Crianças da sexta-feira

1 Capítulo único - Crianças da sexta-feira


Notas iniciais
Essa one-shot é continuação da minha one "Criança da quarta-feira", que é continuação da one "Sobrevivência". Confesso que adoraria ver o baby Addams nessa série. Não gosto do nome dele no filme, por isso escolhi outro. Inicialmente pensei em homenagear algum personagem com nome mais comum das obras de terror, mas então o Ghostface me veio à cabeça, e sabemos que Jenna Ortega é uma das protagonistas do novo filme do Pânico (Eu adorei uma cena final com a personagem dela, inclusive. E o filme tá bom, diferente das várias sequências falhas, de acordo com a crítica. Eu não curto obras com muitas mortes cheias de sangue, então "assisti" o filme por spoilers. XD). Bem, o nome do bebê é uma homenagem a esse personagem. Como aqui no Brasil nos habituamos com os nomes traduzidos dos personagens, traduzi o dele também, mas pra quem quiser ler essa mesma história na conta que publico em inglês (no AO3), estará escrito "Ghost".

Crianças da sexta-feira

De Dani Tsubasa

Xavier abriu os olhos ao ouvir movimentação na casa dos Addams. Ele e Wandinha estavam juntos há meses, e em poucos dias viajariam de volta para Nunca Mais, para o segundo semestre do ano letivo. O primeiro tinha sido bagunçado e confuso, a escola ainda estava se readaptando e resolvendo as questões do último semestre. Coisas estranhas tinham acontecido, e o stalker mandava mensagens enigmáticas de tempos em tempos, com algumas ameaças diretas à própria Wandinha, mas ainda sem se revelar. Mesmo depois de receberem uma carta como lembrete do fim das férias, e de a família permitir que Xavier visitasse Wandinha e dormisse por lá até o dia do retorno à escola, sua namorada insistia em deixa-lo no escuro sobre retornar ou não. Ao fim de cada etapa ela ameaçava deixar a escola para jamais retornar, mas sempre fazia o contrário, e é com isso que ele estava contando. Ela também estava preocupada sobre o stalker, mesmo que nada dissesse, era visível que o temor de a situação se estender a sua família sempre a convencia a retornar, mantendo o perigo longe dali.

— Temos que resolver isso – Xavier murmurou para si mesmo na escuridão do quarto – Se algo acontecer com ela...

O som do bebê chorando o interrompeu, e ele olhou para a porta por instinto, ouvindo passos e a voz de Feioso em algum lugar lá fora. Xavier sorriu. Ele gostava de crianças. Bem... Mortícia Addams tivera um bebê há um mês. Ele tinha nascido numa sexta-feira como Wandinha. E por mais fria que ela também parecesse ser com esse irmão, secretamente Xavier se derretia observando o quão protetora ela era com ele. A mãe lhe pedira ajuda para segurar o pequeno dois dias atrás enquanto ela e Gomez preparavam a banheira para o bebê. Apesar de suspirar com aparente descontentamento, Wandinha passou longos vinte e cinco minutos sentada no sofá enquanto o irmãozinho dormia em seu colo, ainda olhando feio para tio Chico e o primo Itti, que passaram conversando alto na sala, sem saberem que o bebê tinha pegado no sono. Feioso demonstrava bem mais, e estava sempre disposto a brincar com o irmão, mas Wandinha também se importava, a sua maneira, claro.

Xavier pensou em comentar, mas provavelmente ela diria que se o bebê acordasse teriam que suportar o choro, mesmo não sendo realmente o que ela pensava, ainda que ela mesma não percebesse isso. Os Addams tinham recebido algumas visitas quando o pequeno Fantasma nasceu, incluindo alguns amigos muito próximos dele e de Wandinha, da escola. Enid ficou tão encantada com o bebê que Wandinha sugeriu que ela o levasse com ela. A amiga se chocou com a proposta e disse duvidar que até Wandinha se livraria de algo tão fofo, mesmo que ele acordasse todos à noite. No fundo, achava que Enid sabia, ela apenas entrou no jogo da amiga. As duas se conheciam muito bem, e o sorriso da lourinha ao final da discussão foi a prova.

Xavier decidiu se levantar e verificar se poderia ajudar em algo quando o barulho lá fora se acalmou, e Wandinha abriu a porta de seu quarto antes que ele alcançasse a maçaneta. Seu longo cabelo negro estava solto, seus pés descalços, e ela usava uma camisola longa, negra e com alguns adornos brancos. Xavier não conseguiu conter um suspiro por vê-la assim. Adorava seu cabelo solto tanto quanto suas tranças habituais, e a falta dos sapatos de plataforma alta que ela costumava usar a faziam parecer menor de uma forma muito fofa, mas não diria isso a ela se queria que ficasse.

— Tá tudo bem? Eu ia ver se posso ajudar em algo.

— Sim. Meu irmãozinho só tava com fome e precisando de uma troca de frauda. Já foi resolvido. Mas agora perdi o sono.

— Se quiser... Você pode ficar aqui. Podemos conversar até seu sono voltar, então te levo até seu quarto.

Antes que ela respondesse, Mãozinha apareceu andando no chão e o cumprimentou.

— Oi, Mãozinha – Xavier sorriu.

O amigo sinalizou alguma coisa para Wandinha.

— São três da manhã, ele deve acordar de novo às cinco, nem sei se vale a pena dormir. E perdi o sono de qualquer forma. Vá ficar com o Feioso, pra ele não se sentir ainda mais rejeitado. Ajude-o a dormir. Tenho certeza que ele vai querer ajudar de novo na próxima vez.

Mãozinha pareceu concordar, mas fez mais sinais para a amiga.

— Se disser mais uma palavra, terá dedos a menos até de manhã. Meus pais é que são dois desesperados, apesar da idade que eles têm. Veja só a que ponto isso chegou.

Xavier sentiu o rosto esquentar um pouco ao entender do que o dois estavam falando, e agradeceu mentalmente por estar escuro.

— Raven está bem. Eu a verifiquei antes de sair. Boa noite.

— Boa noite, Mãozinha – Xavier lhe disse – E eu sei me comportar – garantiu enquanto Wandinha já entrava no quarto e Mãozinha se despedia dos dois, seguindo para outro local da casa antes de Xavier fechar a porta.

Se virou para ver a namorada já sentada em sua cama, observando o raio da lua cheia que entrava por uma fresta na cortina.

— Me pergunto o que Enid está fazendo agora.

— Podia ligar pra ela – Xavier sugeriu, surpreendendo-se ao vê-la segurando o celular.

— Já tem pessoas acordadas o suficiente no meio da noite. Ela não é o tipo de lobisomem que sai por aí caçando. Desmaiou no mínimo seis vezes com meus murais investigativos. Deve estar aproveitando a luz da lua pra um sono embelezador.

Xavier riu, e sentou-se ao seu lado. Ela não ia dar o braço a torcer, mas esse era um grande avanço.

— Eles continuam sem saber sobre o stalker? Por isso não deixa o celular por aí?

— Meus pais tem preocupações suficientes agora. E seja o que for que está acontecendo, pessoas demais já se prejudicaram. Não darei passos precipitados de novo.

Xavier sorriu, e segurou sua mão, feliz por ela não rejeitar o gesto.

— Às vezes fico com medo por você.

— Não deveria queimar seus neurônios com isso. Morrer de véspera não é inteligente. Tira seu foco de muitas coisas.

— Admiro essa sua capacidade, mas ela é rara, e eu não a tenho, então tento preservar meus neurônios a cada momento que isso acontece.

Ele puxou os pés para cima e se deitou na cama, Wandinha deixando o celular no criado mudo e se virando para olhá-lo.

— Vem aqui – Xavier abriu os braços, convidando-a para se juntar a ele, e se surpreendeu pela segunda vez na noite quando ela aceitou, após um longo momento de silêncio, no entanto.

Ele a abraçou, fazendo-a se deitar em seu peito enquanto os dois se olhavam. Wandinha sorriu, um sorriso discreto, mas tão bonito e real, provavelmente ela nem tinha percebido o que fez, mas ele sorriu de volta.

— Seu irmão nasceu na sexta que nem você. Não acha isso legal?

— Não era sexta 13. Minha data é melhor... Antigamente quando alguma linhagem dos Addams tinha mais de um filho do mesmo gênero, uma das crianças tinha que morrer. Não era necessário ter duas iguais. Me lembro bem das histórias de como meu pai e tio Chico tentavam matar um ao outro – ela sorriu – E de como planejei matar Feioso antes que minha mãe descobrisse que estava esperando um menino.

Olhando para Xavier, ela o viu de olhos arregalados, de espanto.

— Você não...?

— Não. Essa tradição foi abolida há décadas. Vovó insistia em me lembrar disso nas várias vezes que fui pega planejando a morte de uma suposta irmã, ou como me defender das tentativas dela de fazer isso. Mas nasceu o Feioso.

— Que alívio... Mas... Você podia dar Fantasma pra Enid de verdade se fosse o caso – Xavier brincou.

— Quem sabe...? Feioso gosta muito dele. Tenho que cuidar pra que não seja tão emocionalmente fraco também, e ensiná-lo desde já todas as técnicas de tortura vingativa pra usar na escola. Talvez Feioso aprenda melhor com dois ensinando.

Xavier sorriu novamente. Aqui estava, a preocupação com os dois irmãos que ela nem percebia que sentia, mas não precisava alertá-la disso agora e arriscar deixa-la irritada.

— Ele é um Addams, já tem isso no sangue. Talvez Feioso só esteja meio atrasado, mas vai chegar o momento dele.

— Ele também vai pra Nunca Mais em breve. Espero que se apresse. E por isso também preciso pegar logo esse stalker. Feioso nunca vai sobreviver a ele.

Ela tentou dizer a última frase sem emoções como sempre, mas falhou, e Xavier percebeu, escolhendo outra vez não lhe dizer, preferindo abraça-la um pouco mais firme ao invés disso.

— Vamos resolver, querida. Ele não pode acertar pra sempre.

Wandinha assentiu, finalmente começando a ficar sonolenta e fechar os olhos. Xavier se esticou para puxar as cobertas sobre eles, e a beijou nos lábios, sendo retribuído imediatamente. Eles eram bons nisso, por mais impressionante que fosse até para ele, Wandinha parecia ter aprendido a apreciar o contato, mesmo ainda não sendo adepta de abraços e outros gestos afetivos com frequência, especialmente em público.

— Vamos descansar, já que em pouco mais de uma hora talvez precisemos levantar de novo.

— Somos jovens demais pra isso – ela murmurou, se aconchegando melhor a ele.

Xavier se virou para ficarem lado a lado e poder abraça-la melhor, feliz por estar usando um pijama cinza, que provavelmente não a perturbaria.

— Vamos fingir que é um estágio – ele brincou, vendo-a abrir os olhos e encará-lo de forma penetrante – Cedo demais pra falar disso? Me desculpa – disse beijando sua testa.

Ele se sentiu perdoado quando ela voltou a fechar os olhos e relaxar em seus braços. Xavier sorriu.

— Boa noite.

— Boa noite, Xavier.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!