão ruim que precise afundá-la ainda mais. Suicídio e vícios não salvam ninguém! Só pioram a situação!
- Eu sei, e é por isso que não tive coragem de recorrer a nenhum dos dois, em todos esses anos. Mas afinal, o que havia no porão?
- Um corpo.
- O quê? –Pandora se ajeitou, incomodada, no sofá em que estavam.
- Um corpo putrefato de um homem, pendurado a uma corda. Quem é? Indaguei, sem perder a firmeza na voz. Papai. Eu não gostava, sabe, quando ele ficava comigo. Respondeu. O que ele te fez, para chegar a esse ponto? Ele me batia. Bastante. Isso me deixava triste, no começo, mas depois começou a me irritar. Aí um dia eu fiz ele dormir e pendurei ele. Ficou mais bonito assim. Sorriu. Se você acha..., suspirei, Vamos voltar ao quintal? Ela prontamente atendeu e eu sai de sua mente.
- E aí? Qual é a conclusão disso tudo?
- Ela matou o pai, e deve ter matado o namorado também.
- Pelos mesmos motivos?
- Há uma grande probabilidade. Ela não se importa, de qualquer forma.
- E por que a mudez, se não é trauma?
- Ela provavelmente está tentando se não se entregar.
- Então por que te mostraria?
- Ela precisava de alguém para quem pudesse se gabar de seus feitos.Faz tempo que não poder escancarar a obra da qual se orgulha tanto a frustra, então seu subconsciente apenas fez o que ela tanto deseja fazer.
- E o que você vai fazer?
- Não tenho idéia. Não poderia entregá-la, de qualquer forma. A polícia não acredita em minhas charlatanices... E a mãe dela está a beira de um ataque de nervos. Não sei o quanto posso confiar no padrasto. E a menina não pode desfazer o que já fez, apenas tentarei fazer com que ela não o faça novamente.
- Então ficará por isso mesmo?
- Sim. Não posso fazer nada quanto a isso...
Um estrondo de panelas foi ouvido no corredor, e elas se calaram.
- Vou ver o que houve.
- Cuidado.
Ligia chegou no corredor a tempo de ver a vizinha chutar um belo gato de pelo marrom-avermelhado, que se encolheu de dor e correu. Assim que a mulher fechou e terminou de trancar todos os ferrolhos da porta,
Ligia se aproximou do bichano acuado.
- Calma gatinho. Eu cuido de você, pode me entender? Pode ficar em casa, eu adoro gatinhos.
O gato relaxou um pouco a postura e deixou que Ligia o pegasse no colo, com certo esforço. Era o maior gato que ela já vira, tinha o tamanho de um poodle...
Entrou na casa rapidamente, para deixá-lo no sofá, antes que o derrubasse sem querer.
- Era só um gatinho, a vizinha estava batendo nele então eu...
Mas parou de falar quando viu a expressão estática de Pandora, que soltou um ruído agudo do fundo da garganta. O gato, tão bem acomodado, se levantou e miou em resposta. Um miado lânguido e despreocupado, bem diferente do tom de surpresa que saíra do que Ligia supunha ter sido o piado de Pandora, que ainda estava em sua forma humana.
Essa mesma forma humana se sentou, massageando as têmporas, para falar, seca:
- Mostre-se. Ela sabe.
A partir daí deu-se uma cena bizarra para Ligia. O corpo do gato teve seus órgãos fundidos e transformados em uma massa disforme e horrenda, que foi se desdobrando em um corpo humano longo e esbelto.
Ligia pôs a mão na boca, tentando conter o refluxo.
- Não é bonito, não é? –rosnou, com os olhos semi-cerrados, para em seguida se voltar para a figura longilínea que ajeitava seus bastos e ruivos cabelos- O que está fazendo aqui? Ela também está?
- Oi, Pandora! –sorriu, de forma sincera e totalmente oposta a da outra- Sim, ela também está. Não imaginei te encontrar por aqui.
- Aposto que ela também não.
- Com certeza. Fazem quantos anos? Cinqüenta? Estava com um pouco de saudade. –falou, fazendo uma careta- Como ela sabe?
- Foi um acidente, mas eu acabei contando. Ela é de confiança.
- Qualquer pessoa que abriga um gatinho abandonado é de confiança. Por sinal, aquela velha filha da puta, tá até roxo...
A região das costelas da moça nua estava começando a esboçar um hematoma naquela pele extremamente branca.
- Estava com saudades, também, irmã. –Pandora deu um abraço na outra, que o aceitou, com um pouco de má vontade e sem retribuir- Ligia, você perguntou da minha família. Essa é minha irmã de consideração, Bii.
- Prazer conhecê-la, meu nome é Ligia. Eu acho que não terei roupas para o seu tamanho, mas... – a garota aparentava seus 14, 15 anos, mas era bem alta para sua idade, assim como era extremamente magra.
- Sem problemas, eu visto qualquer coisa. Se tiver alguma roupa bem velha e larga, alguma coisa rasgada, pode me dar. Eu não gosto de ficar muito nessa forma, então não sou muito acostumada com as roupas sobre a minha pele.
- Vou ver o que eu posso fazer. –Ligia saiu, deixando as duas a sós.
- Ai, Bii, vocês só me dão preocupação, viu? Não teriam que estar juntas?
- Eu só tava tentando arranja alguma coisa pra ela comer. Você conhece a frescura da sua irmã quando o assunto é comida.
- É, eu sei. Vamos atrás dela, a noite, então.
- Não será preciso, ela está como nós. Só tenho que ligar pro celular dela. Você tem um celular?
- Não. Perdi o meu último.
- Você sempre perde suas coisas! Lembre-me de nunca deixar nada meu com você! –sorriu, fazendo outra careta.
- A Ligia deve ter um, vou ver.
Cinco minutos depois, em outro local, uma garota de cabelos channel, castanhos como os de Pandora, sentada em um banco do metrô teve a música de seu fone cortada por uma chamada que indagava sua localização. Uma chamada de alguém realmente inesperado...
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