Crie em Sua Mente

1 Conversas no Escuro


Notas iniciais
Dedico essa história a meu amigo William, que, ao me mostrar seu livro original, que ele chegou até a publicar, me deu coragem pra escrever essa história que já estava na minha cabeça há dois anos.

— Eu sei, eu sei... Escuta, agora eu estou dirigindo, depois a gente...

Ligia sentiu o impacto e freou, saindo do carro. Observou o vidro da frente, estilhaçado e inutilizado irremediavelmente, xingando baixinho.

Olhou o que tinha “atropelado”, ou melhor, o que tinha a atropelado.

- Uma... Coruja... Fala sério, acabou com o meu carro... Aff... Não consigo nem ter raiva direito... Vamos, vou te levar no veterinário, sua asa não tá legal.

Pegou o pássaro gigantesco, se perguntando como ainda existiam tais espécies em um mundo tão pouco arborizado, e foi para casa ligar para uma amiga veterinária. Desistiu assim que olhou para o relógio ao chegar em casa. Nenhum veterinário sano atende as três da manhã.

- Vai ter que passar a noite aqui, colega. Tente dormir, amanhã resolvemos os problemas.

Dormiu seu sono tranqüilo, sono de uma pessoa justa.

Acordou, ligou a cafeteira, e foi até o quarto, conferir se a coruja estava bem. Levou um pequeno susto ao encontrar uma jovem nua estirada no chão. Sorriu ao pensar como qualquer outra pessoa enlouqueceria diante desse fato.

- Oi! Acorde! –cutucou o braço da garota, que não aparentava ter mais de 19 anos.

- Argh! Meu braço!

- Foi mal. Você também machucou o braço? –indagou, levantando uma sobrancelha.

- Parece que sim, você usou os seus dois pra me cutucar e não tem mais ninguém aqui. –replicou, irritada, para depois se retratar- Desculpe, é que ser acordada e sentir dor são duas das coisas que mais irritam no mundo.

- Ok. Quer se vestir, e tomar café? Precisamos discutir o fato de você estar dormindo na minha casa sem eu tomar conhecimento. Se você quiser falar sobre isso, claro.

- Certo, isso vai me trazer alguns problemas... –ela franziu a testa, tirando a franja do rosto com o braço bom e ajeitando o curtíssimo cabelo- Mas vamos lá.

Ligia ofereceu a garota alguma de suas roupas, que ficaram consideravelmente largas na menina, e se sentou com ela para comer.

- Café?

- Não, obrigada. Se tiver leite, eu agradeço.

- É, você tem sorte. Não é fácil ter leite nas casas, hoje. Não leite de vaca, se é que me entende.

- Realmente, ele anda muito caro, mesmo para um país produtor como o nosso.

- Sim. Podemos começar?

- Claro. –murmurou, bebericando o leite.

- Qual é seu nome?

- Pandora.

- Nome incomum, não é?

- A cultura está viva, pelo menos a cultura clássica ainda não desapareceu por completo.

- Sim. O meu nome é Ligia.

- Olha, Ligia, eu sei que não vai acreditar, eu pelo menos não recomendaria a ninguém acreditar, por isso não costumo falar sobre isso, mas eu sou uma transmorfa. Foi assim que cheguei aqui, você me trouxe quando eu ainda era coruja.

- Hum... Pandora, você sabe o que eu faço aqui?

- Na verdade sei. Por isso estava vindo. –sorriu- Vi seu anúncio no jornal. Achei uma das coisas mais interessantes dessa era, então vim conversar. Claro que não contava com esse acidente de percurso, esperava te conhecer e falar com você como uma pessoa normal, se é que eu me aproximei disso algum dia.

- Meu anúncio?

- “Ligia, psicóloga, profissional da mente. Especialização em aprofundamentos (forma de descobrir incômodos subconscientes). Se você é o tipo de pessoa cujo subconsciente é uma ameaça, melhor ficar longe de mim.” Achei divertido. A parte do aprofundamento.

- Não acredita, não é?

- Você acredita que eu sou uma transmorfa? Que tenho mais de trezentos anos?

- É diferente. Posso te mostrar, se permitir.

- Vá em frente. O que tenho que fazer?

- Absolutamente nada, aí que está o perigo da coisa. Deixe-me ver...

Ligia pôs as mãos sobre a face e o crânio de Pandora, respirando fundo e fechando os olhos. Quando os abriu novamente, se encontrava em um compartimento preenchido por canos de PVC. Encanamentos conectados, tubos soltos, amarelos, vermelhos e azuis cobriam o chão, as paredes e o teto. Apesar de todo aquele plástico, o lugar cheirava a papel impresso. Com cuidado para não tropeçar, passou a procurar formas de vida no caos.

Nas entranhas daquele estranho sistema, encontrou uma cadeira.

Sentada nesta, de costas para ela, se encontrava uma mulher de cabelos Chanel, com um longo vestido branco. Lia um livro.

- Temos visitas.

- Sério? Adoro visitas!

Uma outra mulher, de cabelos compridos e encaracolados, pulou de uma das tubulações conectadas para o chão, ao dizer isso. Vestia uma calca jeans, uma regata verde claro e tinha uma blusa preta amarrada à cintura.

- Oi.

- Oi! Não avisaram que tínhamos visitas!

- Nunca avisam- observou a outra, levando a boca uma xícara conjurada, aparentemente, do nada.

- Quem são vocês?

- Meu nome é Pandora, mas o dela também. –respondeu a de cabelos compridos, animada- Sabe como é...

- Sei. –sorriu Ligia.

- Ora, ora... Temos uma convidada? E ninguém me chama? Vocês são realmente mal educadas. –sorriu a recém-chegada, de forma sarcástica.

Tinha os cabelos lisos presos em um rabo-de-cavalo alto, vestia calças jeans também, mas ao contrário da outra, que estava descalça, vestia botas de cano alto, e uma blusa azul-marinho colada ao corpo.

- Não te chamamos por você ser desagradável e estragar qualquer convívio social.

- Falou a sociável, agora. –debochou, irritando a de cabelos curtos.

- Parem, garotas. Brigar não resolve, se a gente...

- Quieta! –as duas gritaram para a de cabelos cacheados. Antes que Ligia se desse conta, estavam gritando uma com a outra, enquanto a terceira soluçava e assistia.

- Caos, não? Mas eu controlo bem.

Ligia olhou, espantada. Pandora estava em pé ao seu lado.

- Como...?

- Eu estou aqui? Simples. Diferente da maioria, eu sei quem sou e lido com isso. Não vim até aqui para me consultar, só para conversar.

- Incrível. –a garota apenas sorriu.

- Eu não disse que tenho controle total nem nada do gênero, mas quando se convive a trezentos anos consigo mesma, tem que pelo menos se entender.

- Sei. Mas me diga, como as diferencia?

- A de branco eu chamo de X. Ela é a mais racional. A de cabelos cacheados foi a primeira a chegar aqui, ou pelo menos, a primeira a eu reconhecer e controlar. Chamo ela de Y, é uma pessoa sensível e de boa fé para com os outros. Por fim, a mais odiável, Z. É sarcástica e arrogante de forma proposital, se diverte em machucar os outros. Em determinadas situações elas predominam, mas em geral eu equilibro e tenho auto-controle, com perdão do trocadilho.

- Situações?

- Geralmente a X controla bem as outras, mas quando me sinto acuada ou irritada demais, Z tem uma expansão de participação, coisa que raramente acontece. E Y... Bom, até quando estou triste eu a controlo. Mas as vezes ela se sobressai, afinal, apesar de tudo, ela também faz parte de mim.

- Você tem o auto-conhecimento que muitos desejam...

- Mas não tenho o que eu busco.

- E o que você busca?

- Em geral? Harmonia. Mas cada uma delas deseja algo diferente, de formas diferentes. Pergunte a elas e verá.

Ligia percebeu que as variações de Pandora haviam parado de discutir, e aproveitou para se dirigir a elas.

- X, o que deseja?

- Revolucionar o mundo. Desejo modificar a sociedade para torná-la mais justa.

- E você, Y?

- Desejo ajudar as pessoas. De pouco em pouco, acredito que conseguiria tornar as pessoas mais amáveis e o mundo mais agradável.

- E você, Z?

- Eu desejo o que for mais confortável e interessante para mim. E não aceito nada menos que perfeito.

- Entende? Revolução, justiça, amabilidade, conforto, perfeição. Em harmonia, tudo isso se concretiza. Talvez não o último item, mas não seriamos humanos se fossemos perfeitos. Na verdade, os desejos de Z são egoístas, então costumo nem mencioná-los.

- Hum... Ela seria seu Id?

- Provavelmente. Mas faz tempo que eu desisti de estudar Psicologia. Não se aplica aos dias atuais.

- Sempre se aplica.

- O subconsciente coletivo se tornou concreto e palpável, acho isso terrível demais para acreditar que os antigos conceitos se apliquem.

- Melhor discutirem isso lá fora, não? Acho que já se intrometeram demais por aqui, eu ainda estou tentando ler. –Ligia percebeu que asPandora haviam voltado a posição inicial, e que X tentava ler.

- Tudo bem, já estou saindo.

Do lado de fora, tudo estava como antes. Pandora sorria.

- Percebe?

- Sim. Mas vamos ao problema central. Sua asa, braço, sei lá. Precisade um médico.

- Hanrrã. Eu vim de consideravelmente longe, então não dá pra voltar a pé, se é que me entende. Vou ter que dar um jeito. Eu só me estoro, mesmo...

- Ahh, eu conheço um médico bom, te levo lá.

- E onde eu fico até me recuperar? Não tenho nenhum dinheiro, também. Não tenho participado do mercado econômico desde que se unificou a moeda mundial.

- Nossa... Mas isso faz...

- Uns 100 anos? Eu sei. Isso quebrou muitos países, a África nunca se recuperou...

- A África ainda era habitada por civis quando você nasceu?

- Habitada? Aquilo era apinhado de gente. Gente pobre e castigada pelo clima e governos cruéis, mas vivos.

- O maior genocídio da história já tinha acontecido ainda quando eu nasci.

- Hum... Dois bilhões de pessoas mortas de fome. Foi a pior coisa que poderia ter acontecido. Eu sempre soube que nosso sistema econômico não comportaria a Nova Ordem Mundial.

- Você é realmente muito velha.

- Ligia, eu nasci em 93. –sorriu.

- 93? 2193?

- 1993, Ligia.

- Incrível. E pensar que eu podia ter acabado com esses trezentos anos de conhecimentos acumulados noite passada.

- Não é a primeira vez que me atropelam, não se preocupe. Eu não teria vivido todo esse tempo se fosse frágil.

- Só os fortes sobrevivem.

- Os fortes, inteligentes e adaptáveis. Sem qualquer um desses fatores não se sobrevive. E minha família tem uma boa longevidade, 700 anos foi nosso recorde.

- Meu Deus! Mas enfim, você pode ficar na minha casa, a culpa é minha, de qualquer forma. Fique aqui o quanto quiser.

- Você engoliu meu papo bem rápido, não? Mas então, meu braço esta doendo um pouco. Quando posso ver esse médico?

- Agora, se quiser. Vou aproveitar e deixar o carro no concerto...

- Pode ser. Ficarei aqui por pouco tempo.

- Certo. –confirmou Ligia, enquanto pegava a chave do carro- Só tenho uma condição para sua permanência. Atendo meus pacientes em casa, então grande parte do tempo, você terá de ficar fora de vista.
Pandora confirmou com a cabeça, saindo com Ligia.

Notas finais
Pandora sou eu mesma, muito prazer. Essa é uma obra de auto-exposição, sem chegar a ser uma auto-biografia.

Eu tinha um nome melhor pra Ligia, mas agora, dois anos depois do planejamento do roteiro, o esqueci. Ligia era a minha psicóloga.