Crazy Bout' You
44 Capítulo 44 - Scars
Notas iniciais
Peter acordou sentindo sua barriga roncar. Aquela escuridão toda começava a incomodá-lo, ele não sabia se era dia ou noite, que horas eram e se alguém havia sentido sua falta. Será que Wade já havia percebido o seu sumiço?
Cable estava à sua frente, sentado no chão, alheio ao mundo. Ele parecia articular algum plano em sua cabeça considerando a extrema concentração.
– Eu tô com fome — avisou o moreno, gemendo ao gesticular a boca. Ele podia sentir todo o seu rosto dolorido.
Cable virou o rosto para Peter, fazendo uma careta ao encará-lo.
– Você tá horrível.
– Pois é, um maluco me encheu de socos há umas horas atrás, sabe? — disse num tom irônico.
– Gosta de mexer com fogo, não é?
– Por que eu tô aqui? Você vai me matar?
– Não, ainda não.
– Então me trás alguma coisa antes que eu morra de fome.
Cable se levantou imediatamente, andando à passos ameaçadores até Peter e puxando a cadeira com força até erguê-la um pouco, assustando o menor.
– Abaixa esse tom, garoto, ou eu corto os seus dedos e te faço comê-los se está com tanta fome — sussurrou o loiro, bem perto do moreno, encarando os olhos assustados que assentiam sem pronunciar uma palavra.
Cable largou a cadeira, saindo dali e indo arranjar algo para comer por fim.
oOo
[Nós vamos matá-lo!]
(Esquartejá-lo!)
[Queimá-lo!]
(Congelá-lo!)
[E matá-lo de novo!]
– Eu vou arrancar os olhos dele — dizia Wade tomando fôlego. Ele caminhava pelos tetos de empresas e estabelecimentos de Nova York, com uma visão mais ampla da cidade, pensando onde Cable esconderia Peter.
A cidade era enorme, ele poderia estar em qualquer lugar, ou do outro lado da cidade, ou pior, podia haver até a possibilidade de Cable ter saído da cidade.
Wade sentiu seu celular tocar com o visor denunciando ser Gwen. Ele deu um longo suspiro antes de atender.
"E aí? Alguma pista?"
"Não, nenhuma. Eu tô com medo, Gwen, ele pode estar em qualquer lugar."
"Droga, Wade, já se foi um dia! Um dia que o Peter tá com aquele monstro! Se você não encontrá-lo até amanhã eu serei obrigada a avisar o meu pai."
"Ok, ok! E Gwen... ele me mandou uma foto do Peter... número privado."
"Foto? Como ele está?!"
"Acabado, Nate bateu nele."
"Wade!" Exclamou a loira, aflita, a voz dela tinha numa mescla de dor e julgamento, pois ela culpava sim Wade por tudo que estava acontecendo com Peter.
"Eu sinto muito..."
"Quieto! A última coisa que eu quero ouvir é você se lamentando. E me diz como era o fundo dessa foto!"
"Fundo?"
"É claro, é uma pista de onde Peter está. Jura que não pensou nisso?"
Wade bateu na própria testa, indignado por tamanha burrice. Ele se lembrava claramente, era uma imagem que ele não esqueceria tão cedo.
"Era escuro, a parede era meio esverdeada, eu acho, estava tudo muito escuro, parecia que tinha umas manchas nela também. A cadeira que Peter estava amarrado era velha e parecia suja também."
"Sujo... é óbvio... ele quer que você vá atrás dele, meu Deus, Wade! Ele quer matar o Peter na sua frente!"
"Gwen para de me dizer essas coisas e diz logo onde ele está!"
"Cable está nos esgotos, é claro!"
Wade desligou o celular, fazendo Gwen ficar apreensiva. Aquilo era uma armadilha e ela sabia. A única coisa sensata a fazer naquele momento era ligar para o seu pai.
Wade começou a correr rápida e desesperadamente até achar um buraco de esgoto perto de uma rua.
(Tá legal, espertão, desce lá, porque é exatamente no primeiro bueiro que você vai achar a localização do babyboy, anta.)
[Ele poderia estar lá...]
(Não alimente a idiotice.)
[É uma possibilidade!]
(Não é possível que sejamos a mesma pessoa.)
[De algum lugar precisamos começar, porra!]
(Ah, ficou bravinho, foi?)
– Porra! — gritou Wade dando um tapa na própria cabeça. Não era hora de se distrair daquele jeito.
Apesar do quase surto, a voz tinha razão, não fazia diferença saber que Peter estava nos esgotos. Sua busca só mudara para o subterrâneo, a estaca zero era a mesma.
(E se estávamos certos o tempo todo?)
[O que quer dizer?]
(Talvez Cable esteja no galpão, ou ao menos lá no bairro...)
[... só que nos esgotos.]
Wade grunhiu, frustrado. Se estivesse certo Peter estava perto dele o tempo todo.
oOo
– Sério, você precisa parar de ficar fazendo mistérios, odeio surpresas.
– O que você não odeia, Sam? — indagou Harry num tom irônico.
– Bem, eu não odeio você, não de verdade.
– A coisa mais fofa que já me disse na vida — riu Harry.
– Isso não é verdade — protestou o moreno, dando um leve empurrão no maior. — Por que estamos no estacionamento?
Harry apertou sua chave do carro fazendo um belo jaguar prateado piscar os faróis e fazer um barulho.
– Esse carro deve custar uns cinco anos de aluguel da minha casa — disse Sam embasbacado com a beleza do veículo.
– Esquece o preço dele, vamos, vou te levar pra minha casa.
Sam parou antes de entrar no carro. Harry ficou com a porta aberta encarando o corpo paralisado do menor.
– Sua casa? Onde seu pai mora?
– Sim...
– E ele tá lá?
– Talvez, eu não sei, não se preocupe, não vou falar sobre a gente se está com medo.
– Ele sabe quem eu sou, Harry.
– Ele nem deve lembrar, nem estamos mais nas fofocas da Internet.
– Você não entende... ele veio até mim uma vez...
Harry arqueou a sobrancelha antes de pegar nos ombros de Sam e encostá-lo sob o carro.
– Quando foi isso?! — indagou com urgência.
– Faz tempo, você estava com o Matt ainda.
– Por que não me disse nada?
– Não sei se você se lembra, mas você não queria olhar na minha cara.
Harry suspirou, soltando os ombros de Sam.
– O que ele te disse?
– Me disse pra deixar você em paz.
– Só?
Sam não queria contar tudo, mas algo lhe dizia que Harry já sabia a resposta.
– Ele me ofereceu dinheiro se eu te deixasse. Dinheiro para ajudar minha família, e disse que pagaria meus estudos em Harvard. Eu não aceitei, é claro, e o confrontei, disse que você não mudaria mesmo se eu sumisse da sua vida, eu me descontrolei um pouco.
Harry fechou os olhos e respirou fundo. Seu pai nunca mudaria, nunca o aceitaria.
– Me desculpe, Sam.
– Não precisa se desculpar, a culpa não é sua se seu pai é assim.
– Mas eu me sinto culpado.
Sam deu dois passos até Harry e o abraçou, ternamente, sendo correspondido com um abraço forte.
– Isso não me faz te amar menos — disse Sam.
Harry desfez o abraço apenas para beijar Sam, num selo rápido, porém significativo.
– Posso te pedir uma coisa difícil?
– Você quer ir até seu pai, não é? — indagou Sam, adivinhando.
Harry assentiu.
– Por que quer tanto cutucar na ferida?
– Eu preciso que ele saiba disso, Sam. Na época não estávamos juntos, mas agora estamos, não vou me esconder e nem quero que ele apareça te dizendo esse tipo de coisa de novo. Vamos deixar às coisas bem claras e irmos embora.
– Isso não vai dar certo...
– Entra logo nesse carro antes que eu te carregue até a minha casa no meu ombro.
– Com esse seu corpo sarado não ia aguentar nem a metade do caminho — zombou o moreno, entrando no carro.
– Ah, isso foi golpe baixo, White — dizia Harry entrando no carro e dando a partida.
oOo
Cable decidiu ir comer antes de comprar algo para Peter. Que se dane o garoto, ele aguentaria mais algumas horas sem comer ou beber algo, não era sua intenção tirá-lo dali vivo de qualquer maneira.
Enquanto comia um hambúrguer, ele pensava em como escaparia daquela. Ele não pensou muito antes de voltar a Nova York. Quando soube da morte de um dos seus, de Jack, seu antigo braço direito, era como se ele tivesse acabado de ser traído por Wade, como se tudo tivesse voltado de uma vez só. Assim que chegara em Nova York, ele estudou os contras de fazer aquilo, havia uma grande possibilidade dele ser preso novamente, mas se fosse para ele ser preso que fosse pelo assassinato de Wade Wilson.
Algum tempo depois, com uma sacola na mão, Cable andava pelo bairro, meio nostálgico, sentindo falta de seus antigos parceiros. Ele viu um homem alto e corpulento todo de vermelho de costas para ele, procurando alguma coisa pela rua.
Nate sorriu, balançando a cabeça em negação. Wade havia desvendado cedo, estava mais esperto do que quando o conhecera.
Para sua sorte, Deadpool estava indo para o lado errado, os esgotos começavam numa outra rua que era onde Cable ia rapidamente, antes que Wade decidisse ir para o lado certo e o encontrasse.
Cable abriu a tampa do bueiro e desceu batendo com a sacola de leve pela escada que o levava para baixo. Ele tampou o bueiro de volta assim de entrou por inteiro e desceu, indo onde havia deixado Peter.
Peter estava com a cabeça abaixada, enquanto tossia bastante.
– O que você tem, garoto?
– Sede... — disse Peter com a voz rouca. — Onde esteve esse tempo todo?
Cable abriu a sacola, dando água para o menor, que a bebeu inteira em grandes goles. Logo depois, comeu com rapidez a um sanduíche e sua fome parecia não ser saciada.
– Não tem mais nada?
– Não vou te dar mais nada, preciso guardar para que coma mais tarde.
– Eu sempre ouço um barulho estranho quando você entra e sai, um barulho de algo pesado sendo arrastado, é um som familiar.
– Tentando descobrir onde estamos? — indagou o loiro, sorrindo maldoso.
– Eu já sei onde estamos, só quero que me confirme. Estamos nos esgotos, não é? Ainda estamos em Nova York, estamos perto da universidade?
– Não me subestime, garoto, eu nunca ficaria tão perto daquele lugar.
– Então estamos onde? Em que bairro?
– Acha que não sei o que está fazendo? — disse Cable pegando um lenço que estava pousado no colo de Peter. — Quer saber onde estamos para saber se vale a pena gritar por socorro, se alguém irá ouví-lo.
Peter pensou em gritar assim que Cable pegara o lenço, mas o loiro fora mais rápido o colocando em sua boca, o calando.
– Pois saiba que sim, valia a pena gritar, e sabe por que? Porque se seu amado Wade está lá em cima te procurando e quando ele descer ele vai ter preferido não te achar.
Peter começou a se remexer urgentemente na cadeira, tentando gritar sob o pano, mas ele abafava sua voz. Só se ouviam as risadas de Cable ecoando sob as paredes do esgoto.
oOo
Quando as portas da mansão se abriram, uma vasta escadaria para o andar de cima era visível. Tudo naquele lugar parecia custar mais que sua própria vida e as paredes e chão eram tão limpos que Sam se perguntava quantas empregadas eram necessárias para manter tudo impecável por ali.
– Genna! — gritou Harry.
Sam observou uma senhora vir até Harry, vestida com roupas azul e branca, não necessariamente roupas de empregada, mas um belo uniforme que parecia fazer dela algo mais.
– Olá Harold, lembrou-se de que tem casa?
– Meu pai tá aí? — indagou Harry sem respondê-la.
– Sim, por algum milagre ele está. Está almoçando na cozinha.
– Sozinho, eu aposto — zombou Harry.
– Não deveria zombar assim de seu pai — disse Genna.
– Diz isso porque ele não é o seu pai. Sabe muito bem que ele prefere ficar sozinho, Genna.
– Infelizmente sei. E esse deve ser o Sam, não é?
Sam que estava alheio a conversa o tempo todo ficou perdido quando seu nome foi citado.
– Como sabe disso? — indagou Harry.
– Acha que eu não leio os jornais, garoto? É o seu... namorado? — indagou receosa.
– Sim Genna, é o meu namorado — respondeu Harry sorrindo divertido. — Sam, essa é Genna, minha governanta.
– Prazer — disse Sam apertando a mão da senhora.
– Esquisito, no meu tempo não tinha essas coisas, mas não vou ficar me intrometendo — dizia Genna apertando a mão de volta.
– Até porque a senhora não tem nada a ver com a minha vida sexual, né Genna.
– Pelo menos não até ser eu quem tem de tirar sua roupa de cama toda suja de você sabe o quê — desdenhou a governanta indo para a cozinha e os deixando para trás.
Sam segurou a risada enquanto Harry revirava os olhos.
– Ela é cativante — disse Sam.
– Diz isso agora.
Sam respirou fundo quando Harry pegou em sua mão.
– Tá pronto? — indagou Harry.
– Eu quem pergunto — retrucou Sam.
Harry o levou até a cozinha não o respondendo já que nem ele mesmo sabia a resposta.
Norman Osborn estava de costas para a entrada da cozinha, comendo no balcão já que não fazia sentido algum ele se servir sozinho na grande mesa do salão ao lado.
– Senhor Osborn, Harry está aqui — anunciou Genna.
Norman nem se deu ao trabalho de se virar.
– Pai...
– O que você quer, Harold?
– Pai, olha pra mim.
Norman suspirou, largando seu garfo e se virando, levando praticamente um susto ao ver o acompanhante de seu filho.
– O que esse garoto faz aqui? — disse num tom quase raivoso.
– Esse garoto é meu namorado, pai.
– Namorado? — indagou dando uma risada em seguida. — Não tinham acabado com essa palhaçada?
– Nós voltamos e nosso namoro está muito bem, obrigado — disse Sam.
– Você é bem ousado, não é garoto?
– Pai, chega, eu só vim aqui te avisar que eu não pretendo permitir que você tente manipular a minha vida. Sam é meu namorado e continuará sendo independente do que você tentar oferecer à ele, ele não está interessado no seu dinheiro e sim no seu filho, não sei do que você reclama, afinal o dinheiro é o mais importante, não?
– Tudo que lhe diz respeito cai sob a Oscorp, você a herdará quando eu me for e eu não vou deixar minha empresa nas mãos de um depravado como você. Você tem muito a aprender ainda, Harold.
– Sempre diz a mesma coisa e eu sempre tenho de ressaltar que o senhor não vai me mudar. Aceite quem eu sou e que sou seu único herdeiro.
– E acha que só porque é meu filho vou lhe dar tudo? Eu tenho acionistas, não vou lhe dar nem 50% da empresa se não parar com essa invenção de namoro com garotos!
– Nunca vai me entender, não é?
– Assim como você Harold, nunca vai me entender.
– Pois então era só isso mesmo. Vamos, Sam.
– Eu o proíbo de namorar esse garoto, meu ouviu?!
– E eu me proibo de ouvir as asneiras que o senhor me diz! — retrucou Harry.
Norman se levantou seguindo os dois até a porta da mansão. Harry ficava atrás de Sam para que seu pai não ficasse tão perto do moreno. Ele os encarava com um olhar furioso e Harry sabia que aquilo ainda não havia acabado.
– Eu não posso te tirar da universidade Harry, não vou arriscar seus estudos por causa dele...
– E nem pode, já sou maior de idade — interrompeu Harry.
– Mas saiba que é às minhas custas que você vive, eu vou cortar sua mesada e bloquear seus cartões de crédito, está entendendo? Começando pelo carro que acabou de vir.
Harry abriu a boca, inconformado, mas a fechou, se recusando a mostrar fraqueza.
– Pois bem! Faça o que quiser! — disse Harry abrindo a porta e saindo da mansão com Sam.
– Você é louco? Vai ficar sem seu carro? Seu dinheiro?
– Por favor Sam, eu tenho cartão de débito, ele só pode mexer nos meus de crédito, sem contar a pilha de coisas no meu quarto que eu nem uso e posso penhorar, Genna pode me enviar por correio.
– Até estando na merda você é rico. Tsc, tsc...
– Eu sou Harry Osborn, eu nunca serei pobre — disse dando de ombros. — Vem, eu pago o táxi.
– É claro que paga — disse Sam, sarcástico.
Era estranho para Sam pensar na possibilidade de um dia esse dinheiro acabar e Harry realmente vir a ser pobre por sua causa. Era estranho ser tão valioso assim para alguém. Estranho, mas reconfortante.
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