Criando Um Monstrinho
6 Liberdade
Notas iniciais
Atualizando essa primeiro e mais tarde atualizarei outra, aproveitando a 1 semana que ficarei em casa.
Tanta gente com a história nos favoritos, pessoas dizendo nos coments que a fic tá boa... Será que tá boa mesmo? Se estivesse boa mesmo, o pessoal faria mais questão de comentar, só acho.
Boa leitura.
E obs: Passei a postar avisos diversos em meu perfil, sempre que puderem, deem uma olhada lá por favor.
Durante alguns dias depois do ocorrido, não o vi mais na escola. Não que eu me importas-... Droga. Sinceramente, eu estava começando a me importar.
Lá estava eu na escola como sempre.
Olhei para a carteira ao lado, vazia; a sala de aula não era a mesma coisa sem ele ali. Só havia eu, em meu canto, e ainda sim me temiam. Tudo estava normal demais. Chegava a ser monótono.
Encarei um pouco amigável o garoto ruivo que sentava à minha frente, de relance. Seus olhos dourados estavam centrados em mim, um tanto... Curiosos... Com uma pitada de temor. Ao notar que eu estava devolvendo o olhar, o mocinho olhou para outro canto com medo e arrastou a cadeira para frente, afastando-se de mim.
Pela primeira vez em alguns meses, me senti mal. Eu só queria estudar neste ano; ser invisível e normal. Ser temida não estava em meus planos; estava difícil manter o autocontrole.
Olhei pela janela, distraída. Já nem me importei em prestar a atenção naquela aula, que felizmente, era a última. Não havia tanto sentido. Era como se eu mesma pudesse me ver em minha consciência; como me olhasse no espelho, mas não acreditasse em meu próprio reflexo. Meus olhos, embora heterocromáticos, estavam de certa forma vazios.
O motivo de estudar tanto é se formar, ter um bom emprego ou carreira, diploma, dinheiro... E segundo os livros que eu havia lido o dinheiro não poderia comprar o amor, que a vida não é feita de somente um objetivo e que tudo nela é insubstituível. Principalmente o tempo.
Debrucei sobre a mesa. Eu era filha única, logo, toda a expectativa de meus pais caía sobre mim. Afinal, eu vivia por mim ou por eles? O sinal não demorou a tocar, e então, calmamente recolhi e arrumei meu material dentro da bolsa. Retirei uma boina preta da maleta, arrumando-a sobre minha cabeça e assim deixei a escola. Sozinha, só para variar. Hoje minha consciência estava tendo surtos de questionamento da própria existência.
Descendo aquele morro da escola, parei por alguns minutos para observar o mar calmo, mais adiante da cidade, o que me fez pensar que eu deveria ter mais tempo para mim mesma. Aquela imagem de Lupus batendo naqueles garotos no beco ainda não havia me deixado em paz. O quão perigoso e violento ele podia ser? Pensei que o conhecia, mas pelo jeito, estava errada.
Distraída, voltei a meu rumo. A brisa calma estava realmente relaxante... Sentia meu cabelo mover-se de forma divertida. Sem perceber, eu ia entrando na Rua Kennedy, ao invés de ir para casa. Quando dei por mim, estava aos arredores de onde o dito-cujo morava. O que estava acontecendo comigo?
Observei confusa a porta de entrada feita de vidro. Malditos pés, parem de me enganar! Argh.
Instintivamente, ao notar a porta se abrir, eu me escondi atrás de uma pilastra do hall de entrada. Um vulto ligeiro deixou o prédio com uma mochila nas costas, parando na guia da calçada – que ironicamente, era perigosamente próximo de onde eu estava -, olhando para ambos os lados da rua, desolado. Era... Era Lupus.
– L-...
– Lupus!
No exato momento em que eu o chamaria, fui interrompida por uma voz masculina. Olhando discretamente atrás da pilastra, na porta de vidro vi aquele homem de antes... Acho que era o tio do dito-cujo, se eu não tiver enganada.
– Aonde você vai?!
– Não lhe devo satisfações. Você não é a merda morta de meu pai e não te dou o direito de substituí-lo. – Respondeu Lupus, irônico.
O clima estava tenso. De certa forma, até me sentia mal em estar ouvindo a conversa e os espiando. Aquilo era errado, sim. Deviam ser problemas familiares, nos quais eu não deveria me meter. Repentinamente, ele começou a andar para o lado contrário da rua – o caminho que eu havia acabado de fazer -, e o tio dele novamente tentou impedi-lo, segurando em seu braço. O dito-cujo em fúria virou-se bruscamente para o homem e com o punho livre desferiu um soco, que por sorte foi desviado. Engoli a seco. Ele estava nervoso, em fúria; assim como há semanas atrás. Aquilo era ruim.
O mais velho ao desviar, acabou soltando o braço do rapaz, que logo correu. Correu feito um lobo visando ter liberdade, diante de caçadores atrás de sua pele. O vi sumindo conforme o mesmo avançava sobre a calçada. Ele parecia não estar com autocontrole e não seria bom se, por ventura, trombasse com alguém por exemplo. E no momento, eu era a única talvez que poderia fazer alguma coisa.
Coloquei a pequena aba de minha boina do lado direito para esconder meu rosto, e assim poder sair de trás da pilastra e não ser reconhecida. Não havia certeza se eu sabia correr... Pelo menos não se lembrava de ter tentado.
Respirei fundo, segurando firme na alça de minha bolsa no ombro esquerdo e comecei a correr em busca do dito-cujo desmiolado. Temendo ser reconhecida e questionada, sequer olhei para trás. Até que eu corria numa velocidade considerável.
O vento batia em meu rosto, contornando sobre os óculos que eu usava. Era divertido, porém, tudo sacudia enquanto eu corria, deixando meus passos desajeitados. – Não recomendo.
Mas realmente me dava uma sensação de liberdade... Coisa que talvez eu não tivesse.
Aos poucos minha respiração foi ficando forte e rápida; ação nova para uma nerd experimentando a liberdade. Chegaria a ser cômico se não fosse trágico. Suspirei aliviada ao ver um pontinho amarelo ao longe; que pelo jeito já estava metido numa confusão. Aproximar-me um tanto já me fez entender o motivo.
– Foi mau cara! Não era minha intenção trombar contigo! – Exclamou o outro rapaz, que estava sendo erguido pela gola da camiseta por Lupus.
O punho livre do rapaz se apertou, e com certeza dali viria um soco mirado no rosto do outro.
– Lupus... Já chega. – Eu disse um pouco ofegante por causa da corrida.
Aquilo aparentou ser um tiro de calmamente vindo de uma zarabatana, abatendo um animal selvagem. Ele, quase que imediatamente, libertou o garoto após minha sentença. – Tenho que começar a ser paga por livrar tanta gente de apanhar dele.
Os olhos carmesins viraram-se para mim em seguida. Aquele olhar, por um segundo, denunciou o quão confuso ele estava, e talvez até um pouco triste. Jurei poder ter visto seu interior vazio através daquele olhar carente.
Ele rosnou repentinamente, transformando o olhar tristonho naquele de ódio novamente, e então, correu para um beco à sua direita. As pessoas curiosas que antes assistiam a confusão jogaram seus olhares confusos sobre mim, como se quisessem retirar alguma informação sobre ele. Do mesmo jeito que eu não deveria ter me metido no assunto, elas também não deveriam saber e se meter.
Tive medo de persegui-lo no beco; seu olhar maculado de ódio me assustava. Abaixei o olhar e continuei meu caminho, desta vez para casa. Talvez ele quisesse apenas esfriar a cabeça.
~x~
Ao chegar a minha casa, como sempre, ela estava vazia por meus pais estarem trabalhando. Pela primeira vez estava me sentindo sozinha; carente. Queria um pouco de atenção, carinho, qualquer coisa. Estava vendo o quão difícil era viver pelos pais, atrás de algum reconhecimento. E o pior, tachar-se de insensível e sem sentimentos para evitar fadigas.
Deixei o pequeno molho de chaves em um ganchinho ao lado da porta de entrada após trancá-la, e subi para meu quarto, atrás de roupas para tomar um banho. Primeiramente, depositei minha mochila sobre a cama e depois abri a janela ao lado, para permitir que o cômodo recebesse iluminação natural. Abaixo da janela havia um pequeno criado-mudo, e sobre ele havia um urso preto com um “V” na barriga – que ganhei de presente em minha formatura do nono ano -. Ajeitei-o ali, deixando perfeitamente centralizado sobre a mobília.
Em seguida fui até o guarda-roupa que na verdade era um pequeno closet – Um armário de parede, com uma porta branca de correr o escondendo. Seu interior havia algumas roupas penduradas nos cabides, abaixo havia uma “prateleira” de madeira grossa dividindo as roupas penduradas e as das gavetas. Tudo impecavelmente arrumado por minha mãe -. Peguei uma roupa qualquer, deixando o closet aberto e fui para o banheiro no final do corredor, após fechar a porta de meu quarto.
Não que eu gostasse de enrolar embaixo do chuveiro, mas desta vez admito que demorei um pouco – e não preciso descrever como tomei banho, orz.
Terminando o banho, voltei para o quarto e iria estudar um pouco... Se por acaso o cômodo estivesse do jeito que eu havia deixado.
O senhor V – era como eu chamava o urso preto – estava no chão, havia uma blusa minha no chão também, mas ao lado do closet que agora estava FECHADO.
– Que diabos? – Soltei um muxoxo após ter pegado o senhor V do chão e colocado sobre o criado-mudo novamente.
Por certo... Havia algo dentro de meu armário... Não hesitei em pegar um livro grosso dentro da bolsa, colocando-o em frente ao corpo, e então me aproximei – corajosa – do closet possuído. Tudo estava num silêncio mortal e medonho. Ótima hora de estar sozinha em casa.
Engoli a seco, já próxima do armário. Tomei coragem e abri o closet, preparando para bater com o livro no que fosse que estivesse ali! Mas esse “o que” segurou meu livro de repente, antes que eu pudesse tocá-lo com o mesmo.
Mas...
– O que você está fazendo aqui?! – Exclamei. Não sabia se surtava de nervoso ou pulava da janela. E olha que era realmente difícil algo me deixar irritada.
– Não precisa de tanto escândalo, baixinha. – Lupus disse irônico.
Espera... Lupus... Lupus... Lupus dentro do meu armário...
– O quê?!
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